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De volta a inóspita, tempestade a vista

Author: Lu Carvalho
last update publish date: 2023-02-03 22:24:02

O aperto da mão de Anthony no braço de Grace era doloroso, não apenas fisicamente, mas como um lembrete brutal de que a liberdade que ela experimentara, mesmo que por poucos dias, havia acabado.

Ele a puxou com força em direção ao táxi que esperava na calçada, ignorando o fato de que ela quase tropeçava nos próprios pés. A vitória barata estampada no rosto dele — um sorriso de escárnio misturado ao alívio de ter recuperado sua fonte de sustento e servidão — embrulhava o estômago de Grace.

— Entre! — ordenou Anthony, abrindo a porta traseira do veículo e praticamente empurrando Grace para dentro. Ele entrou logo em seguida, batendo a porta com violência, um gesto que fez o motorista do táxi pular levemente no banco da frente, lançando um olhar cauteloso pelo retrovisor.

— Para onde vamos, patrão? — perguntou o motorista, tentando manter a voz neutra, sentindo a tensão palpável que preenchia o pequeno espaço.

Anthony ditou o endereço do apartamento, aquele cubículo apertado e sufocante que Grace chamava de lar e que agora parecia uma prisão em sua mente. O táxi arrancou, fundindo-se ao tráfego cinzento e caótico de San Francisco.

O silêncio dentro do carro era pesado, denso e sufocante. Anthony recostou-se no estofado desgastado, cruzando os braços sobre o peito com uma expressão de satisfação sádica. Ele olhou para Grace, que estava encolhida no canto oposto, olhando fixamente para a paisagem urbana que desfilava rapidamente pela janela fumê.

A mente de Grace trabalhava a mil por hora, mas, ao contrário do que Anthony estava imaginando, ela nem sequer pensava em Thomas Mueller Price, em Marcus, em Ravena ou até no trabalho, naquele momento o seu único desespero quando a ficha finalmente caiu: era Emma!

A sua melhor amiga que havia cruzado a cidade inteira para visitá-la, levando rosquinhas, café, e agora, estava lá em cima, na imensidão da cobertura, sozinha, esperando por seu retorno e imaginando que ela só tinha descido para resolver um pequeno contratempo no subsolo e já voltaria.

Levando a mão instintivamente ao bolso do casaco de alfaiataria que ainda vestia, buscando tatear qualquer objeto, seus dedos encontraram apenas o tecido vazio. Na correria ensurdecedora daquela discussão no subsolo, ela não apenas tinha deixado o celular pessoal sobre a escrivaninha na suíte da ala leste, como também não estava com bolsa nenhuma — tudo havia ficado lá em cima.

Grace sentiu o ar sumir de seus pulmões e os olhos marejarem de frustração e culpa.

Sem o telefone, ela estava completamente incomunicável. Não havia como ligar para Emma, não havia como avisá-la, e não havia como pedir para Marcus intervir a tempo de tranquilizar a amiga.

Ela estava, mais uma vez, enclausurada na órbita sufocante de Anthony, impotente e consumida pela angústia de saber que havia deixado a pessoa que mais se preocupava com ela naquela imensa cidade, sozinha e sem respostas, na boca do lobo.

— O que foi, Grace? Ficou muda de repente agora que está voltando para o seu lugar? — zombou Anthony, percebendo o semblante pálido e o desespero nos olhos dela. — Está preocupada com o quê? Com o seu chefe bilionário? Com o luxo que já está se acostumando a ter? ... Sinto muito te informar, querida, mas agora você está comigo. Indo de novo para o nosso pequeno ninho de amor. E nós, vamos ter muito tempo... para conversar sobre as suas novas responsabilidades de esposa.

Grace engoliu em seco, recusando-se a dar a ele a satisfação de vê-la chorar ou implorar. Ela desviou o olhar para a janela novamente, sentindo o peso esmagador da culpa por ter deixado Emma para trás e por não ter tido coragem de ter batido de frente com ele, enquanto o táxi a levava de volta ao que ela já considerava um cativeiro.

Enquanto o táxi se afastava cada vez mais, o subsolo da Price International permaneceu em um silêncio tenso. Ravena Wottar, ainda soltando fogo pelas ventas devido à humilhação pública que sofrera nas mãos daquele "verme insolente", virou-se para Marcus com os olhos faiscando de ódio.

— Marcus! O que significou toda essa palhaçada? — sibilou Ravena, ajeitando o casaco de pele sintética com movimentos bruscos e espasmódicos. — Como aquele... aquele... homem teve a audácia de falar comigo daquele jeito? E porque você permitiu que ele me tratasse com tanto desrespeito na presença de funcionários e daquela... daquela assistente medíocre? ... Eu exijo que ele seja processado, preso, destruído! E exijo ver Thomas agora mesmo para resolver essa situação!

Marcus manteve a postura impecável, a expressão fria e impessoal como uma estátua de mármore. Ele ouviu o chilique da socialite sem piscar, sua mente trabalhando em uma velocidade muito superior à dela, calculando os danos e as ordens que recebera do próprio CEO.

— Senhorita Wottar, lamento profundamente o transtorno ocorrido em nossas dependências privadas. Peço mil desculpas por tudo, mesmo... — respondeu Marcus, com uma voz solene e polida, que não escondia, no entanto, uma ponta de desdém sutil. — Quanto ao senhor Pettison, ele já foi removido das instalações e a segurança acabou de ser alertada para impedir o seu retorno. Então por enquanto... eu não acho que devemos chegar a tanto. E já quanto ao senhor Price... eu sinto em lhe informar, mas ele não se encontra na cobertura. Ele saiu em uma viagem de negócios de madrugada para Nova York e não tem previsão de retorno para o fim de semana.

Ravena arregalou os olhos em choque. O tom calmo e a informação que acabara de receber, pareciam zombar dela.

— Viajou? Para Nova York? — repetiu Ravena, incrédula, com a voz subindo uma oitava. — Thomas viajou para Nova York e... e não me comunicou? Não me avisou com antecedência? Como isso é possível? Eu sou a noiva dele! Eu deveria saber sobre a agenda dele!

A socialite parecia prestes a ter um ataque de histeria ali mesmo no subsolo. O ego ferido dela gritava não apenas pela humilhação sofrida por Anthony, mas pela prova contundente de sua irrelevância na vida de Thomas — uma prova que ela acabara de receber na forma daquela viagem repentina e da frieza de Marcus.

— O senhor Price gerencia sua agenda de acordo com as prioridades corporativas da Price International, senhorita Wottar. Portanto, o relacionamento de vocês e a forma como o conduzem não dizem respeito a mim, mas exclusivamente a vocês — respondeu Marcus, sem demonstrar a menor compaixão pelo desespero da noiva. — Agora, se a senhorita não for mais precisar de mais nada, peço licença para me retirar, pois tenho protocolos de segurança a restabelecer na torre.

Com um aceno de cabeça formal e seco, Marcus virou-se e começou a caminhar em direção aos elevadores de serviço, deixando Ravena sozinha e furiosa no meio do subsolo.

Soltando fogo pelas ventas e xingando Thomas, Grace e Anthony em um sussurro sibilante, Ravena marchou de volta para o seu carro esportivo prateado, dirigindo para fora da garagem com pneus cantando no asfalto, decidida a encontrar Thomas onde quer que ele estivesse e exigir respostas.

Marcus, por sua vez, também não perdeu tempo. Subiu rapidamente para a cobertura, e ao chegar no hall principal, encontrou Emma, que ainda estava sentada no sofá, mexendo no celular e parecendo ligeiramente entediada com a longa ausência da amiga.

Emma levantou-se num pulso rápido assim que o viu se aproximar, com um sorriso questionador nos lábios.

— Marcus! Até que enfim! Achei que vocês tinham ido resolver a crise do século lá em Paris — brincou Emma, ajeitando os cabelos. — Onde está a Grace? O tal do Anthony já foi embora com o rabo entre as pernas?

Marcus parou diante de Emma, com a expressão séria e grave. Ele respirou fundo antes de falar, escolhendo as palavras com cuidado.

— Senhorita, lamento informar que a situação tomou um rumo inesperado e delicado lá embaixo — começou Marcus, com a voz baixa e séria. — O senhor Pettison, marido da senhorita Butler, não só invadiu o subsolo, como também proferiu ameaças graves contra a integridade profissional e pessoal da senhorita Butler...

O sorriso de Emma sumiu instantaneamente. Ela arregalou os olhos, o coração disparando.

— Ameaças graves?! O que aquele desgraçado fez a minha amiga? A Grace está bem? Onde ela está agora?

— Fisicamente, a senhorita Butler está ilesa. Fique tranquila — esclareceu Marcus. — No entanto, sob coação direta e para evitar um escândalo público na porta do edifício, que poderia comprometer sua posição na empresa e a imagem da Price International, a senhorita Butler tomou a difícil decisão de acompanhar o senhor Pettison para fora das instalações. Ela saiu da torre com ele há poucos minutos, em um táxi.

Emma sentiu o sangue gelar nas veias. O pânico a atingiu em cheio.

— E você... você deixou ela ir com aquele monstro?! Sozinha?! Sem segurança?! ... Não, ela não podia ter ido! A Grace não podia ter cedido as chantagens daquele crápula! ... Nós temos que ir atrás dela, Marcus! Nós temos que chamar a polícia!

Emma começou a andar de um lado para o outro, em um ataque de fúria e desespero, gesticulando com as mãos.

— Acalme-se, senhorita! — ordenou Marcus, com uma voz firme e autoritária que fez Emma parar no meio da sala e encará-lo. — A senhorita Butler agiu com extrema coragem e inteligência para estancar uma sangria imediata e proteger o império que o senhor Price construiu. Se houvesse uma intervenção física ali, um tumulto generalizado na porta da empresa, as consequências para a reputação dela seriam devastadoras e irreversíveis. ... A senhorita Butler sabia o que estava fazendo. Afinal o indivíduo era o marido dela e ela o conhece melhor do que ninguém. ... Então ela vai ficar bem, tenho certeza.

Emma ouviu tudo com a testa franzida. Embora confiasse na inteligência de Grace, o fato de ela estar sozinha e à mercê de Anthony a apavorava.

— E o senhor Price? — perguntou Emma, com a voz trêmula. — Alguém já avisou ele? Ele já sabe de tudo que aconteceu? Ele não pode deixar a Grace nas mãos daquele canalha!

— O senhor Price já foi informado, senhorita — respondeu Marcus, com a voz solene. — Assim que a senhorita Butler e a senhorita Wottar saiu, eu tomei a liberdade de ligar para o senhor Price em Nova York e relatar o incidente em detalhes. E, diante da gravidade da situação e da ameaça direta à senhorita Butler, o senhor Price disse que iria cancelar o restante da agenda e retornar para San Francisco imediatamente. Ele provavelmente estará de volta à cobertura na madrugada de domingo. E quando o senhor Price colocar os pés aqui... tenha a certeza de que a tempestade vai desabar sobre todos aqueles que ousaram tocar no que é dele.

A milhares de quilômetros de distância dali, no jatinho particular que cortava o céu em direção à costa oeste, Thomas Mueller Price já estava sentado na poltrona de couro, com os olhos fixos na tela do tablet, lendo o relatório de segurança detalhado que Marcus havia lhe enviado poucos minutos atrás.

A leitura das ameaças rasteiras proferidas por Anthony contra Grace, havia despertado a fúria protetora e possessiva dele. Ele via a ousadia de Anthony como uma afronta direta à sua autoridade e ao seu território.

Thomas Price não construirá um império global permitindo que vermes insignificantes ameaçassem sua paz e o seu patrimônio — e agora, mais do que nunca, ele percebia que Grace era parte integrante desse patrimônio, uma joia rara que ele não permitiria que fosse manchada por ninguém.

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Comments (1)
goodnovel comment avatar
Luciane Nadaline Nadalinne
Adorei pena que demora muito pra desbloquear os capítulos
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