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CAPÍTULO 5

last update publish date: 2026-09-12 09:59:59

​BARÃO NARRANDO

O QG tava abafado pra caralho, mas eu não dava a mínima. tava de braços cruzados na janela, olhando o movimento lá embaixo na favela, quando o meu celular particular, aquele que só os contatos de alta importância tinham o número, vibrou no bolso da calça.

Peguei o aparelho e vi o número privado. O número da clínica de bacana lá do asfalto.

Atendi na hora, sem rodeios, soltando a fumaça do baseado pra fora da janela.

​— Fala.

​— Boa tarde, senhor Barão, a voz do diretor da clínica saiu pausada, cheia daquela polidez nojenta de quem tem medo de morrer, mas quer parecer profissional. Ligamos para informar que o procedimento foi realizado com absoluto sucesso. A candidata selecionada passou pela inseminação há poucas horas e correu tudo dentro dos conformes médicos.

Um sorriso de canto brotou no meu rosto. Senti o peito inflar, uma sensação de poder que nem o controle do tráfico me dava.

​— O material já tá nela? — perguntei, a voz grossa ecoando na sala vazia do QG.

​— Sim, senhor. Tudo correu perfeitamente. Agora é aguardar o período de fixação e o primeiro exame de sangue em algumas semanas para confirmar a gestação, mas as chances são altíssimas dado o perfil fértil da moça.

​— Papo reto. O trato continua o mesmo. Quero relatório de tudo. E já vão preparando a estrutura, porque assim que o laboratório confirmar que o moleque tá vingando, eu vou buscar a mulher. Ela vai morar na minha mira, no meu casarão, com toda a segurança.

​— Com certeza, senhor Barão. Manteremos o senhor informado de cada passo. Passar bem.

Desliguei o telefone e joguei o aparelho em cima da mesa de madeira, soltando uma lufada de ar e dando uma risada curta.

É isso, pensei. O império que eu construí na bala, no sangue e no respeito finalmente ia ter uma continuidade. Um herdeiro com o meu sangue, criado por mim pra ser mais temido e mais inteligente do que eu. Homem sem herdeiro morre duas vezes, e eu não ia deixar meu nome sumir desse mapa.

A porta do QG abriu de uma vez e o Tilápia entrou segurando uma prancheta com a contabilidade das bocas de fumo da parte alta.

​— E aí, chefe? Pelo sorrisinho, a carga de armamento da fronteira já foi liberada?

​— Melhor que isso, Tilápia — respondi, pegando o baseado no cinzeiro de novo. — O meu menor já tá a caminho. A parada na clínica deu certo hoje. O médico acabou de ligar.

Tilápia arregalou os olhos e soltou uma risada alta, batendo a mão no meu ombro.

​— Caralho, o homem vai ser pai! Parabéns, Barão! A favela vai ter que miar baixo agora. Mas e a mina? Quem é a de sorte que tu escolheu a dedo no catálogo?

​— Uma branquinha aí do asfalto, — respondi, puxando o ar e soltando devagar. — Estudada, de família boa, sem histórico de doença na família e bem discreta. O tipo de mulher que sabe se portar e não vai ficar de palhaçada no meu ouvido. Paguei uma nota preta pros caras acharem a candidata com o perfil perfeito.

Fui até a janela novamente, olhando o sol começar a se esconder atrás do morro, enquanto o som dos primeiros paredões do baile de sexta começavam a testar o grave lá na Penha.

Eu tava crente de que tinha o controle absoluto de tudo. Na minha mente, a mãe do meu filho tava descansando em um apartamento de luxo na Zona Sul, sob os cuidados dos melhores médicos que o meu dinheiro podia pagar.

​Eu só não imaginava que, a menos de quinhentos metros do meu QG, em um barraco de tábua que balançava com o vento, a garota magrela que eu ignorei na calçada do restaurante chorava com uma cólica esquisita, sem saber que carregava no ventre a semente do homem mais perigoso daquele lugar. O erro tava feito. E quando a verdade cobrasse a conta, o morro inteiro ia tremer.

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