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last update publish date: 2026-06-26 05:23:58

Revolvi os olhos. Sério? Sete e quinze da manhã de uma segunda-feira.

Sofia: Não dá, né Thiago. Tenho desfile hoje e preciso ir pra agência daqui a pouco.

Enviei a resposta e esperei. Um segundo. Dois. A mensagem ficou marcada como lida. Três pontinhos apareceram e sumiram. E depois... o nada. Apenas o vácuo gelado da visualização.

Soltei um suspiro pesado, guardando o telefone de volta no bolso e apertando o passo em direção à mansão. Minha respiração já estava pesada, o sol da manhã batendo firme no meu rosto.

Eu e o Thiago estamos juntos há dois anos. Na teoria, o namoro perfeito. Na prática? É uma linha reta de eletrocardiograma sem pulso. Ele vem esfriando a relação faz meses, não que antes fosse um vulcão de paixão, mas agora parece um contrato comercial com prazos de validade prestes a vencer. Eu digo que o amo porque é o que se espera que eu diga depois de vinte e quatro meses de relacionamento, mas a verdade é que às vezes sinto que estou apenas viciada na rotina de ter alguém.

E o ego dele é algo que deveria ser estudado pela ciência. Thiago é o tipo de herdeiro arrogante que toma o crédito pelo império do pai. O coroa é o rei do mercado de joias de luxo, dono de filiais pelo mundo todo e o empresário número um em qualquer lista da Forbes. Thiago anda por aí como se tivesse minerado cada diamante com as próprias mãos, quando a única coisa que realmente fez na vida foi assinar o nome no cartão de crédito ilimitado. Tem uma inveja velada do próprio pai que chega a ser patética, mas adora usar o peso do sobrenome para pisar nos outros.

Eu nunca vi o pai dele. Nesses dois anos, o homem estava morando em Los Angeles resolvendo a expansão da empresa. Mas, segundo a última conversa que tive com o Thiago, o patriarca finalmente pousou em Chicago hoje. A forma como o Thiago falou sobre o retorno do pai parecia menos com a recepção de um familiar e mais com a preparação para uma guerra iminente.

E sobre a nossa vida íntima? Um desastre diplomático. Falta química, falta pegada, falta... bom, falta praticamente tudo. Ele trata a cama como se estivesse cumprindo uma meta semanal de planelha de Excel. Para ser bem sincera, eu nunca soube o que é ter um orgasmo de verdade — esses que a gente lê nos romances mais quentes ou vê em cenas de filme onde a mocinha perde o ar. Fico pensando se o problema sou eu ou se o sexo é só essa superavaliação toda mesmo.

Então por que diabos eu continuo com ele? A resposta é vergonhosa, mas simples: minha mãe adora o Thiago. O sobrenome dele tem a aprovação aristocrática que ela ama. No fundo — lá no fundo daquela parte bem ingênua que eu tento esconder do mundo —, eu ainda tenho a ilusão ridícula de que, se eu me casar com o homem perfeito aos olhos dela, ela finalmente vai me olhar e sentir um pingos de orgulho. Sou uma carente mimada? Talvez. Mas é o que tem para hoje.

Cheguei ao portão de casa bufando de cansaço. Assim que a grade abriu, fui recepcionada por uma massa muscular preta e canela de quarenta quilos avançando na minha direção.

— Bom dia, senhorita Sofia — Ricardo, o segurança de plantão, disse com um sorriso no canto dos lábios, enquanto mantinha uma distância estrategicamente segura.

— Já falei que o 'senhorita' tá proibido, Ricardo — respondi, me ajoelhando na grama sem me importar com o suor. — Oi, a coisa mais linda da mamãe! Você estava me esperando, foi?

O Thor praticamente se desmanchou. A língua rosa gigante para fora, o rabo balançando com tanta força que o corpo todo chacoalhava, a cabeça pesada empurrando minha mão para receber carinho.

— Só você mesma para ter coragem de agarrar esse bicho — Ricardo comentou, balançando a cabeça. — Ele olha para o resto da equipe como se fôssemos o almoço dele.

— O Thor é um anjo, para de difamar meu filho — brinquei, coçando a atrás das orelhas do Rottweiler. Ao ouvir meu tom de defesa, o cachorro soltou um latido grave e alto, como se estivesse assinando embaixo. — Tá vendo? Ele concorda comigo. Bom trabalho para você, Ricardo!

Deixei os dois para trás e entrei em casa. O hall de entrada estava silencioso, mas assim que alcancei o corredor principal, dei de cara com o meu pai saindo do escritório. Ele encarava a tela do celular com uma carranca de quem estava prestes a demitir metade da diretoria.

— Bom dia, pai.

— Oi, meu amor — ele disse, inclinando-se para dar um beijo rápido no meu cabelo, mas sem tirar os olhos do aparelho. Os dedos voavam sobre a tela. — Indo trabalhar? O seu desfile não é hoje?

— É sim. A ansiedade já tá batendo no teto.

Ele finalmente travou o celular e me olhou por cima do aparelho, cruzando os braços e franzindo a testa numa encenação falha de severidade.

— Engraçado... não me lembro de ter recebido o meu convite para a primeira fileira. A sua mãe, o seu irmão e a Patrícia já estão com os deles. Você tá fazendo um complô contra o seu velho?

Dei uma risada fraca, ajeitando a garrafa de água na mão.

— Claro que não! O senhor falou na semana passada que teria uma reunião de conselho super importante no mesmo horário. Achei que iria atrapalhar sua vida se ficasse insistindo.

— Você nunca atrapalha, minha pequena — o tom dele amoleceu na hora. Ele segurou minha mão e deu um beijo carinhoso nas minhas costas da mão. — Vocês três vêm em primeiro lugar, lembra disso? Reunião a gente remarca. Agora, é bom aquele convite estar em cima da minha mesa em uma hora, ou vou ter que ir como seu segurança particular.

— Pode deixar, vou mandar entregar — prometi, vendo-o sorrir e se afastar em direção à saída com aquele passo apressado de quem carrega uma empresa nas costas.

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