Mag-log in10
“Estou convencido de que vivemos novamente, e que os vivos emergem dos que morreram, e que as almas dos que morreram estão vivas. As almas, depois de haverem estado no Hades o tempo necessário, são reconduzidas a esta vida em múltiplos e longos períodos."
(Sócrates)
De pés descalços, com as saias levantadas, ela corria livremente pelo pasto, sentindo o sol bater em seu rosto. Rodopiou uma, duas, três vezes, até tropeçar e cair rindo alegremente. Abriu os braços, fitou o céu muito azul, as nuvens brancas correndo numa velocidade alucinante. Fechou os olhos, e arqueou o corpo numa alegria infinita. Levantou de um salto e começou a tirar as roupas até ficar com a fina camisola branca. Parou à beira do rio. Olhou o horizonte entre o céu e a água e sorriu. Entrou devagarzinho na beira sentindo a água gelada na ponta dos dedos muito brancos.
Sapateou com as gotículas de águas saltitantes em sua frente a molhando por completo. Uma onda de água se erguia pelo ar, enquanto ela rodava e pulava cada vez mais forte, até ela cair à beira e ficar deitada, quieta, ouvindo as falas da natureza sussurrando em seus ouvidos. Os longos cabelos prateados espalhados, flutuando numa dança mágica com as pequenas ondulações da água. E então, ela voltou a correr pelos campos, agora secos, sob uma forte neblina. Não sabia se era noite ou dia. Segurava as saias e anáguas, tropeçando em coisas que de primeiro instante não conseguia distinguir. A seguir veio uma certeza, eram corpos. Pedaços de corpos jogados pelos campos. Cheiro de carne humana queimada, cheiro de sangue, e ela parou, sentindo seu mundo rodar alucinantemente e ela cair num poço escuro e sem fim.
Sophie acordou sobressaltada. Luzia que dormia no quarto, junto com ela, também acordou.
─O que foi sinhá? - sentou-se à beira da cama.
A luz da lua cheia penetrava pela janela, dando um efeito fantástico na longa cabeleireira de Sophie.
─O mesmo sonho de novo... - ela esfregou o rosto.
─Isso deve ser algum tipo de visão. Já falou com minha mãe sobre esse sonho?
─Já. - Sophie riu. ─Sua mãe disse que é uma premonição. Vou para guerra!
Elas riram, e a seguir ficarem muito sérias.
─Verdade que vamos precisar carnear vaca, sinhá?
─Parece que sim, Luzia. Estamos vivendo um momento de escassez, daqui a pouco não teremos mais comida. E tem muitas bocas para se alimentar dentro desta estância. Mas tenho certeza de que conseguiremos. Não podemos ser tão frágeis assim. Todas as mulheres do Rio Grande estão de alguma forma tentando ajudar a superar as dificuldades dessa guerra. Têm muitas passando necessidades. Faltam roupas, comida... Ouvi dizer que tem casas em várias cidades servindo de quartéis, depósitos para armas e munições. Casais separados, mulheres tão jovens ficaram viúvas. Escravas sendo doadas com os filhos nas igrejas, pois não há comida para todos... Mascate Simão contou em sua última visita, que existem casas em locais estratégicos, municípios onde os rebeldes passam mais tempo, e que são usadas como esconderijos, entrega de correspondência, hospitais para os feridos. Então, como eu havia dito naquela noite aos amigos de meu pai... as mulheres estão sendo essenciais neste momento. E a tendência é se tornarem ainda mais importantes daqui para frente.
─Guerra maldita! -gemeu Luzia.
Sophie estava pronta para responder, quando ouviu um estalido estranho. Vinha da rua. Pulou da cama.
─Luzia... tem gente lá embaixo, e não é gente nossa.
A morena se levantou da cama, e pegou a arma pronta encostada a parede do quarto para qualquer eventualidade. Um cuidado de Justino, tio de Sophie.
As duas foram para janela, totalmente às escuras para não chamarem a atenção.
─O que tu vê Luzia?
Luzia estremeceu.
─Dois homens, sinhá. Dois caramurus.
─O que? - ela sussurrou.
─Isso que eu disse. E eles estão espreitando a casa para entrar.
─Me dê à arma, sai do quarto e avise as mulheres. Onde eles estão, exatamente?
Luzia a ajudou a mirar a arma na direção em que eles estavam indo.
─Jamais vai acertar um deles... - Luzia disse sem graça.
─Faça o que eu disse. Se eu não acertar pelo menos os assusto.
Luzia saiu às pressas. O silêncio era tão grande, que Sophie conseguia ouvir a voz da noite, e a respiração mesmo distante dos oponentes. Prendera a própria respiração para não perder a mira da pistola. Lembrou das palavras do tio quando a ensinou a atirar ainda pequena.
─Quando colocar a mira no seu alvo prenda a respiração, e tu não errará. - e foi assim que conduzida por ele, ela atirou em seu primeiro alvo, um prato, e acertou causando espanto e comoção na família.
O homem lá embaixo deu um passo estalando pedras e galhos, e Sophie puxou o gatinho. O disparo e o grito do homem junto com mais disparos das armas dos caramurus, foram ouvidos pela casa inteira, todos a postos para atirar e se defender. Ou morrer. Houve um intenso tiroteio. Gritos, correria, e uma morte. E a seguir muitos comentários.
─Como ela conseguiu acertar o caramuru?
─Às vezes penso que essa rapariga se finge de cega!
─Justino foi muito inteligente em tê-la ensinado a atirar.
─Minha filha! “Minha filha acertou o galego...”
Depois do triste enterro de uma das escravas antigas da cozinha, atingida por uma arma de fogo no rosto, a situação começou a piorar a cada dia. Afroline pediu a Sophie que chamasse todos os moradores e escravos. Precisavam elaborar um plano de sobrevivência para a estância.
─Isso é trabalho para oitenta escravos. Estão todos na guerra. Nem tínhamos mais esse número na charqueada. - disse Yolanda, irmã de Emília, baixinha, gordinha e de rosto simpático, no momento que todas as mulheres silenciaram. ─Eu não me imagino com uma faca na mão carneando uma vaca. - concluiu horrorizada.
Afroline cutucou Sophie para que falasse. Com certeza elas não a ouviriam e ainda se revoltariam.
─Escutem! Precisamos tirar nosso sustento de algum lugar. Está tudo aqui, em nossas mãos. Vamos utilizar a matéria prima que ainda temos, antes que nos roubem. Se as escravas trabalhavam na charqueada e nas lavouras com os homens, nós também poderemos fazer isso, minhas tias e primas. Nós precisamos tentar. Claro, vamos proteger a todos do sol, do sal, da melhor maneira que podermos, como já vínhamos fazendo.
─Isso era o que o teu pai vinha dizendo, guria boba! Para te enganar e tu não o incomodar na charqueada. – disse Lucia com raiva. ─A cada semana, dois ou três escravos morriam entre o esterco, o sal e sangue!
─Verdade? - ela perguntou, mas ninguém se viu com coragem de responder. ─Eu não posso acreditar... - soluçou de tristeza. ─Ele me prometeu que... - respirou fundo, cerrou os punhos e disse entre dentes. ─Ele não está, mais aqui, e se Deus quiser, não estará nunca mais! Então, ninguém mais vai morrer naquela charqueada! O que vamos fazer agora é carnear os animais para comer! Para nos alimentar. A todos! Do mais branco ao mais negro! Entenderam? -e ela saiu caminhando rapidamente com o peito arfando de raiva e decepção.
Emilia se levantou da cadeira com os olhos fixos em Afroline. Caminhou até ela devagar e ficou muito próxima.
─Meu marido te deixou responsável pela estância, não é?
Afroline não respondeu, mas sustentou o olhar da outra.
─Tu não é feiticeira? Faça tua mágica, macumba, sei lá como tu chama isso, e resolva nossos problemas.
─Emília, isso não é hora! -avisou Yolanda.
Vera, mulher de Justino, entrou na grande cozinha e bateu palmas num gesto irônico.
─Gosto de te ver sendo comida por esse ódio da traição Emília. Tu merece!
Vera era uma mulher de trinta e cinco anos, cabelos aloirados, e olhos castanhos claros, era jovem e bonita. Não tanto quanto Emilia, aos trinta e dois anos de idade, que tinha um rosto perfeito, como o de Sophie, porém numa versão morena. E há muitos anos, Vera não pisava na casa principal. O que causou um alvoroço com sua entrada e suas palavras.
Emilia a olhou com espanto.
─Surpresa cara cunhada? Quanto tempo, não é mesmo? Foi preciso uma guerra, que já está acontecendo há meses, para nos juntar sob o mesmo teto.
Sophie, ausente naquele momento, sabia haver uma contenda entre as duas, mas não o real motivo.
─Vá embora, Vera! - exclamou Emilia com a intenção de se retirar, mas Vera correu até ela e a segurou pelo braço puxando com força.
─Vai fugir maldita? Não! Fique! Quem sabe hoje seja o dia de eu dizer o quanto eu adorei saber de todas as traições do teu marido embaixo do teu teto. Da inclusão desta escrava na tua vida, e do que ela te roubou: o amor do marido! O respeito do teu marido!
Quarenta pessoas naquela cozinha, entre mulheres, crianças, escravas, todos no mais absoluto silêncio.
─E tu quer aproveitar a guerra para criar outra aqui dentro de casa, Vera? É isso? Por que não te aproveitou de outros momentos?
─Tu sabe bem que fui proibida de colocar os pés nesta casa!
A discussão começava a esquentar. Os ânimos se alterarem, mas Afroline acabou com o momento de uma vez por todas.
─Calem a boca, ou eu jogo um feitiço nas duas para ficarem totalmente sem a língua!
As duas mulheres a fitaram com um ódio extremo, mas lá no fundo com medo dela realizar sua ameaça. Afroline sabia como elas gostariam de colocá-la no tronco, mas não tinham esse poder e muito menos coragem.
─Estamos aqui para falar sobre comida. - disse ela num tom que não admitiria réplicas. ─Então escravas ou não, amanhã, no alvorecer do dia, todas, sem exceção, na lavoura, nos pastos, e no galpão do charque. Vamos nos virar, entenderam? Vamos colher, e plantar de novo, e vamos matar a vaca e salgar a carne, e vamos alimentar nossos filhos, pois lá fora, há uma guerra em que brancos e negros lutam para matar ou morrer. Nós precisamos comer ou vamos todas morrer nesta estância! Deixem suas pendengas para serem tratadas entre as duas, sozinhas, sem plateia, ou revelem os seus segredos aos quatro ventos, mas quando todas estiverem de barriga cheia!
─Ele está bem! - disse Sophie sorrindo entre lágrimas, segurando o jornal nas mãos, onde havia uma charge de Diogo na capa que Luzia traduzia como ninguém.
Antes de partir ele contara seu segredo para ela.
─Sou contratado de um dos jornalistas que usa a alcunha (apelido) de Bagre. Ele paga pelas minhas charges. Durante a guerra tu saberá de mim através dele. Fique de olho no jornal e suas publicações.
Ela alisava a charge com a ponta dos dedos, prestando a atenção no que Luzia lhe dizia.
─Um campo coberto de homens caídos, e outros a cavalo pisoteando por cima segurando suas espadas e armas, e os lanceiros negros a frente atacando com suas lanças. Diogo é tão talentoso que fica muito nítido o olhar dele sobre o que vê. - ela continuou lendo a publicação. ─Inicialmente, os revoltosos se limitavam a reivindicar a substituição do presidente da província e um maior respeito ao Rio Grande do Sul. Logo, porém, o movimento radicalizou-se, culminando com a proclamação da República Rio-Grandense, em 11 de setembro de 1836, após uma importante vitória contra os imperiais nos campos de batalha de Seival.
E as notícias não paravam de chegar a cada dia.
─Triunfo, terra de nascimento do general Bento Gonçalves, foi palco de várias batalhas e a mais sangrenta delas teve início na tarde do dia 02 de outubro de 1836. Bento Gonçalves acampou na Ilha do Fanfa com mil e quinhentos homens. Tinha como meta encontrar a brigada do coronel Domingos Crescêncio, na margem direita do Rio Jacuí.A esquadra do almirante Greenfell encurralou Gonçalves, ao mesmo tempo em que a artilharia abria fogo de terra. O combate encerrou na tarde do dia 4 de outubro, com a rendição de Bento Gonçalves para o comandante Bento Manoel Ribeiro, com baixa de duzentos soldados feridos, cento e vinte mortos. Foram presos, ainda, Onofre Pires, Marciano Ribeiro, Pedro Boticário, José Calvet e outros... Bento Gonçalves é preso na batalha da Ilha do Fanfa, no rio Jacuí, próximo de Triunfo e é levado para a Bahia.
─Presos... Bento Gonçalves preso, e muitos outros com ele... Luzia! Eles estavam aqui perto... se Diogo não veio ele...pode estar entre os mortos...- ela soluçou.
─Calma! Há charges dele na notícia, sinhá.
─Mas isso não é garantia de nada! - ela exclamou angustiada.
─Precisamos ter fé. Vamos rezar por eles. Não sabemos das dificuldades de abandonar um pelotão. Não creio que seja fácil sair a qualquer momento.
E Luzia continuava lendo as notícias que chegavam para Sophie.
─Não há igualdade nas tropas farroupilhas, muito menos democracia racial. Negros e brancos marcham, comem, dormem, lutam e morrem separadamente. Os oficiais dos combatentes negros são brancos, e jamais um negro chegou, até esse momento, a um posto significante, mesmo que intermediário de comando.
─E o homem consegue criar desigualdade até num momento como esse... de guerra. Um momento em que precisam mais do que nunca um dos outros. - disse Sophie num tom de desolação.
Além da espera angustiante, elas viviam um tempo de trabalho extenuante e doloroso entre lavoura e colheita. Sophie andava pelos campos de plantação sempre guiada por alguma criança, plantava, colhia, e ajudava no galpão do charque. No final, estavam dando conta, trabalhando juntas. Conseguiam alimentar a todos e ainda fazerem trocas com outros vizinhos.
Um momento gravado na memória de todos os moradores da estância. No primeiro natal pós-guerra, Sophie fez questão e organizou junto com as primas e as escravas, uma mesa imensa e bonita na senzala, e fizeram a ceia juntos, entre lágrimas, cantorias, bebedeiras, e muita dança. Havia uma profunda tristeza por nenhum dos homens terem retornado para as festas de final de ano.
─Minha tristeza é a falta de Diogo e tio Justino. - ela se lamentou em certo momento e Afroline ouviu.
─Teu pai sente tua falta, Sophie.
Ela riu irônica.
─Vai querer me convencer que ele me ama também? Não perca teu tempo. Aquele lá não ama nem a si mesmo! Tem uma pedra no lugar do coração.
E Luzia continuava lendo as notícias do jornal. Mas agora, não havia mais as charges de Diogo.
─ (1837) Giuseppe Garibaldi, italiano, recebeu a carta de corso - autorização do governo Farroupilha para atacar, de barco, navios e propriedades inimigas, apossando-se de seus bens. Como eram embarcações pequenas, podendo transpor os bancos de areia que dificultava a navegação dos navios de maior porte da Marinha Imperial, Garibaldi agia rápido e atacava as estâncias de legalistas que estavam nas margens da lagoa, passando a mão nos cavalos, mantimentos etc.
─Giuseppe Garibaldi...? - Sophie balbuciou um tanto confusa. ─Não será o mesmo que esbarrei no porto do Rio de Janeiro?
─Talvez sim, sinhá.
─Em 10 de setembro Bento foge do Forte do Mar, na Bahia, onde se encontrava aprisionado a nado.
─A nado? - exclamou Sophie. ─Que preparo físico ele deve ter... Que fuga extraordinária! Mas com toda certeza ele deve ter tido o apoio de muitas pessoas.
─ (1838) Depois de violentos combates, os farroupilhas dominam Rio Pardo em 30 de abril.
─Aqui diz que os músicos do império, usados para as comemorações das vitórias das batalhas com as vivandeiras, foram sequestrados pelos farrapos com a seguinte ameaça: Não os matamos, mas queremos um hino para o Rio Grande. - Luzia riu com a notícia e continuou. ─ Ouve a letra do hino. “Como a aurora precursora Do Farol da divindade, Foi o Vinte de Setembro O precursor da liberdade. Mostremos valor constância, nesta ímpia e injusta guerra. Sirvam nossas façanhas. De modelo à toda a terra, de modelo à toda a terra, Sirvam nossas façanhas De modelo a toda a terra. Mas não basta pra ser livre. Ser forte, aguerrido e bravo Povo que não tem virtude. Acaba por ser escravo. Mostremos valor constância, nesta ímpia e injusta guerra. Sirvam nossas façanhas. De modelo à toda a terra, De modelo à toda a terra. Sirvam nossas façanhas. De modelo à toda a terra.”
─Muito irônico, o hino do Rio Grande feito pelos músicos do império. Pior! Foram sequestrados, e poupados, para essa finalidade! - riu Sophie.
─ Calculava-se em seis mil homens os efetivos dos Farrapos neste ano, estando em Viamão de 1.500 a 1.600 homens. Bagé deveria ter mais uns 400 homens, comandados por Antônio Neto. Domingos Crescêncio comandava mais outros 600 perto de Piratini. Na região da Campanha, mais 500 eram comandados por Bento Manoel e David Canabarro. Vários grupos dispersos estavam espalhados pelo território. As forças legais tinham também seis mil homens, contando os da Marinha.
─Onde Diogo estará Senhor? - Sophie se perguntava a cada nova notícia lida. ─Nessa guerra estão acontecendo ataques... em muitos lugares diferentes e ao mesmo tempo! Por onde ele andará?
─Já disse que não vou ler mais os jornais! Tu fica deprimida e angustiada. Está doente! Aqui estão as charges dele, fique tranquila, está tudo bem!
Mas algo lá no fundo de Sophie dizia que não. Numa manhã pegou os jornais e levou até a cozinha. Mostrou um a um para uma das cozinheiras.
─Vê algum desenho neste? E neste? E neste?
A mulher olhava com atenção cada página, cada vez mais assustada com a expressão de loucura da menina.
─Não, sinhá...
Sophie cerrou os dentes e os punhos e saiu atrás de Luzia aos berros. Quando se encontraram, foi fatal. Sophie a esbofeteou com toda força a jogando no chão. Tinha uma percepção magnífica de alvo, e uma força na direita de arder os ossos.
─Por que mentiu para mim esse tempo todo? E não pense que estou te batendo por tu ser uma escrava. Bateria se fosse Ticiana a me trair assim, maldita!
Luzia se levantou de um salto, foi até ela e a esbofeteou com toda força.
─Estou revidando como uma irmã. Acorde, Sophie! O mundo não gira em torno do seu amor e de Diogo. Neste momento há muitas pessoas sofrendo por perdas irreparáveis! - e ela saiu deixando-a ali desconcertada com aquela reação.
Agora Luzia teria a prova se Sophie, realmente, a considerava como uma irmã.
Uma hora depois, Sophie foi atrás dela, chorando arrependida.
─Pode me perdoar? Por favor, minha irmã?
Luzia deixou as lágrimas rolarem, foi até ela e a abraçou com força.
─Isso nunca mais irá acontecer. Te prometo, Luzia!
─Ah, tem que acontecer! Era o que faltava para termos a certeza de que somos iguais, e irmãs.
Luzia a observou parada a janela com a testa encostada na vidraça. Sentiu pena de Sophie. Estava mais magra, tinha as mãos machucadas e as costas curvadas. Trabalhava desde o amanhecer até o anoitecer, intercalando entre lavoura e a charqueada, dando prazos curtos a todas durante o dia para um merecido descanso, e se alimentar. As escravas mais velhas eram poupadas. Faziam tarefas mais leves e todos com imenso prazer. Sophie era rigorosa, mandona, mas justa e generosa. As refeições eram feitas na mesma mesa com todos juntos, com direito a muitas orações de agradecimento, e conversas ora animadas, ora tristes.
O importante era estarem todos juntos em comunhão naquele momento tão difícil que o estado, e o povo gaúcho atravessavam com aquela guerra. Era impossível ficar fechado em sua casa, acreditando que não sofreriam consequências com a guerra lá fora.
─Sinhá... vem descansar. Amanhã vamos ter outro dia cheio. Precisamos nos recuperar.
Ela suspirou baixinho. Continuou ali à janela aspirando o ar da noite.
─ Três anos dessa guerra infeliz e nada dele aparecer.
─Não se preocupe. Seu pai também não veio e sabemos que ele está bem.
Sophie se voltou para ela como se a olhasse dentro de seus olhos.
─Por mim, meu pai pode ficar no caminho. E rezo para que ele não cruze com Diogo com a intenção de matá-lo!
Sophie era incansável. Ao lado de Afroline e Luzia, de suas primas Vânia e Verona, filhas da irmã de sua mãe, Yolanda, mulheres que se descobriram fortes e corajosas naquele tempo sozinhas, tão delicado e difícil, comandavam e trabalhavam liderando a estância com mãos firmes. Chegaram ao ponto de comprarem briga com alguns aproveitadores, que não foram para a guerra, ou voltaram feridos e se recuperaram, e até mesmo alguns desertores fugidos, que ficaram com o intuito de tirar proveito da situação caótica que o estado vivia há tanto tempo.
─Como assim fomos proibidas de levar comida a chácara de dona Mirtes? - perguntou Sophie abismada com o recado que um dos homens que cuidavam as estradas mandou para ela.
─Foi o que ele disse. Se tentarmos passar com a carroça levando comida, teremos sérios problemas.
Vânia, uma garota de rosto sardento, cabelos aloirados e olhos verdes, a mais vivaz e engraçada de todas, disse num tom sério.
─Eu sei quem é o homem. Um folgado que andou rondando a casa de dona Mirtes. Ele queria abusar da filha dela a Joana. A mulher o colocou para correr a tiros. Agora ele cuida a estrada, para eventuais saques, e como vingança quer proibir que levem qualquer coisa para elas.
─Pois veremos se ele vai me impedir. - disse Sophie caminhando em direção a porta.
Afroline correu até ela.
─Espera! Tu não vai sozinha. É um alvo fácil para eles. Vou contigo.
As dez mulheres que estavam na sala, levantaram prontas para irem com ela. Emilia continuou calada, sentada em sua poltrona, recebendo um olhar gelado de Afroline.
Frente a frente, Sophie não denotava um sinal de medo do homem corpulento acompanhado de mais três sujeitos armados. Até porque, ela não o via, mas podia sentir sua presença forte e maligna.
─Tu não vai passar com esta carroça para chácara da velha Mirtes!
─Vou sim, e tu não vai me impedir!
─Não me afronte! Sei de quem tu é filha, mas teu pai está na guerra.
─Era onde tu deveria estar também, e não aqui molestando mulheres indefesas. Não tem vergonha? Há negros, índios, brancos, unidos lutando, e tu aqui perturbando ao invés de ajudar? Se tu tem homens por aí, por que não os coloca a auxiliar as pessoas sozinhas que estão passando fome e não estão conseguindo trabalhar?
Ele riu incomodado, faltando um dente na frente.
─Sermão de uma mulher! Era só o que me faltava! Tu daria uma boa trepada, mas de boca fechada.
Afroline pulou para fora da carroça, e as outras mulheres atrás dela. Todas armadas.
Os homens riram com gosto.
─Está na hora da diversão! - disse um deles. ─Tem bastante rabo aí para nos distrair!
O grandão fez menção de pegar Sophie pelo braço, mas Afroline se aproximou e segurou o pulso dele. O homem gritou, urrou de dor e se ajoelhou no chão.
As outras apontavam as armas para os alvos, prontas para atirarem ao menor sinal de Afroline.
Sophie sentia seu coração bater rápido e o suor escorrer pela testa.
─Vai nos deixar passar, e a dona Mirtes e sua filha em paz? Ou acabo por entortar teu braço de vez, o inutilizando para sempre? - sussurrou Afroline.
─Vou... - ele gemeu de dor, sabendo que não poderia lutar contra aquela mulher macumbeira.
─Nunca mais?
─N-nunca mais...
Uma hora depois na casa de Mirtes.
─Eu nem sei como agradecer... - fitou Sophie e pegou as mãos dela. ─Tu é uma prenda de ouro Sophie!
─Obrigada, dona Mirtes! Nesse momento precisamos nos ajudar ou morreremos. - o tom de Sophie soou cansado. ─O bom seria se a senhora fosse conosco para estância das Magnólias.
─Não posso deixar minha casa. Com os saqueadores por aí, eles podem qualquer coisa. Dizem que os caramurus quando estão pelas bandas, invadem as casas para descansar, comer, e arrasam o que encontram dentro delas. Principalmente se encontrarem mulheres.
─Eu sei... – avaliou Sophie. ─Tempos difíceis. E eu que acreditei que essa guerra duraria pouco, mas já se passaram três anos!
─Não se preocupe dona Mirtes. - preveniu Afroline no seu tom calmo de sempre. ─Acredito que os homens que rondavam sua casa, não vão mais importunar.
A senhora sorriu afetuosamente e se aproximou da bela negra.
─Louvado seja o Senhor por ter te trazido até aqui com esses poderes do bem! Tu é pura luz! Obrigada!
Na volta, Sophie e Afroline na parte de cima da carroça, conversavam.
─Tu nunca fala sobre esses teus poderes. Por quê?
─Não tenho o que contar, só realizar.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,