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2. Começo do fim

Author: J.G. Almeida
last update publish date: 2026-10-01 04:14:15

Viro-me num pulo, visivelmente assustada.

Diante de mim está um homem alto, loiro, de olhos azuis e corpo musculoso. Pelo sotaque e pela aparência, provavelmente é estrangeiro. Ele me encara com um sorriso entusiasmado e, ao perceber que me assustou, imediatamente muda a expressão.

― Desculpe. Não foi minha intenção assustá-la.

Forço meu melhor sorriso, tentando esquecer o que acabou de acontecer com Guilherme.

― Tudo bem. Em que posso ajudá-lo?

Ele sorri novamente.

E que sorriso.

― Sou David Montenaro, diretor-geral de uma das filiais da Calvin Klein, em Nova York.

Arregalo os olhos.

― Ah... é um prazer conhecê-lo, senhor David.

― Sem formalidades. David, por favor.

Ele estende a mão e aperto-a.

― Você trabalha como modelo há muito tempo?

Solto uma pequena risada.

― Na verdade, esse foi meu primeiro desfile.

― Jura?

A surpresa em sua voz me faz sorrir.

― Mas então você é conhecida no Brasil, não é? Como conseguiu chegar à SPFW?

― Na verdade, tenho um blog de moda. Tenho bastante seguidores. Foi por isso que vim hoje. Eu faria a cobertura do evento para o blog. Mas uma das modelos se machucou e o Robert me colocou para substituí-la.

David me observa por alguns segundos, claramente surpreso.

― Isso é incrível. Uma sorte e tanto, eu diria. Você mandou muito bem na passarela. Para falar a verdade, parece que nasceu para isso.

Sinto minhas bochechas esquentarem.

― Obrigada.

― Você nunca pensou em ingressar profissionalmente no mundo da moda? Quero dizer... como modelo?

Meu coração acelera.

― Isso seria incrível. Eu adoro tudo relacionado à moda.

Digo a última frase com tanto entusiasmo que só percebo depois que estava prendendo a respiração.

David sorri.

― Laura, daqui a duas semanas, nossa marca realizará um desfile beneficente em Londres. Teremos modelos experientes e também alguns novos rostos.

Ele faz uma pequena pausa.

― Eu ficaria muito feliz se você aceitasse participar.

Meu cérebro simplesmente para.

Londres.

Eu.

Desfilando.

Em Londres.

Se meu coração estava prestes a explodir antes, agora ele provavelmente já tinha explodido.

― Ah... eu...

As palavras não saem.

Travo completamente.

David ri diante da minha expressão.

― Laura, eu entendo. Não precisa me responder agora. Mas preciso de uma resposta até amanhã, ao meio-dia. Se for um sim, precisamos providenciar seu contrato e organizar tudo para que você embarque o quanto antes. Você precisa estar em Londres com antecedência para os ajustes das roupas e os ensaios.

Ele tira um cartão do bolso.

― E preciso que entenda uma coisa. A marca é muito seletiva. Não costumamos fazer convites assim, principalmente para alguém sem uma agência de modelos por trás.

Ele me entrega o cartão.

― Não desperdice essa oportunidade. Você tem uma beleza marcante e, pelo que vi hoje, um futuro bastante promissor.

Fico alguns segundos olhando para o cartão em minhas mãos.

É inacreditável.

Que dia.

Que dia maravilhoso.

Quem poderia imaginar que eu viria para cobrir um evento e acabaria recebendo um convite para desfilar em Londres?

Levanto os olhos para ele.

― David...

Sorrio.

― Eu aceito.

Ele abre um sorriso enorme.

― Tem certeza?

― Absoluta.

― Então, magnífico!

Ele estende novamente a mão.

― Amanhã me procure logo pela manhã. Vou pedir pessoalmente que preparem seu contrato. Quanto antes estiver tudo certo, melhor.

Aperto sua mão.

― Muito obrigada pela oportunidade. De verdade.

― Aproveite a festa, Laura. Amanhã começamos a cuidar dos detalhes.

Ele se afasta para cumprimentar outros convidados.

Fico parada, olhando para o cartão.

Londres.

Eu realmente vou para Londres.

― Ah, meu Deus...

Pego o celular.

Preciso contar para a Clara.

Ela vai surtar.

Clara é minha amiga desde a infância. Estudamos juntas praticamente a vida inteira. Ela conhece cada detalhe da minha vida e, principalmente, nunca gostou do Guilherme.

Mas aceitou.

Porque, no fim das contas, ele era o homem que eu havia escolhido para passar o resto da minha vida.

É isso que as amigas fazem.

Apoiam nossas escolhas, mesmo quando não concordam com elas.

Então me lembro dele.

Guilherme.

Olho para o celular.

Oito da noite.

― Ele vai me matar.

Troco de roupa rapidamente e saio do evento, torcendo para que ele ainda não tenha chegado em casa.

---

Quando chego, encontro a casa silenciosa.

Não é exatamente uma surpresa.

Ultimamente, Guilherme tem chegado cada vez mais tarde. Na maioria das noites, eu já estou dormindo quando ele aparece.

Mas hoje é diferente.

Estou feliz.

E quero contar.

Talvez, se eu conseguir fazê-lo enxergar o quanto essa oportunidade significa para mim, ele entenda.

Decido esperá-lo.

Joana já está cuidando dos últimos afazeres da casa e, depois de algum tempo, dispenso-a.

Escolho uma lingerie preta de renda e espero.

Passa uma hora.

Depois duas.

Quando percebo, já é quase meia-noite.

Estou cansada.

Subo as escadas decidida a tirar aquela roupa e ir dormir quando escuto o barulho do carro entrando na garagem.

Meu coração dispara.

Volto para o quarto e me sento na cama.

Vinte minutos se passam.

Ele não sobe.

Desço novamente.

Encontro Guilherme na sala, falando ao telefone enquanto segura um copo de uísque.

― Sim, cheguei bem. Muito obrigado pelo jantar, mãe...

A frase morre no meio.

Ele me vê.

Sua expressão muda imediatamente.

Por um instante, tenho a impressão de que ele perdeu completamente a cor.

Ele me olha dos pés à cabeça.

Sorrio.

Faço minha melhor expressão de mulher sedutora.

Ele volta a falar ao telefone.

― Sim. Está tudo bem. Muito obrigado pelo jantar, mãe.

Desliga sem esperar resposta.

Continua me encarando.

Aquele homem ainda consegue fazer meu coração disparar com um simples olhar.

É irritante.

Porque, apesar de tudo, Guilherme continua lindo.

Ele sempre foi.

Desde a época da escola.

Era o garoto mais bonito e cobiçado do colégio. As garotas suspiravam quando ele passava.

Eu não.

Pelo menos era o que eu dizia.

Naquela época, eu namorava outro garoto.

Hoje, porém, ele é meu marido.

E está parado diante de mim como se eu fosse uma completa desconhecida.

Caminho lentamente até ele.

― Você chegou, querido.

Enlaço meus braços ao redor dele.

― Eu estava esperando por você.

Ele não retribui o abraço.

― Eu disse para não me esperar.

Ele se inclina levemente, inalando o perfume do meu cabelo.

― Eu sei.

Passo a mão por seu pescoço.

― Mas ainda está cedo. Eu queria te esperar. Podemos tomar um vinho... conversar. Talvez uma massagem.

Ele parece sair de um transe.

Segura meus pulsos e afasta minhas mãos.

― Hoje não, Laura. Estou muito cansado.

Ele começa a se afastar.

Corro até ele e o abraço pelas costas.

― Amor, deixa eu fazer uma massagem em você. Só para você relaxar.

Ele para.

Por alguns segundos, permanece imóvel.

Então olha de canto.

Parece quase rir.

Tira minhas mãos de seu peito.

― Hoje não.

A voz dele é completamente sem emoção.

― Vou tomar banho e dormir no quarto de hóspedes.

Ele tira a gravata e começa a desabotoar a camisa.

Está usando uma camisa preta e uma calça escura de risca de giz.

Meu homem perfeito.

E, ao mesmo tempo, tão distante.

Às vezes me pergunto o que fiz para que ele mudasse tanto.

No começo, éramos apaixonados.

Depois do casamento, tudo mudou.

― Por quê?

Ele continua caminhando.

― O que eu fiz para você me tratar assim, Guilherme?

Nenhuma resposta.

― Por que você mudou tanto comigo?

Ele entra no banheiro e fecha a porta.

Poucos segundos depois, ouço o chuveiro ligar.

Fico parada diante da porta.

Talvez eu devesse deixá-lo em paz.

Mas não quero.

Quero meu marido de volta.

Vou até o banheiro.

Giro a maçaneta.

Trancada.

― Sério?

Bato o pé no chão, frustrada.

Como alguém tão lindo consegue ser tão estúpido?

Pouco depois, o chuveiro é desligado.

A porta se abre.

Guilherme sai usando apenas uma toalha branca enrolada na cintura.

Preciso desviar o olhar.

O corpo dele continua perfeitamente esculpido, coberto por tatuagens.

Braços, peito, costas...

Desenhos escuros que parecem contar histórias que ele nunca teve coragem de me contar.

Minha família sempre odiou o estilo dele.

Mas isso nunca me impediu de me casar com ele.

Guilherme é herdeiro de uma das maiores empresas do país e possui investimentos em diversas áreas.

Ainda não assumiu oficialmente o cargo de CEO.

Meu sogro, Jaime Mantovani, pretende se aposentar este ano.

Depois disso, todas as responsabilidades serão de Guilherme.

Ele veste uma calça de moletom cinza e uma camiseta branca que fica justa em seu corpo.

Então começa a caminhar em direção ao quarto de hóspedes.

― Conheci um cara hoje.

As palavras escapam da minha boca.

Ele para.

Vira-se lentamente.

― Como?

― Calma.

Dou um sorriso nervoso.

― Não é nada disso que você está pensando.

Cruzo os braços.

― Conheci um cara. Ele é diretor de uma das filiais da Calvin Klein, aquela marca famosa de roupas.

Guilherme continua me encarando.

― E ele me convidou para desfilar em um evento beneficente.

Faço uma pausa.

― Em Londres.

A mandíbula dele se contrai.

― E eu aceitei.

Ele se vira para sair.

― Em Londres ― repito.

Dessa vez, ele para.

Vira-se.

O olhar dele mudou completamente.

― Você não vai.

A voz é baixa.

Firme.

― Sim, eu vou.

― Não. Você não vai.

Ele eleva o tom.

― Você me ouviu?

Engulo em seco.

Mordo o lábio.

Quem ele pensa que é?

Não fica em casa.

Não conversa comigo.

Não temos intimidade há meses.

E agora ele acha que pode decidir para onde eu vou?

― Guilherme Mantovani, eu não estou pedindo sua permissão.

Minha voz treme, mas continuo.

― Estou comunicando que vou participar de um desfile como modelo.

Dou ênfase à última palavra.

― Vou.

Ele solta uma risada curta, sem humor.

― Ah, claro.

O sarcasmo toma conta de sua voz.

― E daqui a pouco você vai querer o quê, Laura Mantovani?

Ele me encara.

― Posar para a Playboy?

Sinto meu rosto queimar.

― E eu fico como? E a minha reputação?

― O que está faltando para você querer brincar disso? Por que não compra logo um cachorro?

Fico alguns segundos sem reação.

― O quê?

Minha voz sai baixa.

― O que você acabou de dizer?

Ele continua me encarando.

― Você está louco?

― Me respeita.

― Respeita você, caralho!

A voz dele ecoa pelo quarto.

― Eu sou seu marido.

Meu coração dispara.

― Eu já disse que você não vai. E acabou a conversa.

― E eu já disse que eu vou.

Minha voz sai embargada.

Estou segurando o choro.

Então sinto as mãos dele apertarem meu braço.

Forte.

Forte demais.

― Quem manda aqui sou eu!

Os dedos dele apertam ainda mais.

― Quem sustenta essa casa sou eu!

Ele aponta para minha camisola.

― Quem banca essas roupas que você usa sou eu!

Cada palavra parece uma pancada.

― Portanto, Laura, eu já disse que você não vai.

Ele solta meu braço junto com um empurrão.

Perco o equilíbrio.

Caio no chão.

Fico alguns segundos imóvel.

Ele sequer olha para trás.

Caminha em direção à porta.

Então encontro forças para falar.

― Eu quero o divórcio, Guilherme.

Ele para.

Devagar, vira o rosto.

― Você quer o quê?

― O divórcio.

Um sorriso debochado surge em seus lábios.

― Vai agir como uma criança birrenta para conseguir o que quer, Laura?

Abro a boca para responder.

Ele se aproxima.

Coloca o dedo sobre meus lábios.

― Laura, meu amor...

Ele se abaixa diante de mim.

― Eu não joguei dez anos da minha vida no lixo para, a essa altura, simplesmente te dar o divórcio com tudo a que você tem direito.

Ele segura meu queixo entre os dedos e ergue meu rosto.

Seus olhos verdes encontram os meus.

― Você só sai daqui quando eu conseguir tudo o que quero...

Ele sorri.

― E quando eu não quiser mais você.

Sinto algo dentro de mim quebrar.

Mas, em vez de chorar...

Eu começo a rir.

Primeiro baixo.

Depois cada vez mais.

Guilherme franze a testa, completamente confuso.

― O que foi?

Enxugo uma lágrima que escapa pelo canto dos olhos.

― É assim que você trata suas amantes?

O sorriso dele desaparece.

― Emilly, não é?

Silêncio.

― Ou Fernanda?

Os olhos dele mudam.

É sutil.

Mas eu percebo.

― Talvez sejam as duas.

Ele me encara como se eu tivesse acabado de abrir uma porta que deveria permanecer fechada.

Eu sabia que ele tinha amantes.

Ou, pelo menos, achava que sabia.

Há alguns dias, uma mulher me mandou mensagens.

Várias fotos.

Ela e Guilherme juntos.

Muito juntos.

Depois vieram as ameaças.

Ela queria que eu pedisse o divórcio.

Disse que, se eu não fizesse isso, publicaria tudo.

Não fiz.

Não porque não tivesse motivos.

Mas porque ainda o amo.

E porque, apesar de tudo, ainda queria salvar meu casamento.

― Vai negar?

Ele permanece em silêncio.

― Não vai perguntar como eu descobri?

Finalmente, ele responde:

― Eu não tenho amantes, Laura.

A tranquilidade em sua voz me desconcerta.

― Não?

― Não.

― Então já que você não vai perguntar, eu mesma vou contar.

Levanto-me lentamente do chão.

Fico diante dele.

― Um dia desses, saí do banho. Eu tinha comprado uma camisola linda para você.

Dou uma pequena risada amarga.

― Queria te esperar.

Ele não desvia os olhos de mim.

― Foi quando recebi uma mensagem de um número desconhecido.

Faço uma pausa.

― A mulher dizia ser sua amante.

O rosto dele permanece imóvel.

― Ela me mandou várias fotos de vocês dois juntos.

Minha voz fica mais firme.

― E me ameaçou.

Ele continua me observando.

― Disse que, se eu não exigisse o divórcio, publicaria as fotos.

Silêncio.

― Sabe, Guilherme...

Minha voz falha por um instante.

― Aquele foi um dos piores dias da minha vida.

Aponto para o canto próximo ao criado-mudo.

― Eu caí ali.

Olho novamente para ele.

― Simplesmente caí.

Guilherme permanece parado.

Mas há alguma coisa em seu olhar.

Dor.

Talvez arrependimento.

Talvez culpa.

Se eu não o conhecesse tão bem, poderia acreditar.

Mas conheço.

E estou cansada de guardar tudo o que sinto.

Dessa vez, vou colocar tudo para fora.

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