Mag-log in9
O Jornal “O Povo” foi, o mais importante jornal dos farroupilhas e o periódico oficial da República Rio-grandense. Se auto intitulava um "jornal político, literário e ministerial da República Rio-grandense”. Era editado pelo jornalista Luigi Rossetti e organizado por Domingos José de Almeida.
─Grupos de negros guerrilheiros caçando os próprios negros e os vendendo aos brancos. - explicou Diogo para Deusa que o olhava aparvalhada.
─Encontraram no caminho?
─Sim. - ele relembrou das lutas e do sangue derramado. ─Foram três dias de terror. Nós, tentando proteger os negros, dos próprios negros. Dá para acreditar?
─É uma coisa difícil de aceitar... Uns lutando pela liberdade geral e a mesma raça tornando seus irmãos prisioneiros. Ganância!
Diogo bufou cansado e dolorido.
─Nesse caso não Deusa. É uma maneira que alguns negros encontraram para se defender da escravidão, o que dificulta ainda mais a nossa luta pela liberdade deles. Preciso de um bom banho e comida...
─Claro! Usa o quarto do fim do corredor. Sei que não vai para casa mesmo.
─Não tenho casa Deusa. Minha casa é onde eu me sinto acolhido. Talvez um dia eu encontre o meu verdadeiro lar. Obrigado.
Ele deu um sorriso cansado e virou-se para sair da sala de reuniões.
Teu lar é onde o seu amor está, pensou ela com um sorriso iluminado.
Diogo entrou no quarto na penumbra. Tirou o casaco sujo, a camisa com manchas e cheiro de sangue. Havia alguns cortes profundos em sua pele. Pensou em Afroline que lhe dera a vida depois daquela surra que levou e sentiu-se grato. Seu corpo todo ainda doía, mas podia suportar.
A dor profunda era a falta dela. Foi quando de repente, após tirar a camisa e as roupas fedendo, que ele conseguiu identificar um perfume conhecido. Magnólias! Foi rapidamente ao banheiro e seus olhos se arregalaram ao se deparar com aquela linda visão. Sophie sentada dentro de uma banheira fumegante, água limpa com cheiro de magnólias, onde ele podia apreciar o lindo corpo. Ela sorria. Sentia a sua presença. Abriu os braços, ele foi até ela ainda sem acreditar.
─Vou sujar a água... é como se eu fosse profanar um templo sagrado.
─O teu templo sagrado. Vem! Estou aqui por ti, para ti, por nós!
Ele entrou na banheira lentamente, sentou-se e ela veio até ele sem espera, enlaçando as pernas sobre o seu quadril. Ela estava tão linda com os longos cabelos brancos úmidos, os olhos azuis brilhando como diamantes, parados como se sonhassem com o impossível. A espera do toque, do beijo, acabou. Diogo a beijou com volúpia, irrompendo a boca macia, mordiscando seus lábios carnudos, enquanto ela própria tratava de fazê-lo penetrá-la. Estava sedenta por ele. Queria-o dentro dela. Ambos se movimentando freneticamente. Mãos se tocando em todos os pontos possíveis, beijos pelo rosto, de volta aos lábios. Diogo procurando os seios, os mamilos túrgidos esperando por sua boca.
Sugou-os, lambeu-os, enquanto ela ria profana, amorosa, lânguida. Viveu para tê-lo assim, tão dela, e ela tão dele.
O tempo passou, a água gelou, eles continuavam ali, naquela luta de prazer, corpo a corpo. Um medindo a sensibilidade e força do outro. Quando por fim Diogo levantou-a, e de joelhos aos pés de sua dona, avançou com a boca em meio a fina penugem de sua vulva, sugando seu clitóris com tremendo ardor, ela gritou de prazer, e se deixou cair por terra vencida e arrasada naquela guerra de amor e sexo.
Mais tarde na cama, enrolados por um cobertor, depois de ajudá-la se secar, e levá-la nos braços, ficaram num silêncio harmonioso por algum tempo.
─Tu me perdoaste por ter partido?
─Não!
─O que devo fazer para ter teu perdão? - ela se aconchegou ainda mais no corpo quente.
─Continuar assim comigo até o fim dos nossos dias.
─Por toda a eternidade, com prazer!
Ele se levantou para fitar aquele lindo rosto.
─Como eu te amo, minha guria!
Ela segurou o rosto dele com as duas mãos.
─Como eu te amo, meu herói!
Foram três dias dentro daquele quarto entre tantas conversas, muito amor, prazer, risos e planos. Três dias de muita cumplicidade e felicidade!
─Não quero falar de nada do que esteja acontecendo lá fora! Somente nós dois aqui. - disse ele. ─E quero te dar algo.
Ela se sentou na cama com os longos cabelos em desalinho, nua, mais linda ainda, iluminada pela luz do lampião. Diogo pegou um pacote encostado a parede, ali a sua espera, depois de pedir que Tião fosse buscar na casa de seus pais. Não podia ir pessoalmente. Almir queria sua cabeça por ter perdido o trabalho na estância.
Entregou nas mãos dela, e a ajudou a abri-lo. Ela passou a mão lentamente.
─Meu quadro... - duas lágrimas rolaram pela face. ─Queria tanto poder vê-lo meu amor!
Diogo se sentou ao lado dela, pegou o seu dedo indicador direito e traçou o desenho em cada detalhe.
─Esses lindos cabelos brancos, foram difíceis de conseguir o tom exato, combinados com esses olhos azuis como o céu e essa boca cor de cereja. A pele de pêssego iluminada pela claridade da luz do sol daquela tarde, me levaram a várias misturas de cores para chegar à perfeição. Sem dúvida a pintura mais difícil que já fiz, e a minha maior obra em vida!
─Sou tão bonita assim?
Ele tirou o quadro da mão dela, e colocou-a em seu colo.
─Não há beleza igual a tua, minha guria!
Beijou-a nos lábios, desceu pelo pescoço até chegar a um dos mamilos. Ela entreabriu as pernas para a passagem da mão possessiva descendo por sua coxa, chegasse a sua vulva úmida e latejante, onde ali ele tratou de massageá-la até que ela estremecesse com pequenos orgasmos. Sophie acavalou-se em seu colo e deixou-se penetrar pelo pênis ereto e flamejante, subindo e descendo numa dança ritmada e sensual, enquanto se acarinhavam, se beijavam, faziam promessas, num momento de amores sussurrados um no ouvido do outro, para chegarem ao ápice máximo. Abraçados de corpo, alma e coração.
Luzia encontrou com Tião quando ele saia do quarto de Dulce. Era um amor tão bonito! Dulce deixara tudo por ele. Tião queria um mundo para eles. Ficaram parados se olhando por alguns segundos.
─Posso te ajudar?
─Creio que sim. - disse ela um tanto sem jeito.
─Como?
─Me tirando uma... dúvida.
─Claro!
─Por que está com uma mulher branca?
Tião se aproximou dela sorrindo. Ele era elegante, andava bem vestido, tinha boa educação. Ele ocupava muito bem o tempo dele fora do trabalho, aprendendo e estudando sempre mais.
─Isso se chama racismo, sabia?
─Eu, racista? Não creio. Acho que negros combinam com negros.
─Luzia, amor combina com todas as cores.
Ela sentiu-se mal. Baixou os olhos sem graça. Ele foi até ela, levantou seu rosto pelo queixo delicado.
─Se eu não estivesse tão apaixonado por Dulce, com certeza cairia de amores por ti.
─Eu ficaria, muito feliz!
Trocaram um sorriso cúmplice. Luzia usava os longos cabelos afros soltos, sem medo de pegar piolhos. Afroline sabia como proteger suas cabeleiras com seus preparados misteriosos.
─Reparou o quanto a nossa história se parece Tião?
─Sim, tu com Sophie e eu com Diogo. Devo tudo a ele. Nunca me cobrou nada, e fica furioso quando menciono seus feitos. São de pessoas como eles que o mundo precisa mais e mais! Nós temos muita sorte Luzia! Conhecemos as melhores pessoas!
Diogo precisou sair daquele quarto para falar com algumas pessoas e uma delas, um nome influente que tratava da guerra, prestes a acontecer. Luzia aproveitou para ter uma séria conversa com Sophie.
─Sinhá, precisamos voltar para casa. Muitas pessoas já sabem que estamos aqui.
─Ainda não. Que dia é hoje?
─17 de setembro. E chove muito. Está um verdadeiro lamaçal. As pessoas têm se atolado no barro.
Sophie riu.
─É sempre muito divertido ouvir tu contar os tombos nessa lama. Não se preocupe Luzia, mais um ou dois dias. Sinceramente, por mim ficaria aqui para sempre!
─Eu sei. - ela sorriu com carinho.
─Sim precisamos. Logo tu fará aniversário, e eu te prometi tua carta de alforria como presente. Preciso convencer meu pai.
─O que?
─Isso mesmo, minha guria. -disse Diogo, de volta do seu encontro. ─ Fui convocado para retratar os combates com meus desenhos. A situação se agravou desde que o regente Feijó nomeou o moderado Antônio Rodrigues Fernandes Braga como presidente da província, o que não foi aceito pelos gaúchos. Na Assembleia Provincial tornou-se cada vez mais viva a oposição ao presidente Fernandes Braga. Vai haver um ataque a Porto Alegre no dia 20 comandado por Bento. Aliás, a capital já está sitiada.
─Daqui a três dias. - ela estava com os olhos arregalados e uma expressão de terror. ─Tu não precisa ir, tu não é obrigado!
─Sophie, escute! - ele segurou-a pelos ombros. ─Eu não concordo com os motivos dessa guerra, mas em todas as reuniões que participei, os estancieiros dizem o mesmo, vão levar seus escravos para as lutas e após, darão alforria a eles e suas famílias. É minha luta! Nossa luta! Não posso fugir! Eu já estou lutando há muito tempo por isso.
─Eu sei, mas... tu terá que lutar nessa guerra pelos motivos deles também e...
─Posso não sair vivo, como também posso sair ali na rua e, com essa chuva, um raio me partir ao meio. – ele riu carinhosamente. ─Vamos torcer para ser uma guerra de tempo curto e...
─Tu acredita nisso com a força do império?
─Vamos lutar e vencer! Queremos liberdade! Não estou preocupado com os estancieiros, mas com as comunidades castas que sofrem e que pagam um preço alto por sua pobreza. Eu faço parte dela. E se para melhorar a nossa condição tenho que lutar ao lado dos estancieiros, que assim seja! Vou lutar para ganhar!
Sophie o abraçou com força e desespero.
─Quando tu parte?
─Me juntarei amanhã a cem rebeldes, tomarão pequenos barcos e partiremos da praia da Alegria na madrugada do dia 18 para o dia 19 de setembro. Será preciso atravessar o Guaíba na altura do Porto das Pedras Brancas sem que uma canhoneira imperial perceba a nossa manobra. Será uma aventura e tanto! - ele sorriu. ─Temos mais um tempo juntos. E lembre-se...
─... não importa o que aconteça, de um jeito ou de outro, nós sempre voltaremos! - disseram juntos.
─Onde ela está! - perguntou Everaldo atravessando a porta da casa de Deusa, assustando-a com a quantidade de lama em suas botas. ─E não minta para mim, porque eu sei, que ela está aqui com aquele arruaceiro abolicionista!
Com os gritos, as chinocas e alguns homens apareceram na sala. Quando Sophie entrou, houve total silêncio.
─Aí está uma chinoca numa casa de putas! Está no lugar certo!
─Por favor, papai... - ela pediu, calmamente.
─Eu sinto não te dar a resposta que tu merece Everaldo, em respeito a tua filha!
─Eu não vou punir ninguém, pois tenho que partir para essa guerra, mas tu Sophie, vais ter o que merece. -pegou-a pela trança longa ao lado do ombro e puxou-a para fora. Uma chuvarada caia sobre a terra lamacenta, e ele não teve dó. Jogou-a no barro, pegou-a pelo pulso e arrastou-a até a carroça a uma distância de cem metros. Luzia corria atrás chorando desesperada. Deusa queria matar aquele homem cruel!
─Por Deus... Esse homem é um monstro, fazendo uma maldade dessas com a filha cega! Everaldo! - ela gritou.
─Cala boca puta, ou eu te mato aqui mesmo. -continuou arrastando a filha pela lama até a carroça.
Sophie estava irreconhecível com tanto barro. Tentou entrar, mas ele a impediu.
─Não! Tu vais a pé! Tu e a tua negrinha, a tua luz, os teus olhos! Ela te guiará! E andem rápido, porque eu as quero em casa, antes do amanhecer!
E ele entrou na carroça e partiu com dois homens ao lado.
Sophie tremia ofegante, humilhada, mas sem chorar. Luzia chorava em silêncio. Pegou-a pelo braço e tentaram ficar de pé em meio a tanta lama. Era impossível. Elas resvalavam e com o peso das roupas molhadas ficava ainda mais difícil.
Em duas horas andaram pouca distância. Era algo impossível com aquela lama!
─O que faremos sinhá?
─Por favor, Luzia... Continue... - ela disse enfraquecida e sem fôlego do esforço.
Depois de vários tombos, e muitas lágrimas, surgiu uma carroça no caminho delas.
─Entrem agora! - Afroline gritou.
As duas, chorando aliviadas, entraram na carroça. Afroline ficou em silêncio, observando-as naquele estado irreconhecível com tanto barro. Não dava para decifrar seu olhar e seus sentimentos. Sophie e Luzia a conheciam o suficiente para saber que nada do que dissessem seria levado em conta. Afroline falava muito pouco. Seu silêncio era seu idioma.
Levou-as direto para a senzala. Mandou as outras escravas ajudarem-nas a tomarem um banho e levarem-nas para a casa grande.
Foi assim que ao primeiro raiar do sol, Everaldo encontrou Sophie sentada a mesa da cozinha, limpa, linda, bebendo seu café. Ele olhou-a cismado.
─Não vou perguntar quem te ajudou porque já sei. Não vou te dar a surra que tu merece, porque estou de saída para me juntar as tropas de Bento, e não quero outra filha morta pelas próprias mãos. Tu não era para estar aqui, mas já que voltaste por causa daquele miserável, te prepara para trabalhar muito na estância. Afroline sabe o que fazer. Com os poucos escravos que irão ficar, terão que se virar da melhor maneira possível.
Sophie continuou calada, sem se mover. Sua expressão era tão dura, que lembrava pedras brancas.
─Meu consolo é que aquele traste também vai para a guerra e espero que morra ao primeiro combate! Por que senão, eu mesmo o mato!
Ela se levantou num salto e virou-se para ele com um desafio no olhar cego.
─Não se atreva! Que tu é um monstro assassino eu já sei! Mas eu te imploro, deixe-o em paz! Se ele tiver que morrer, que seja lutando! Não covardemente pelas costas ou a traição como o senhor tentaste!
Ele respirou fundo, pegou a xícara sobre a mesa e foi até a porta.
─Com muita sorte, ele não passa da primeira batalha. Se apronte, muito trabalho para todas as mulheres da Estância. E assim que eu retornar; espero poder resolver tua situação. Ou seja, teu estado civil.
Ele saiu da sala deixando-a sozinha com seus pensamentos confusos.
─Eu sou dona do meu estado civil. Eu sou dona de mim!
Justino, o irmão de Everaldo, também morava na estância com a mulher e um filho que decidira estudar e morar no exterior; foi procurar a sobrinha antes de partir. Tinha os mesmos traços do irmão, cabelos prateados, olhos azuis, alto e magro. Era um homem de porte bonito e sorriso fácil, e um coração de ouro.
─Se eu pudesse teria dado uma surra em Everaldo pelo que ele fez contigo, minha querida.
─Tudo bem tio. A lama não fez mal. O que me faz mal é essa disponibilidade do meu pai em ser um carrasco! Ele só não é pior por conta de Afroline, e sabe? Eu acho bom ela ser amante dele. Ela o controla! É a única que consegue esse feito.
─Ainda bem! Sem ela...
Sophie o abraçou. Tinha uma afinidade muito grande com ele.
─Sabe que às vezes penso em como seria maravilhoso se o senhor fosse o meu pai?
Ele a afastou e fitou-a com atenção. Embora ela não pudesse ver, sentia o olhar amoroso e certa emoção no toque dele.
─Eu me sinto teu pai, sempre estive próximo para te proteger de tudo e de todos desde que nasceste.
─Sim, eu sei. Sempre fui grata por esta proteção. - ela o beijou na face.
─E agora... eu não vou estar por perto. Então, use ainda mais a ajuda de Luzia e todos os teus sentidos, e tenha muito cuidado.
─Pode deixar tio. - chorou emocionada com aquele carinho. ─O senhor também, tome cuidado, e volte para casa, para nós! Vivo!
Aflito, Diogo a esperava no vale das Sombras. Chovia muito! Ele precisava vê-la mais uma vez antes de partir. Quando finalmente a carruagem chegou, ele correu embaixo da água e foi buscá-la nos braços para que ela não colocasse os pés na lama.
Eles riram felizes até chegar à cabana onde Sophie dava aulas as crianças, disponível para aquele encontro.
─Fiquei traumatizado com o que teu pai fez. Se eu pudesse teria...
Ela colocou os dedos nos lábios dele.
─Psiu! Já passou. Nada que eu não pudesse suportar.
Trocaram um beijo ardente e apaixonado.
─Minha linda guria! Não sei se vou aguentar a saudade.
─Nem eu... nem eu, meu amor!
Despiram-se rapidamente, tinham pouco tempo e precisavam um do outro como o ar que respiravam. Numa entrega total de urgência, entre sussurros e promessas de amor, eles chegaram ao orgasmo juntos.
Ele acariciou levemente o seio palpitante. A pele macia e perfumada o deixava inebriado. Queria guardar aquele toque da pele suave com ele.
─Estes são os momentos que vão me dar força para voltar para casa.
─Volte para mim! Custe o que custar! Volte para mim vivo!
Um pouco antes de saírem do Vale das Sombras, chegou dois escravos muito machucados. Diogo e Sophie foram ajudar na remoção e no atendimento.
─O que aconteceu? - perguntou ele furioso. Um deles estava quase morto.
─O pai dela mandou açoitá-los fora da estância para que a feiticeira dele não visse. Um escravo era saladeiro, o outro...
Sophie se aproximou dos homens conversando.
─São... escravos da estância? –ela se aproximou ainda mais e reconheceu os gemidos de Rodezio. Começou a chorar e se ajoelhou no chão do canto da pequena casa aonde o colocaram. ─Não... não pode ser...
─Sinhá...
─Por que ele mandaria bater em você?
─O capataz Antunes... disse que.. .eu estou muito velho e doente e que...não vou ter mais serventia em tempo de guerra e... darei despesas...- ele gemeu com as dores. Ele tinha machucados expostos pela pele enrugada. Ela podia sentir com o toque dos dedos.
E Sophie chorou ainda mais.
─Chamem Afroline.... ela pode curá-lo!
─Não adianta sinhá.... chegou minha hora...estou cansado, muito cansado...me deixe partir...
Ele fechou os olhos para sempre. Sophie deitou a cabeça no peito de seu amigo e chorou, relembrando às vezes que ele lhe salvou a sua vida.
A primeira vez, ela brincava próxima do poço de água sem ter ideia do perigo, tinha apenas três anos de idade. Ela e Ticiana corriam em volta, e em dado momento Sophie se desequilibrou e escorregou sentindo seu corpo pender no espaço, totalmente solto. Uma garra forte e potente a pegou pela canela puxando-a para cima. Primeiro foram os gritos, depois o mais absoluto silêncio, ao verem Sophie nos braços de Rodezio, um escravo de corpo robusto e forte.
Emília chorava, e Justino, o tio dela correu para pegá-la dos braços dele.
Depois do susto, passaram a ensiná-la por onde deveria andar sem se colocar em riscos. E a partir desse dia, Rodezio passou a tomar conta dela à distância. Gostava da pequenina, e gostou, ainda mais, quando ela aparecia na senzala a noite com biscoitos e frutas escondidos para ele enrolados na barra da saia para que ninguém visse.
A segunda vez, um cavalo xucro em disparada correu na direção dela, brincando sentadinha na relva verde, ao lado da casa com uma boneca de pano. Rodezio seguiu seu instinto protetor, correu mais do que o animal, e se atirou em cima dela, na forma de um escudo de maneira a protegê-la e receber uma das patas nas costas. Resultado, algumas costelas quebradas, mas a menina estava são e salva. Depois disso, ela e ele, batizaram o cavalo xucro de Tosca. Rodezio o domou, e ensinou o animal a levá-la pelas redondezas e trazê-la para casa, sempre com o aroma das magnólias. Sophie cresceu com aquele senso de gratidão por ele. Poderia ter morrido no poço. Passou a cuidar dele, protegê-lo, e jamais deixou que ninguém batesse nele. E agora o seu pai... o matara!
Sophie chegou em casa a tempo de encontrar Everaldo, pronto para partir com mais dois estancieiros da região. Pelo som da respiração clara e forte dele, ela se guiou para se aproximar com passos seguros e o ódio palpitando dentro do peito.
─Por que fez isso? Por que matou Rodezio?
─Não é hora dessa conversa. Já estou de partida e...
─Isso! Parta! E se Deus for justo, não voltará!
─Sophie! - gritou Emília da porta da casa principal.
─Ele é um monstro! Se ele morrer, o mundo não sentirá falta alguma. Talvez alguém sinta... mas não serei eu, seu Everaldo! Eu quero que o senhor queime no inferno!
Ela virou as costas e entrou na casa chorando. Everaldo passou os olhos a sua volta. Todos o olhavam. E por fim parou em Afroline que o encarava sombriamente. Sabia o quanto ela estava desapontada com ele. Montou no seu cavalo e partiu para a guerra, com as palavras de Sophie ecoando em seus ouvidos.
Era muito triste aquela imagem dos escravos andando, a pé, na frente dos estancieiros em cima de seus cavalos.
Aos Lanceiros Negros foi proibido o uso de espadas e armas de fogo de grande porte. Não lutavam a cavalo, mas sim a pé, pois havia o risco de se rebelarem e fugir. Sua arma principal, era a grande lança de madeira que lhes deu nome e fama, algumas facas, facões, pequenas garruchas, os pés descalços. A bravura e o anseio, e a esperança pela liberdade prometida
A guerra sob o olhar de Diogo
“Os Farrapos.
Este apelido foi dado aos rio-grandenses sublevados contra o Império do Brasil, por não disporem de uniformes e de equipamentos militares. Maltrapilhos, faltavam armas e botas. “Muitos dos soldados, peões de estância e negros, traziam suas garruchas e adagas.”
O plano começou a ser executado em 18 de setembro de 1835, quando Gomes Jardim e mais 60 homens cruzam as águas do Guaíba, em barcos, e acampam nos arredores da Capital, onde são esperados por outros revoltosos a cavalo. Bento Gonçalves ficou no casarão de Pedras Brancas, o quartel-general da insurreição. Perto da meia-noite do dia 19, Jardim e o coronel Onofre Pires derrotam a guarda imperial que deveria proteger a cidade, na Ponte da Azenha. Só que; não foi bem assim. Chovia muito em Porto alegre, quando os soldados do império chegaram à Ponte da Azenha para fazer a rendição dos farrapos, a cidade já estava sitiada há três dias. Com a chuva muito intensa, formou-se um lamaçal profundo, e os soldados fazendo o uso das tamancas, com todo aquele lodo, atolaram, e bateram em retirada abandonando as tamancas, momento histórico que ganhou o nome, dos jornalistas, como “A Batalha das Tamancas”. E de muita vergonha para a guarda imperial.
Foi mais fácil do que o esperado. Na manhã de 20 de setembro, os farroupilhas entram triunfalmente em Porto Alegre. Não trazem índios degoladores, como temiam as famílias. Nem escravos de charqueadas sedentos por butins, como alarmavam os comerciantes portugueses aos fuxicos.
Diogo participou desse grande momento da história do Rio Grande. Fez desenhos sérios mostrando o momento histórico, mas também algumas charges engraçadas e irônicas que foram enviadas, especialmente, para o jornalista de “alcunha” (apelido) de Bagre e sua coluna.
─O que esse encrenqueiro abolicionista está fazendo no meio de nós? - perguntou Everaldo ao seu comandante assim que avistou Diogo no mesmo pelotão que ele.
─Ele foi convidado pelo “chefe” para retratar nossos combates com seus desenhos. - respondeu o outro. ─E claro, lutar!
─Ele é um perigo! Ele não luta pelos mesmos motivos e ideais que nós!
─Se tu quiser reclamar Everaldo, vai ter que falar direto com Bento.
─Você gravou? -perguntou Diogo um tanto aturdido após voltar da regressão.
─Sim. Quer ouvir?
─Não. Ainda está muito vivido na minha mente.
Eloy se levantou do sofá e caminhou até o quadro.
─Sua voz muda quando fala nela, quando Sophie está na cena.
─Muda como?
─Parece a de outra pessoa.
─Vai ver é o meu amor por ela. - ele disse sem pensar, e quando se deu conta olhou para o quadro. ─Eu a amava! Agora, é a única certeza que tenho disso tudo que estou vivendo, ou revivendo.
─Já é alguma coisa. -disse Eloy sorrindo e batendo no ombro dele. ─Vamos jantar que saco vazio não para em pé.
─Sim, e me conta a quanto está a minha popularidade nas redes sociais. - riu descontraído.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,