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Capítulo II - Parte 1 Cem ligações

last update Veröffentlichungsdatum: 01.06.2026 02:45:43

Cem ligações

A primeira vez que vi minha ex-sogra eu fiquei em choque. Isso aconteceu alguns meses antes do meu casamento, em uma viagem ao Brasil durante minhas férias. Naquela ocasião, Gabriel e o pai dele me buscaram no aeroporto para almoçarmos na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro (RJ).

— Tome muito cuidado com ela… — meu sogro alertou antes mesmo de eu conhecer a mãe de Gabriel, quem aqui vou chamar de Perla.

Embora eu tivesse conversado com ela uma ou duas vezes por telefone, trocamos poucas palavras, como “olá, aqui é a Rose. Tudo bem com a senhora?”. Nada além disso. Meu ex-marido raramente mencionava a mãe também, por isso, a única informação que eu tinha era que ela estava bastante doente.

No final de semana, Gabriel me levou para a casa da mãe, onde ela morava com o segundo marido. Para minha surpresa, era uma mulher na faixa dos 50 anos dopada por medicamentos, que dormia durante o dia, perambulava em casa à noite, fumava demais e tinha as mãos trêmulas. Quando me viu, encarou-me sem dizer uma única palavra. Era assim todos os dias; o único momento em que conversava com alguém era por telefone, mas eu nunca soube quem estava do outro lado da linha.

Na verdade, eu tive medo da minha ex-sogra e contei o que sentia a Gabriel. Ela mantinha os olhos tão fixos em mim que parecia pronta para saltar em meu pescoço a qualquer momento.

— Ela não vai te machucar, Rose — Gabriel me explicou. — É que minha mãe sofre de depressão e síndrome do pânico…

Era visível que ela estava em estado emocional grave, no entanto, eu não tinha conhecimento sobre patologias mentais. Naquele dia preferi dormir na sala de estar que no quarto de hóspedes, pois, certa ou errada, foi assim que me senti segura.

A casa de Perla parecia parada no tempo. As cortinas permaneciam fechadas durante o dia, a luz do sol quase não entrava, e um cheiro constante de cigarro impregnava as paredes, os móveis e até as roupas que secavam no varal. A televisão ficava ligada em volume baixo, em canais de notícias que ninguém assistia; era como um ruído de fundo que preenchia o silêncio incômodo daquele ambiente.

O padrasto de Gabriel tentava levar uma rotina “normal”: saía cedo para trabalhar, cuidava de pequenas tarefas da casa e, sempre que podia, comentava comigo sobre o quanto a doença dela havia mudado a vida de todos. Falava baixo, quase em confidência, como quem carrega um cansaço antigo:

— Ela já foi uma mulher muito vaidosa, sabe? Sempre arrumada, cheirosa, risonha… Mas depois que a depressão começou, perdemos um pouco daquela pessoa.

Eu ouvia em silêncio, dividida entre a compaixão e o medo. Era difícil conciliar a imagem daquela mulher abatida, com olhar perdido, com a descrição da antiga Perla ativa e vaidosa. Ao mesmo tempo, algo dentro de mim já sussurrava que eu estava entrando em um território delicado, que exigiria mais de mim do que eu imaginava naquele momento.

Desde que havia ingressado na faculdade, Gabriel não morava mais com a mãe. No entanto, tratado por Perla como uma criança adulta, todo final de semana precisava voltar para a casa dela, às vezes sozinho, outras vezes com os amigos. Se não agisse dessa forma, a mãe o buscava onde estivesse, fosse na faculdade ou no bar, ajoelhava-se aos prantos e questionava a razão de o filho não querer visitá-la. A cena só não acontecia quando ele saía com os amigos na cidade em que ela morava. Nessas ocasiões, ela ainda ligava uma ou duas vezes durante a noite para saber onde ele estava.

Enquanto eu observava essas dinâmicas, um alerta silencioso começou a crescer dentro de mim. Por fora, eu tentava ser a nora educada, respeitosa, que compreendia o histórico de doença e fragilidade daquela mulher. Por dentro, porém, eu já sentia que a forma como Perla se relacionava com Gabriel ultrapassava os limites saudáveis entre mãe e filho. Havia culpa, chantagem emocional, dependência extrema.

Naquela primeira viagem, eu ainda não tinha consciência do tamanho da tempestade que se aproximava. Achava que, com o tempo, carinho, paciência e diálogo, tudo encontraria um ponto de equilíbrio. Acreditava, sinceramente, que a doença explicava todos os comportamentos estranhos e que, de alguma forma, eu poderia ajudar.

Não sabia, então, que aquela visita seria apenas o prólogo de uma história marcada por cem ligações em um único dia, portas batidas de madrugada, choros no corredor do prédio e invasões à minha privacidade que deixariam cicatrizes por muitos anos.

Naquele momento, tudo o que eu via era uma mulher cansada, trêmula e silenciosa, e um filho acostumado a viver em função das emoções da mãe. E eu, recém-chegada, apaixonada, prestes a casar, ainda não entendia que estava dizendo “sim” não apenas a um homem, mas ao universo caótico que orbitava em torno da sua mãe.

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