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Capítulo 2

Penulis: Pera Gordinha
Os olhos de Alice se encheram de um frio cortante.

Marta ficou paralisada por um instante diante daquela reação:

— Você…

Antes que Marta conseguisse reagir, Priscila, a irmã de sangue de Michel, veio correndo e empurrou Alice com brutalidade:

— Alice, vagabunda! Você enlouqueceu? Aqui é a família Monteiro! Você está querendo se revoltar e bater na sua sogra agora, é isso?

Alice quase não conseguiu se manter de pé. No segundo seguinte, uma força a segurou por trás e a amparou. Quem chegara, também acabando de entrar em casa, era Michel.

Michel franziu o cenho:

— Você não podia tomar mais cuidado?

A frase dele parecia de preocupação. Mas, para Alice, naquele momento, soou apenas como crítica velada.

Desde que Alice descobrira toda a verdade, cada vez que ela via Michel, o nojo subia pela garganta. Ela então fez questão de afastá‑lo, empurrando-o com frieza.

Michel só começou a desconfiar de que algo estava errado quando ouviu o resmungo carregado de veneno de Priscila:

— Tá vendo, mano? Olha como você estragou essa mulher. Ela não só desrespeitou a mamãe agora há pouco, como ainda tem coragem de virar a cara pra você. Ela é o quê, afinal? Nada mais do que uma falsa herdeira que a família Castro chutou pra fora de casa. Ela passou anos se esbaldando com o título de herdeira dos Castro, vivendo no luxo, e quando a farsa veio à tona, foi enxotada e virou cachorro sem dono.

Priscila continuou, sem piedade:

— E, mesmo assim, ela ainda teve a sorte de casar dentro da nossa família Monteiro. Ela devia viver agradecendo. Em vez disso, não tem um pingo de gratidão e ainda ousa se achar mais do que a gente. Você precisa colocar essa mulher no lugar dela.

A enxurrada de acusações fez com que Michel cerrasse a testa ainda mais:

— Alice, como é que você pode faltar com respeito à minha mãe? Mesmo que ela pegue um pouco no seu pé, como nora, você devia, pelo menos por minha causa, aguentar calada. Não podia ter engolido só um pouco?

Alice fechou a mão ao lado do corpo, os dedos quase cravando na palma. Ela engoliu a onda de raiva que borbulhava no peito. Ela já devia ter enxergado a hipocrisia de Michel há muito tempo, mas antes ela ainda tinha pena dele, achando que ele sofria por ficar no meio da guerra entre sogra e nora. Agora, tudo aquilo parecia apenas uma piada de mau gosto.

Ela levantou o olhar para Michel:

— Engolir? Eu engoli um ano inteiro de ironias e humilhações da sua mãe. Engoli também as inúmeras vezes em que a Priscila despejou veneno em cima de mim. Isso ainda não é suficiente?

O olhar de Alice caiu sobre a maçã rolando pelo chão:

— Sua mãe entrou pela porta me tacando coisa. A sua irmã chegou me chamando de vagabunda. E você me diz que isso é "pegar um pouco no pé"?

Priscila ia abrir a boca para rebater, mas Alice a cortou sem dar chance:

— Priscila, goste você de mim ou não, eu ainda sou a esposa do seu irmão, casada no papel, com tudo o que manda a tradição. Quando você me xinga assim, na frente de todo mundo, quem perde a educação primeiro é você, não sou eu.

A frase atingiu em cheio. O rosto de Priscila ficou vermelho de pura raiva, e até Michel ficou sem palavras por alguns segundos.

Alice não olhou mais para nenhum dos três. Ela virou as costas e saiu andando, sem deixar nem sombra da mulher submissa que um dia engolira tudo em silêncio.

Atrás dela, Priscila começou a espernear, gritando descontrolada, e Marta explodiu:

— Isso é o fim da picada! Michel, você vai ficar aí parado vendo-a pisar na gente? O que você quer afinal? Vai insistir em manter essa impostora aqui sem se divorciar? Quer acabar comigo, é?

Michel, que ainda carregava no rosto os resquícios das broncas de antes, estava com a expressão fechada e esfregava a têmpora com impaciência:

— Chega, mãe! Ela está grávida, a cabeça dela não está boa. Vocês duas podiam ter um pouco mais de paciência e ceder um pouco pra ela.

Depois de dizer isso, Michel se virou e foi atrás de Alice, deixando Marta e Priscila paralisadas de espanto.

Grávida? Aquela mulher estava grávida?

Michel encontrou Alice na cozinha. Ele lançou um olhar gelado para a cozinheira que a ajudava, e a funcionária entendeu o recado na mesma hora, se apressando em sair.

Michel agarrou o pulso de Alice e a puxou para perto, o rosto carregado de irritação:

— Já chega, Alice! Que ataque de birra é esse? Só porque eu fiquei um tempo sem voltar pra casa e ficar com você, você acha que pode virar a cara pra minha mãe e pra minha irmã e ainda responder as duas na frente de todo mundo? Eu acabei de contar pra elas que você está grávida. De agora em diante, todo mundo dentro da família Monteiro vai ter que te aturar um pouco mais. Era isso que você queria, não era? Você está satisfeita agora?

Ao ouvir o que ele dissera, Alice achou graça, mas foi um riso gelado, sem humor nenhum:

— Michel, você realmente dá um valor enorme para as crianças que eu estou carregando.

Desde que a história da falsa herdeira tinha vindo à tona, a posição de Alice na família Monteiro tinha ficado pior do que a de uma empregada. Sempre que ela voltava para a casa dos Monteiro, ela engolia uma humilhação atrás da outra.

E, justamente naquele dia, ele tinha "se dado ao trabalho" de mandar a mãe e a irmã recuarem? Era óbvio: Michel tinha certeza de que os bebês na barriga dela eram dele com Iolanda, por isso ele estava disposto a bancar o marido protetor.

Depois de enxergar quem ele era de verdade, Alice só sentiu um nojo profundo. Ela virou de lado e vomitou de verdade.

O rosto de Michel se fechou na hora:

— Você…

Ao sentir o cheiro de vômito, ele não conseguiu esconder a repulsa nos olhos. Ele já ia abrir a boca para dar mais uma bronca em Alice quando a governanta, Renata, apareceu apressada na porta:

— Sra. Alice, por que a senhora ainda está aqui? Dona Rosa já está esperando pela senhora faz tempo, venha comigo, por favor.

Alice enxaguou a boca com água limpa. Ela continuou muito pálida quando respondeu:

— Espera um pouco. Eu fiz um pudim para a vovó.

Ela já tinha ligado para a cozinheira no caminho, para deixar tudo pronto, por isso conseguiu levar o doce agora.

Dona Rosa morava nos fundos da propriedade dos Monteiro, em um chalé separado.

Assim que viu Alice, o rosto de Dona Rosa se iluminou:

— Alice, até que enfim você chegou. Vem cá, deixa eu olhar pra você. Por que você está cada dia mais abatida? O Michel andou te maltratando?

A saúde de Dona Rosa não era boa, por isso ela costumava ficar na clínica de repouso. Mas, toda semana, ela voltava ao Solar do Vale Verde, e, justamente nesse dia, Alice era obrigada a ir até lá para cuidar dela.

Dona Rosa tinha um carinho especial por Alice. Um carinho que era até maior do que o que ela demonstrava por Priscila.

Depois que toda a verdade sobre a origem de Alice veio à tona, Dona Rosa foi a única pessoa na família Monteiro que continuou tratando Alice da mesma forma de antes.

Michel entrou logo em seguida, com ciúmes estampados no rosto:

— Vó, a senhora é mesmo apaixonada pela Alice, hein? Até esqueceu que eu existo. Eu sou seu neto, viu? Hoje em dia, na família Monteiro, quem é que ainda tem coragem de pisar nela? A Alice está grávida, a gente mal dá conta de mimar ela.

Ao ouvir aquilo, os olhos de Dona Rosa brilharam:

— O quê? Alice, isso é verdade?

Alice sabia que a gravidez não podia mais ser escondida.

Ela engoliu em seco e acabou assentindo:

— É sim, vó.

Dona Rosa ficou tão emocionada que logo mandou Renata ir ao cofre buscar a pulseira de família, a joia que passava de geração em geração.

Marta, que chegara às pressas ao ouvir a notícia, quase gritou de ódio quando viu a cena.

Aquela pulseira nem ela, como nora antiga da casa, tinha recebido. E agora Dona Rosa estava entregando justamente para Alice, aquela mulher que ela considerava indigna.

Num canto, Priscila lançou um olhar para a mãe, o rosto queimando de raiva, os olhos úmidos:

— Mãe, a vó entregou assim, de mão beijada, a pulseira da família para essa vagabunda da Alice. A senhora passou por uma gravidez inteira para dar um filho homem e uma filha para a família Monteiro, e mesmo assim ela nunca deu essa pulseira para a senhora. Todos esses anos, foi a senhora que segurou essa casa, cuidou de tudo sozinha. Ela não te deu nada, mas agora pula você e entrega direto pra Alice! Eu não sei que tipo de encosto fez a cabeça da vó.

O rosto de Marta ficou vermelho de raiva, os ombros tremendo de ódio contido:

— Tudo isso é culpa dessa vadia da Alice. Ela só está no começo da gravidez, e o seu irmão já briga com a gente por causa dela. A sua vó, então, já foi correndo entregar o maior tesouro da família pra essa mulher. Se um dia ela realmente parir o primeiro herdeiro dos Monteiro, você acha que ainda vai sobrar algum espaço pra nós duas nessa casa? De jeito nenhum. Esse filho que a Alice está esperando não pode nascer de forma alguma.

Um brilho venenoso passou pelo olhar de Marta.

Quando Priscila ouviu as palavras da mãe, ela sentiu um arrepio de medo percorrer a espinha, mas o ódio que ela sentia por Alice só se intensificou.

De repente, Alice sentiu um calafrio. Ela virou o rosto na direção de uma área escura do corredor e viu duas silhuetas recuando às pressas.

Aquele jantar pareceu não ter gosto nenhum.

O pai de Michel, Pietro, não voltara para casa. Assim, à mesa, só Dona Rosa celebrou de verdade a notícia da gravidez de Alice.

Depois que Alice animou Dona Rosa e a deixou sossegada, ela saiu do Solar do Vale Verde. Assim que entrou no carro, ela tirou a pulseira do pulso.

Quando Michel viu aquilo, ele franziu a testa na mesma hora:

— Alice, o que é isso? Você está rejeitando a pulseira?

A família Monteiro tinha enriquecido fazia apenas três gerações. A qualidade da pulseira não era nada extraordinária. O valor vinha mais do peso simbólico e da antiguidade do que do ouro e das pedras em si.

Mas Alice tinha crescido vendo joias de verdade. A família Castro a tinha criado como uma princesa.

Michel achou que ela estava desprezando a pulseira da família. Tomado pela irritação, ele acertou com força o encosto do banco, bem atrás das costas de Alice.

Michel não esperou nem que Alice abrisse a boca para se explicar. A voz dele já veio carregada de irritação:

— Alice, não exagera! Não esquece que, quando a família Castro te descartou, foi a nossa família Monteiro que ainda assim te reconheceu e deixou você se casar comigo. Com que moral você acha que pode torcer o nariz pra essa pulseira?

O olhar sombrio de Michel parecia de um predador prestes a atacar. Ele tinha passado todo aquele tempo interpretando o papel de marido gentil e compreensivo. Agora, finalmente, ele deixava a máscara cair. Provavelmente ele achava que, agora que ela estava grávida, ela não tinha mais como fugir.

Alice engoliu o turbilhão que sentia por dentro e, de propósito, deixou que uma expressão magoada tomasse conta do rosto dela:

— Michel, então é assim que você me enxerga?

Ela, com os olhos levemente vermelhos, pegou a pulseira com todo cuidado, embrulhou a peça em um lenço e colocou dentro da bolsa:

— Eu só pensei que algo tão importante poderia se estragar se eu usasse sempre, e seria uma pena. A intenção da vovó me deixou até sem jeito, eu não teria nem coragem de desprezar esse presente. E tem mais: a vovó disse que essa é a joia de família. Eu só acho que o certo é guardar no cofre de casa, bem protegida. Quando o verdadeiro herdeiro da próxima geração dos Monteiro nascer, só então a mãe dele… aí sim eu vou ter o direito de usar essa pulseira de verdade. Michel, você não acha?

Ela fez questão de parecer alguém ferida, mas teimosa, segurando o choro com dignidade, e fitou Michel bem fundo nos olhos.

Quando ele finalmente entendeu o que ela queria dizer, a expressão dele relaxou um pouco. Ele puxou a gola da camisa, mais à vontade, e respondeu como se aquilo fosse óbvio:

— Você está certa. Só a verdadeira mãe do herdeiro da família é que tem direito a essa joia de família.

Alice riu por dentro, com frieza:

"Ele deve estar pensando na Iolanda agora."

Que pena para ele que o embrião dos dois já tinha ido para o lixo. Esse sonho lindo, ela faria questão de esmagar bem na frente deles, no momento perfeito.

O olhar gelado de Alice deixou Michel um pouco desconfortável.

— Chega, eu também passei do ponto. Eu não devia ter gritado com você. Mas você também errou. O que você fez com a mamãe, eu vou deixar passar desta vez. Só que não se repete, entendeu?

Ele passou a mão de leve no rosto dela, num gesto que pretendia ser uma espécie de trégua, e mandou Alice descer do carro.

Michel alegou que ainda tinha coisa para resolver na empresa e pediu para o motorista do Solar do Vale Verde levar Alice de volta.

Só quando o carro dele sumiu de vista é que Alice pegou o lenço da bolsa e começou a esfregar com força a parte do rosto que ele tinha tocado. Ela só parou quando a pele ardia de verdade, então atirou o lenço no chão, com nojo.

Quando voltou para casa, ela não levou a pulseira para o cofre.

Em vez disso, Alice pegou o celular e ligou para uma antiga colega de faculdade, com quem não falava havia muito tempo:

— Rita, há quanto tempo.

Ela foi direta:

— Eu tenho aqui o desenho de um conjunto de joias em jade. Você acha que consegue produzir pra mim?

Rita ficou eufórica ao receber a ligação de Alice:

— Alice, é você mesmo? Não estou acreditando!

A voz da Rita veio quase em um grito:

— Meu Deus, você é a famosa Viviane que sumiu do mapa! Se você está pensando em voltar, é claro que eu vou te ajudar. Mas me diz uma coisa: você decidiu mesmo voltar pra esse mundo?
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