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Capítulo 2

Auteur: Michelle
Durante a primeira hora do Protocolo de Silêncio Social, eu me senti razoavelmente bem. Pelo menos o sistema de som ainda falava comigo.

"Todos os alunos do décimo primeiro ano que participarão do retiro anual de liderança devem se reunir em frente ao ginásio até as três da tarde."

Olhei para o alto-falante.

— Entendido. Obrigada. Você é a única voz no campus que falou comigo hoje.

Vários alunos abaixaram a cabeça, com os ombros tremendo enquanto tentavam não rir. Ninguém ousou emitir um som.

Durante a segunda hora, comecei uma conversa com uma máquina de vendas. Coloquei cinco dólares nela. Ela me deu uma garrafa de água e nenhum troco.

— Cinco dólares por uma garrafa?

Dei um tapinha no vidro.

— Muito Moretti da sua parte.

A máquina permaneceu em silêncio.

— Você é do tipo tímido. Eu entendo.

Durante a terceira hora, Luca confiscou meu celular porque eu havia enviado a mesma mensagem para mais de novecentos contatos.

"Ei, você está aí?"

— Isso é o que você chama de cooperação? — perguntou ele.

Enfiou o celular no bolso, com o rosto fechado como uma tempestade.

Olhei para ele, esperançosa.

— Você poderia responder com "não". Não sou exigente.

Ele se afastou. Eu o segui por dois passos antes de me obrigar a parar.

Mamãe havia prometido que, se eu passasse os três dias sem causar problemas, ela não me mandaria embora novamente. Eu precisava me comportar.

Naquela tarde, nos reunimos para o retiro de liderança na propriedade particular dos Moretti nas montanhas. Etiquetas coloridas nos dividiam entre as trilhas que levavam a um acampamento no meio da montanha. Nossa professora responsável, a Sra. Carter, distribuiu as etiquetas. As rotas ativas eram vermelha, amarela e verde.

Recebi uma etiqueta vermelha, que me colocou no grupo de Bianca. Quando ela a viu, sorriu para mim. Foi a primeira vez naquele dia que ela olhou diretamente para mim.

Corri até ela.

— Você finalmente voltou a falar comigo? Eu sabia que irmãs não conseguem continuar zangadas durante a noite. Aparentemente, nós só conseguimos chegar até o fim do almoço.

Ela não respondeu. Tirou a etiqueta vermelha da minha mão e a prendeu pessoalmente na parte externa da minha mochila. Mesmo sem dizer uma palavra, o gesto foi suficiente para me deixar feliz novamente.

Segui, sussurrando perguntas.

— Quer batatinhas? Também trouxe café gelado. O Luca parece estranho ultimamente? Ele está com a cara de um homem que perdeu três partidas de pôquer seguidas.

Bianca parou tão abruptamente que quase esbarrei nela. Ela se virou e baixou a voz.

— Por que você precisa se agarrar a todo mundo, Poppy? Não consegue passar algum tempo sozinha?

Pensei na pergunta.

— Consigo ficar sozinha. Mas, quando as pessoas param de responder de repente, acho que estão discutindo quando vão me mandar embora.

Ela hesitou. Por um momento, algo quase parecido com compaixão surgiu em seus olhos. Imediatamente, apontei para um banco próximo.

— Quer se sentar e conversar sobre isso? É uma história longa. Posso começar pela minha primeira família adotiva.

A compaixão desapareceu.

— Esquece.

Ela acelerou o passo e me deixou para trás.

Antes da partida, Luca chegou com uma jaqueta impermeável para Bianca. Os Moretti financiavam o retiro, e o evento acontecia em uma propriedade deles, então a escola permitiu que ele participasse como representante da família no conselho.

Peguei meu caderno de amigos para mostrar a ele o guia de segurança que havia preparado. Ele o arrancou da minha mão.

As páginas estavam cheias de detalhes sobre as pessoas que eu havia conhecido na St. Augustine.

"Frank: Antiga lesão nas costas. Não deixe que carregue caixas pesadas. O remédio para dor está na segunda gaveta da mesa na guarita."

"Maria: Asma. O inalador normalmente fica no bolso esquerdo da mochila."

"Ethan: Alergia grave a amendoim. O EpiPen está no compartimento externo da bolsa."

"Walter: Problemas na lombar. Não o deixe carregar sozinho a bagagem dos alunos. Ele conta todos três vezes depois de um evento fora do campus."

A expressão de Luca ficou mais sombria a cada página.

— Você registra as informações médicas das pessoas? O que pretende fazer com isso?

— Ser amiga delas — respondi. — Elas me contaram essas coisas. Se alguém se machucar, quero saber como ajudar.

Os olhos de Bianca se encheram de lágrimas novamente.

— Ela até anotou detalhes sobre as famílias dos meus amigos. Isso não é amizade, Luca. Ela está colecionando as fraquezas deles.

— Não são fraquezas — falei. — São coisas que alguém deveria lembrar.

Os Moretti tratavam cada informação como uma forma de obter vantagem. Eles não conseguiam imaginar alguém se lembrando de algo simplesmente porque se importava. Luca rasgou o caderno ao meio. As páginas se espalharam pela calçada.

Fiquei olhando por um momento, depois me agachei e recolhi os pedaços.

— Você pode rasgar tudo o que for sobre mim. Só não perca a página do Ethan. Ele realmente não pode comer amendoim. Pode parar de respirar.

Luca soltou uma risada fria.

— Eles viveram perfeitamente bem antes de você chegar. Pare de fingir que é tão importante assim, Poppy.

Coloquei as páginas rasgadas dentro da mochila e não disse nada.

Talvez ele tivesse razão. As sete famílias adotivas provavelmente haviam vivido perfeitamente bem depois de me mandarem embora. Eu era a única que corria atrás dos carros delas, chorando como se fosse a única a ter perdido uma família.

Quando embarcamos no ônibus para a montanha, Luca finalmente devolveu meu celular. Todos os aplicativos estavam anormalmente silenciosos. Tirei uma foto do meu assento e a enviei para mamãe. Um ponto de exclamação vermelho apareceu abaixo dela.

"Não entregue."

Ela também havia me bloqueado. Fiquei olhando para o aviso por um longo tempo.

Quando minha quinta família adotiva decidiu que não me queria mais, minha mãe adotiva disse que o celular dela estava quebrado e que era por isso que nunca recebia minhas mensagens. Mais tarde, descobri que o celular dela estava perfeitamente bem. Ele apenas parou de receber mensagens minhas.

As nuvens haviam se acumulado quando o ônibus chegou à Propriedade Montanhosa dos Moretti. A Sra. Carter estava na entrada da trilha, separando-nos pelas etiquetas.

— Grupo vermelho para a esquerda. Grupo verde vai para a direita com o Sr. Hayes. Grupo amarelo fica comigo.

Olhei para minha mochila. A etiqueta vermelha que Bianca havia prendido ali tinha desaparecido. Em seu lugar, havia uma etiqueta azul desbotada.

Levantei os olhos para perguntar o que havia acontecido, mas ela havia entrelaçado o braço no de Sra. Carter e estava seguindo o grupo vermelho pela trilha à esquerda.

— Bianca.

Ela não olhou para trás. Todos ao meu redor agiram como se não tivessem ouvido nada. Vi uma placa de trilha azul desbotada na beira das árvores e a segui floresta adentro, sozinha.

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