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Capítulo 8

Author: Emíliana Vaz
last update Petsa ng paglalathala: 2021-08-10 07:27:30

                                                              8                                         

  "Outro forte indício de que os homens sabem a maioria das coisas antes do nascimento é que, quando crianças aprendem fatos com enorme rapidez, o que demonstra que não estão aprendendo pela primeira vez, e sim os relembrando."

Cícero (106 - 43 a.C.)

   

      No sábado à noitinha a estância foi invadida por um bando de jovens, alguns com suas motos possantes, outros em seus carros com aparelhos de som potente, tocando todo tipo de música numa confusão sonora como, funk, sertaneja, pagode, rock, eletrônica, trazendo muita comida e bebidas de todos os tipos. Kate, Julinha, Nick e Douglas, entraram sala à dentro. As garotas estavam receosas. Os garotos riram as assustando.

    ─Será que ele foi embora e esqueceu de nos avisar? - indagou Douglas.

    ─Vai saber! O cara já é muito doido, e hospedado nesta casa... - concluiu Kate sentindo arrepios.

    ─Este lugar me dá medo! - disse Julinha.

    ─Ninguém nunca viu a tal assombração. - refletiu Douglas um tanto receoso.

    ─Algumas pessoas que estavam na estrada disseram ter visto um vulto na janela.

    ─Já teve quem dissesse ter visto dois!

    ─Parem! - gritou Kate arrepiada. Ela parou em frente à lareira. ─Olha isso! Que rosto lindo!

    ─Se ela é a assombração, pode aparecer todas as noites no meu quarto. Eu deixo. - Nick brincou encantado com a pintura.

A sala encheu a ponto de dificultar a locomoção. Os quatro jovens saíram em busca do anfitrião sumido. Subiram a escada, e bateram de porta em porta. O encontraram numa das últimas.

     Eles rodearam a cama. Diogo estava completamente apagado.

      ─E-ele está vivo?

      ─Está Julia! Olha o peito dele subindo e descendo. - respondeu Nick. ─Deve ter tomado um verdadeiro porre!

   Kate admirou o corpo musculoso, ele vestia uma calça jeans e estava sem camisa. Mais magro, mas não menos atraente.

     ─Ele é tão bonito e tão perdidão... Tem coisas que a gente não consegue entender.

     ─Ele estava no auge até 2015. E a queda foi tão rápida que se esborrachou! O vicio o ajudou, e mais as bolas foras, né?

     ─Vamos dar um banho nele. - decidiu Douglas.

─Eu vou curtir ajudar no banho. Tirar umas fotos pro F******k. - riu Julinha.

     ─Se manda daqui; as duas! - ordenou Nick.

Embaixo do chuveiro com o choque da água fria, Diogo acordou assustado e fitou os rapazes sem reconhecê-los.

     ─O barzinho, a festa no sábado, lembra?

     ─Claro! Nick! Douglas. - ele olhou um tanto confuso de um para o outro e sorriu ao ver que acertou os nomes e não esquecera as fisionomias. ─E as meninas?

     ─Lá embaixo. A festa tá bombando, cara! Só falta o dono.

Diogo ouviu a música alta, os gritos e os risos, e sorriu alegremente.

     ─Enfim, um pouco de vida e realidade neste mausoléu! Tem comida e bebida?

     ─Tem bastante, e muita mulher pra tu comer também!

     ─Mas elas são de maiores? Longe de mim essas garotinhas.

     ─Tem de tudo. É só escolher!

E eles riram em total descontração.

     

    No andar de baixo a festa corria solta. Pessoas dançando na sala e do lado de fora da casa. Vários carros com os faróis ligados iluminando o ambiente. Uma imensa mesa recheada de comida, e muitas caixas de isopor, coolers cheios de bebidas. Garotas o paravam para tirar selfies com ele para as redes sociais. Diogo ria ainda meio zonzo, efeito de tanto beber e dormir, mas pensou:

    De volta ao mundo! Segurem esta seus babacas e suas putas!  Afinal, o autógrafo em tempo digital era a própria selfie! Diogo observou as garotas dançando funk, outras dançando sertanejo e até a música da tal cantora que bateu nele. Riu, era muito irônico! Mais ainda quando o pegaram para dançar. Ele deu uma sacudida e reparou numa garota dando o maior mole para ele. Parou Nick e perguntou:

    ─Quem é ela?

Nick acompanhou o olhar dele.

    ─Priscila, irmã de Kate.

    ─Não é menor, né?

    ─Tem vinte e nove anos, gostosa e linda! Só tem um problema.

    ─Qual?

    ─Casada.

    ─E o que faz aqui?

    ─Adora fugir do marido e aprontar. Diz que ele não a satisfaz e então tá sempre chifrando o cara.

    ─Não se pode mais confiar nas mulheres. - bebeu um gole de sua cerveja e deu uma longa tragada no seu cigarro. Julia passou por ele e disse rindo:

─Minha foto com você no I*******m já passou de mil curtidas em menos de uma hora! Tá bombando tio!

Diogo riu contrafeito.

    Tio? - resmungou. ─Estou em total decadência...

    Logo a seguir esqueceu o desgosto ao ver a loira vir em sua direção e tirá-lo para dançar. Duas músicas, o suficiente para fugirem para o andar de cima no quarto dele. Priscila usava um vestido curto e tirou a calcinha rapidamente.

   ─Maravilha! Uma rapidinha é tudo que eu preciso.

   ─Eu também, ainda mais com alguém tão famoso como tu!

Diogo a beijou e apalpou os seios macios puxando um deles pelo decote. Derramou um pouco de cerveja e sugou com vontade fazendo a garota dar um gritinho.

   Ela entre abriu as pernas e ele a pôs sentada na velha penteadeira com o espelho nas costas dela. Colocou a camisinha que ela lhe deu e penetrou-a sentindo um intenso prazer.

   ─Você é gostosa...

   ─Eu sei. Todos me dizem isso. – ela mordeu o lábio inferior.

   ─Imagino quantos...

   ─Muitos! Cala a boca e me come!

Diogo a obedeceu sem reclamar. Ela gozou sentada, de costas e de quatro na cama.

Quando acabaram ela perguntou onde era o banheiro e ele ficou olhando-a se afastar.

    ─Se eu acreditasse em Deus pediria perdão por não respeitar a mulher do próximo. - bebeu mais um gole de sua cerveja. Foi para o corredor, e usou o banheiro do quarto ao lado, descendo em seguida. Ao chegar na ponta da escada, ele se assustou.

    ─Porra! De onde saiu tanta gente?

Ao som dos carros ao máximo, centenas de pessoas dançavam entre a sala, cozinha, fundos e frente da casa.

    ─Muita gente vai se lembrar da noite em que Diogo abriu a Estância das Magnólias pra esse tremendo festão! - disse alguém que ele não sabia quem era.

Ele olhou para a porta de entrada e viu um homem enorme. Ele chamava um nome, com o som alto era impossível ouvir, mas pela leitura labial ele entendeu: Priscila.

Foi até ele.

     ─Onde está a vagabunda da minha mulher? - ele pegou uma cerveja e veio direto em direção de Diogo.

     ─Será que ele adivinhou que acabo de comer a mulher dele?

     ─Então tu és o famoso escritor fracassado?

     ─Em pessoa! - tentou rir nervoso com aquele brutamonte.

     ─Aquela descompensada da Pri disse que vinha até essa maloca, que todos dizem ser assombrada, pra te conhecer com a irmã dela. Chego aqui e encontro uma puta festa. Aliás, o F******k inteiro tá sabendo desta festa!

     ─Entendi de onde veio este povo... - Diogo resmungou.

     ─Um bando de desocupados!

     ─Não. São jovens querendo aproveitar a vida. Você já nasceu velho por acaso?

O grandalhão riu e se apresentou.

      ─Jota!

      ─Pois é Jota, como vocês dizem aqui no Sul, deixa a gurizada aproveitar.

      ─Tu viste minha mulher? Uma loira de peito e bunda grande? Tudo silicone. Eu que paguei pra ela ficar dando por aí. Sou um trouxa mesmo!

Diogo quase gargalhou, procurou se conter.

     ─Vi não, mas vamos procurar!

   Priscila tomou um banho rápido. Pegou a toalha de cima da cadeira e se secou vigorosamente enquanto sorria satisfeita. Em sua lista, Diogo era o terceiro famoso que ela transava naquele mês! Um jogador de futebol, um comediante de stand up e agora um escritor! A cada nova trepada, ela ficava mais exigente. Logo seria um político, quem sabe? Ela riu. Levantou o rosto para o espelho e seu sorriso morreu, empalidecendo. Virou e olhou para trás, nada! Tentou gritar, mas não conseguia. Quando finalmente sua voz saiu, ela botou a boca no mundo. No espelho estava a mulher de cabelos brancos, muito branca a ponto de ser transparente, olheiras em volta dos olhos e a boca roxa. Era uma figura aterrorizante!

   Quem ouviu os gritos dela disparou escada acima. Diogo e Jota tiveram dificuldade de passar com tanta gente no corredor. Ela estava vermelha e rouca de tanto gritar, estática na frente do espelho.

    ─Por que está desse jeito? Estava dando pra quem? - Jota berrou.

Diogo tratou de acalmá-lo, pois a garota estava em choque e ele já desconfiava o que tinha acontecido.

     ─O que foi?

Ela tremia e balbuciava.

     ─Ela... estava ali...no espelho...olhei pra trás e... não tinha ninguém...

     ─Ela ainda está ali?

     ─Não.... ela sumiu quando entraram ...no banheiro, ela parecia que ia me matar...- e ela desandou a chorar.

    Todos ficaram em silêncio, sentiram a veracidade do terror no tom de voz dela. Diogo começou a tirar todo mundo do quarto e Jota a abraçou penalizado com o estado trêmulo de sua mulher. Diogo desceu a escada, aparvalhado. Observou a maioria dos jovens indo embora assustados com todo tipo de comentários.

    ─Eu tô apertada, mas não vou ao banheiro. - disse uma das garotas.

     ─Vamos de uma vez! Tô louca de medo deste lugar!

     ─Vamos ficar e tentar fazer um vídeo com esse fantasma. Já pensou? Vai bombar no Face!

      ─Que noite foda! Uhuuu! Comi três gatas, enchi a cara e teve até assombração! -gritou um garoto animado e bêbado.

Diogo começava a ficar atordoado com aquele movimento, aquela falação já não estava lhe fazendo bem, e suspirou aliviado quando viu mais de a metade partir em pouco tempo. Lá fora no pátio, estavam Julia, Kate, Nick, e Douglas com algumas pessoas.

      ─Será que ela viu mesmo?

      ─Minha irmã é tudo Julia, menos louca.

Ouviram outro grito estridente, era Priscila de novo agora na frente do quadro.

       ─Era ela!

Diogo entrou na sala correndo. Era tudo que ele precisava ouvir.

       ─Tem certeza?

       ─Tenho sim... era ela!

   Jota a pegou no colo e levou-a para o carro. Diogo olhava para o quadro desconcertado.

      ─Vocês sabem de alguma coisa sobre essa mulher?

Algumas pessoas que estavam com ele ouviram. Um deles disse.

       ─Não sei se é ela, mas dizem que houve algumas mortes aqui neste lugar. Tipo um massacre. Mas ninguém sabe direito. Tem um historiador no centro da cidade que talvez possa te contar algo sobre o assunto. Procura ele, velho. Conversa com ele.

 Velho? Era só o que me faltava! pensou Diogo, irritado. E com todas as informações que vinha recebendo através de seus sonhos pelos próprios protagonistas, quem precisaria de um historiador?

   Uma voz feminina ao lado dele que, ainda estava com os olhos fixos no quadro, disse.

       ─Há uma lenda sobre este lugar. Dizem que aqui viveu uma mulher que amou muito, mas tanto que nem a morte conseguiu levá-la, e que ela ainda estaria presa na casa esperando o seu grande amor voltar.

Diogo se arrepiou por inteiro. Foi involuntário. Olhou para o lado e não viu ninguém. Deixou-se cair no sofá e bebeu de um gole só a sua cerveja quente e sem sabor.

       ─Por que resolveu aparecer para duas mulheres e para mim, que sou o maior interessado nesta história, nada? - gritou abalado chamando a atenção de alguns jovens ainda lá fora.

       ─Diogo? Tudo bem?

       ─Não! Deem o fora! Deixem-me em paz! – e ele jogou a garrafa contra o quadro a espatifando com força

Saiu para rua, precisava de ar.

     O vulto andava pela sala.

      ─Enquanto você não acreditar, realmente, não vai poder me ver...

   Uma semana sem sonhos, sem imagens, sem pistas, sem nada. Diogo parecia um animal enjaulado. Algumas vezes pensara em quebrar o quadro, mas sentiria muita falta dele. Era a única coisa real que o ligava aquela situação bizarra que estava vivendo. Saiu desatinado e passou a andar pelas terras, surpreendendo-se com o tanto de velhas casas que ainda estavam de pé, depois de um morro alto que cobriam suas imagens vista pela casa. Todas em bom estado e completamente vazias. Daria para umas dez famílias habitá-las com conforto.

    ─Quem é o dono destas terras? Isso aqui tem futuro! Por que ninguém está aqui tomando conta? E como ainda não foi invadido? Preciso obter mais informações sobre este lugar. - lembrou o que Rudi lhe dissera no último telefonema.

“Olha, bem oportuna essa pergunta, eu estava num jantar com a Sonia e havia um grupo de homens e mulheres e um casal era aí do Sul. Eu disse que precisava encontrar um lugar sossegado para um amigo escritor trabalhar e eles me indicaram essa casa. Deram-me a chave dois dias depois. Eles são os responsáveis. O cara é dono de uma imobiliária, a que cuida dessa estância. E o melhor, me emprestou, sem custo algum. Disseram que ninguém se interessa por esse lugar. Que estão até pensando num leilão, já que até hoje nenhum herdeiro veio reivindicar seus direitos.”

   À medida que foi ganhando mais distância, ele parou e fechou os olhos por um momento, uma imagem veio a sua mente. Sophie e Deusa. Abriu os olhos. Não, agora era sua imaginação.

    O dia ainda estava claro, mas pelo horário de verão já eram quase oito horas da noite, ele tinha caminhado uma longa distância. Conforme ele caminhava, as imagens continuavam vindo a sua mente, como pedaços de um filme sendo editado.

     Deusa abriu a porta e levou um verdadeiro susto.

    ─Guria! O que faz aqui? Tu não estava na corte?

Sophie sorriu com o olhar parado no vazio ao lado de Luzia.

    ─Sim, mas eu resolvi vir embora. A guerra é mais do que concreta, o clima na corte não é bom e depois ficaria difícil, entende?

    ─Claro! Mas no que posso te ajudar?

    ─Quero um quarto, por uns dias. Para mim e Luzia. - diante o silêncio da mulher ela falou rapidamente. ─Eu pago! O que for!

     ─Será que eu entendi? O quarto é para ti e...

     ─Sim! Preciso ficar um tempo com ele antes de voltar para a estância sem que ninguém saiba. Eu sei que ele esteve aqui quase morto.

     ─Esteve. Afroline o curou com suas mãos milagrosas. - ela suspirou desanimada. ─Tudo bem, guria. Eu te ajudo. Mas sei que vou arranjar problemas...

      ─Não, não vai. Eu te prometo. Ficaremos escondidas aqui até eu ir para casa. Ninguém saberá.

      ─Certo.

Deusa arrumou dois quartos, lado a lado para as duas, e quando acomodou Sophie, esta lhe fez um pedido.

       ─Posso tocar teu rosto?

       ─Claro... - disse Deusa com precaução.

    Sophie fez uma investigação minuciosa com a ponta dos dedos pelo rosto delicado. Deusa tinha os cabelos ruivos crespos e longos. Um rosto bochechudo com sardas e olhos verdes, um corpo gordinho, mas curvilíneo, usava decotes profundos, e cintura bem marcada nos seus vestidos de cores alegres. E era dona um coração imenso!

       ─Tu é bonita... - uma lágrima escorreu dos olhos de Sophie.

       ─O que foi guria?

       ─Não sei... Mas, sinto que já nos conhecemos. Tu sente o mesmo?

       ─Não. Te conheço porque já vieste aqui, mas fora isto, não me lembro de ti, nem magra e nem mais gorda!

Sophie sorriu carinhosamente e limpou as lágrimas.

        ─Sabe quando ele virá?

        ─Com sorte, essa noite, se acaso conseguirem levar alguns negros e índios para Mostardas onde alguns jesuítas os esperam.

Sophie sorriu esperançosa. Esperança que enfraqueceu depois de três dias e nada dele aparecer.

       ─Será que aconteceu algo com ele?

       ─Não sei sinhá. Dona Deusa não sabe também. Mas não vamos pensar o pior.

Naqueles três dias, Luzia aproveitou para conhecer melhor a casa de Deusa, que chamavam de prostíbulo. Era uma construção bonita, bem-feita, e com muitos cômodos. Conheceu as moças que trabalhavam na casa, as famosas chinocas. Fez amizades com elas, e trocaram até confidências. A maioria com histórias tristes, mas duas chamaram sua atenção. Bernadete e Jandira saíram cedo de casa, em busca de liberdade.

       ─Me cansei de ser mandada por pai, mãe, irmão e a família inteira! -exclamou Jandira.

       ─Eu tinha um fogo que não dava para segurar mais. Aqui é o melhor lugar para isso!

As mulheres riram. Bernadete quem tinha dito a última frase olhou-a com atenção.

       ─E tu, rapariga? O que quer da vida?

       ─Eu tenho tudo. - ela sorriu carinhosamente.

       ─Tudo? - indagou Jandira assustada. ─Tu não tem o principal que é a liberdade.

       ─Minha sinhá me dá a liberdade que preciso.

       ─Ela não te dá nada! - retrucou Bernadete. ─Ela te trata como escrava como todos os escravagistas dessa terra, só que de maneira dissimulada. “Basta que tu a chama de sinhá”!

Luzia sentiu-se mal com aqueles comentários. Tentava defender Sophie, mas a cada palavra delas ficava um pouco mais na dúvida sobre tudo o que acreditava.

       ─Tu é guia de uma cega! - exclamou Bernadete num tom bravo. ─Se ela quisesse já teria...

Nesse instante, elas foram interrompidas por Tião, que entrava na sala onde faziam as reuniões. Era um negro alto, forte, de rosto bonito, e parou para observar Luzia, também uma linda negra de virar a cabeça de qualquer homem. Se não estivesse com o coração tão comprometido por Dulce, uma das chinocas de Deusa, quem sabe poderia até se apaixonar por ela.

       ─Não encham a cabeça da moça de dúvidas. Uma carta de alforria não é fácil de ser conseguida com um tipo como o pai de Sophie. Conheço bem a fama de Everaldo. E se a filha quiser essa carta para sua amiga, terá que brigar muito com ele.

Luzia sorriu sem graça, principalmente quando Dulce entrou na sala e correu até ele o beijando afoitamente na frente de todos. Ficou em choque ao ver uma mulher loira com um negro naquela intimidade. Aproveitou para ir até o quarto de Sophie.

No momento que ela entrou e fechou a porta, Sophie percebeu o mal-estar.

     ─O que foi Luzia?

     ─Nada sinhá...

     ─Por favor... - ela suspirou desanimada. ─Sou cega, mas posso sentir até o cheiro de energias ruins. O que está te preocupando?

     ─Sinhá... algum dia teve intenção de me libertar de verdade?

Sophie se levantou da beira da cama com uma expressão horrorizada. Luzia sentiu-se mal no mesmo instante.

      ─Por Deus, Luzia! Tu ainda duvida?

      ─Não! Quer dizer... um pouco...

      ─Eu não posso acreditar que se sinta uma escrava comigo. Sempre deixei claro que tu é minha amiga. Nem no meu quarto quero que tu durma mais para não te sentir uma criada. Não te peço nada, nem mesmo um copo d’água, apenas tua companhia, e se ainda não te dei essa carta foi porque meu pai nem me deixou falar sobre ela!

Luzia foi até ela e a abraçou com força, chorando.

       ─Me perdoa sinhá! Eu não deveria ter falado sobre isso!

       ─Devia sim! Vou dar um jeito nessa carta assim que chegarmos à estância. Eu te devo isto, eu te prometi e vou cumprir.

        ─Não, tu não me deve nada! Eu sou livre e feliz ao teu lado. Sou grata, pois se não fosse esta amizade, com certeza eu estaria num lugar horrível!

        ─Duvide da minha incapacidade para algumas coisas, mas jamais da minha amizade e do meu amor por ti Luzia.

      

        Diogo parou em frente à casa. Olhou em volta. Agora era uma visão, ou seria sua imaginação? Estava tão impregnado com a história, que começava a ter visões acordado. Um carro se aproximando da casa o despertou de seu devaneio.

Um homem de mais ou menos trinta e cinco anos saltou do carro. Era alto, cabelos e olhos escuros, magro e simpático. Aproximou-se de Diogo sorrindo e estendeu a mão.

    ─Eloy Mascarenhas!

    ─Claro! - ele sorriu aliviado. ─Diogo o lunático! Até que enfim alguém com quem eu possa compartilhar essa loucura toda! Pelo menos que não vai me chamar de louco no primeiro momento.

    ─Não. Por mais complicado que pareça, tudo tem uma explicação. -Eloy olhou em volta. ─Então esta é a Estância das Magnólias.

    ─Já ouviu falar dela além do que eu contei pelo telefone?

    ─Andei bisbilhotando um pouco por aí. Este local tem muitas histórias. Você procurou se informar?

    ─Não... - ele sacudiu a cabeça, desanimado. ─Um erro imperdoável para um jornalista, não é? É o álcool...

Eloy assentiu condescendente.

        ─Vamos entrar. Você se acomoda num dos quartos, e poderemos sair para jantar na cidade.

    ─Claro! E então, você me conta o que está acontecendo.

Ao entrarem na sala, Eloy deu uma olhada em volta e parou no quadro, se aproximando devagar.

     ─Um lindo rosto! E que cor de cabelo maravilhoso! As mulheres pagam pequenas fortunas por esse tom de cabelo hoje em dia. É a garota dos seus sonhos?

     ─Loucura ou não, sim é ela.

     ─A garota perfeita para qualquer homem sonhar! - disse Eloy sorrindo.

Durante o jantar, Diogo contou tudo num breve resumo. Afinal, era, ou fora considerado um dos melhores jornalistas do país, embora estivesse com a imagem tão marginalizada. E naquele dia, um pouco mais, depois das tantas imagens bebendo, fumando, dançando, fazendo caretas, espalhadas nas redes sociais.

     ─Estou ficando louco?

     ─Um pouco confuso talvez, mas louco não.

     ─Isso pode acontecer? Alguém dormir e reviver uma vida passada? Se é que existe uma vida passada!

 Eloy bebeu um gole de seu vinho.

     ─Você não acredita, mas está passando por uma experiência muito estranha.

Diogo fitou o vazio e por fim o encarou.

     ─É, tem razão. Dizer, neste momento, que não acredito seria estupidez. Mas me conte um pouco sobre o método chamado regressão.

     ─É usada para padrões de comportamento, fobias, medos aparentemente infundados, são comportamentos gerados por acontecimentos no passado. Seja nesta vida, principalmente na primeira infância, até os cinco anos, ou mesmo em vidas pretéritas. Na verdade, padrões negativos de comportamento são causados por bloqueios gerados em algum momento da vida, (ou outra vida) em que tenha havido alguma vivência intensa do ponto de vista emocional. - deu uma pausa para beber um gole de seu vinho. ─ Geralmente, nossa memória grava acontecimentos que tenham sido muito bons ou muito ruins para o indivíduo. Esses acontecimentos criam uma espécie de mito pessoal, uma dinâmica que se repetirá se projetando em acontecimentos semelhantes na vida presente e futura. Nestes casos, a regressão é importante, pois estes acontecimentos estão sempre esquecidos e guardados no "porão” da nossa mente que é o subconsciente e que não podemos acessá-lo pelo consciente. Por isso, a regressão, ao levar o paciente a reviver essas cenas, pode reelaborar em seu psiquismo o fato, assim ocasionando a mudança profunda que se espera para sanar o conflito interno e a sedação dos sintomas.

       ─É possível regredir a outras vidas?

       ─Este é um assunto polêmico, pois na verdade questiona-se muito a veracidade ou não de tais vivências. Alguns críticos questionam ser na verdade criações mentais do paciente. O próprio paciente consegue diferenciar o que é criação e o que é na realidade lembranças, pois quando são estas últimas a emoção da revivência é muito forte.  Na verdade, na abordagem transpessoal acreditamos que existe uma memória chamada psicogenética que guarda a consciência emocional do indivíduo, e esta não se desfaz como o corpo físico, ficando disponível a uma próxima encarnação. Não se trata de constatar a veracidade ou não da regressão ser as vidas passadas ou criação mental, mas sim o resultado terapêutico da regressão, que é visível e profundo.

     ─Mas você, como psicoterapeuta em regressão e psicanalista, acredita?

     ─Eu creio. Na maioria dos casos que tratei, depois foram comprovados de alguma maneira ser verdade. E confesso que estou bem impressionado com o que está acontecendo com você. Pelo que me contou, o seu sono vem sendo usado para regressões. Temos que descobrir quem as conduz.

     ─A garota do quadro?

     ─Sim, você me contou que ela apareceu para uma garota e nenhuma vez para você. Já parou para pensar que ela pode ter se sentido desrespeitada por você? Afinal, você trouxe uma intrusa para o espaço dela.

     ─Na verdade ela apareceu para duas garotas... E ela está morta!

     ─Não é bem isso. Mas não vou tentar te convencer num jantar. O tempo, e tudo que você tem vivido naquele lugar, já tá surtindo certo efeito, não é?

Ele assentiu desanimado.

     ─E o que faremos?

     ─Amanhã começaremos o tratamento com a hipnose. Mas, você precisará fazer algo para que tudo dê certo.

     ─O que?

     ─Parar de beber.

Ele bufou, bebeu mais um gole de seu uísque e tragou seu cigarro. Talvez fosse o último gole por muito tempo.

    ─Vai ser difícil, mas vou tentar.

    ─Estarei aqui com você. Pelo menos até o início de dezembro.

    ─Quanto isso irá me custar?

    ─Casa, comida e roupa lavada. Quero ajudá-lo. Interessei-me muito pelo que está acontecendo com você.

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