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FRONTEIRAS PERIGOSAS
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Rose Blanc

Capítulo I - Parte 1 – Infância, raízes e formação

last update Veröffentlichungsdatum: 01.06.2026 02:28:33

Parte 1 – Infância, raízes e formação

Nasci a 100 km da fronteira do Paraguai com o Brasil, no estado de Concepción, como a segunda filha de uma família de sete irmãos. Quando meu pai se casou com minha mãe, ele era viúvo e já tinha dois filhos, que foram criados pela minha avó paterna até se tornarem adolescentes.

O casamento da senhora Soledad e do senhor Rubén foi marcado por altos e baixos, mas minha mãe nunca deixou transparecer sequer um resquício de infelicidade para os filhos. Porém, sendo mais velha que a maioria dos meus irmãos, eu notava o relacionamento conturbado que viviam, demonstrado em brigas e discussões.

A todo tempo ela se esforçou para ser um exemplo de mulher forte para os filhos. A verdade é que minha mãe queria nos fazer valentes para não vivermos as mesmas páginas da história dela, porém, algumas coisas — ou a maioria delas — são incontroláveis na vida. Brinco que herdei o carma da senhora Soledad, pois ela teve muitos problemas com a sogra, e eu também vivi inúmeros deles com a mãe do meu — agora — ex-marido.

Só adulta passei a entender o que se passava dentro de casa. Minha avó paterna não aceitava minha mãe, criticava-a muito e, para que os filhos não se frustrassem com a avó, a senhora Soledad não deixava que meus irmãos e eu soubéssemos disso.

O que ela ensinou às quatro filhas mulheres, desde pequenininha, é que nunca deveríamos deixar um homem nos maltratar. “Vocês precisam estudar para não depender de ninguém”, dizia. Depois de adulta eu entendi que ela dependia financeiramente do meu pai e, mesmo que quisesse se separar por conta da infidelidade dele, não conseguiria.

Apesar de nunca ter cursado faculdade ou até mesmo concluído o ensino básico, havia sabedoria em tudo que ela dizia. “Fazemos de nós o que queremos. Se você se respeitar, tenha certeza que as pessoas também vão respeitar você”, costumava nos aconselhar. Os ensinamentos dela criaram filhas com caráter forte, de posicionamento, que não aceitam ser humilhadas. Eu guardei suas palavras, e isso me tornou uma mulher firme e independente.

Soledad não era uma mãe que dava sermões, ao contrário, presenteava os filhos com liberdade. Se eu quisesse ter seguido por caminhos tortuosos, teria conseguido, porque ela nunca vestiu a capa de mulher controladora, apesar de estabelecer limites. Entretanto, o que nunca nos faltou foram conselhos sobre ética, humildade e empatia — o que na época nem sabíamos que tinha nome para “escutar as pessoas e tratá-las da maneira que gostaríamos de ser tratados”.

Acredito que ela tenha aprendido muito com meu avô, que infelizmente morreu há alguns anos. Ele sempre nos ensinava a não nos engrandecer perante os outros. “Não critique ninguém. Você nunca sabe onde aperta o sapato de alguém se não andar ao menos cinco quilômetros com ele”, aconselhava.

Nos anos 80, a maior parte da população andava a pé, a cavalo ou usava carroça onde eu morava, uma cidade bem simples do interior do Paraguai, com 4 mil ou 5 mil habitantes naquele tempo. Sempre que viajantes passavam em frente de casa e paravam para pedir um copo de água, meus pais os serviam. Muitas vezes, se era perto do horário de almoço, eles também ofereciam um prato de comida, principalmente se havia crianças na família. Assim aprendi a tratar todos com respeito, sem discriminação de cor, raça ou nacionalidade; é a mesma lição que passo para o meu filho hoje.

Cresci em um ambiente humilde, mas com uma situação financeira equilibrada. Meu pai era agricultor e comerciante. Tínhamos um minimercado dentro de casa que vendia itens alimentícios, roupas e sapatos. Meus pais também eram donos de terras onde criavam galinhas, alpacas, porcos e cultivavam frutas.

O senhor Rubén era muito carinhoso e brincalhão, mas ausente. Vejo-o como uma criança adulta que ninguém podia dominar: não escutava a esposa e fazia tudo do jeito que queria. Talvez, para fugir um pouco dos problemas que tinha com minha mãe, ele enchia a caminhonete de mercadorias e viajava por semanas.

Vivi uma infância feliz ao lado de muitas amiguinhas. Sem televisão em casa, brincávamos na rua e dormíamos tarde. Fui uma criança tímida, mas, à medida que crescia, essa característica também se transformava dentro de mim. Tornei-me firme, uma pessoa que quando deseja algo, faz acontecer.

Desde criança sou autodidata, não precisava de supervisão adulta para estudar ou aprender coisas novas. Mesmo sem exemplo dentro de casa, sempre tive interesse nos estudos. Com 10 anos eu já era uma das poucas crianças que fazia curso de informática; também estudei jornalismo juvenil e vários outros cursos oferecidos pelo governo. Fazia parte do time de handebol da escola e participava de campeonatos.

Com 15 anos pedi aos meus pais para me mudar para Assunção, capital do Paraguai, que fica a 400 km da minha cidade natal, com o intuito de cumprir o que desejava desde meus 11 anos: estudar. Eu falava para meus pais que, se ficasse na cidade onde morávamos, provavelmente meu futuro seria viver um relacionamento abusivo, como tinha acontecido com muitas das minhas amigas que se casaram jovens, com 14 ou 15 anos.

— Eu não vou ser o tipo de mulher que apanha do marido — garanti a eles. — Quero estudar.

Minha mãe apoiou meus planos mais que meu pai:

— Se você quer ir embora para se dedicar aos estudos, não tem problema, pode ir.

Já o senhor Rubén se preocupou com a possibilidade de eu engravidar em Assunção e ter que deixar meu filho para eles cuidarem, algo que deixou claro: não aceitaria. De fato, muitas mulheres que saíam do interior para a capital em busca de uma vida melhor, voltavam depois de um ano com uma criança nos braços, mas o que eu realmente almejava era me tornar biomédica.

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