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5. Reconhecimento

Author: Monte
last update publish date: 2026-09-05 08:19:02

O domingo chegou sem pressa.

Melissa passou a manhã inteira no quarto. Reyna saíra cedo com o Vinny — o nome ainda soava estranho na cabeça dela — e a casa ficou em um silêncio raro. Sem rangidos do outro lado da parede. Sem risadas abafadas. Só o vento batendo na janela mal vedada e o barulho distante de um carro passando de vez em quando.

Ela tentou ler. Desistiu na terceira página. Tentou assistir alguma coisa no notebook. Desistiu também. O corpo estava inquieto de um jeito específico. Não era exatamente desejo. Era a sobra do sábado. A conversa com Reyna. A conversa com ele. A forma como as duas coisas tinham se misturado na cabeça e deixado um residual difícil de nomear.

Às duas da tarde o celular vibrou.

VIP_01: Você está aí, coelhinha?

Melissa olhou a mensagem por longos segundos antes de responder.

Luna_23: Estou.

Luna_23: Casa vazia hoje.

VIP_01: Interessante.

VIP_01: E como está a cabeça? Ainda alta?

Luna_23: Mais ou menos.

Luna_23: Ontem ajudou. Conversar sem ser só… aquilo.

VIP_01: Eu sei.

VIP_01: Eu também gostei.

VIP_01: Mas hoje eu quero outra coisa.

Melissa sentiu o estômago contrair. Já conhecia esse tom. A mudança sutil na forma como ele escolhia as palavras.

Luna_23: Que coisa?

VIP_01: Quero uma foto.

VIP_01: Dos seus peitos. Só isso. Sem rosto. Sem nada abaixo da cintura. Luz natural, se possível. Sem filtro. Sem pose forçada.

VIP_01: Só você. Do jeito que está agora.

O ar pareceu sumir do quarto por um segundo.

Melissa encostou as costas na cabeceira da cama. O celular ficou pesado na mão. Em oito meses ele nunca tinha pedido isso. Nunca tinha pedido nenhuma parte do corpo além dos dedos, e mesmo isso só depois do orgasmo, como prova. Peitos era diferente. Peitos eram identificação. Peitos eram pele. Peitos eram o corpo real atravessando a tela.

Luna_23: Por quê?

VIP_01: Porque eu quero ver.

VIP_01: Porque você me deu os dedos. Porque você me deu o gemido escrito. Porque você me deu a descrição do que sente quando a porta está trancada.

VIP_01: Agora eu quero um pedaço a mais. Só um. E só se você quiser dar.

A última frase importava. Sempre importava. Ele deixava a saída visível. Melissa odiava o quanto isso funcionava nela.

Ela olhou para baixo. Estava de camiseta larga, sem sutiã. O tecido fino mostrava o contorno. O quarto tinha luz natural suficiente entrando pela fresta da cortina. Se ela levantasse a camiseta até o meio do peito, enquadrasse só aquilo, sem queixo, sem colar, sem qualquer marca que pudesse identificá-la… era possível.

O medo antigo subiu primeiro. A voz interna que lembrava o que acontecia quando o corpo deixava de ser só dela. Depois veio o outro sentimento. O mesmo que a fazia abrir o aplicativo todas as noites. O mesmo que a fazia gozar com palavras de um homem que nunca vira.

Controle. A tela ainda era a parede. A foto ainda era uma escolha.

Luna_23: Me dá um minuto.

VIP_01: Tem o tempo que precisar, gatinha.

VIP_01: Eu espero.

Melissa levantou. Trancou a porta mesmo sabendo que a casa estava vazia. O gancho de metal fez o clique familiar. Depois voltou para a cama, ajoelhou-se de frente para a janela e levantou a camiseta até acima dos seios. O ar frio tocou a pele. Os mamilos endureceram imediatamente.

Ela abriu a câmera. Enquadrou. A luz da tarde batia de lado, deixando uma sombra suave embaixo de cada curva. Sem rosto. Sem colar. Sem nada que não fosse pele e o tecido da camiseta franzido em cima. Tirou três fotos. Apagou as duas primeiras. A terceira era a mais simples. A mais crua.

Antes de enviar, ficou olhando para a imagem. Era o corpo dela. O mesmo corpo que travava em corredores cheios e em salas de aula. O mesmo corpo que ela escondia sob casacos largos. Agora estava ali, oferecido em um retângulo de pixels para um homem que a chamava de coelhinha e sabia exatamente o quanto ela precisava de portas trancadas.

Enviou.

O silêncio que se seguiu foi longo. Quase dois minutos. Melissa puxou a camiseta para baixo e ficou sentada com as pernas cruzadas, o celular virado para baixo sobre o lençol. O coração batia na garganta. Parte dela queria apagar a conversa inteira. Outra parte esperava a resposta como quem espera um veredito.

A tela acendeu.

VIP_01: Porra.

VIP_01: Coelhinha.

Só isso. Depois outra mensagem.

VIP_01: Você não tem ideia do que acabou de me dar.

VIP_01: A forma como a luz pega. O peso. A maneira como os mamilos estão duros.

VIP_01: Eu queria passar a língua bem devagar. Só para sentir o quanto você reage quando é tocada com paciência.

Melissa sentiu o calor subir pelo pescoço. As coxas se apertaram por reflexo.

Luna_23: Eu quase não enviei.

VIP_01: Eu sei.

VIP_01: Foi por isso que pedi. Porque eu sabia que ia custar. E você mesmo assim escolheu me dar.

VIP_01: Isso vale mais do que qualquer foto fácil.

Luna_23: Não mando mais nenhuma hoje.

VIP_01: Não vou pedir.

VIP_01: Essa é suficiente. Eu vou guardar. E vou lembrar dela toda vez que você disser que a porta está trancada.

Melissa puxou o joelho contra o peito. O corpo estava aquecido de um jeito inquieto, mas ela não queria se tocar. Não agora. A vulnerabilidade de ter enviado a foto ainda ocupava espaço demais.

Luna_23: Você realmente pensa em me ver? Pessoalmente. Mesmo sabendo que é contra as regras.

A pergunta saiu antes que ela pudesse segurar. Continuação direta da conversa do dia anterior.

VIP_01: Penso.

VIP_01: Mas pensar é diferente de fazer.

VIP_01: Eu gosto do que temos exatamente porque a tela existe. Porque você consegue ser essa versão de você sem o pânico que o mundo real parece te causar.

VIP_01: Se eu quebrasse isso, talvez perdesse as duas. A Luna e a menina que tranca a porta.

Melissa sentiu os olhos arderem sem motivo aparente. Piscou rápido.

Luna_23: Às vezes eu odeio o quanto você entende.

VIP_01: Eu não entendo tudo, gatinha.

VIP_01: Só presto atenção.

VIP_01: Agora respira. A foto está comigo. Você ainda está segura. A porta continua trancada.

VIP_01: Nada mudou além do fato de que agora eu sei como são os seus peitos quando a luz da tarde b**e neles.

Luna_23: Isso já é muita mudança.

VIP_01: Eu sei.

VIP_01: Mas você aguentou. E eu não vou pedir mais do que você pode dar hoje.

Melissa ficou em silêncio por um tempo. Depois digitou:

Luna_23: Vou guardar o celular.

Luna_23: Preciso de um pouco de quietude.

VIP_01: Tudo bem.

VIP_01: Obrigada pela foto, coelhinha.

VIP_01: De verdade.

Ela bloqueou a tela. Deitou de lado, a camiseta ainda amarrotada, o cheiro da própria pele misturado com o sabonete do banho da manhã. Do lado de fora, a rua continuava quieta. A casa continuava vazia.

A foto estava com ele.

E, pela primeira vez em oito meses, Melissa sentiu o peso real de ter deixado um pedaço do corpo atravessar a tela.

Não era arrependimento.

Era o reconhecimento de que a parede que a protegia também estava, aos poucos, ganhando frestas.

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