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Capítulo 3

Author: Tulle
Quando eu saí do salão de festas, tomei uma decisão: nessa vida, eu iria viver bem com o meu filho. Eu não voltei para o meu apartamento no centro da cidade, fui direto para o aeroporto.

Na vida passada, foi justamente porque eu fiquei naquela cidade que eles conseguiram me encurralar até o fim. Nesta vida, eu decidi que fugiria bem antes de eles tentarem qualquer coisa contra o meu bebê.

Eles tinham sido cruéis, e eu também não tinha mais laço nenhum com eles.

Mas eu subestimei a capacidade do Adriano. Quando ele percebeu que eu tinha sumido, meu cartão bancário foi bloqueado, meu celular foi rastreado e até a passagem de avião que eu tinha comprado com antecedência foi cancelada.

Eu tinha virado um pássaro preso em uma gaiola, sem ter para onde ir.

No fim, o único lugar que consegui encontrar foi uma casinha alugada na periferia. A dona do imóvel, uma velhinha, com pena da minha barriga enorme de grávida, decidiu cobrar só metade do aluguel.

Mas, no fundo, eu sabia que essa calmaria não ia durar. Não deu outra: dois dias depois, Adriano me encontrou ali.

— Nilda, o que você esteve fazendo escondida aqui esses dias? — Ele ficou parado na porta, com uma expressão gentil. Vestido de terno e gravata, completamente destoava daquele condomínio caindo aos pedaços.

Eu o encarei com frieza:

— Sr. Adriano, o senhor veio me procurar por quê?

— Que tipo de pergunta é essa? Está todo mundo preocupado com você! — Adriano fez um rosto cheio de sofrimento. — Eu quero levar você de volta. Vamos viver todos juntos como uma família.

Meu coração vacilou. "Uma família"… Será que a minha mudança finalmente tinha despertado a consciência deles?

Mas, antes que eu pudesse ter alguma ilusão, a frase seguinte dele me jogou direto em um poço de gelo.

— Na verdade… — Ele hesitou, e uma expressão desconfortável passou pelo rosto. — A gente precisa da sua ajuda com a Kayra... Ela encontrou uma receita secreta que, combinada com o sangue de um bebê prematuro, pode curar a doença dela.

Meu corpo todo estremeceu. Naquele instante, as lembranças da vida passada arrombaram minha mente como uma tempestade: o brilho cortante da sala de cirurgia, o cheiro sufocante de desinfetante, os gritos ansiosos dos médicos e, por fim, a escuridão avassaladora...

— Cai fora! — Eu gritei ao empurrá-lo com todas as forças. — Vocês não vão colocar as mãos no meu filho!

Como eu ainda pude nutrir esperança em relação a eles? Era ridículo demais!

— Para com essa histeria. — Adriano franziu a testa. — É só fazer o bebê nascer um pouco antes e tirar uma amostra de sangue. Isso não vai causar nenhum problema para a criança. Por que você está sendo tão egoísta?

— Egoísta? — Eu comecei a rir ironicamente, enquanto as lágrimas desciam descontroladas. — Adriano, esse filho também é seu! Como pode…

Antes que eu conseguisse terminar, o meu pai e a minha mãe apareceram correndo pela escada.

— Nilda! — Minha mãe se atirou às minhas pernas. — Por favor, pelo amor de Deus, salva a Kayra! Ela é sua irmã!

Eu me desvencilhei dela com toda a força:

— Irmã? Em que momento vocês já me trataram como se eu fosse filha de verdade?

— Mas o que…? — Meu pai explodiu de raiva. — A gente pelo menos te trouxe de volta para casa e te deu uma vida confortável. Como é que você pode ser tão sem coração?

— Quem é sem coração não sou eu, são vocês! — Eu gritei a plenos pulmões, e senti a dor rasgar o meu peito.

Eu já tinha cedido. Eu já tinha me afastado, já tinha me escondido para não atrapalhar a beleza daquela "família ideal" que eles tinham construído. Por que eles ainda insistiam em me encurralar até o fim, exigindo a vida do meu filho?

— Irmã… — Kayra começou a subir devagar a escada, um degrau de cada vez. — Desculpe… Tudo isso é culpa minha, porque eu fiquei doente…

O rosto dela estava inacreditavelmente pálido, o corpo magro como uma folha seca voando ao vento, parecendo que ia cair a qualquer momento.

Quando minha mãe e meu pai viram o estado deplorável dela, eles ficaram arrasados, atropelando-se para amparar a filha.

— Não fale assim! — Minha mãe chorava abraçada à Kayra. No meio do desespero, ela me lançou um olhar de puro ódio e gritou: — A culpa é toda nossa, por termos trazido essa vadia de volta! Foi isso que te deixou doente! Ela ganhou dinheiro e ainda não ficou satisfeita! Ela roubou o que é seu! Ela destruiu você! Essa desgraçada devia morrer no seu lugar!

Um sorriso carregado de sarcasmo subiu aos meus lábios.

Essas eram as pessoas que me deram a vida. E ainda assim elas tinham coragem de me xingar de desgraçada sem nenhuma hesitação.

Elas me desprezavam, me amaldiçoavam, desejavam a minha morte.

E o que foi mesmo que eu fiz de errado? Se havia algo mais desprezível ali, não seriam justamente eles?

— Chega, Nilda… Para com essa cena. — Adriano segurou a minha mão.
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