Priscila foi a primeira a atacar, sem perder a chance de questionar Alice:
— É isso mesmo, Alice. Você não devia estar no quarto, deitada, cuidando da gravidez? Assim que você chegou, você quase desmaiou nos braços do meu irmão de tanta fraqueza, e agora de repente está firme e forte? Parou de fingir, foi? Pai, mãe, com certeza foi a Alice que deixou a vovó tão nervosa a ponto de desmaiar.
Priscila então se virou para o próprio pai:
— E pensar que a vovó sempre a tratou tão bem… e ela retribui desse jeito, cometendo uma barbaridade dessas! Pai, dessa vez a gente precisa aplicar as regras da família. Ela tem que ser punida!
Pietro ficou em silêncio por alguns segundos. Ele lembrou que Alice estava grávida e, só então, falou:
— Alice, você tem alguma coisa a dizer em sua defesa?
Renata se apressou em intervir, aflita:
— Senhor, senhora, vocês estão enganados. O desmaio da Dona Rosa não teve nada a ver com a Sra. Alice.
Marta estreitou os olhos para a empregada:
— Renata, até quando você vai continuar passando a mão na cabeça dessa garota? Na hora em que tudo aconteceu, só estavam vocês no jardim dos fundos. Se não foi por causa dela, foi por causa de quem? Então fala logo o que realmente aconteceu.
Alice soltou uma risada fria:
— Quem disse que só estávamos nós lá atrás?
Nesse instante, a porta se abriu com um estrondo. O Michel, que tinha sumido até então, finalmente apareceu, como se chegasse na hora certa.
— Alice! — Chamou Michel. — Alice, você está bem? Por que você não ficou no quarto descansando? O que aconteceu com a vovó deve ter te assustado demais.
Ele veio na direção dela com expressão de preocupação, e, sem pedir licença, puxou Alice para dentro dos braços dele. Assim que ela sentiu o perfume de Iolanda impregnado na roupa dele, ela sentiu o estômago revirar de nojo.
Alice não se conteve e vomitou nele, de cima a baixo.
O terno caríssimo de Michel ficou todo respingado, completamente arruinado.
O cheiro ácido se espalhou no mesmo instante, forte e enjoativo. O resto da família Monteiro não conseguiu evitar: todo mundo levou a mão ao nariz.
Priscila quase surtou:
— Alice, que coisa mais nojenta! Está fedendo demais, que nojo!
Michel olhou para Alice com o rosto fechado, o maxilar travado:
— Você…
Alice, porém, se limitou a limpar o canto da boca com calma:
— Desculpa. Coisa de grávida.
Os Monteiro se entreolharam, e todos pensaram a mesma coisa:
"É muita coincidência ela ter vomitado exatamente virada para o lado do Michel."
Michel, no entanto, não explodiu como todos esperavam. Pelo contrário, ele encarou a mulher nos braços dele, que naquela noite parecia diferente, e sentiu um leve aperto no peito. Ele começou a se perguntar.
"Será que ela percebeu alguma coisa?"
Na última ligação, o tom de Alice já tinha soado estranho, cheio de insegurança. Naquela noite, ela também estava mais obediente, mais calma do que o normal.
"Será que ela está fazendo tudo isso só para chamar minha atenção? Será que ela realmente se importa comigo desse jeito?"
O pensamento trouxe com ele um traço quase imperceptível de compaixão. Michel se lembrou de que, afinal, o que Alice carregava no ventre eram os filhos dele com Iolanda.
Então, Michel respirou fundo, engoliu o próprio nojo e falou com a voz suave, atenciosa:
— Não tem problema. Você já está passando por tanta coisa… no fim, quem só perdeu duas peças de roupa fui eu.
Depois, ele levantou o olhar para os pais e explicou:
— Pai, mãe, eu também estava ali perto do jardim dos fundos na hora. Eu não ouvi nenhuma discussão. Sinceramente, eu acho que isso tudo não passou de um acidente.
Renata concordou com a cabeça várias vezes, endossando aquela versão dos fatos e servindo, na prática, como testemunha.
Alice fechou a expressão e preferiu não dizer mais nada. Mesmo que ela contasse a verdade, sem ter pego Michel e Iolanda em flagrante, tudo continuaria parecendo apenas palavra contra palavra.
Pietro não insistiu no assunto. Ele mandou que todos parassem de perturbar o sossego de Dona Rosa e expulsou o pessoal do quarto.
A festa terminou às pressas, e toda a família Monteiro saiu esgotada.
Antes que Alice fosse embora, Renata a puxou discretamente pelo braço e sussurrou:
— Sra. Alice, a Dona Rosa não tentou proteger o Michel de propósito, nem quis atrapalhar a senhora. Ela também só ficou sabendo do que estava acontecendo agora há pouco. Ela ia estourar, mas, quando viu a senhora no jardim dos fundos, ela se segurou. Ela realmente sente pena da senhora. Para Dona Rosa, só existe uma Sra. Mendes na família Monteiro, e essa pessoa é a senhora.
Alice apenas assentiu, sem que o rosto dela demonstrasse qualquer emoção.
— Eu entendi. Se for para falar alguma coisa, vamos esperar a vovó acordar primeiro. — Respondeu ela.
Como Dona Rosa ainda não tinha recuperado a consciência, todos precisaram passar a noite ali mesmo, no Solar do Vale Verde.
Alice voltou para o quarto, tomou um banho rápido e se deitou. Quando Michel apareceu, ela já estava de lado na cama, imóvel, como se estivesse em sono profundo.
— Alice… Alice? — Chamou Michel, baixinho.
Ele chamou duas vezes, e Alice não respondeu. No fim, Michel desistiu e foi dormir no quarto ao lado. Desde o casamento, isso só acontecia quando eles estavam no Solar do Vale Verde e era o único lugar em que eles ainda dividiam o mesmo teto.
Naquela noite, porém, ele claramente tinha outras prioridades. Ele provavelmente ainda estava preocupado em consolar seu primeiro amor, que tinha passado por um baita susto, e nem se deu ao trabalho de manter as aparências com a própria esposa.
O peito de Alice doeu, um incômodo surdo e constante, mas, ao mesmo tempo, ela sentiu certo alívio. A saída dele era tudo que ela queria. No estado em que ela estava, sequer a ideia de dividir o mesmo espaço com Michel já era difícil de suportar, quanto mais a mesma cama.
Assim que ele fechou a porta, Alice abriu os olhos. Ela pegou o celular e mandou uma mensagem para Daise:
[Você conseguiu encontrar o que queria hoje na casa da família Monteiro?]
Daise respondeu:
[Consegui alguma coisa, mas não é muita coisa.]
Logo em seguida veio outra mensagem:
[Sra. Alice, eu gravei uma imagem bem interessante. Acho que a senhora vai gostar de ver.]
Na sequência, Daise enviou o arquivo de vídeo. Alice tocou na tela e, ao ver o que aparecia ali, se sentou na cama num pulo. Era a gravação do encontro às escondidas de Michel e Iolanda no jardim.
Daise tinha flagrado os dois.
Alice sentiu uma energia nova percorrer o corpo. Ela respirou fundo e digitou:
[Vamos nos encontrar amanhã.]
Quando ela acordou, na manhã seguinte, a notícia era de que Dona Rosa finalmente tinha voltado a si. Alice se arrumou com calma, lavou o rosto, controlou a expressão e só então foi visitá‑la.
— Amor, vem aqui, senta do meu lado. — Chamou Dona Rosa, batendo de leve no colchão ao lado dela.
Priscila fez um bico, mas acabou cedendo espaço, contrariada.
— Vovó. — Disse Alice, segurando a mão dela.
Na hora, o nariz de Alice ardeu, e ela precisou se esforçar para não chorar. Ela nunca tinha imaginado que o problema de saúde de Dona Rosa fosse tão sério. Ela sempre tinha achado que se tratava apenas de doenças da idade, por isso a idosa passava tanto tempo na clínica de repouso.
Somente na noite anterior, quando ela soube que se tratava de uma doença terminal, ela sentiu uma pontada de culpa. Dona Rosa já tinha ajudado Alice em momentos decisivos. Em mais de uma ocasião, ela tinha tomado o partido de Alice dentro da própria família Monteiro. E, no fim, a crise que tinha feito Dona Rosa desmaiar estava diretamente ligada à teimosia de Alice.
"Se eu não tivesse insistido tanto…"
— Menina boba. — Disse Dona Rosa, apertando os dedos dela. — Ontem eu mandei a Lily te chamar porque eu fiquei feliz de saber que você tinha voltado. Eu só queria que você me acompanhasse um pouco, dar uma voltinha comigo. Fui eu que me abalei por causa desses netos ingratos, não teve nada a ver com você. Minha querida, eu sei direitinho como eles trataram você de forma injusta. E eu já dei uma bronca neles. Não poupei nenhum.
O rosto de Marta e o de Priscila ficaram ainda mais fechados, carregados de ressentimento.
Pietro pigarreou, sem jeito, com as faces levemente coradas.
— Mãe, ontem à noite a gente só estava preocupado, por isso a gente pressionou a Alice daquele jeito. A gente não fez nada contra ela. — Justificou ele.
Dona Rosa elevou a voz de repente, num grito que fez o quarto tremer:
— Ainda se faz de desentendido, Pietro? O que mais você quer fazer? Me mandar para o outro lado de uma vez, é isso que vai te deixar feliz?
Enquanto ela falava, os aparelhos ligados ao corpo dela começaram a apitar e oscilar de forma descontrolada, com os gráficos subindo e descendo feito loucos.
O susto deixou todo mundo lívido.
E Dona Rosa continuou, sem poupar ninguém:
— Ela está carregando o sangue da família Monteiro na barriga! Como é que vocês tiveram coragem de acusar essa menina e pressionar ela desse jeito?
Alice se apressou em passar a mão de leve no peito da avó:
— Vovó, por favor, não se exalte.
Pietro quase caiu de joelhos de tão apavorado.
— Mãe, pelo amor de Deus, não faz isso comigo. Eu já entendi, eu realmente errei. De agora em diante eu vou tratar a Alice como ela merece, vou colocar ela num altar, nunca mais vai acontecer nada parecido. Mãe… — Implorou ele.
Só depois da súplica de Pietro os aparelhos voltaram devagar ao ritmo normal.
Então, Dona Rosa ordenou que todo mundo saísse do quarto, deixando apenas Alice ao lado dela.
— Alice, eu sei muito bem que foi aquele desgraçado do Michel que fez besteira. Me conta: o que é que você pretende fazer? — Perguntou ela.
— Vovó, é melhor a senhora não se meter nisso, está bem? — Respondeu Alice.
— Não vou me meter? — Dona Rosa quase riu de nervoso. — Você quer ver essa família se desfazer de vez? Você é a minha nora preferida, a única Sra. Mendes que eu reconheço. Eu não vou deixar ninguém te escorraçar da família Monteiro!
Alice soltou um suspiro pesado. Ela sabia que aquilo seria um golpe duro para a idosa, mas, ainda assim, ela abriu a boca e falou:
— Vovó, eu quero me divorciar do Michel.
Por sorte, Dona Rosa já tinha tomado os remédios mais fortes, ou ela teria virado os olhos e desmaiado de novo na mesma hora. Mesmo assim, o peito dela subia e descia com força, e a mão com que ela segurava a de Alice tremia visivelmente.
— Não existe mesmo nenhuma chance de voltar atrás? — Perguntou ela, num fio de voz. — A noite passada… pode ter sido só um mal‑entendido…
Para não envolver Daise, Alice mostrou apenas a gravação de áudio da conversa anterior. Quando Dona Rosa ouviu aquela sequência de frases, o tom frio e cínico de Michel, duas caras na frente e por trás das pessoas, ela não teve mais como duvidar.
— É por causa daquela tal de Iolanda, não é? — Concluiu Dona Rosa. — Aquela mesma que antigamente deixou o Michel fora de si, sem comer, sem dormir, quase se matando por ela? Eu cheguei a ver essa moça às escondidas. Ela não passa de uma cabeça oca. Ela não chega nem perto da ponta do seu dedo mindinho! O Michel ficou cego? Ele não enxerga a diferença entre uma mulher de verdade e um capricho barato? Vocês já estão casados, e ele ainda continua se enroscando com aquela mulher… Esse canalha… Foi o Michel que falhou com você.
Os olhos de Dona Rosa ficaram vermelhos de tanta mágoa. Ela realmente não queria abrir mão de Alice. Em toda a família Monteiro, ela era a única que sabia, de verdade, o quão extraordinária Alice era. Mas, por causa de certas circunstâncias, ela tinha sido obrigada a esconder o brilho daquela neta de consideração.
— Um dia o Michel ainda vai se arrepender. — Disse ela, com convicção. — Ele vai se arrepender amargamente de ter desperdiçado uma esposa como você. Alice, você tem certeza que não consegue dar mais uma chance para ele?
Alice balançou a cabeça, firme:
— Desculpa, vovó. Entre mim e ele, não tem mais volta.
Dona Rosa levou a mão ao peito, tentando conter a dor abafada:
— Então me promete, pelo menos, que você só vai pedir o divórcio depois que eu morrer?
Alice a encarou, o coração apertado:
— Vovó, a senhora ainda vai viver muitos anos.
Dona Rosa deixou escapar um sorriso amargo:
— Eu conheço o meu próprio corpo, minha filha. No máximo seis meses… talvez só três. Alice, considera isso como o último pedido de uma moribunda. Atende essa vontade minha. Eu vou deixar um terço da minha herança para você. Vai ser uma garantia para você e para as crianças que você carrega. O que você acha?
As lágrimas de Alice vieram sem que ela conseguisse segurar:
— Vovó, eu não quero nada. Eu só quero que a senhora fique bem.
Ao ver que Alice chorava, de verdade, por causa dela, Dona Rosa sentiu um calor sincero tomar o peito.
— Boa menina. — Murmurou ela. — Eu vou considerar isso como um "sim". Renata, traz os papéis do contrato para ela assinar. Rápido!
Alice ficou sem palavras e sentiu que tinha chorado à toa.
Diante do quase pedido de joelhos de Dona Rosa, ela acabou cedendo e concordou, por enquanto, com o que a idosa queria.
Ela tinha medo de que, se insistisse em recusar, Dona Rosa não aguentasse nem os três meses que tinha mencionado.
Para acalmá‑la, Alice pegou a caneta e assinou onde Renata indicou. Assim que ela levantou a cabeça, Michel apareceu batendo na porta e entrou. Ele trazia um sorriso satisfeito no rosto:
— Eu ouvi dizer que vocês estavam assinando algum tipo de contrato… O que vocês estão aprontando aí? — Perguntou ele.