LOGINRevolvi os olhos. Sério? Sete e quinze da manhã de uma segunda-feira.
Sofia: Não dá, né Thiago. Tenho desfile hoje e preciso ir pra agência daqui a pouco. Enviei a resposta e esperei. Um segundo. Dois. A mensagem ficou marcada como lida. Três pontinhos apareceram e sumiram. E depois... o nada. Apenas o vácuo gelado da visualização. Soltei um suspiro pesado, guardando o telefone de volta no bolso e apertando o passo em direção à mansão. Minha respiração já estava pesada, o sol da manhã batendo firme no meu rosto. Eu e o Thiago estamos juntos há dois anos. Na teoria, o namoro perfeito. Na prática? É uma linha reta de eletrocardiograma sem pulso. Ele vem esfriando a relação faz meses, não que antes fosse um vulcão de paixão, mas agora parece um contrato comercial com prazos de validade prestes a vencer. Eu digo que o amo porque é o que se espera que eu diga depois de vinte e quatro meses de relacionamento, mas a verdade é que às vezes sinto que estou apenas viciada na rotina de ter alguém. E o ego dele é algo que deveria ser estudado pela ciência. Thiago é o tipo de herdeiro arrogante que toma o crédito pelo império do pai. O coroa é o rei do mercado de joias de luxo, dono de filiais pelo mundo todo e o empresário número um em qualquer lista da Forbes. Thiago anda por aí como se tivesse minerado cada diamante com as próprias mãos, quando a única coisa que realmente fez na vida foi assinar o nome no cartão de crédito ilimitado. Tem uma inveja velada do próprio pai que chega a ser patética, mas adora usar o peso do sobrenome para pisar nos outros. Eu nunca vi o pai dele. Nesses dois anos, o homem estava morando em Los Angeles resolvendo a expansão da empresa. Mas, segundo a última conversa que tive com o Thiago, o patriarca finalmente pousou em Chicago hoje. A forma como o Thiago falou sobre o retorno do pai parecia menos com a recepção de um familiar e mais com a preparação para uma guerra iminente. E sobre a nossa vida íntima? Um desastre diplomático. Falta química, falta pegada, falta... bom, falta praticamente tudo. Ele trata a cama como se estivesse cumprindo uma meta semanal de planelha de Excel. Para ser bem sincera, eu nunca soube o que é ter um orgasmo de verdade — esses que a gente lê nos romances mais quentes ou vê em cenas de filme onde a mocinha perde o ar. Fico pensando se o problema sou eu ou se o sexo é só essa superavaliação toda mesmo. Então por que diabos eu continuo com ele? A resposta é vergonhosa, mas simples: minha mãe adora o Thiago. O sobrenome dele tem a aprovação aristocrática que ela ama. No fundo — lá no fundo daquela parte bem ingênua que eu tento esconder do mundo —, eu ainda tenho a ilusão ridícula de que, se eu me casar com o homem perfeito aos olhos dela, ela finalmente vai me olhar e sentir um pingos de orgulho. Sou uma carente mimada? Talvez. Mas é o que tem para hoje. Cheguei ao portão de casa bufando de cansaço. Assim que a grade abriu, fui recepcionada por uma massa muscular preta e canela de quarenta quilos avançando na minha direção. — Bom dia, senhorita Sofia — Ricardo, o segurança de plantão, disse com um sorriso no canto dos lábios, enquanto mantinha uma distância estrategicamente segura. — Já falei que o 'senhorita' tá proibido, Ricardo — respondi, me ajoelhando na grama sem me importar com o suor. — Oi, a coisa mais linda da mamãe! Você estava me esperando, foi? O Thor praticamente se desmanchou. A língua rosa gigante para fora, o rabo balançando com tanta força que o corpo todo chacoalhava, a cabeça pesada empurrando minha mão para receber carinho. — Só você mesma para ter coragem de agarrar esse bicho — Ricardo comentou, balançando a cabeça. — Ele olha para o resto da equipe como se fôssemos o almoço dele. — O Thor é um anjo, para de difamar meu filho — brinquei, coçando a atrás das orelhas do Rottweiler. Ao ouvir meu tom de defesa, o cachorro soltou um latido grave e alto, como se estivesse assinando embaixo. — Tá vendo? Ele concorda comigo. Bom trabalho para você, Ricardo! Deixei os dois para trás e entrei em casa. O hall de entrada estava silencioso, mas assim que alcancei o corredor principal, dei de cara com o meu pai saindo do escritório. Ele encarava a tela do celular com uma carranca de quem estava prestes a demitir metade da diretoria. — Bom dia, pai. — Oi, meu amor — ele disse, inclinando-se para dar um beijo rápido no meu cabelo, mas sem tirar os olhos do aparelho. Os dedos voavam sobre a tela. — Indo trabalhar? O seu desfile não é hoje? — É sim. A ansiedade já tá batendo no teto. Ele finalmente travou o celular e me olhou por cima do aparelho, cruzando os braços e franzindo a testa numa encenação falha de severidade. — Engraçado... não me lembro de ter recebido o meu convite para a primeira fileira. A sua mãe, o seu irmão e a Patrícia já estão com os deles. Você tá fazendo um complô contra o seu velho? Dei uma risada fraca, ajeitando a garrafa de água na mão. — Claro que não! O senhor falou na semana passada que teria uma reunião de conselho super importante no mesmo horário. Achei que iria atrapalhar sua vida se ficasse insistindo. — Você nunca atrapalha, minha pequena — o tom dele amoleceu na hora. Ele segurou minha mão e deu um beijo carinhoso nas minhas costas da mão. — Vocês três vêm em primeiro lugar, lembra disso? Reunião a gente remarca. Agora, é bom aquele convite estar em cima da minha mesa em uma hora, ou vou ter que ir como seu segurança particular. — Pode deixar, vou mandar entregar — prometi, vendo-o sorrir e se afastar em direção à saída com aquele passo apressado de quem carrega uma empresa nas costas.Meu pai se aproximou, os olhos cheios, a voz embargada, a emoção transbordando. Os outros logo atrás dele ao entrarem no quarto onde eu estava, todos sorrindo, segurando balões e algumas flores, um mar de amor. Meu avô trazia dois saquinhos, um vermelho e o outro azul, e eu sabia muito bem o que tinha ali: uma corda e uma ferradura com os nomes das crianças, que ele já sabia quais eram, por ter escutado, "sem querer", eu e o Leonardo conversando, uma tradição de amor.— E então... — Ele perguntou baixinho. — Como eles se chamam? — Foi a primeira coisa que meu pai perguntou, sua voz um sussurro reverente, como se estivesse em um templo.— Estou bem, pai. Obrigada. — Zombei, mas sorri, o amor transbordando. Olhei de relance para os pequenos berços ao meu lado, onde meus milagres dormiam.Depois do parto, eles me limparam, deram os pontos e me trouxeram para cá, um quarto de hospital que parecia um palácio. Onde ficou só o Leonardo, minha âncora. Alguns minutos depois, trouxeram as crian
Minhas mãos apertando a camisa de Leonardo a cada contração, ele falando comigo o tempo todo, me lembrando de respirar, de ficar comigo, de não me perder na dor, uma âncora de palavras.O hospital parecia distante, como se o mundo tivesse se reduzido àquele corredor branco e às mãos que não soltavam as minhas, um túnel de luz. As luzes fluorescentes passavam por cima de mim como estrelas em movimento, e a única coisa real era o aperto de Leonardo, sua voz, seu cheiro, sua presença.Não estava mais focada em nada, nem escutando direito, a dor me consumindo. Só me concentrava na dor, sentindo o toque de seja lá quem me tocando, enfiando o dedo dentro de mim, falando que já estava com uma boa dilatação, que o momento estava próximo. A equipe médica se movia ao redor como uma coreografia ensaiada, cada um em sua posição, cada um com sua função, uma dança de vida.Eles arrumaram minhas pernas, e Leonardo apareceu no meu campo de visão, sorrindo, beijando minha cabeça, dizendo que ia ficar
— Nossa, Sof. — Ele levou a mão ao peito, fingindo dor, os olhos brilhando. — Essas crianças estão sugando até a sua gentileza. — Resmungou, mas seus olhos brilhavam com a brincadeira, uma faísca de humor.— Estão sugando tudo. — Leonardo respondeu por mim, sério demais, o tom grave. — Inclusive a paciência. — Revirou os olhos, mas a ponta de seus lábios se curvou, um sorriso contido.Meu irmão se jogou no sofá ao meu lado, apoiando a cabeça na minha perna com cuidado exagerado, como se eu fosse feita de vidro, algo precioso.— Quando nascerem, vão gostar mais de mim. Eu sei. —— Sonha. — Disse, passando a mão no cabelo dele, sentindo a textura macia, o gesto de carinho. — Mas vai ser um ótimo tio. — Sorri de lado, o amor transbordando.— Tio favorito. — Corrigiu, piscando, e eu balancei a cabeça, rindo, o som escapando.O dia seguiu simples, uma rotina de amor. Jantar leve, risadas soltas, Leonardo insistindo para eu ir deitar mais cedo, sua preocupação constante. Ele sempre sabia qu
Meu irmão Rafael estava namorando uma menina que trabalhava na limpeza da empresa do meu pai, mas que estava de licença por ordens dele, pois ela estava grávida de um mês, uma nova vida. Agora ele ia sofrer tudo o que dizia que o Leonardo sofria em minhas mãos, a roda da vida girando. A ironia não se perdia em mim, e eu mal podia esperar para vê-lo se transformar no pai superprotetor que ele sempre zombou, um novo capítulo.O Miguel... desse eu já tinha desistido de dar conselho, sua vida amorosa um caos. Namorava e terminava com uma frequência que me deixava tonta, um carrossel de relacionamentos. Tinha o dedo podre para mulher, e agora estava se envolvendo com mulheres mais velhas, como se buscasse algo que não encontrava. Ele dizia que elas tinham experiência e não ficavam de joguinhos, uma justificativa para sua imaturidade. Mas eu achava, só achava, que ele era quem ficava nesses joguinhos e as meninas não aguentavam, sua personalidade um furacão. Não que ele traísse, isso eu sab
SOFIATRÊS MESES DEPOIS...O silêncio que envolvia a casa naquela tarde de fim de verão era um daqueles silêncios que não pesavam, mas confortavam, como um abraço suave. O tipo de silêncio que vem depois de uma tempestade, quando tudo se acalma e você finalmente pode ouvir o próprio coração, sentir a própria respiração. O único som era o borbulhar suave da panela no fogão, onde algo cozinhava lentamente, e o ruído distante da televisão ligada em algum programa que ninguém estava realmente prestando atenção, um zumbido de fundo.Eu estava sentada no sofá, com as pernas apoiadas em almofadas macias, sentindo o peso familiar da barriga e o cansaço bom de mais um dia que parecia igual a tantos outros, uma rotina de amor. Minhas mãos repousavam sobre a curva pronunciada, sentindo os pequenos movimentos que já se tornavam parte da minha rotina — chutes, giros, aquelas ondulações que me faziam sorrir mesmo nos dias mais difíceis, uma dança de vida.Leonardo surgia e desaparecia da sala como
— AS BEXIGAS! — A voz de Lucas ecoa através da porta, um trovão de emoção. Dou risada e nego, fazendo um pequeno aceno para o homem ao meu lado pegar, e assim faz, deixando-as na frente do médico, as cores vibrantes. — Vamos de uma vez, então. — Sorri, fazendo movimentos rápidos, estourando duas, sobrando... uma vermelha e uma azul, o destino se revelando. — Parabéns. — Olho para Leonardo, ele sorri grande, passando a mão na minha barriga, beijando minha cabeça com uma ternura que me desmonta, que quebra todas as minhas defesas. — O QUE É? — A pergunta vem de fora, uma onda de curiosidade, mas estamos em nosso próprio mundo, uma bolha de amor. Limpo a barriga quando ele remove o aparelho, o gel ainda fresco. Me sento com ajuda e abaixo o vestido, minha mão ainda tocando a barriga, sentindo os pequenos movimentos, a vida pulsando. — Obrigada, doutor. — Agradeço, me afastando, a gratidão transbordando. — De nada, até a próxima. — Dá uma piscadinha, e Leonardo resmunga — seu c







