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Capítulo 2

Author: Baleia Azul
Correntes de ferro geladas prendiam meus pulsos e tornozelos, e eu estava presa ao pilar de pedra no centro do porão. Um frio cortante subia dos pés até a cabeça, atravessando meu vestido fino de grávida e penetrando nos ossos.

O porão estava vazio, com apenas o som do gelo derretendo e pingando no chão e o estalo dos meus dentes trêmulos.

Me encolhi, abraçando firme a barriga, tentando aquecer meu filho com o calor do meu corpo.

— Bebê, me desculpe... Foi culpa da mamãe fazer você sofrer. — Engasguei com as lágrimas que caíam no chão gelado, formando pequenas bolas de gelo instantâneas. — Você precisa ser forte. A mamãe vai te proteger. Nós vamos sair daqui... Nós vamos...

Mas o frio era como uma fera gananciosa, devorando cada fragmento da minha temperatura. Minhas mãos e pés começaram a ficar dormentes, e minha consciência se turvava. Me lembrei do nosso primeiro encontro: um Matheus que, embora frio comigo, nunca foi tão cruel.

Nosso casamento era arranjado, sim, mas a família Oliveira precisava do apoio da família Souza, e eu, desde jovem, nutria uma paixão secreta por Matheus. Achei que casar com ele seria o começo da felicidade, mas não esperava que fosse o início do pesadelo.

A presença de Mariana era como um espinho entre nós. Ela sempre, de forma intencional ou não, se mostrava frágil diante de Matheus, dizendo que eu a maltratava. E Matheus nunca me dava chance de me explicar, sempre me culpando sem distinção.

Na última vez, Mariana quebrou um vaso antigo deixado pela mãe dele, mas chorou dizendo que eu a empurrei. Matheus, sem hesitar, me deu um tapa e me trancou no quarto, me deixando sem comida por dois dias.

Agora, apenas por abrir a janela para tomar ar, ele se mostrava tão impiedoso, disposto a nos matar, a mim e ao meu filho.

Não sei quanto tempo se passou, mas uma fresta se abriu na porta do porão, e uma luz fraca entrou. Achei que Matheus tivesse mudado de ideia e tentei me levantar, mas vi Mariana, vestida com um grosso casaco de plumas, me olhando de cima para baixo com um sorriso satisfeito nos lábios.

— Nanda, como você chegou a esse estado? — Disse Mariana, fingindo surpresa. — O Mat estava preocupado comigo, então agiu por impulso para te punir. Não fique brava com ele.

Olhei para sua pose afetada e senti uma raiva que queimava por dentro. Usei toda a minha força para gritar:

— Você fez isso de propósito! Você não estava tão doente! Você só queria que o Matheus me castigasse!

— Nanda, como você pode dizer isso? — Mariana, com os olhos vermelhos de fingida mágoa, respondeu. — Eu só me preocupei com você e vim ver como você estava, e você me acusa assim? Se soubesse que seria assim, eu nem teria vindo.

Ela se virou para sair, e antes de fechar a porta, ainda disse alto de propósito:

— Está tão frio no porão, Nanda, cuide bem de você e não deixe o Mat se preocupar.

A porta se fechou novamente, e o silêncio mortal voltou ao porão. Eu sabia que Mariana queria me provocar, que ela queria me ver sofrer.

O frio aumentava, e minha barriga começou a doer levemente. Eu sabia que era meu filho pedindo socorro. Lutei com todas as forças, tentando me soltar das correntes, mas eram fortes demais. Por mais que me esforçasse, não havia jeito.

— Matheus... Me salve... Salve nosso bebê... — Gritei com minha última energia, a voz rouca, ecoando no vazio do porão, sem receber nenhuma resposta.
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