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Capítulo 6

Author: Ivy Crane
last update publish date: 2026-08-25 09:35:37

«Mãe, não quero voltar se me vão obrigar a pedir desculpa por algo que não fui eu que comecei.»

A voz do Landon era fraca, mas tingida de frustração, enquanto eu o ajudava a vestir o uniformeescolar.

Os meus dedos pararam nos botões da camisa dele; a contusão na bochecha ainda era vagamente

visível, apesar do unguento curativo da Mira. A luz da manhã que se filtrava pelas janelas da cabana

parecia demasiado brilhante, demasiado normal, para a tempestade que ainda se agitava no meu peito.

Ajoelhei-me à sua frente, alisando-lhe a gola com as mãos que se recusavam a parar de tremer.

«Eusei, querido. Mas temos de tentar. Talvez o diretor tenha recuperado o bom senso durante a noite.»

Mesmo enquanto dizia aquelas palavras, não acreditava nelas. A memória do encontro de ontem no

corredor com os trigémeos ainda ardia nos meus olhos: os seus cheiros, os seus olhares, a forma como olaço de companheirismo tinha voltado à vida como se fosse um ser vivo. Mal tinha dormido, revirandome na cama enquanto toques fantasmagóricos percorriam a minha pele.

A mãe já tinha saído para o turno da manhã na clínica, deixando-me sozinha com o Landon e os meus pensamentos em espiral. Forçei um sorriso que não sentia e agarrei na mochila dele. «Anda lá. Vamos enfrentar isto juntos.»

O caminho até à escola pareceu-me mais longo do que o habitual. Cada sombra entre as árvores fazia

o meu coração acelerar. Não parava de examinar o caminho, quase à espera que três figuras imponentes surgissem da floresta. O Landon caminhava ao meu lado em silêncio, a chutar pedrinhas, a sua mãozinha a apertar a minha de vez em quando, como se conseguisse sentir a minha ansiedade.

Quando chegámos aos portões da escola, senti um nó no estômago.

O diretor, o Sr. Hargrove, já estava à espera junto à entrada, ladeado por dois guardas beta. Tinha o

rosto tenso e os olhos a vaguear nervosamente. Assim que nos viu, deu um passo em frente, bloqueandonos o caminho.

«Sra. Voss», começou ele, com uma voz melosa e insincera, «receio que o Landon não possa assistir às

aulas hoje. Nem em nenhum outro dia, até que ele apresente um pedido de desculpas formal e público ao

Jax Kane pela violência não provocada.»

«Sem motivo?» A palavra explodiu-me da boca antes que eu conseguisse impedi-la. Puxei o Landonpara mais perto de mim, com a mão livre fechada em punho na anca. «O filho do seu precioso Alfa

chamou ao meu filho um bastardo sem pai e insultou-me da pior maneira possível. O Landon defendeuse. Isso não é violência, é sobrevivência.»

O olhar de Hargrove vacilou, revelando desconforto, mas ele não recuou. Claro que não. Estava a

tentar ganhar o favor do Alfa Victor Kane, tal como todos os outros nesta matilha que queriam manterse do lado certo do poder.

«Seja como for, a família Kane é influente. O Alfa Kane deixou a sua posição muito clara. Um pedidode desculpas, amanhã, perante toda a assembleia, ou o Landon será suspenso por tempo indeterminado.»

Senti o sangue a esvair-se do meu rosto, para depois regressar numa onda quente de fúria. A mão doLandon apertou a minha com mais força, o seu corpinho a ficar rígido. Isto não tinha a ver com justiça.Tinha a ver com política e poder — e o meu filho estava preso no meio por causa de quem eram os seus pais biológicos, mesmo

que mais ninguém soubesse disso ainda.

«Não vou obrigar o meu filho a humilhar-se por defender a mãe», disse eu, com a voz baixa e trémula.de raiva mal contida. «Vamos-nos embora.»

Virei-me de repente, puxando o Landon comigo. Tinha os ombros caídos, mas não chorou. O meu

menino corajoso. O caminho de volta para casa ficou desfocado por entre as lágrimas de raiva que me

recusei a deixar cair na frente dele.

Quando chegámos à casa de campo, as minhas mãos tremiam tanto que mal consegui destrancar a porta. Liguei imediatamente para a clínica, a pedir o dia de folga. O meu supervisor foi compreensivo,mas detestava a forma como isto estava a afetar o meu trabalho, a única coisa estável que tinha nestemundo.

O Landon foi para o quarto dele em silêncio, mas conseguia ouvi-lo a mexer-se, provavelmente a

construir outro forte com os seus lobos de brinquedo. Deixei-me cair no sofá, enterrando o rosto nas

mãos. O peso de tudo me oprimia: o reaparecimento repentino dos trigémeos, o laço que não se

deixava morrer, a luta constante para proteger o meu filho num mundo que recompensava a força e

punia os vulneráveis.

Vinte minutos depois, ouvi-se uma batida suave à porta.

Limpei-me rapidamente os olhos e abri a porta, à espera de talvez uma entrega ou de um vizinho

preocupado.

Em vez disso, lá estava o Marcus, segurando um saco de papel que cheirava suspeitosamente a pastéis

frescos e um pequeno kit de primeiros socorros debaixo do outro braço. Os seus olhos castanhos e

calorosos suavizaram-se no momento em que viu a minha cara.

«Ouvi o que aconteceu na escola», disse ele gentilmente, entrando sem esperar por um convite.

«Asnotícias correm depressa num grupo deste tamanho. Também tirei o dia de folga. Achei que precisavas deajuda com o Landon… e talvez de alguém com quem conversar.»

A gentileza na sua voz quase me deixou de coração partido. Fechei a porta atrás dele, encostando-me

a ela por um segundo, enquanto a gratidão e a culpa lutavam dentro do meu peito. O Marcus era tudo o que os trigémeos não eram — estável, gentil, seguro. Sem jogos. Sem crueldade. Apenas um apoio

silencioso.

«Não precisavas de fazer isto», sussurrei.

«Eu quis fazê-lo.» Ele pousou o saco na mesa da cozinha e tirou croissants quentinhos e fruta. «O

Landon precisa de estabilidade neste momento. E tu… tens carregado com demasiado peso sozinha hádemasiado tempo, Elara.»

Passámos a hora seguinte juntos. O Marcus ajudou o Landon com algumas atividades simples de

ensino em casa à mesa de jantar, enquanto eu preparava chá. Observei-os da cozinha: o Marcus a

explicar pacientemente problemas de matemática, o riso do Landon a romper, de vez em quando, a

tristeza que sentira pouco antes. Era tão dolorosamente normal. Tão seguro.

Por um breve momento, deixei-me imaginar um futuro em que fosse o Marcus a ajudar a criar o

Landon. Sem aquela energia alfa assustadora. Sem aquele vínculo de companheiros ressuscitado aameaçar destruir o meu mundo outra vez.

O calor invadiu-me o corpo de forma tão repentina que soltei um suspiro ofegante, agarrando-me ao batente da porta para me manter de pé. Os seus aromas combinados invadiram-me: cedro, tempestade

e uísque fumado — ricos, masculinos e dolorosamente familiares. Os meus joelhos cederam. Senti oestômago a apertar-se com uma sensação indesejada.

«Elara», disse Ryker, a sua voz grave a rolar sobre mim como um trovão. «Precisamos de falar.»

O olhar de Ronan passou por mim, dirigindo-se para o interior da casa, fixando-se em Marcus e Landon, sentados à mesa. A sua expressão escureceu instantaneamente. «E parece que temos muito para discutir.»

Tentei fechar a porta com força, mas a mão grande de Ryker esticou-se, parando-a sem esforço, sem me magoar. O seu toque na madeira fez com que faíscas subissem pelo meu braço.

«Desta vez não, pequena ómega», murmurou ele, num tom tão baixo que só eu conseguia ouvir.

«Escondeste-nos o nosso filho durante seis anos. Não vamos embora até nos deixares entrar.»

Atrás de mim, ouvi o Marcus levantar-se bruscamente. «Elara? Quem são estes homens?»

A tensão no ar tornou-se tão densa que parecia prestes a rebentar. O Landon espreitou pela esquina,com os olhos arregalados de curiosidade e um toque de medo.

O meu passado e o meu presente estavam em rota de colisão mesmo à minha porta.

E, desta vez, já não havia para onde fugir.

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