Masuk11
Os Imperiais governavam o Rio Grande do Sul, recebendo ordens do Império. Eram também chamados pelos Farrapos, de conservadores, restauradores, retrógrados, caramurus e galegos. Ocupavam os principais postos nos órgãos públicos e no exército.
Quando Everaldo atravessou a porta do quarto de Afroline, ela saltou da cama e se jogou em seus braços. Beijaram-se ardentemente, enquanto se despiam para unir seus corpos. Em cima dela, ele segurou o belo rosto entre as mãos.
─Eu te amo, minha morena! Que saudade que eu senti! Quase morri sem ti! Não sei o que fiz para te merecer, mas agradeço por isso!
─Eu amo o que tu é por dentro. Aquilo que tu não mostra. Aquilo que tu não consegue ser. Eu amo tua alma, o quanto tu foste em outras vidas.
Ele sorriu e beijou-a.
─Tu acredita mesmo nisso, não é?
─Sim.
─Eu acho que por ti, eu seria capaz de mudar e me tornar uma pessoa melhor.
─Sinceramente, eu não acredito nessa mudança. Não ainda. Mas não deixo de te amar por isso.
E ele a possuiu de todas as maneiras possíveis, na ânsia de saciar o imenso desejo de seu corpo, e o amor em seu coração.
Mais tarde, quando Everaldo entrou em casa, Emília o esperava na sala andando de um lado ao outro. Parou e examinou-o com um olhar de repulsa. Ele estava mais magro, mais velho, e terrivelmente abatido. Mesmo assim não perdia a atitude arrogante, que costumava passar primeiro que ele pela porta.
─Não podia ter esperado para visitar tua amante mais tarde? Poderia ao menos ter se interessado e entrado em casa para saber se estávamos vivas e inteiras depois de tantos anos.
Ele a fitou com os olhos espreitados surpreso com aquele comportamento.
─Minha mulher me afrontando! Mas que coisa mais fantástica! - exclamou irônico. ─Eu sei tudo que preciso de cada um que vive nesta estância. Sei até demais!
Emília foi até ele e parou a sua frente.
─Em três anos muitas coisas mudaram por aqui, senhor meu marido. Não sabe mais quem tu tem dentro de casa. E isso vale para todos que estão sob esse teto. Eu fui obrigada a casar contigo, mas apesar disso, um dia eu te amei...
─Me amou, tanto que me traiu, e com quem não devia! - ele esbravejou. Ela se afastou. ─Não recomece com esse assunto. Tu não tem condições morais para sustentar a gravidade de tua traição! Vou ficar pouco tempo. Vim para dar uma olhada, e retorno daqui a dois dias para o front de batalha.
Sophie entrou na sala com Luzia e suas primas. Parou no instante que sentiu o cheiro do pai. Ficou séria e rígida.
─Soube que tem feito um bom trabalho com Afroline.
─Sim. Não tenho medo do trabalho.
─Tenho que confessar, tu me surpreende, Sophie.
Sophie se aproximou dele e parou.
─Se vai me perguntar daquele revolucionário, soube que está sumido dos campos já há algum tempo. Não sei se está morto ou desertou. Muito menos os amigos dele. Acho que a segunda opção é a verdadeira.
Sophie sentiu seu coração parar por um minuto. Ouviu os passos do pai se afastando e deixou as lágrimas e a suas esperanças caírem por terra.
Justino beijou Emília com saudade e paixão.
─Não volte mais para essa guerra. Fique aqui! Vamos pensar em algo. - pediu ela, desesperada. ─Eu não suporto mais essa vida. Eu não suporto mais viver neste lugar. Vamos embora e deixar tudo para trás! Podíamos ir para Pelotas e depois...
─Não podemos fazer isso agora, Emília. - ele a abraçou em desespero. ─E depois, eu tenho receio da atitude do meu irmão.
─Ele nunca fez nada, por que faria agora?
─Estamos em guerra! Não é uma guerra organizada nos moldes clássicos. São táticas de guerrilhas. De um momento para o outro, num descuido qualquer, podemos ser mortos até mesmo por um dos nossos. Proposital, ou não. Agora é fácil matar um companheiro e até um irmão pelas costas. Everaldo nunca fez nada, para não ter que assumir que foi traído pela mulher e o irmão... tu sabe, não preciso te lembrar.
Ela baixou os olhos por um momento.
─Eu me apaixonei por ti logo depois que o conheci. Eu não tive culpa de meus pais escolherem o irmão errado para o casamento arranjado, para dar mais poder e riqueza as nossas famílias.
─Eu sei Emília! Nós não tivemos culpa. Não do nosso amor, mas da traição sim. Não me sinto bem com que o fiz. E tu sabe bem no quanto nossa vida mudou depois que fomos descobertos por ele e por Vera. No inferno que eles promoveram a partir daí. No quanto destroçaram as nossas vidas.
─Tu te arrependeste? - ela indagou desolada.
─Nunca! Eu te amo, mulher! Eu amo tudo o que tu me deste nesta vida!
─Será que nós nunca seremos felizes?
─Já sou feliz. Estamos juntos. Por breves momentos, mas juntos!
Ele a beijou mais uma vez com desespero. Arrancaram as roupas e se amaram ali mesmo, no velho galpão, o esconderijo preferido do casal. O lugar aonde extravasava seus sentimentos e os mais íntimos e insanos desejos.
Justino abraçou Sophie carinhosamente, lembrando do quanto àquela pequena era corajosa e forte vivendo na sua intensa escuridão. Nas coisas que Emília contara que ela vinha fazendo na estância. Estava com pena da expressão de cansaço no rosto dela. O quanto era grande o amor que sentia por ela, e na vontade de protegê-la de tudo e de todos.
─Emagreceu muito, minha querida.
Ela sorriu tristemente se afastando.
─Não é fácil a vida na lavoura e na charqueada, tio. Se antes eu já me condoía pelos escravos, depois desses anos, posso dizer que sinto na pele o que eles sentem. E odeio ainda mais quem maltrata os escravos como meu pai e todos os escravagistas! Se trabalhar nessas feições já é duro, imagina sendo torturado fisicamente? Como as pessoas de bom senso, bom coração, podem fechar os olhos para essa barbaridade, tio?
─Eu entendo, e me faço a mesma pergunta, minha filha. - ele suspirou arrasado com a tristeza dela. ─Penso como tu. Teu pai deveria ter deixado alguns homens aqui... Estão muito judiadas, sofridas, e essa guerra... já tão longa, não sei se tem previsão de acabar antes de todos nós morrermos. Já é um milagre, hoje, estarmos em casa.
─Eu sei tio. Estamos bem. Continuaremos bem. Consegui acertar um caramuru, acredita?
─Pois eu fiquei sabendo e estou muito orgulhoso de ti minha prenda!
─Não deu tempo de pensar na hora, mas depois foi muito estranho e ruim ter a certeza de que matei uma pessoa.
─Foi em legítima defesa. O que eles poderiam ter feito contra vocês?
Sophie recebeu um beijo na testa, ficou em silêncio por um tempo e perguntou depois de tomar coragem.
─Ouviu falar de Diogo? Sabe alguma notícia dele?
Justino a analisou. Ela tinha no olhar toda a dor da saudade. Não poderia contar para ela. Não naquele momento.
─Não, minha filha. Nada, mas assim que voltarmos para os campos de batalha vou procurar saber dele.
Ela suspirou assentindo com os olhos cheios de lágrimas.
Em sua casa, na sala, Justino se sentou na cadeira, depois de Vera ignorá-lo como sempre fazia; o que ele preferia. Afinal, o casamento deles era de fachada. Lembrou da noite em que ouviu a conversa de Everaldo com mais dois amigos numa das tendas no acampamento.
─Não podemos fazer isso, Everaldo. É traição! E depois há um acordo de libertarmos os negros depois da guerra. Pelo menos quem sobrar, e estão lutando bravamente com suas lanças. São verdadeiros guerreiros, destemidos!
─Por mim esse acordo de livrar essa negrada é desfeito. Entregar Diogo e seus comparsas para o império será um serviço prestado por tantas complicações que ele já nos arranjou.
─Eu não tenho coragem de trair um parceiro neste momento. - disse um terceiro que ouvia a conversa com atenção. ─Aqui precisamos um do outro como o ar que respiramos.
─Se é por falta de coragem, deixem comigo. Eles estão indo no caminho certo, é só dar um empurrãozinho para serem pegos pelos galegos.
Justino respirou fundo e deu uma tragada no seu palheiro. Um dos homens que estivera na prisão de São Vicente, contou os horrores e as torturas que eram submetidos pelos Imperiais. “Eu conheci o inferno, dissera ele. Tenho pena dos nossos companheiros que ainda estão lá.”! Foi então que Justino teve a sorte ou a mão divina de esbarrar num dos fronts com Tião, Barnabé e Aloísio, amigos de Diogo.
─Soubemos que ele foi preso, armaram uma armadilha para ele. Uma traição! - disse Tião num tom revoltado. ─E desconfio de quem tenha sido o traidor.
─Pense nisso depois, ele está na prisão de São Vicente. Quem me contou disse que ele ainda está vivo... apesar de todas as torturas. Eu soube que era Diogo, porque o sujeito falou em sua habilidade em desenhar até com um pedaço de pedra na parede, e ele ter dito que era de Viamão. - avisou Justino.
─Pois é para lá que nós vamos. - afirmou Tião grato e esperançoso.
─Não podemos deixar o front, ou vão nos dar como desertores. - resmungou Barnabé.
─Que pensem o que quiser! Que nos cacem! Não vou deixar meu amigo morrer! Não, preso desse jeito. Justo ele que luta tanto pela nossa liberdade! Quando meu bisavô foi trazido para cá com a mulher grávida dentro de um navio negreiro, ordenou que a mulher roubasse um facão e cortasse suas mãos e seus pés das correntes, e se jogou para morrer no mar. Disse que ia ser livre em outros mundos. Ele era um Rei, um guerreiro! Guerreiros não se deixam aprisionar! Preferiu morrer a se entregar! Minha avó se deixou escravizar para que meu pai nascesse e depois a mim. Nascemos escravos! Aos cinco anos de idade, Diogo levou uma noite inteira, mas cortou minhas correntes quando me roubou do meu algoz. Ele me deu a liberdade! E eu não vou deixar o meu amigo, irmão, morrer numa cela.
Estavam todos em silêncio ouvindo a sua história. Justino ainda mais aliviado por ter encontrado as pessoas certas. Aloísio perguntou.
─E como tu pretende entrar numa cela tão bem protegida?
─Entro de preto, entro pelado, mas eu entro. Ninguém me verá. À noite, a sombra não existe. Eu serei a própria sombra. Tenho a negritude ao meu favor. E eu vou tirá-lo de lá!
E Justino não tivera mais notícias dos rapazes, e se a missão de resgatar Diogo da cadeira dera certo, ou não.
Os homens da estância das Magnólias partiram de volta para os campos de batalhas, deixando um estranho silêncio por todo lugar. As mulheres voltaram a se dedicar ao trabalho, embora estivessem muito cansadas. Na primeira oportunidade sozinha com Afroline, Sophie fez um comentário que há dias pairava em sua cabeça.
─Eu entendo que tu tenha sido obrigada, no início, a ficar com meu pai. Mas agora... ? Eu vejo que tu quer isso mesmo.
A mulher parou de trabalhar no couro e levantou os olhos para a garota que estava um pouco mais a frente, segurado uma bacia cheia de sal grosso nas mãos.
─Você sabe a diferença entre amor e paixão?
Sophie sorriu desanimada.
─Como posso saber se sinto as duas coisas por Diogo? Mas tu com meu pai... ele é um ser... desprezível! Tu foste obrigada a ceder como escrava!
─Sim, eu fui obrigada, mas pelo destino. Eu poderia ter evitado, acredite. Eu tenho poder para tanto, mas eu não o fiz. Sophie, teu pai é um homem, um ser humano e como tal sujeito a erros e acertos.
─Mais erros tu quer dizer. Ou melhor, maldades! Na maioria das vezes ele é um monstro!
Afroline se aproximou, tirou a bacia pesada das mãos dela e segurou-a pelos ombros com delicadeza. A garota sentiu arrepios e fechou os olhos por um momento.
Viu em sua mente uma menina deitada na cama, sendo coberta por Everaldo, na calada da noite com extremo cuidado. Em outro momento, recebendo um beijo na testa, enquanto dormia. Numa conversa com Rodezio.
─Fique de olho preso nela. Pode se machucar feio, mas eu não quero que ela corra riscos e nem se sinta uma inválida por não poder andar por aí.
─Sim, sinhô. Estarei de olho na sinhazinha.
Sophie se arrepiou involuntariamente e mais outra imagem nítida.
─Se ela estiver muito extenuada, poupe-a do trabalho Afroline. Coloque outras mulheres em seu lugar. Eu estou realmente, espantado, com a competência dela em comandar este lugar nessa condição!
─Ela é uma pequena orgulhosa e valente. Não vai aceitar. A cegueira de Sophie é só um mero detalhe para ela.
─Eu sei. - ele disse com certo orgulho. ─Ela usou sua vulnerabilidade, a cegueira, para se fortalecer. Nunca se fez de vítima. Pelo contrário, sempre foi guerreira.
Sophie abriu os olhos parados no nada, surpresa. Vira coisas impossíveis de ver por sua cegueira, mas tão claras como o sol e as estrelas, que ela jamais vira.
─Paixão Sophie, sentimos pelo belo, pelo que podemos ver, pelo que podemos tocar e sentir. Amor verdadeiro sentimos pelo invisível do outro. Aquilo que não podemos ver, e que o outro esconde de todos. Até de si mesmo. Eu amo teu pai! E da maneira dele, ele te ama.
Ela deixou a garota sozinha com seus pensamentos confusos. Sophie deixou as lágrimas quentes escorrerem pelas faces pálidas.
─Clotilde está grávida. - confidenciou Yolanda a Emília. As duas estavam em frente ao fogão apurando um doce de abóbora. Um luxo naquela época de guerra e de tanta escassez. Falavam de Clotilde, a irmã mais nova de Everaldo e Justino.
Emília a olhou, escandalizada.
─Como se... Orlando não veio com os homens? Ele está em Laguna desde o princípio da guerra!
Yolanda concordou.
─Mas... com quem ela se deitou?
─Ela não quer dizer. Mas desconfio que foi com Adamastor.
Emília deu um passo para trás. Adamastor era quase dez anos mais jovem que Clotilde, empregado da estância há alguns anos e homem de confiança de Everaldo, também na guerra. Fizera uma visita às escondidas sem que ninguém o percebesse na estância. Orlando tinha um temperamento violento que todos conheciam, e seria bem capaz de matar os dois.
─Emília, não é hora de julgar, precisamos ajudar Clotilde. Não esqueça que tu já passaste por isso.
Emília corou, aceitando a argumentação da irmã, e disse num tom de cautela:
─Vamos conversar com ela mais tarde. Com esse tempo todo de guerra, tem se ouvido muitos rumores de mulheres grávidas. E muitas não são de seus homens. Alguns não vieram nem uma vez para casa, como no caso de Orlando. Já começam a chamar essas crianças de filhos da revolução.
Yolanda assentiu preocupada. Havia tantas questões delicadas por de trás da guerra, tempos tão difíceis, situações tão tristes, que não tinham mais certeza de nada, muito menos de como seria o amanhã. Mulheres sozinhas, desamparadas, tendo que tomar decisões importantes, e por vezes matar para defender suas famílias. E agora mais essa, mulheres grávidas, que por sua carência, maus tratos dos maridos, a distância dos homens que, pelo menos as conduziam pela vida, por tanto tempo sozinhas, estavam tendo casos extraconjugais. Mas como culpá-las? Perguntou-se Yolanda. Era preciso entender suas necessidades, principalmente a solidão que as atormentavam a noite em suas camas. Foram mulheres criadas para serem dependentes, submissas, obedientes. Quase sempre maltratadas, mal-amadas e traídas. Aquela guerra era também, pela libertação das esposas e filhas “escravas”.
Alguns dias depois, um dos índios que Everaldo deixou na fazenda, para ajudar as mulheres, encontrou um caramuru ferido perto da senzala. Foi um alvoroço na estância.
─Mande terminar de matá-lo! - exclamou Emília. ─Eu não acredito que esta negra, acaba de dizer, que devemos tratar o miserável. Afinal de que lado tu está?
Afroline não respondeu. Deu as costas e saiu da cozinha. Sophie caminhou até a mãe.
─Às vezes eu me pergunto o que a senhora tem no lugar do coração. Gostaria muito de saber.
─Ora, Sophie! Pelo amor de Deus! Colocar o inimigo dentro de nossa casa? São contra esses homens que teu pai, e o amor da tua vida estão lutando!... E tu vem me falar de caridade?
─Ele não vai entrar, vai ficar na senzala. E depois pense como a senhora gostaria que papai fosse tratado se fosse o contrário?
A garota saiu deixando-a sozinha.
─Teu pai que se danasse! Mas Justino... - ela se sentou na cadeira trêmula chorando.
Afroline examinou o rapaz muito ferido. Quase morto. Não usou seu poder de cura com ele, mas passou a tratá-lo com a ajuda das outras mulheres. Com sorte conseguiria sobreviver.
─Será que não estamos colocando em riscos as nossas vidas com ele aqui? - perguntou Sophie a Afroline.
─Acredito que não. Ele é muito jovem. Posso sentir na energia vinda dele o quanto está assustado. Deve ter visto e passado por muita coisa nos campos de batalhas... Os dois lados padecem.
Sophie deixou um soluço escapar. Afroline foi até ela.
─Não fique assim...
─Como não? Diogo pode estar morto! Papai esteve em casa, Diogo não apareceu uma única vez, e já faz um pouco mais de três anos que essa maldita guerra começou!
─Ele está bem. Tenha fé!
Afroline a observou melhor. Sophie estava mais magra, abatida, o cabelo seco e opaco, mas muito mais adulta. Trabalhava de sol a lua sem reclamar, muitas vezes poupando as outras. Não se alimentava direito, e seu olhar fixo no nada, estava apagado e sem vida.
─Sinto uma dor tão profunda Afroline... - ela soluçou mais uma vez. ─... tenho medo de nunca mais tocá-lo, ouvi-lo... já não posso vê-lo com a minha cegueira... - caiu num pranto sentido.
Vânia que entrara na senzala sem ser percebida; se abalou com a tristeza da prima e disse:
─Caeté disse outro dia, que os grupos de vivandeiras crescem a cada dia nos campos de batalhas. Por que você não vai ao encontro de um desses grupos?
─Tu está louca? - exclamou Afroline, zangada. ─Não dê ideia para sua prima!
Mas Sophie já não ouvia mais nenhuma delas. Saiu rapidamente com os pensamentos em alvoroço.
─É muito perigoso, Sophie... - disse Deusa olhando-a com incredulidade. ─É outro mundo! Uma realidade totalmente diferente do que tu está acostumada e depois...
─Eu sou cega e a senhora me acha incapaz. - ela completou.
─Não. - se arrependeu a outra. Esqueceu como aquela menina era perspicaz. ─Não foi isso que eu quis dizer, quer dizer... Sim! Vou ser sincera! Tu não tem condições de ficar num acampamento em um campo de batalha sendo cega. Aqui tu tem proteção e estabilidade.
─Por favor... me desculpe, mas eu não preciso de conselhos agora. Eu vim aqui para pedir ajuda! Quero procurar Diogo! Quero saber se ele está vivo ou morto! Como faço? Aonde ir? Quem procurar? Me diga apenas, e eu farei o que for preciso!
Deusa sentiu um aperto no peito. Sophie era tão forte e ao mesmo tempo tão indefesa em sua cegueira. Não tinha ideia do que acontecia nesses campos e que presa fácil seria no meio de tantos homens vivendo um momento selvagem. Viu as lágrimas brotarem, naqueles lindos olhos rodeados pelas olheiras escuras, e se condoeu no fundo da alma.
─Eu vou te ajudar. Eu vou te guiar. Vou ser teus olhos. Mas tu terá que fazer tudo que eu m****r. Tudo mesmo!
Sophie se levantou lentamente da cadeira onde estivera sentada desde que chegou, com uma expressão de assombro.
─F-faria... isso por mim?
─Eu farei! Por ti, por Diogo, por mim! Afinal, qual é a graça da vida sem um pouco de aventura? Na guerra, pequena Sophie, servimos de alento aos homens. É uma prática comum e muito usada. Para te proteger, precisarei chegar ao extremo. Tua beleza será um atrativo, e tua cegueira, a tua vulnerabilidade.
─É só me dizer o que fazer. Serei obediente e atenta.
Sophie agradeceu entre lágrimas. Deusa já pensava em quem levar para usar como servas sexuais dos homens que encontrariam no caminho e nos campos de batalha. Precisaria pensar numa maneira de esconder um pouco da beleza daquela garota.
Luzia passava um pano úmido na testa do caramuru, quando o viu abrir os olhos dando-lhe um susto. Ele tinha os cabelos castanhos, olhos verdes, e a barba crescia rapidamente. Deu um pulo para se afastar, mas ele a segurou pelo pulso com uma força estranha para quem estivera em seu leito de morte por dias.
─Não. Por favor, não fuja! Não vou lhe fazer mal. - disse com a voz enfraquecida.
Luzia relaxou e continuou sentada na beira da cama, colocada na senzala para ele.
─Onde eu estou?
─Estância das Magnólias.
─Porto Alegre?
─Viamão.
─Como vim parar tão longe? Meu cavalo?
─Não sei. Caeté o achou. O índio da estância.
Ele assentiu prestando a atenção na beleza daquela negra maravilhosa. Luzia pressentiu.
─Não tenha ideias sobre mim.
Ele deu um sorriso que fez o coração dela disparar.
─Difícil não ter com uma beleza tão radiante como a sua. Mas não se preocupe, não sou o tipo de homem que usa de violência com as mulheres, sejam elas brancas ou negras.
Ela assentiu e se levantou devagar.
─Alguém vai trazer algo de comer.
─Não pode ser vosmecê?
─Por quê?
─Me sentirei mais seguro. Ser um caramuru e não ter sido morto de vez... já é um milagre. E ainda tratado por um anjo de ébano, outro milagre. Enfim essa guerra infeliz parece ter um lado bonito. A propósito, me chamo Genaro.
─Luzia.
Com o coração ainda disparado, ela saiu da senzala com um sorriso tímido e o olhar brilhante lembrando-se das palavras de Tião: “O amor combina com todas as cores.”
Giuseppe Garibaldi conheceu Luigi Rossetti no Rio de Janeiro, com quem se juntou à Revolução Farroupilha. Também conheceu Bento Gonçalves ainda em sua prisão, no Rio de Janeiro, e obteve dele uma carta de corso para aprisionar embarcações imperiais. Em 1 de setembro de 1838, Garibaldi foi nomeado capitão-tenente, comandante da marinha farroupilha. Rossetti e Garibaldi transformaram seu pequeno barco comercial Mazzini em corsário a serviço da República Rio-Grandense. No caminho para o sul, atacaram um navio austríaco, com uma carga de café e trocaram de navio com seus ocupantes, rebatizando a nova embarcação de Farroupilha. Enquanto Rossetti desembarcava no porto de Maldonado, Garibaldi foi capturado pela polícia marítima uruguaia, acabando preso na Argentina.
Depois de algum tempo preso, tendo inclusive sido torturado, conseguiu fugir e chegar ao Rio Grande do Sul. Junto dos republicanos, entre eles conheceu Diogo com qual dividiu histórias sobre o tempo na prisão e as torturas, que Diogo também sofrera, na prisão de São Vicente por quase dois anos. Giuseppe foi encarregado de criar um estaleiro, o que foi feito junto a uma fábrica de armas e munições em Camaquã, na estância de Ana Gonçalves, irmã de Bento Gonçalves. Lá Garibaldi coordenou a construção e o armamento de dois lanchões de guerra. Para participar da empreitada marinheiros vieram de Montevidéu e outros foram recrutados pelas redondezas.
─Ho bisogno di, Diogo. Non pensate neppure di che desiderano una pausa ora che il tempo. Lei è un uomo di grande valore e molto importante in questa guerra. (Preciso de você, Diogo. Nem pense em querer uma folga agora neste momento. Você é um homem de muito valor e muito importante nesta guerra.)
E Diogo, mais uma vez, precisou adiar sua visita a sua terra, sua mãe e seu grande amor. Estava engajado naquele momento, naquela luta, em servir, em ser útil, em fazer parte da história, mas principalmente de ajudar a mudar e dar um novo rumo aos escravos no país. Ele ajudou na construção dos barcos, e nos momentos de raras folgas desenhava suas charges para Bagre o jornalista para quem ele trabalhava, quando conseguia enviar, o que a cada dia e mês se tornava mais difícil. Foram lançados à água os lanchões Seival e Farroupilha. Porém, acossados pela armada de John Grenfell, não tiveram muito sucesso: capturaram alguns barcos de comércio desprevenidos, em lagoas ou rios longe da armada imperial. Surgiu, então, o plano de levar os barcos pela lagoa dos Patos até o Rio Capivari e, dali, por terra, sobre rodados especialmente construídos para isso, até a barra de Tramandaí, onde os barcos tomariam o mar.
Os farrapos despistaram a armada imperial e conseguiram enveredar pelo estreito do rio Capivari e passaram os barcos a terra em 5 de julho de 1839.
Puxados sobre rodados, os dois lanchões artilhados, com cem juntas de bois, atravessaram ásperos caminhos, pelos campos úmidos - em alguns trechos completamente submersos, pois era inverno, com tempo feio, chuvas e ventos, que tornavam o chão um grande lodaçal. Cada barco tinha dois eixos e quatro grandes rodas, revestidas de couro cru. Piquetes corriam os campos entulhando atoleiros, enquanto outros cuidavam da boiada. Levaram seis dias até a lagoa Tomás José, vencendo 90 km e chegando a 11 de julho.
No dia 13, seguiram da lagoa Tomás José à barra do rio Tramandaí, no oceano Atlântico e no dia 15, lançaram-se ao mar com uma tripulação mista de 70 homens. O Seival, de 12 toneladas, era comandado pelo norte-americano John Griggs, conhecido como "João Grandão", e o Farroupilha de 18 toneladas, comandado por Garibaldi - ambos armados com quatro canhões de doze polegadas, de molde "escuna"
Por fim, a 14 de julho de 1839, os lanchões rumaram a Laguna para atacar a província vizinha. Na costa de Santa Catarina, próximo ao rio Araranguá, uma tempestade pôs a pique o Farroupilha, salvando-se milagrosamente uns poucos farrapos, entre eles o próprio Garibaldi e Diogo que escapava da morte pela terceira vez. Duas delas, naquela guerra.
Até quando, ele não sabia, mas tudo que ele desejava era manter-se vivo para poder retornar para sua guria.
Diogo acordou da regressão. Sentia a cabeça latejar. Demorou algum tempo para se lembrar onde estava, e quem era. Fitou o amigo.
─Tudo bem?
─Sinceramente? Não sei... Estou totalmente perdido, me sinto estranho, vazio, perturbado...
O terapeuta respirou fundo, e apagou o gravador.
─Melhor seria dar um tempo. Acho que você precisa de um tempo.
─Não! - ele levantou do sofá e fitou o quadro a sua frente. ─Não quero tempo. Quero entender o que está se passando neste lugar, e porque eu estou vendo essas coisas. - ele se voltou para Eloy. ─Eu não quero acreditar, mas... tenho quase certeza de que eu vivi isso tudo...essa loucura toda. -ele se voltou para o quadro. ─Eu lembro que quando era pequeno tinha umas visões estranhas. Eu via uma mulher, mas nunca enxerguei o rosto dela. Eu lembro que ela falava comigo. Eram sussurros, às vezes eu ficava terrivelmente assustado, outras eu me sentia seguro e bem.
─Não lembra o que ela dizia?
Diogo fitava o quadro intensamente. Tentava tirar do fundo de suas memórias lembranças esquecidas há muito tempo.
─Algo importante, mas... não consigo lembrar.
Sentiu um estranho arrepio em suas costas, como se algo ou alguém tivesse passado por ele. Virou-se para trás. Eloy acompanhou o movimento também sentindo a presença de uma poderosa energia.
─Tem algo muito forte nesta casa. - disse Eloy levantando-se, lentamente. ─E tenho certeza de que com o tempo e as regressões, logo teremos as respostas que precisamos.
Num restaurante pequeno no centro do município de Viamão, os dois amigos conversavam já fazia algum tempo.
─Conte-me um pouco sobre sua vida. - pediu Eloy.
Diogo baixou os olhos para o copo de água tônica, sentindo seu corpo tremer. Era a falta do álcool. Eloy havia reparado o quanto ele estava sofrendo com a abstinência e com tudo que estava acontecendo com ele, resolveu distraí-lo para assuntos generalizados.
─Sei de sua manobra. - Diogo riu nervoso. ─Está difícil sem o álcool. Estou há três dias sem beber e logo começarei a dar sérios problemas para você. Isto se eu não surtar antes.
─Eu aguento. - ele riu escondendo sua preocupação.
─O que vou contar que você já não saiba? Nasci numa família de posses. Eu e meu irmão mais jovem tivemos de tudo, até o que não devíamos. Minha mãe não gostava muito de ser mãe, então deixava a nós dois com as babás. Aprendemos sobre sexo com uma delas. Eu com doze anos e ele com nove. Ela tirava a roupa e deixava que nós “a aproveitasse” da melhor maneira possível. Era uma mulher de mais ou menos trinta anos, corpulenta e muito bonita. – ele bebeu a tônica num gole só. Ansiava por sair correndo e se atirar na primeira garrafa de uísque. ─Meu irmão cresceu sem problemas com isso, mas eu acabei me transformando num sujeito um tanto promíscuo. - riu irônico. ─Sexo para mim sempre foi pura sacanagem. Quando conheci Isabela, fiquei encantado, apaixonado, e me casei com ela. Tinha um puta tesão por ela, amava fazer amor com ela, mas de madrugada ia para frente do computador e ali, eu escrevia, bebia, fumava e ficava de putaria com várias mulheres pela web cam.
─Sei disso. - disse Eloy penalizado.
─E o Brasil inteiro, já que um desses momentos, batendo uma punheta, foi parar na rede. - disse Diogo. ─ O estopim que faltava. Minha mulher me largou com uma ação na justiça que me levou boa parte do meu patrimônio.
─Casaram com comunhão de bens...
─Sim. Para dizer a verdade, ela deveria ter me tirado todo o resto. - ele suspirou entristecido. ─Eu gostava muito dela, mas não soube respeitá-la, muito menos a pessoa maravilhosa que ela era. E o mais triste... depois de tanto tempo, é que, só agora me dou conta disso. - seu olhar estava angustiado. ─Só agora percebo o quanto fiz aquela garota sofrer.
─Não se culpe tanto Diogo.
─Preciso me culpar! Eu sou um grande filho da puta! Eu nunca fui legal com ninguém! ... Tendo essas visões, ou seja, lá o que for, percebo a minha total inutilidade...ou, eu estou louco! É isso! Devo estar louco! O que eu fiz de bom nessa vida? Escândalos! Como quando eu bebi demais numa festa, e como tenho muitos inimigos por aí, dois deles, resolveram me deixar pelado e me largar na Avenida Paulista às dez horas da manhã de uma segunda-feira! Eu sou muito bom nisso, doutor! Beber e escandalizar... ou servir de palhaço para a mídia!
Eloy tentou segurá-lo, mas ele saltou da cadeira e saiu em disparada do restaurante. O médico lembrava-se daquele escândalo, das fotos e dos vídeos. Os críticos caíram de pau sobre ele. Houve todo tipo de comentário. Um ponto foi ao seu favor, a beleza. Talvez fosse a beleza que não o deixou cair na sarjeta. As mulheres adoraram poder apreciar sua nudez, e totalmente de graça, nas fotos postadas na internet.
Diogo caminhou por várias ruas, e por muitas delas enfrentou faróis e ouviu buzinação. Parou num bar de esquina, olhou em volta, colocou a mão no bolso e ao constatar os trocados, pediu uma garrafa de água ardente da mais barata. Precisava do álcool amigo. Precisava senti-lo descendo pela garganta e aliviá-lo daquela abstinência terrível. Não tinha ideia de como, mas depois de muito tempo, e muita cachaça, conseguiu chegar à estância, e quando parou em frente à casa, fitou a janela com a nítida sensação de que alguém estava lá a sua espera.
─Sophie! - gritou se embalando. ─Eu voltei para você minha prenda! Minha guria... - riu alcoolizado. ─Você não precisa sair a minha procura, eu disse que voltaria. E eu voltei! Não sou mais aquele Diogo de 1835.... eu nem sei que tipo de Diogo eu sou, mas eu...sei que posso melhorar com você! Desce aqui... eu não vou poder subir...- gargalhou. ─Eu estou muito bêbado... O outro eu...o Diogo de 1835... Ah, esse filho da puta era o cara! Era um herói, né? Um verdadeiro herói dos escravos e dos farrapos! Eu sou um cretino que adora fazer os outros sofrerem. - soluçou. ─Sabe que eu matei meu irmão? Pois é... todos dizem que foi suicídio, mas eu e ele...sabemos que não foi. Eu o matei... - chorou. ─Eu o matei... - teve a impressão de ter visto melhor a face do vulto parado lá em cima, mas não teve tempo de muita coisa, pois o carro de Eloy parou em frente à casa e ele saltou do carro indo em sua direção.
─Nossa cara! Onde você se meteu? Vasculhei todo esse município...
─Mentira... - riu entre lágrimas, a cada segundo mais bêbado. O álcool surtindo o efeito. ─Este município é grande... pra caralho!
Diogo se segurou nele para não cair, e soluçou mais alto. Eloy o ajudou a subir a pequena escada em frente a velha porta.
─Eu não quero dormir... Eu quero a Sophie. Eu preciso dela, entende?
─Eu sei, e você vai vê-la de novo, por hora vamos para o seu quarto.
─Não... me deixe aqui neste sofá...quero ficar olhando para ela. Eu preciso dela... ela é a minha vida!
E assim que ele se atirou no sofá e se recostou, caiu num sono profundo.
Epílogo Não faças aos outros o que não quereríeis que vos fosse feito, mas fazei-lhe, ao contrário, todo o bem que está em vosso poder fazer-lhe.Allan Kardec Depois do natal, Diogo encontrou o momento certo para explicar a Diná, que ela poderia ser da oitava geração, e por tanto, descendente da família que viveu naquela estância. Conversavam em frente ao quadro de Sophie. Diná analisava a pintura em êxtase. Conseguia ver muitas semelhanças, e embora o quadro tivesse chamado a atenção dela no primeiro momento
23 A hora da verdade! Então algo inusitado, obra divina, destino, força do ódio ou a força do amor aconteceu. Antes de voltar aos campos de batalha, Diogo retornou a Estância das Magnólias,
22 1842Os farroupilhas se desorganizam, minados por intrigas.O Império se fortalece. O vice-presidente da República, Antônio Paulo da Fontoura, é assassinado em Alegrete. Nesta época os imperiais contavam com oito mil homens, crescendo sempre com contingentes enviados do centro do país. No final deste ano Caxias iniciou sua campanha com 12 mil soldados, munição à vontade, e bem equipados
21 Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.Allan Kardec Sophie ficou dias num estranho coma. Ela dormia o tempo inteiro, só acordava quando ela, realmente, queria. Não comia, cuspia a água que lhe era enfiada garganta abaixo. Não queria tomar banho, e sentia que alguém a lavava de maneira gentil com um pano úmido, secava e a vestia. Às vezes aqueles movimentos em seu corpo lhe davam vida e ânimo. S
20 Os espíritos protetores nos ajudam com os seus conselhos, através da voz da consciência, que fazem falar em nosso íntimo - mas como nem sempre lhes damos a necessária importância, oferecem-nos outros mais diretos, servindo-se das pessoas que nos cercam.Allan Kardec Daniel entrou no quarto do hospital, onde Diná estava hospitalizada depois da tentativa de suicídio. Ela estava abatida, mais magra, e seus olhos claros, totalmente sem brilho. Estava sentada na cama, e olhava pa
19 A nossa felicidade será naturalmente proporcional em relação à felicidade que fizermos para os outros.Allan Kardec Sophie foi, praticamente, levada à força até a grande mesa da sala usada para as visitas em tempo de festas na estância. Sentia o peso da barriga, e sentia fome. Muita fome! Foi uma tortura sentir aquele cheiro de churrasco entrando em seu quarto. Não queria dar o braço a torcer, mas quando foram chamá-la, ela precisou confessar, a si mesma, que esperava por isso, ardentemente. Adorava uma boa costela gorda! Seu tio... ou melhor,