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Sangue frio no subsolo

Author: Lu Carvalho
last update publish date: 2023-02-03 22:23:24

O som do elevador privativo descendo em direção ao subsolo da torre da Price International parecia marcar o ritmo acelerado das batidas do coração de Grace. Cada segundo dentro daquela cabine de metal polido aumentava a densidade do ar. Ela mantinha os ombros alinhados, o queixo erguido e a expressão rigidamente controlada, vestindo a armadura invisível que o mundo corporativo exigia. Não havia mais espaço para a mulher acuada que, semanas antes, tremia diante de cobranças de aluguel. No entanto, por dentro, um nó de ansiedade e repulsa queimava o seu estômago.

Marcus permaneceu de pé ao lado dela, com as mãos cruzadas à frente do corpo e um semblante gélido, pronto para neutralizar qualquer ameaça física antes mesmo que ela pudesse se aproximar de Grace.

Assim que o visor digital indicou a chegada ao subsolo e as portas de aço inoxidável se abriram, o barulho irritante e estridente de vozes alteradas invadiu o espaço.

— Eu sou o marido dela! Vocês não têm o direito legal de me barrar! Eu exijo respeito! — berrava Anthony, gesticulando de forma descontrolada para os dois seguranças de terno preto que o mantinham firmemente contido a uma distância segura da entrada do elevador.

Anthony estava visivelmente transtornado. A jaqueta de couro sintético estava amassada, os cabelos desalinhados e o rosto exibia uma coloração avermelhada de pura raiva e frustração.

Ao avistar Grace saindo do elevador com passos firmes e um ar de total superioridade, os olhos de Anthony injetaram-se de um ódio visceral. Ele tentou dar um passo à frente, mas os seguranças flexionaram os braços, bloqueando-lhe o caminho com uma força inegável.

— Grace! Sua desgraçada! — esbravejou Anthony, contorcendo o rosto em uma careta de escárnio. — Até que enfim deu o ar da graça! ... Você achou mesmo que podia fugir da nossa casa, mudar de vida, me ignorar no celular e viver de luxo com o seu chefinho riquinho enquanto eu fico na merda pagando as contas sozinho?! Você acha mesmo que vai simplesmente abandonar as suas obrigações de esposa e viver como se estivesse solteira? ... Não, você não vai!

Grace parou a poucos metros dele, cruzando os braços com um olhar cortante.

— Acabou a encenação, Anthony? — perguntou Grace, com uma voz perfeitamente calma e cristalina. — Bom, primeiro que eu não fugi, eu vim trabalhar em um lugar que exige que eu durma no local de trabalho. E segundo que mesmo se eles não exigissem isso, eu iria ficar em um outro lugar, pois eu não iria voltar para aquele apartamento nunca mais.

— Ah, mas você vai, vai sim! — insistiu Anthony, avançando um pouco mais, ignorando a postura dos seguranças. — Você vai voltar agora mesmo para casa e cumprir com o seu papel de mulher pelo menos nos finais de semana, assim como muitas outras mulheres que trabalham fazem! Afinal ainda somos casados perante a lei, Grace. Você tem obrigações comigo! O que significa que você não tem o privilégio de escolher o que você quer... ainda.

— Obrigações? — repetiu Grace, deixando escapar uma risada curta, seca e carregada de um escárnio profundo que fez o maxilar de Anthony se contrair ainda mais. Ela deu um passo à frente, estreitando os olhos. — As únicas obrigações que eu tive durante anos foi carregar você nas costas, pagar as contas com o suor do meu trabalho enquanto você gastava o que não tinha, aguentar as suas reclamações e servir de empregada particular na sua casa. O seu conceito de "casamento" é apenas a sua conveniência travestida de lei, Anthony. E eu já cansei de ser a base de sustentação da sua mediocridade.

— Ah, sua ingrata, sua insolente! — esbravejou Anthony, perdendo de vez o controle. Ele tentou se desvencilhar dos seguranças com um tranco violento, mas foi contido com ainda mais firmeza, fazendo-o estufar o peito em direção a ela. — Você acha que mudou só porque está vestindo roupinhas caras e andando com bilionários? Você continua sendo a mesma coitada que morava em um cubículo alugado comigo, Grace! E quer saber de mais uma coisa? Você vai voltar comigo por bem ou eu faço questão de descer aqui todos os dias, para infernizar a sua vida na porta dessa torre e mostrar para o seu amado chefe o tipo de mulherzinha que ele levou para debaixo do próprio teto!

A ameaça rasteira e barulhenta de Anthony ecoou pelas paredes de concreto do subsolo, gerando um incômodo visível nos seguranças e fazendo Marcus arquear a sobrancelha em um gesto de alerta silencioso.

Contudo, antes que Grace pudesse responder à altura, o som estridente e característico de pneus de alta performance freados com precisão cirúrgica cortou o ambiente.

Um carro esportivo de luxo prateado, com vidros totalmente escurecidos e pintura impecável, deslizou silenciosamente pelo estacionamento, parando de forma imponente bem próximo à saída de emergência, a poucos metros do tumulto. A porta do carona abriu-se com um leve estalido, e uma bota de salto agulha em couro envernizado tocou o piso de cimento.

Era Ravena Wottar.

Ravena caminhou com passos firmes, decididos e elegantes, ignorando completamente a penumbra industrial daquele subsolo.

Ela usava um casaco de pele sintética impecável sobre um vestido tubinho estruturado, óculos escuros de grife que escondiam parcialmente seu olhar glacial e um par de saltos agulhas que estalavam com um eco seco no concreto.

Ela havia ido até o complexo da Price International na mais completa convicção de encontrar Thomas. Precisava cobrar dele satisfações sobre a forma grosseira com que fora tratada na noite anterior e, acima de tudo, pressioná-lo a demitir aquela assistente inconveniente de uma vez por todas. No entanto, ao dobrar o corredor do subsolo, deparou-se com aquele circo armado.

— Mas o que significa toda essa gritaria ensurdecedora aqui? — disparou Ravena, parando a poucos metros do grupo. Ela tirou lentamente os óculos escuros, revelando seus olhos azuis estreitados em puro desdém, e olhou para Anthony, depois para Grace, como se ambos fossem insetos irritantes sobre a mesa de jantar. — É um completo absurdo o escândalo de subúrbio que está sendo feito bem na entrada do edifício corporativo e residencial do meu noivo! Aqui não é lugar de vir lavar roupa suja de sarjeta. Se vocês dois têm problemas conjugais patéticos para resolverem, façam o favor de irem para outro lugar e parem de envergonhar o nome da Price International!

Anthony, que ainda respirava com dificuldade devido à fúria contida pelos seguranças, virou-se bruscamente para encarar a mulher sofisticada que os tratavam com tanta arrogância.

Até aquele exato segundo, ele nunca havia ouvido falar de Ravena Wottar, a noiva de Thomas Mueller Price. Para ele, o mundo de Thomas Price era uma abstração distante, habitada apenas por cifrões e torres de vidro inalcançáveis.

Anthony contraiu o maxilar, o rosto ainda ruborizado de raiva, mas, em vez de se encolher diante da elegância e do tom autoritário de Ravena, ele estufou o peito. A arrogância natural dele — aquela mesma que ele usava para descontar suas frustrações em Grace — falou mais alto.

— Olha aqui, o gracinha de casaco de pele — retrucou Anthony, soltando uma risada cínica e cuspindo as palavras com escárnio. — Guarde esse seu bico empertigado para o seu ricaço de araque! Porque se eu estou aqui fazendo escândalo, a culpa é justamente dessa sua "família" ou sei lá o que vocês são, que resolveram acobertar a minha mulher para vir morar de favor e servir de empregadinha para esse bilionário do topo dessa torre! ... E antes que você queira se achar a tal, a melhor que qualquer um de novo, lembre-se de que pelo menos a minha esposa, seja lá o que você acha dela, sabe pelo menos lavar uma louça, o que eu duvido muito que uma madame inútil como você saiba fazer além de gastar o dinheiro dos outros!

As palavras de Anthony atingiram Ravena como um tapa físico. O rosto da socialite empalideceu de choque absoluto. Ninguém — absolutamente ninguém na alta sociedade de San Francisco — jamais ousara falar com ela daquela maneira, naquele tom, muito menos um homem mal vestido e insignificante de subúrbio.

Os olhos azuis de Ravena faiscaram com um veneno assassino.

— Como... como você ousa falar comigo assim, seu verme insolente?! — sibilou Ravena, dando um passo à frente, com a voz trêmula de pura fúria contida, os nós dos dedos brancos de tanto apertarem a bolsa de grife. — Você não passa de um Zé ninguém fracassado, um inseto rastejante que não tem onde cair morto, e tem a audácia de abrir essa boca imunda para falar comigo nesse tom? Se você tivesse o mínimo de decência, saberia que o seu lugar é na sarjeta, de joelhos, que é onde vermes como você merecem ficar!

O ego ferido de Ravena reverberava em cada sílaba, e o olhar gélido que ela lançou a Anthony prometia vinganças futuras inimagináveis.

Grace, vendo que a situação estava prestes a explodir em uma guerra de xingamentos ainda pior e temendo o que Ravena — agora pessoalmente enfurecida — poderia fazer contra ela e contra o seu emprego nos bastidores, sentiu um frio na espinha.

Ela precisava cortar aquilo imediatamente antes que o estrago se tornasse irreparável.

Abaixando a cabeça em um gesto amargo de rendição, Grace deu um passo à frente, interrompendo a respiração pesada de Anthony.

— Chega, Anthony. Você venceu. Vamos embora agora mesmo — murmurou Grace, engolindo em seco todo o orgulho e a vergonha que queimavam em sua garganta. Ela olhou rapidamente para Ravena, mantendo a voz baixa e submissa para apaziguar a fúria da socialite. — Peço desculpas pelo transtorno causado à senhora e ao nome da empresa, senhorita Wottar. Prometo que isso não voltará a se repetir nunca mais.

Ravena sibilou um som de puro desgosto, ajeitando o casaco com movimentos bruscos e virando o rosto para o lado, recusando-se a olhar para os dois por mais um segundo sequer.

Aproveitando a brecha, Anthony agarrou o braço de Grace com força, puxando-a para longe dali com um sorriso de vitória barata estampado no rosto, enquanto o táxi aguardava na rua principal para levá-la de volta ao sufocante cativeiro do qual ela havia tentado escapar.

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