Olho pela janela enquanto o carro de Guilherme arranca e desaparece pela rua.
Assim que entro em casa, subo para tomar um banho enquanto Joana prepara meu café.
Joana é um amor de pessoa. É como uma mãe para mim. Tem dois filhos, ambos casados, e é viúva. Atualmente, tem um namorado que vem buscá-la todos os dias.
Quando não fica para me fazer companhia, vai embora no fim do expediente. Mas já houve noites em que ela ficou comigo até de madrugada, me consolando porque meu marido havia dormido fora.
Ela sabe de muita coisa.
Talvez até mais do que deveria.
Hoje é o último dia da Semana de Moda e, como só participei do primeiro dia, resolvo ir. Quero aproveitar para conseguir algum conteúdo para o blog.
Robert não gostou nem um pouco quando falei que não iria desfilar nos quatro dias.
Dei a ele a mesma desculpa que dei a David: uma viagem de última hora.
Ele acreditou.
Afinal, quando se trata de Guilherme Mantovani, as pessoas costumam acreditar em quase tudo.
Hoje meu rosto já não está inchado, e os hematomas consigo esconder com uma maquiagem mais pesada.
Enquanto escolho a roupa, tento ligar para Clara.
Ela vai amar ir comigo como VIP.
O telefone chama, chama...
Caixa postal.
Tento novamente.
Nada.
Mais uma vez.
Nada.
Franzo a testa.
Por fim, desisto e deixo uma mensagem avisando que estou indo e pedindo para ela me encontrar lá.
Escolho algo simples.
Um body preto de corte reto, gola alta até o pescoço e uma abertura nas costas que vai até a cintura. As mangas terminam no início dos ombros.
Combino com uma saia evasê preta, na altura da canela, com algumas flores grandes desenhadas em verde e rosa.
Nos pés, um scarpin rosa-escuro.
Prendo o cabelo em um rabo de cavalo alto, deixando algumas ondulações nas pontas.
Depois de pronta, pego minha bolsa e sigo para o evento.
[...]
— Essa edição da São Paulo Fashion Week está um arraso! A coleção outono-inverno está lindíssima. Eu tive o prazer de ver os looks de pertinho e também subir à passarela. Agora vou gravar um pouco dos bastidores e conversar com alguns nomes influentes da moda no mundo todo...
Continuo gravando até perceber que já são quase nove da noite.
Estou exausta.
Mas o desfile foi maravilhoso.
Algumas pessoas vieram me cumprimentar, conversei com artistas, fiz várias entrevistas e consegui material suficiente para fazer o blog bombar nos próximos dias.
E, para minha surpresa, não vi David por aqui.
Talvez seja melhor assim.
— LAURAAAA!
A voz conhecida me faz virar.
Robert vem aos berros na minha direção, segurando uma taça de champanhe.
— Conte-me tudo sobre Londres agora! Estou louco pelos detalhes! Falei um pouco com David, mas aquela bicha nunca me conta nada.
Ele faz um beicinho, fingindo chorar.
Rio.
Robert é mais velho, tem uns quarenta e seis anos, e sua alegria contagia qualquer ambiente.
Hoje está usando uma camisa rosa-bebê, calça de alfaiataria xadrez bem clara e óculos da mesma cor da camisa. O cabelo castanho-escuro está um pouco amassado, provavelmente graças ao estresse.
Não deve ser fácil organizar desfiles de moda.
— Vou amanhã — respondo, rindo da cara dele.
— Amanhã?!
— Sim.
— E quando volta?
— Ainda não sei. Guilherme não sabe dessa parte.
Dou uma risadinha.
— David disse que serão algumas fotos, rostos antigos com novos, e depois o desfile no final. Também não sei muita coisa. Ele disse que me explica tudo na reunião quando eu chegar lá.
Robert abre um sorriso.
— Meninaaa! Por falar em Guilherme... como está o boy amarrado mais cobiçado de São Paulo? E ele? Vai junto?
Ele arregala os olhos.
— Ainda não acredito que ele deixou você participar disso!
Nem eu acredito.
Mas, meu amigo, se você soubesse...
Dou um sorriso safado.
Robert imediatamente entende.
— Já entendi tudo! Laurinha, que poder é esse, hein?
Ele aponta para mim, rindo.
— Dobrou o boy mais cara fechada que eu conheço!
Sorrio, morrendo de vergonha das besteiras que ele fala.
Conversamos por mais alguns minutos, até que Robert sai gritando com uma mulher que estava pegando docinhos da festa de encerramento.
Fico rindo da cena.
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Chego em casa quase meia-noite.
Assim que entro, vejo uma mensagem de Guilherme.
Dizia que havia chegado bem, que estava cansado e iria dormir.
E que eu não deveria ligar.
Reviro os olhos.
Logo depois, encontro uma mensagem de Clara dizendo que havia surgido uma convenção e ela precisou viajar às pressas.
Estranho.
Mas não penso muito nisso.
Tomo um banho e me jogo na cama.
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Hoje é terça-feira.
Meu humor está ótimo.
Levanto dando pulinhos de alegria e minha animação contagia até Joana, que começa a rir quando corro até ela e a encho de beijos.
— Meu Deus, menina! O que aconteceu?
— Londres!
Rio.
Meu voo está marcado para as onze e cinquenta da noite.
Peço ajuda para Joana arrumar minhas malas e verifico se não estou esquecendo nada.
Depois vou até o shopping comprar algumas coisas que faltam.
Na volta, passo rapidamente na casa dos meus pais para me despedir.
Minha mãe fica eufórica.
— Eu sabia! Eu sabia que tinha uma Gisele Bündchen na família!
Começo a rir.
— Mãe, para.
— Estou falando sério!
Passamos algum tempo conversando até eu perceber que já está ficando tarde.
Quando olho no relógio, são sete da noite.
Volto para casa, confiro os últimos detalhes e vou ao escritório buscar as passagens e a reserva para o aeroporto.
É quando um papel cai do meio dos documentos.
Abaixo-me para pegá-lo.
— Um comprovante?
Olho melhor.
Duas passagens aéreas.
Franzo o cenho.
— Duas passagens?
Abro o computador de Guilherme, que está sobre a escrivaninha.
— Porcaria! Tem senha!
Dou um soco na mesa, frustrada.
Vasculho as gavetas tentando encontrar a fatura do cartão, mas não encontro nada.
Depois de alguns minutos, desisto.
Tiro uma foto do comprovante e deixo o papel novamente sobre a mesa.
— Na volta eu vejo isso. Droga, estou atrasada!
Subo correndo.
Tomo um banho rápido e escolho uma roupa extremamente confortável.
Odeio viajar desconfortável, principalmente em voos longos.
Visto uma camiseta branca lisa, legging preta e um cardigã de tricô nude, bem grosso.
Prendo o cabelo em um rabo de cavalo.
Pelo que consegui ver, o hotel reservado por Guilherme fica relativamente perto do aeroporto. Então, mesmo se estiver mais frio, acredito que esse casaco será suficiente.
No aeroporto, aguardo ansiosa, batendo os dedos contra o joelho.
Olho para o relógio.
Nove e meia.
Isso não está ajudando.
A cada poucos segundos, olho novamente.
Então troco de cadeira, ficando de costas para o relógio.
Duas meninas estão cochichando e rindo.
Tenho a sensação de que estão falando de mim.
Pego o celular e decido ignorar.
Hoje não falei com Guilherme.
Não liguei, como ele pediu.
Então resolvo mandar uma mensagem.
“Já estou aqui. Eu te amo. Estou com saudades.”
Antes que eu possa esperar pela resposta, a voz do embarque anuncia meu voo.
Finalmente.
Meu voo terá quase doze horas.
Vai ser entediante.
Na televisão do avião está passando Crepúsculo.
Assisto.
Como.
Durmo.
Como.
Durmo novamente.
E, finalmente...
Chego às terras britânicas.
O voo foi tranquilo.
Quando estou saindo do desembarque, vejo um rapaz segurando uma placa com meu nome.
Sorrio.
Guilherme realmente cuidou de tudo.
Até motorista eu tenho.
Que emoção.
— Laura Mantovani?
— Sim.
— Meu nome é Darwin.
Ele pega minhas malas e me acompanha até o carro.
É bastante quieto.
Praticamente não fala durante o trajeto.
Provavelmente é daqui mesmo.
Não demora muito até chegarmos ao hotel.
E...
Uau.
É um puta hotel.
Lindíssimo.
Tenho a impressão de que, do último andar, deve ser possível enxergar a cidade inteira.
Subo até minha suíte.
Ela é gigantesca.
E a vista...
O rio Tâmisa.
Tenho até uma varanda.
Definitivamente vou pedir comida aqui.
Mando uma mensagem para David avisando que cheguei e sigo para o banheiro.
Meu quarto tem uma banheira enorme e luxuosa.
Entro e fecho os olhos, tentando relaxar.
Meu celular toca.
Provavelmente David.
Quando saio do banho, pego o aparelho.
Como previsto.
David.
Ele marcou uma reunião para amanhã à noite.
Perfeito.
Isso significa que tenho o dia inteiro para sair e conhecer um pouco dessa cidade linda.
Como ainda está cedo, decido dormir um pouco.
Viajar cansa.
Apesar de ter dormido praticamente o voo inteiro, estou acabada.
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Acordo num pulo.
Meu celular não para de tocar.
Estico a mão para pegá-lo, mas, quando finalmente consigo ver quem está ligando...
A bateria acaba.
— Ótimo.
Deixo o aparelho carregando desligado enquanto começo a me arrumar para descer e procurar algum lugar para comer.
Escolho um cropped de tule preto, com mangas longas e poá, usando por baixo um top de renda com alças finas.
Uma saia de courino preta, meia-calça e salto preto.
Faço uma maquiagem leve e deixo os cabelos soltos, levemente ondulados nas pontas.
Pego o celular.
São quase oito da noite.
E então vejo as chamadas perdidas.
Vinte e cinco da minha mãe.
Dez de Clara.
E...
Trinta e sete de Guilherme.
Franzo o cenho.
— Mas o que está acontecendo?
Começo a me desesperar.
Existem centenas de mensagens.
Antes de abrir qualquer uma, ligo para Guilherme.
Ele atende no primeiro toque.
Isso é inédito.
— PUTA QUE PARIU, LAURA!
Ele grita do outro lado.
— Onde você se meteu?
— Primeiramente, oi para você também, amor.
Tento brincar.
— Segundo, estou no hotel. Onde mais eu estaria?
Faço uma pausa.
— Alguém morreu?
— Não sai daí. Estou indo até você.
A voz dele está impaciente.
— Precisamos conversar.
— Posso me dar ao desfrute de saber o motivo da conversa?
— Pelo visto você ainda não viu.
— Vi o quê?
Meu coração começa a acelerar.
— Não sai daí!
— Você está me assustando, Guilherme. Quer parar de enrolar e me dizer o que está acontecendo, pelo amor de Cristo?
Já estou andando de um lado para o outro.
Pensando no pior.
— Laura...
A voz dele muda.
— Eu te amo. Acredita em mim, por favor.
— Guilherme...
— Estou indo.
Ele desliga.
Fico olhando para o celular.
— Que porra está acontecendo?
Ligo para minha mãe.
Ela atende quase imediatamente.
— Filha?
Sua voz parece aflita.
— Mãe, que diabos está acontecendo?
— Como você está, querida?
— Preocupada, né, mãe?
Falo tudo de uma vez.
— Ninguém me diz absolutamente nada! Tem um milhão de ligações e mensagens no meu telefone. E agora o Guilherme está vindo para Londres!
Silêncio.
— Vou deixar vocês conversarem, então.
Minha mãe suspira.
— Estarei aqui como sua amiga para o que você precisar.
— Mãe...
Ela desliga.
Sem se despedir.
Sem explicar nada.
Olho para o celular.
Abro o I*******m.
Há várias notificações de sites de fofoca.
E centenas de comentários nas minhas fotos.
Sempre existem muitos.
Mas hoje...
São muitos mais.
Meu coração começa a bater mais rápido.
Decido abrir uma das notificações.
E congelo.
Meu corpo inteiro parece ficar gelado.
Meu coração acelera.
Meus dedos começam a tremer.
Deixo o celular cair no chão.
— Não...
Não consigo acreditar no que estou vendo.
Pego o aparelho novamente.
Abro o navegador.
Digito meu próprio nome.
A mesma notícia aparece.
“EMPRESÁRIO MAIS COBIÇADO DO ESTADO DE SÃO PAULO PULA A CERCA.”
Abaixo, uma fotografia.
Guilherme.
E uma mulher loira.
Leio.
E releio.
“Flagrados, Guilherme Mantovani e suposta amante em clima de romance em uma praia isolada em Cancún. Fontes seguras afirmam que sua esposa, Laura Mantovani, estaria no exterior. Segundo amigos próximos do casal, os dois estariam em processo de divórcio e já não estariam se entendendo há algum tempo. A pergunta que não quer calar: quem será a loira misteriosa que roubou o coração desse gato? Será ela o pivô ou apenas mais um caso sem importância? Aguardando o próximo capítulo da novela.”
Sinto o estômago embrulhar.
Sempre soube que meu marido tinha amantes.
Isso não era novidade.
O que me destrói é a identidade da mulher.
Olho novamente para a fotografia.
Meu coração parece parar.
Não.
Não pode ser.
Aproximo a imagem.
Mesmo que a foto não mostre seu rosto perfeitamente...
Eu a reconheceria em qualquer lugar.
Aquela mulher é...
Clara.
Minha melhor amiga.
A pessoa com quem dividi meus segredos durante toda a vida.
A mulher que me conhece melhor do que eu mesma.
Aquela que me ouviu chorar.
Que me consolou depois das brigas com meu marido.
Que dizia odiá-lo.
Agora tudo faz sentido.
Por isso ela nunca gostou dele.
Por isso ele nunca gostou dela.
Meu Deus...
Meu marido e minha melhor amiga estão tendo um caso.
Sinto minhas pernas perderem a força.
Então...
As passagens.
As duas passagens que encontrei no escritório.
Eram para ela.
Minha respiração fica presa.
Não consigo acreditar.
Estou sem chão.
Só quero sair daqui.
Quero esquecer.
Quero desaparecer.
Fico ali por um tempo, chorando, até finalmente reunir forças.
Retoco a maquiagem.
Pego minha bolsa.
E desço.
Não quero ficar naquele quarto.
Não quero pensar.
Chego ao bar e sento na primeira cadeira que encontro, sem sequer olhar quem está ao meu redor.
O barman se aproxima.
— Uma dose do seu líquido mais forte. Puro e sem gelo, por favor.
Ele assente.
Pouco depois, retorna com a bebida.
Viro de uma vez.
O líquido desce queimando minha garganta.
Quase vomito.
Mas a dor que estou sentindo é muito maior.
Talvez aquilo consiga amenizá-la.
Um rapaz se aproxima e se senta ao meu lado.
— Gatinha de fora. Posso te pagar uma bebida?
— SAI FORA!
Nem sequer olho para ele.
Aceno para o garçom.
Ele vem imediatamente.
— Mais um. O mesmo, por gentileza.
O barman sai para buscar minha bebida.
O rapaz continua insistindo.
— Gata, é só uma bebida. Nada demais.
— Você não ouviu que ela não quer?
Uma voz masculina surge ao meu lado.
— Então se manda, cara.
Olho rapidamente para o homem.
Ele nem sequer parece interessado no rapaz. Apenas o encara com uma expressão fria o suficiente para fazê-lo se afastar.
— Obrigada.
É tudo o que consigo dizer.
O garçom coloca minha bebida diante de mim.
Viro novamente.
— Mais uma.
O homem ao meu lado observa meu copo.
— Você não deveria beber assim.
— E você deveria cuidar da sua vida.
Respondo em português.
Ele claramente não entende.
Franze o cenho, curioso.
Então estende a mão.
— Prazer. Jamie Davies.
Olho para a mão estendida.
Depois para ele.
— Laura Mantovani.
Digo meu nome sem sequer apertar sua mão.
Volto a olhar para o copo.
— Mais uma, por favor.
O homem sorri de canto.
E eu ainda não fazia ideia de que aquele desconhecido seria a última pessoa que eu esperava encontrar naquela noite.