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Capítulo 3

Penulis: Pera Gordinha
Alice olhou para as próprias mãos:

— Claro. De agora em diante, eu vou viver por mim mesma. Eu vou correr atrás dos meus sonhos de novo.

Rita respondeu, animada:

— Alice, eu estou muito feliz por você!

Depois que Alice desligou, ela olhou para a mala. Já era de madrugada, então ela decidiu que só iria embora no dia seguinte. No entanto, assim que ela se levantou, o celular tocou: era Michel.

Alice hesitou por um segundo, mas atendeu. O que ela ouviu do outro lado, porém, foi a voz de Michel misturada com a de uma mulher:

— Michel, ou então… é melhor você voltar hoje e ficar com a Alice.

Do lado de Michel, ela ouviu um estalo seco, como se ele tivesse acabado de acender um cigarro:

— Ficar com ela? Só de olhar pra cara dela eu já perco o apetite. Iolanda, não brinca comigo.

Iolanda?

Então, naqueles dias todos, Michel não estava dormindo na empresa coisa nenhuma. Ele já tinha montado um ninho de amor com Iolanda do lado de fora.

Quando ouviu aquilo, Alice sentiu uma fisgada profunda no peito. Ela achou tudo aquilo de um sarcasmo cruel, mas não teve pressa em desligar.

Aquele celular claramente tinha sido usado de propósito para discar para ela. Alice quis ver até onde Iolanda pretendia ir e o que ela queria que ela escutasse.

A voz de Iolanda veio manhosa:

— Michel, você desgosta tanto assim da Alice? Mas vocês já estão casados há um ano. Você nunca sentiu nada por ela? Ela é tão bonita, tem presença, e já foi a herdeira mais famosa da família Castro em toda a Cidade Nampula… Não é possível que entre vocês não tenha existido nem um pouquinho de sentimento.

Michel respondeu com um tom meio debochado:

— Gostar dela? Nem pensar. Eu só gosto de você. Iolanda, você está com crise de ciúmes de novo.

Iolanda fingiu reclamar, num tom doce:

— E a culpa é de quem, se você vive me escondendo, como se eu fosse um segredo sujo? A minha família é comum, eu sou uma qualquer. Como é que eu vou competir com ela?

Michel retrucou na hora:

— Por que você teria que competir com ela? Pra mim, você vale mil vezes mais. Dizem que a mãe biológica dela fugiu do hospital logo depois de parir e, desnorteada, foi pra rua e acabou morrendo atropelada. Se não fosse pela enfermeira que tinha rixa com a família Castro e trocou a bebê verdadeira por ela no berçário, o destino real da Alice teria sido crescer num orfanato.

Michel continuou, com frieza:

— Ela deu sorte. A verdadeira herdeira da família Castro é que penou a vida inteira no lugar dela. Agora que a verdade veio à tona, ela não passa de uma bastarda sem origem definida, e os Castro também não a querem mais. E ainda teve o fato de ela ter usado aqueles métodos imundos pra te tirar da jogada naquela época. Quando estourou o escândalo de que ela não era a herdeira legítima da família Castro, eu fiquei foi satisfeito. Hoje em dia, até o que ela mais se orgulhava, o sangue, o sobrenome, não passa de mentira. Com o que ela vai competir com você? Pra mim, Iolanda, é você quem é única, como a lua no céu.

Tinha se passado apenas um dia desde que Alice descobrira tudo. Mas, ao ouvir agora aquelas palavras cortantes, ela já conseguia manter a calma, sem explodir tão facilmente. Ela desligou o celular em silêncio e salvou o áudio.

Não importava se Iolanda queria exibir alguma vitória ou provar alguma coisa. Já que ela mesma tinha decidido provocar, Alice aceitou o desafio.

Se eles não a viam como ser humano, se só queriam humilhá‑la e espremer tudo o que pudessem dela, então Alice faria questão de devolver na mesma moeda. Ela deixaria que os dois sentissem primeiro o gosto de perder tudo.

Agora que ela tinha uma prova entregue de bandeja, o primeiro passo seria expor aquela relação clandestina dos dois.

Depois de algumas horas de sono, Alice acordou e passou um bom tempo debruçada no vaso sanitário, vomitando. Quando ela terminou, ela sentiu que a cabeça também clareara.

Ela tinha certeza de uma coisa: aquele casamento ia acabar. Mas ela sabia que não seria simples.

Agora que a família Monteiro também sabia da gravidez, eles, assim como Michel, estavam convencidos de que os bebês que ela carregava eram sangue da família Monteiro. Por isso, eles não a deixariam ir embora tão fácil.

Michel e Iolanda tinham arquitetado aquele plano com cuidado. Os dois estavam eufóricos, convencidos de que já tinham a vitória garantida.

Principalmente Iolanda. Aquele telefonema da noite anterior dizia tudo: ela tinha certeza de que, mesmo sabendo da traição, Alice não teria coragem de fazer escândalo.

Afinal, para o mundo lá fora, Alice não tinha mais nada. Sem a família Monteiro, ela não era ninguém.

Ela estava grávida também. Mesmo sabendo que Michel tinha uma amante lá fora, aquela tal de Iolanda, todos achavam que ela só iria engolir tudo em silêncio.

Iolanda queria que Alice se corroesse por dentro, que vivesse desconfortável, sem um dia de paz.

Então Alice decidiu fazer exatamente o contrário do que ela esperava. Ela não ia engolir traição. Ela nunca tinha sido uma parasita que só sabia viver às custas dos outros.

Quando Alice desceu as escadas, ela deu de cara com a médica da família, Daise Teles, entrando em casa.

— Senhora, que bom que a senhora desceu. Está na hora da injeção de hoje. — Disse Daise.

Alice se aproximou e pegou a seringa na mão:

— Isso aqui é mesmo injeção de progesterona?

Desde a primeira tentativa de fertilização in vitro, Michel tinha mandado a médica da família ir todos os dias até a casa para aplicar injeções nela.

Em teoria, tudo era para o bem dela e do bebê, sempre com remédios importados, supostamente seguros.

Agora, a barriga inteira de Alice estava marcada de hematomas arroxeados.

E, para que Michel não ficasse ansioso com o resultado da fertilização, mesmo depois de perder o primeiro bebê, Alice não tinha interrompido as injeções em nenhum momento.

Ela pensava:

"Talvez, na segunda fertilização, os bebês se mantenham justamente por causa dessas injeções."

Mas agora, para Alice, tudo aquilo parecia uma grande farsa.

— Dra. Daise, quanto o Michel te pagou por isso, afinal? — Perguntou Alice.

Daise era uma mulher jovem, de aparência comum. Quando ela ouviu aquela pergunta, as pupilas dela se contraíram de repente:

— A senhora…

"Como a Alice descobriu? O que exatamente ela sabe?"

Ao ver a reação da médica, Alice teve certeza de que o raciocínio dela estava certo. Na véspera, no hospital, quando ela tinha pressionado Fernando, ela tinha contado que andava tomando injeção de progesterona todos os dias.

Fernando perdera a paciência na mesma hora:

— Isso é absurdo! Mesmo sendo uma gestação de gêmeos, os exames de sangue estão todos normais. Não há nenhum sinal de ameaça de aborto. Pra quê injeção de progesterona? Isso é uma agressão desnecessária tanto pro seu corpo quanto pros bebês.

Quando ela ouviu aquilo, Alice tremeu dos pés à cabeça de tanta raiva.

— Mas eu tenho enjoos muito fortes todo dia. Tudo o que eu como, eu vomito. Eu quase não tenho apetite. — Disse Alice, tentando entender.

Fernando explicou, sério:

— Isso tudo é reação normal de gravidez. Injetar remédio sem necessidade, em uma pessoa saudável, vai causar efeito colateral, sim. Pare com isso imediatamente, ou eu não posso garantir que não vá acontecer outro problema grave.

Na mesma hora, Alice pediu para Fernando fazer novos exames completos nela.

Quando os resultados saíram, Fernando falou:

— Tanto o seu corpo quanto os bebês estão bem. Você está numa condição até boa, para uma gestação de gêmeos. Agora, sobre o que exatamente anda sendo injetado em você, só vamos saber se trouxerem essa substância para análise.

Alice tinha certeza de que aquilo era mais uma jogada de Michel. Mesmo que ela estivesse grávida dos filhos dele com o primeiro amor, ele ainda assim não queria que ela tivesse um minuto de paz. Ele queria ver ela sofrer até o fim.

O olhar de Alice ficou gelado, envenenado, cravado em Daise:

— Eu acreditei em você como médica. Acreditei que você tinha ética. Agora, se eu pegar esse frasco e for direto à polícia e a um órgão de perícia, dá pra abrir um inquérito por abuso de medicação e lesão corporal dolosa. Me diz uma coisa, você acha que o Michel vai colocar a mão no fogo por você? E você, quantos anos acha que pega de cadeia?

Daise empalideceu na hora, completamente em pânico:

— Senhora, eu só segui as ordens do Sr. Michel… A senhora não pode fazer isso comigo. Se a senhora fizer, a minha vida inteira acaba.

Alice se segurou com todas as forças para conter a raiva que queimava dentro dela. Será que a vida dela estava mesmo condenada a ser destruída daquela forma?

— Dra. Daise, você que escolha com quem é que você vai trabalhar daqui pra frente. — Disse Alice, com a voz gelada.

Daise era esperta. O poder de Michel podia até ser maior, mas, naquele momento, quem tinha algo concreto contra ela era Alice. E, sem saída, ela não tinha mais muito por onde correr.

Depois que Daise saiu, cabisbaixa, quase escorrendo pelas paredes, Alice levantou os olhos para o enorme quadro de casamento pendurado na sala. Naquela foto, Michel ainda parecia o marido carinhoso e atencioso que ele fingira ser.

Quando a origem dela veio à tona, Michel não se divorciou, mesmo sendo pressionado pela família Monteiro inteira.

Alice tinha acreditado que ele era um homem de responsabilidade, alguém com quem ela podia contar para o resto da vida.

Agora, ela só culpava a si mesma por ter sido cega a ponto de não enxergar que, por trás daquela fachada doce, tudo não passava de atuação.

Naquele momento, Alice também começou a desconfiar de outra coisa: se até a gravidez e as tais injeções de progesterona podiam ser mentira, será que o laudo médico que dizia que ela tinha dificuldade para engravidar também era falso?

Alice só queria sair daquela casa o mais rápido possível. Ela entrou num site, contratou alguns empregados temporários fortes e ágeis.

Enquanto ela comia alguma coisa sentada no sofá, eles tiraram o quadro gigante do casamento da parede.

Tudo o que tinha a ver com Alice em cada canto da casa foi sendo removido até não sobrar nada: xícaras, pratos, talheres, porta‑retratos…

Até as lembrancinhas das saídas e viagens que ela e Michel tinham feito juntos depois do casamento.

Alice jogou tudo dentro de um braseiro no jardim. Uma única fogueira, e aquelas memórias foram todas reduzidas a cinzas.

Dessa vez, quem não queria mais Michel nem aquele casamento era ela, Alice.

Ao sair, arrastando a mala, Alice ligou para Daise:

— Dra. Daise, eu quero que você faça um laudo dizendo que eu sofri um abalo emocional sério, que a gestação ficou instável e que existem sinais de ameaça de aborto. E eu quero que você mesma envie isso para o Michel.

Já que Iolanda não queria mais se esconder, Alice não se importaria nem um pouco em ajudar. Ela faria questão de que o mundo inteiro soubesse que Iolanda existia.

Depois que desligou, Alice passou a mão na própria barriga, com um carinho carregado de culpa:

— Meus bebês, eu não estou rogando praga em vocês. Eu só preciso acertar as contas com dois canalhas, não fiquem bravos comigo. Eu amo vocês. Vocês são tudo o que eu tenho agora. Então, por favor, fiquem quietinhos e cresçam bem aqui dentro, tá?

Depois que ela parou com as tais injeções de "progesterona”, Alice percebeu que os enjoos pareciam realmente ter diminuído.

Ela decidiu que precisava cuidar da própria saúde, proteger os dois pequenos na barriga e, antes que eles nascessem, romper de vez com a família Monteiro e com aquele casamento.

Mal tinha se mudado para o novo apartamento alugado, o celular de Alice tocou. Era Michel. Pelo visto, ele já tinha recebido o laudo falso que Daise preparara.

A voz de Michel veio carregada de aflição:

— Amor, Dra. Daise disse que você passou por um choque e está com sinais de aborto. Mas você não estava ficando em casa o tempo todo? Quem foi que te irritou desse jeito? Me fala, que eu faço justiça por você.

O que ele mais temia, claro, era pelos bebês que ela carregava.

Alice respondeu com uma voz propositalmente fraca:

— Michel, eu ouvi dizer que… a Iolanda voltou, não foi? Eu sei que você nunca conseguiu esquecer ela. E ela sempre achou que fui eu que fiz intriga pra forçar a partida dela.

Quando ouviu o nome de Iolanda, o outro lado da linha mergulhou num silêncio absoluto.

Só depois de um longo tempo Michel falou, com a voz baixa:

— Amor, quem foi que andou enchendo a sua cabeça? Não fica imaginando coisa. A minha esposa é você. O que eu tive com ela ficou no passado. Se você se abalou por causa disso e acabou perdendo as crianças, eu… eu nunca vou me perdoar.

Alice ouviu o teatro dele em silêncio. Então ela acompanhou a encenação:

— Michel, é que eu me importo demais com você. Mas, ouvindo isso da sua boca, eu fico mais tranquila. Ah, e eu estou internada agora, em repouso, pra segurar a gravidez. Esses dias eu não vou estar em casa e não vou conseguir cuidar de você. Então é melhor você voltar a morar no Solar do Vale Verde por enquanto.

Alice já tinha colocado o imóvel onde moravam à venda. Ela precisava tirar Michel de perto o mais rápido possível, de preferência sem deixá‑lo voltar para aquela casa tão cedo.

Michel perguntou em qual hospital ela estava, dizendo que iria lá pessoalmente.

Alice se apressou em responder:

— A situação da Capital Monteiro está num ponto decisivo. Michel, você não precisa se preocupar comigo agora. Fica tranquilo, quando eu tiver alta eu mesma te ligo.

Ela segurou o enjoo até encerrar a ligação. Só então ela respirou fundo, como se tivesse tirado um peso do peito.

Ela, Alice, precisava mesmo do título ridículo de Sra. Mendes?

No dia seguinte, Alice foi ao hospital novamente.

Ela levou as ampolas da suposta "progesterona" que vinha recebendo diariamente e as entregou a Fernando para análise. Quando soube que não passavam de soro fisiológico, ela finalmente conseguiu relaxar de verdade.

Pelo visto, Daise não tinha mentido. Ela tinha confessado, em detalhes, que só injetava soro, porque Michel e Iolanda queriam que Alice sofresse com a dor das aplicações.

Fernando, ainda tentando entender, comentou:

— Se era só soro fisiológico, por que fazer tanta questão, com esse ritual todo de injeção diária?
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