Quando Alice ouviu aquelas palavras, ela ficou completamente paralisada.
Logo em seguida, Daniel e Solange entraram no quarto.
Isadora ficou encostada no batente da porta, sem a menor intenção de entrar. Ela apenas inclinou levemente a cabeça na direção de Alice, como um cumprimento distante.
— Pai, mãe. — Chamou Alice, em voz baixa.
— Humpf, pelo menos você ainda lembra que eu sou seu pai. — Respondeu Daniel.
Solange se aproximou com o rosto cheio de preocupação e segurou o braço de Alice com força:
— Alice, eu cheguei a achar que você não queria mais reconhecer a gente.
— Como eu faria uma coisa dessas? — Disse Alice. — Vocês me criaram por mais de vinte anos. A dívida que eu tenho com vocês é grande demais. Eu nunca vou conseguir pagar.
Os olhos de Solange se encheram d’água na hora. Ela apertou ainda mais a mão de Alice:
— Então por que você passou tanto tempo sem voltar para ver a gente? Por que, da última vez, você ainda deixou um cartão bancário lá em casa, como se quisesse cortar relações de vez? Alice, desde que você era pequena, você sempre foi o meu maior tesouro. Como é que uma mãe simplesmente abre mão da própria filha? Como é que você consegue ser tão cruel assim comigo?
Alice levantou o olhar e encarou Isadora. Quando ela viu um traço de tristeza atravessando o rosto da outra, ela se apressou em soltar a mão de Solange.
Alice falou com toda a polidez do mundo:
— Mãe, fui eu que tomei o lugar da Isadora. Fui eu que estraguei a vida dela. Eu é que devo a ela, não o contrário. Daqui para frente, a senhora pode dar todo o seu amor para ela. Quanto a mim, eu nunca mereci nada disso.
Ao ouvir aquilo, Solange e Daniel ficaram com a expressão pesadíssima.
— Então você ainda está magoada com o seu irmão? — Perguntou Solange. — Naquela época ele também não soube lidar com a verdade, por isso ele disse aquelas coisas horríveis. Ele passou esse último ano fora do país quase sem falar com a família… Alice, será que você não consegue perdoar o seu irmão? Se você der um passo atrás, vocês dois ainda podem voltar a ser como antes, recuperar o carinho de irmãos. Não seria melhor assim?
Como Alice continuou calada, Solange sentiu o peito se despedaçar. Ela começou a bater com a mão no próprio tórax, num desespero quase dramático:
— Vocês dois vieram ao mundo só para acabar comigo!
Alice olhou para a mãe adotiva daquele jeito e, por mais que ela negasse para si mesma, aquilo a machucou.
Alice tinha tido, um dia, uma família absolutamente feliz: um pai que a mimava, uma mãe doce e carinhosa, e um irmão mais velho mandão, mas que sempre a protegia como se ela fosse mesmo uma princesa.
Na família Castro ela tinha poder, tinha voz, tinha colo. Ela tinha sido criada por eles, com todo o cuidado, como se fosse a herdeira legítima. Até que, de repente, ela descobriu que tudo aquilo tinha vindo porque ela, sem saber, tinha ocupado o lugar de outra pessoa.
E que ela, Alice, no fundo, não era ninguém.
Na época, Alice não conseguiu digerir aquela verdade. Ela foi procurar justamente a pessoa com quem sempre tivera a ligação mais forte: o irmão mais velho. Ela queria, ao menos, um pouco de reconhecimento.
Mas, ao se aproximar, ela ouviu a voz de Enrico ao celular:
— A Alice devia ter sido só uma órfã. Foi por causa dela que a minha irmã de verdade passou mais de vinte anos num orfanato! É a Alice que deve à família Castro, não o contrário!
As palavras de Enrico Castro atravessaram Alice como uma lâmina. Ela saiu correndo, completamente atordoada.
A família Monteiro, depois que ficou sabendo da verdadeira origem dela, também começou a tratar Alice de outro jeito. A posição dela ali virou algo incômodo, indefinido. Foi bem nessa época que chegou o aniversário dela e de Isadora.
Alguém perguntou se a família Castro ia organizar uma grande festa de aniversário para celebrar as duas herdeiras.
Enrico respondeu:
— A Alice não é digna disso.
Essa frase acabou chegando aos ouvidos de Alice.
A família Castro realmente organizou uma festa de arromba. Naquela ocasião, eles anunciaram oficialmente para todo mundo que Isadora era que era a verdadeira herdeira.
Alice, entendendo o recado, teve o bom senso de não aparecer.
Solange ainda tentou ligar para ela duas vezes. Já Daniel e Enrico não perguntaram dela nem uma única vez, como se Alice já não fizesse mais parte da família Castro.
Depois disso, Alice voltou à casa dos Castro apenas uma vez. Ela queria recolher as coisas que ainda tinha deixado lá, principalmente os certificados, os prêmios e os inúmeros esboços e desenhos que ela mesma tinha feito.
Ela também deixou ali um cartão com todas as economias que tinha juntado ao longo dos anos. Na cabeça dela, aquilo era a forma de pagar, como podia, pela criação que tinha recebido.
Quando Enrico viu que ela estava carregando as próprias coisas para fora, ele soltou uma risada fria:
— Longe da família Castro, você não é nada. Alice, você devia voltar para compensar tudo o que tirou da Isadora!
Naquele dia, Alice e Enrico tiveram a primeira briga séria da vida inteira. Eles discutiram de forma violenta, jogando um contra o outro as palavras mais cruéis que conseguiam encontrar.
Enrico, por sua vez, tinha sido ainda mais cruel:
— Alice, com esse seu temperamento, se tivesse sido você a crescer num orfanato, eu duvido que você chegasse aos pés da Isadora! Alice, vai olhar no espelho e encarar quem você realmente é!
— Quem eu realmente sou? — Retrucou Alice. — Aos seus olhos eu sempre fui uma inútil, que não sabe fazer nada? Ou é porque eu nasci comum demais e, por isso, nunca fui digna de ser sua irmã, Enrico?
Eles terminaram aquela conversa em pé de guerra.
Alice admitia, no fundo, que aquela briga tinha machucado demais. Por isso, para ela, abaixar a cabeça para Enrico simplesmente não existia como opção.
Quando Daniel viu a postura de Alice, ele ficou furioso.
— Chega. Não perde tempo com essa ingrata. A gente arrumou um casamento excelente para ela, e olha o que ela fez com a própria vida. Em pouco mais de um ano, a família Monteiro já a trata como se não valesse nada. Ela é um estorvo. Vamos embora. — Rosnou ele.
Solange, no entanto, segurou a mão de Alice com força, o rosto tomado por uma tristeza verdadeira:
— Alice, você pode não ser nossa filha de sangue, mas hoje você é, de fato, a Sra. Mendes da família Monteiro. Você precisa segurar esse casamento com as duas mãos! A família Monteiro está decolando. Se você conseguir ter essas crianças e firmar sua posição, o resto da sua vida vai estar garantido. A gente só quer o seu bem, a gente nunca vai te prejudicar. Você tem que acreditar em mim.
Daniel puxou Solange pelo braço e a arrastou para fora. Isadora apenas lançou um último olhar para Alice e foi atrás dos dois.
O quarto ficou gelado, silencioso.
Alice respirou fundo e se obrigou a se recompor. Ela engoliu o amargor que sentia, arrumou‑se às pressas e saiu também. No canto da escada, a jovem empregada Lily, de dezoito anos, já a esperava.
— Sra. Alice, ainda bem que a senhora veio. A senhora pediu para eu vigiar todos os passos do Sr. Michel hoje. Não faz muito tempo, depois que ele saiu do quarto da senhora, ele foi encontrar a secretária que trouxe para a festa. Os dois estão agora no jardim dos fundos, encostados no muro. — Contou Lily.
— Vamos. — Respondeu Alice.
Naquela noite, o retorno inesperado de Alice tinha roubado o brilho de Iolanda, e isso, com certeza, tinha deixado a outra roída de ciúmes e ressentimento. Era justamente isso que Alice queria: que Iolanda, descontrolada, puxasse Michel para longe na base da emoção.
Iolanda era o primeiro amor de Michel. Vendo a mulher magoada, ferida, era óbvio que ele iria procurar um canto afastado para "consolá‑la" o mais rápido possível.
Num lugar isolado daquele jeito, como aqueles dois não iriam passar dos limites? Bastava Alice aparecer com testemunhas, escancarar o flagrante na frente de todo mundo e deixar o escândalo explodir. A partir daí, ela poderia exigir o divórcio sem olhar para trás.
A Capital Monteiro tinha acabado de abrir capital na bolsa, e certamente não queria ver as ações despencarem por causa de um escândalo conjugal. Então, mesmo que Michel percebesse que tudo tinha sido armado, ele não teria muita escolha a não ser ceder.
O coração de Alice batia acelerado, difícil de controlar. Ela quase sentia o gosto da liberdade. Só que, assim que pisou no jardim dos fundos, ela deu de cara com Dona Rosa, que vinha justamente na direção contrária, empurrada na cadeira de rodas por Renata.
— Alice, para onde você está indo? — Perguntou Dona Rosa.
Alice parou no ato e abaixou a cabeça, respeitosa:
— Vovó, o que a senhora está fazendo aqui?
Dona Rosa segurou a mão dela:
— Uma noite importante dessas para a família Monteiro, é claro que eu tinha que aparecer. Mas, quando eu soube que você estava internada para segurar a gravidez, eu perdi até o gosto pela festa. Só dei as caras no começo e voltei para descansar. O que foi que aconteceu com a sua testa? Vem cá, deixa eu ver isso direito.
Alice ignorou o olhar aflito de Lily e se agachou para que Dona Rosa pudesse examinar o curativo.
O rosto de Dona Rosa se encheu de pena:
— Minha filha, como é que você conseguiu se machucar desse jeito?
Alice estava inquieta, quase sem paciência:
— Vovó, eu ainda tenho uma coisa urgente para resolver, será que a senhora pode me deixar…
Ela começou a se levantar, mas Dona Rosa apertou a mão dela com força.
— Alice, primeiro vem comigo até a frente da casa. — Pediu Dona Rosa.
Alice baixou os olhos, desconfiada, e encarou o rosto da avó:
— Vovó… a senhora…
Ela começou a entender.
"Ela está tentando me segurar? Será que ela sabe o que está acontecendo no jardim?"
Dona Rosa não soltou a mão de Alice. Os olhos dela ficaram úmidos:
— Minha querida, tem coisas que, se você der o próximo passo, não vão ter volta. Eu sei o quanto você está sofrendo, e eu vou lutar por você. Mas pensa bem. Você tem certeza de que ainda quer ir?
Naquele instante, tudo fez sentido para Alice.
Dona Rosa tinha vindo de propósito para segurá‑la, para encobrir Michel.
Uma dor funda, pesada, se espalhou pelo peito de Alice, impossível de conter.
Sim, Dona Rosa era a única pessoa naquela casa que demonstrava algum afeto verdadeiro por ela. Mas, no fim das contas, ela ainda era a avó de Michel, não de Alice.
Alice tirou a mão com delicadeza, mas com firmeza.
— Me perdoa, vovó. — Disse Alice.
Alice não queria que aquela senhora ficasse aflita, nem partir o coração dela. Só que, se ela perdesse essa chance, ela não sabia quanto tempo ainda teria que esperar.
Ela se virou e caminhou em direção ao jardim com passos decididos. À medida que se aproximava do muro, a voz de Iolanda começou a ficar nítida.
— Michel, devagar… Eu estou com tanto calor… Michel, você já encostou nela alguma vez? Jura para mim que eu sou a única mulher da sua vida! — Gemeu Iolanda.
A voz de Michel veio baixa, rouca:
— Iolanda, eu sempre fui só seu. Deus é minha testemunha: eu não quero mais mulher nenhuma… só você.
Os sons abafados e íntimos vinham do outro lado do muro, e Alice estava a um passo de passar pela abertura e desmascarar tudo, quando um grito desesperado explodiu atrás dela:
— Dona Rosa, o que houve com a senhora? Dona Rosa! Sra. Alice, venha rápido, por favor, a Dona Rosa desmaiou!
Os pés de Alice travaram no chão. Mais um passo, e ela rasgaria a imagem de marido perfeito que Michel mostrava para o mundo. Ela pegaria os dois em flagrante, esfregaria na cara dele a traição.
E, se eles ousassem negar, Alice ainda tinha a gravação. Ela podia soltar o áudio na frente de todo mundo e transformar aquela noite na ruína completa deles.
— Sra. Alice, pelo amor de Deus! — Implorou Lily. — A Dona Rosa não está bem!
Alice fechou os olhos por um breve instante e se virou, caminhando de volta na direção de onde Dona Rosa tinha caído. A cada passo, as pernas ficavam mais pesadas, e o coração dela parecia despencar num buraco sem fundo.
— Vovó… vovó? — Chamou Alice, agachando‑se ao lado dela.
Dona Rosa tinha realmente perdido a consciência. E, naquele pedaço dos fundos, não havia nenhum outro empregado por perto, apenas elas.
Renata tremia tanto que mal conseguia se manter em pé.
Alice respirou fundo e tentou manter a cabeça fria.
— Lily, corre até a frente da casa e chama ajuda. Agora. — Ordenou Alice.
Enquanto isso, Alice amparou Dona Rosa com cuidado, apoiando a cabeça da idosa no colo. Ela virou o rosto e olhou para o arco que levava ao jardim. Até aquele momento, Michel não tinha dado as caras. Ela entendeu, então, que tinha perdido a chance. Tinha assustado a presa e deixado o casal escapar intacto.
O estado de Dona Rosa não era nada bom.
O Dr. Manuel, médico da família e sobrinho de Renata, chegou às pressas. Depois de examiná‑la com atenção, ele apenas balançou a cabeça.
— As células cancerígenas da Dona Rosa já se espalharam pelo corpo inteiro, inclusive para o cérebro. — Explicou Manuel. — Hoje, com a emoção forte, ela ficou muito abalada e acabou desmaiando. Daqui para frente, o ideal é evitar qualquer choque para ela, fazer tudo para deixá‑la tranquila. Caso contrário…
Manuel não terminou a frase, mas Renata já chorava tanto que mal conseguia segurar os próprios braços.
Só então Alice entendeu o quão grave era a condição de Dona Rosa.
Marta, por sua vez, não tirou os olhos de cima dela, o olhar estreito, desconfiado.
— Na hora em que tudo aconteceu, só estavam vocês no jardim dos fundos. O que foi que deixou a minha mãe tão nervosa a ponto de desmaiar? Não me diga que foi por sua causa, Alice. O que exatamente aconteceu aqui? — Perguntou Marta, com a voz carregada de acusação.