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O vento à beira do lago estava frio. Sentei-me no banco, olhando para a água calma ao longe.Dante se sentou ao meu lado. Nenhum de nós falou.Sinceramente, tudo o que precisava ser dito havia terminado em Nova York. Mesmo assim, ele não se movia, como se tentasse prolongar o tempo.Mas eu não compreendia o que ainda restava para prolongar. Por fim, ele falou em voz baixa:— Chicago é sempre tão fria assim?Respondi com naturalidade:— Você nunca esteve aqui antes?O ar pesou de repente. Dante pareceu completamente pego de surpresa.No passado, ele nunca veio a Chicago por minha causa; vinha pelo meu pai. Para resolver negócios, sepultar problemas.E eu sempre fui apenas a garotinha que ele observava de passagem. Dante abaixou a cabeça e deu um sorriso fraco.— Faz muito tempo.Não respondi. O vento à beira do lago continuou silencioso, mas, ele permaneceu estático.Até que, por fim, virei o rosto em sua direção:— Você ainda precisa de alguma coisa?A garganta de Dante
A ligação era de Camille. Dante encarou o nome dela por um longo tempo na tela antes de, finalmente atender.— Dante, você está livre amanhã? Ainda faltam algumas coisas para levar ao meu apartamento novo. Você pode vir me ajudar?A sala permaneceu em silêncio.— Não vou, Camille. — E não entre mais em contato comigo.Do outro lado, houve dois segundos de silêncio.Camille claramente ficou atônita.— Por quê?Dante se recostou no sofá.Pela primeira vez, ele finalmente disse aquelas palavras em voz alta:— Porque sou casado. Não quero que minha esposa entenda errado.No instante em que as palavras saíram de sua boca, ele sentiu um alívio maior do que em qualquer outro momento da vida. Finalmente, ele não precisava mais mentir para si mesmo.Durante todos aqueles anos, aquilo a que se agarrava nunca fora um amor inesquecível; era apenas uma obsessão da juventude da qual ele não conseguia se libertar.A pessoa que realmente fez parte da sua vida sempre foi apenas uma mulher.
Às quatro da manhã, Dante estava deitado, meio adormecido. Por instinto, estendeu a mão para o outro lado da cama. Não tocou em nada.Só então acordou devagar. Eu já estava longe havia dez dias. Sabendo que não conseguiria dormir novamente, ele se levantou.Parou diante da porta do escritório. Por um instante estúpido, ele realmente esperou que, ao abrir aquela porta, eu ainda estivesse ali como antes: abraçada a um travesseiro, encolhida no sofá enquanto esperava por ele.Mas como isso seria possível? A porta se abriu. O escritório estava vazio. Eu não o esperaria mais.Dante voltou para a sala. Os papéis do divórcio assinados ainda estavam sobre a mesa de centro; ao lado deles, estava o celular que eu deixei para trás.A tela estava rachada. Ele assistiu ao vídeo tantas vezes que já perdeu a conta; toda vez, era como uma lâmina abrisse seu peito uma vez mais.Mesmo assim, ele não conseguia parar de assistir. De repente, o celular vibrou. Àquela hora? Quem entraria em contato na
Subi as escadas e abri o armário que sempre ficava trancado. Lá dentro, estava um velho taco de beisebol.No primeiro dia em que conheci Dante, eu segurava aquele taco quando desci as escadas correndo, empolgada. Naquela época, meu pai havia acabado de chegar em casa com ele.Os pais dele morreram em um expurgo entre gangues rivais. Um garoto adolescente estava parado no meio da nossa sala, coberto de ferimentos.O ódio nos olhos dele era mais frio que o gelo do Lago Michigan. Meu pai o ordenou que estudasse comigo, impondo apenas uma condição: Ele precisava me proteger, e Jamais poderia me deixar chorar.Mas Dante mal me dava atenção. Eu podia dizer dez frases, e ele talvez não respondesse nem uma sequer.Mais tarde, o clube da escola organizou um jogo de beisebol. Nosso time perdeu de forma vergonhosa. Fiquei com tanta raiva que bati o taco no chão enquanto todos ao redor riam.Foi então que Dante, que esperava do lado de fora da cerca o tempo todo, de repente invadiu o campo.
Dante pegou o celular, pronto para ligar para meu pai. No instante em que o número do Don apareceu na tela, Dante parou de repente.Como ele explicaria aquilo? Que se casou com a filha do Don anos atrás e escondeu esse casamento por três anos?Que assinou pessoalmente os papéis do divórcio? Que havia me perdido?Dante baixou os olhos e encarou a palavra "Don" na tela. Pela primeira vez, percebeu uma coisa: existiam situações que nem ele sabia como consertar.Mas, alguns segundos depois, a ligação foi feita. O telefone chamou por um longo tempo, até que, por fim, alguém atendeu.— Olá, Don. Queria perguntar se Serafina voltou para casa.Naquele mesmo instante, eu estava sentada no escritório do meu pai. O fogo na lareira tremeluzia suavemente.Meu pai estava atrás da mesa, folheando documentos. No instante em que ouvi o nome de Dante, ergui os olhos para ele.Balancei a cabeça em silêncio. Meu pai me lançou um cúmplice e atendeu o telefone.No segundo seguinte, soltou uma risa
Dante pegou os papéis do divórcio, os olhos fixos na assinatura ao final. Era realmente a letra dele: afiada, descuidada.Não era diferente das assinaturas que ele colocava em contratos de fusão ou pedidos de fiança depois de tiroteios. Só que, desta vez, ele havia assinado o próprio divórcio.O quarto mergulhou em silêncio. O celular escorregou da mão dele e bateu no chão com um estalo; a tela se quebrou, mas o vídeo continuou tocando:— Dante Valieri, estamos divorciados.Ele continuou parado, imóvel.Quando eu tinha começado a planejar tudo aquilo? Por instinto, ele começou a repassar as memórias em sua mente.Aquele dia. Eu fui ao escritório dele com documentos para assinar. No instante em que Camille entrou, os olhos dele imediatamente a seguiram.Que documento era, o que estava escrito nele... Ele sequer olharaDepois de assinar, ainda me perguntou: "O que eu acabei de assinar?" E como eu respondi? "Nada importante."A respiração dele parou de repente. Eu tinha lhe contad







