LOGINO domingo chegou sem pressa.
Melissa passou a manhã inteira no quarto. Reyna saíra cedo com o Vinny — o nome ainda soava estranho na cabeça dela — e a casa ficou em um silêncio raro. Sem rangidos do outro lado da parede. Sem risadas abafadas. Só o vento batendo na janela mal vedada e o barulho distante de um carro passando de vez em quando. Ela tentou ler. Desistiu na terceira página. Tentou assistir alguma coisa no notebook. Desistiu também. O corpo estava inquieto de um jeito específico. Não era exatamente desejo. Era a sobra do sábado. A conversa com Reyna. A conversa com ele. A forma como as duas coisas tinham se misturado na cabeça e deixado um residual difícil de nomear. Às duas da tarde o celular vibrou. VIP_01: Você está aí, coelhinha? Melissa olhou a mensagem por longos segundos antes de responder. Luna_23: Estou. Luna_23: Casa vazia hoje. VIP_01: Interessante. VIP_01: E como está a cabeça? Ainda alta? Luna_23: Mais ou menos. Luna_23: Ontem ajudou. Conversar sem ser só… aquilo. VIP_01: Eu sei. VIP_01: Eu também gostei. VIP_01: Mas hoje eu quero outra coisa. Melissa sentiu o estômago contrair. Já conhecia esse tom. A mudança sutil na forma como ele escolhia as palavras. Luna_23: Que coisa? VIP_01: Quero uma foto. VIP_01: Dos seus peitos. Só isso. Sem rosto. Sem nada abaixo da cintura. Luz natural, se possível. Sem filtro. Sem pose forçada. VIP_01: Só você. Do jeito que está agora. O ar pareceu sumir do quarto por um segundo. Melissa encostou as costas na cabeceira da cama. O celular ficou pesado na mão. Em oito meses ele nunca tinha pedido isso. Nunca tinha pedido nenhuma parte do corpo além dos dedos, e mesmo isso só depois do orgasmo, como prova. Peitos era diferente. Peitos eram identificação. Peitos eram pele. Peitos eram o corpo real atravessando a tela. Luna_23: Por quê? VIP_01: Porque eu quero ver. VIP_01: Porque você me deu os dedos. Porque você me deu o gemido escrito. Porque você me deu a descrição do que sente quando a porta está trancada. VIP_01: Agora eu quero um pedaço a mais. Só um. E só se você quiser dar. A última frase importava. Sempre importava. Ele deixava a saída visível. Melissa odiava o quanto isso funcionava nela. Ela olhou para baixo. Estava de camiseta larga, sem sutiã. O tecido fino mostrava o contorno. O quarto tinha luz natural suficiente entrando pela fresta da cortina. Se ela levantasse a camiseta até o meio do peito, enquadrasse só aquilo, sem queixo, sem colar, sem qualquer marca que pudesse identificá-la… era possível. O medo antigo subiu primeiro. A voz interna que lembrava o que acontecia quando o corpo deixava de ser só dela. Depois veio o outro sentimento. O mesmo que a fazia abrir o aplicativo todas as noites. O mesmo que a fazia gozar com palavras de um homem que nunca vira. Controle. A tela ainda era a parede. A foto ainda era uma escolha. Luna_23: Me dá um minuto. VIP_01: Tem o tempo que precisar, gatinha. VIP_01: Eu espero. Melissa levantou. Trancou a porta mesmo sabendo que a casa estava vazia. O gancho de metal fez o clique familiar. Depois voltou para a cama, ajoelhou-se de frente para a janela e levantou a camiseta até acima dos seios. O ar frio tocou a pele. Os mamilos endureceram imediatamente. Ela abriu a câmera. Enquadrou. A luz da tarde batia de lado, deixando uma sombra suave embaixo de cada curva. Sem rosto. Sem colar. Sem nada que não fosse pele e o tecido da camiseta franzido em cima. Tirou três fotos. Apagou as duas primeiras. A terceira era a mais simples. A mais crua. Antes de enviar, ficou olhando para a imagem. Era o corpo dela. O mesmo corpo que travava em corredores cheios e em salas de aula. O mesmo corpo que ela escondia sob casacos largos. Agora estava ali, oferecido em um retângulo de pixels para um homem que a chamava de coelhinha e sabia exatamente o quanto ela precisava de portas trancadas. Enviou. O silêncio que se seguiu foi longo. Quase dois minutos. Melissa puxou a camiseta para baixo e ficou sentada com as pernas cruzadas, o celular virado para baixo sobre o lençol. O coração batia na garganta. Parte dela queria apagar a conversa inteira. Outra parte esperava a resposta como quem espera um veredito. A tela acendeu. VIP_01: Porra. VIP_01: Coelhinha. Só isso. Depois outra mensagem. VIP_01: Você não tem ideia do que acabou de me dar. VIP_01: A forma como a luz pega. O peso. A maneira como os mamilos estão duros. VIP_01: Eu queria passar a língua bem devagar. Só para sentir o quanto você reage quando é tocada com paciência. Melissa sentiu o calor subir pelo pescoço. As coxas se apertaram por reflexo. Luna_23: Eu quase não enviei. VIP_01: Eu sei. VIP_01: Foi por isso que pedi. Porque eu sabia que ia custar. E você mesmo assim escolheu me dar. VIP_01: Isso vale mais do que qualquer foto fácil. Luna_23: Não mando mais nenhuma hoje. VIP_01: Não vou pedir. VIP_01: Essa é suficiente. Eu vou guardar. E vou lembrar dela toda vez que você disser que a porta está trancada. Melissa puxou o joelho contra o peito. O corpo estava aquecido de um jeito inquieto, mas ela não queria se tocar. Não agora. A vulnerabilidade de ter enviado a foto ainda ocupava espaço demais. Luna_23: Você realmente pensa em me ver? Pessoalmente. Mesmo sabendo que é contra as regras. A pergunta saiu antes que ela pudesse segurar. Continuação direta da conversa do dia anterior. VIP_01: Penso. VIP_01: Mas pensar é diferente de fazer. VIP_01: Eu gosto do que temos exatamente porque a tela existe. Porque você consegue ser essa versão de você sem o pânico que o mundo real parece te causar. VIP_01: Se eu quebrasse isso, talvez perdesse as duas. A Luna e a menina que tranca a porta. Melissa sentiu os olhos arderem sem motivo aparente. Piscou rápido. Luna_23: Às vezes eu odeio o quanto você entende. VIP_01: Eu não entendo tudo, gatinha. VIP_01: Só presto atenção. VIP_01: Agora respira. A foto está comigo. Você ainda está segura. A porta continua trancada. VIP_01: Nada mudou além do fato de que agora eu sei como são os seus peitos quando a luz da tarde b**e neles. Luna_23: Isso já é muita mudança. VIP_01: Eu sei. VIP_01: Mas você aguentou. E eu não vou pedir mais do que você pode dar hoje. Melissa ficou em silêncio por um tempo. Depois digitou: Luna_23: Vou guardar o celular. Luna_23: Preciso de um pouco de quietude. VIP_01: Tudo bem. VIP_01: Obrigada pela foto, coelhinha. VIP_01: De verdade. Ela bloqueou a tela. Deitou de lado, a camiseta ainda amarrotada, o cheiro da própria pele misturado com o sabonete do banho da manhã. Do lado de fora, a rua continuava quieta. A casa continuava vazia. A foto estava com ele. E, pela primeira vez em oito meses, Melissa sentiu o peso real de ter deixado um pedaço do corpo atravessar a tela. Não era arrependimento. Era o reconhecimento de que a parede que a protegia também estava, aos poucos, ganhando frestas.Melissa saiu da sala com o celular apertado contra o peito, como se o aparelho pudesse ainda carregar o calor da mão dele. Os corredores estavam cheios. Ela colou-se à parede e caminhou rápido, a cabeça baixa, o coração batendo em um ritmo irregular. Dois dias, dois atrasos e o celular confiscado. A voz baixa de Hale ainda ecoava: Da próxima vez… as consequências serão diferentes. Não fora gritado. Não precisara. A ameaça quieta doía mais. No banheiro do segundo andar, trancou a cabine e só então desbloqueou a tela. A foto ainda estava na galeria. A mesma que ela enviara na noite anterior. O estômago revirou. E se ele tivesse visto? O aparelho não estava bloqueado quando ela o entregou. A imagem poderia ter ficado aberta. A possibilidade era nauseante. Uma nova mensagem de VIP_01 apareceu no topo. VIP_01: Você esteve quieta demais hoje, coelhinha. VIP_01: Me diga exatamente onde está agora.
Sebastian Hale odiava improviso. A aula começava às oito em ponto. Ele entrava, fechava a porta e esperava o silêncio se instalar antes de pronunciar a primeira palavra. Pontualidade não era formalidade. Era o primeiro exercício de poder da manhã. Quem chegava atrasado aprendia rápido que o tempo dele não era negociável. Às 8:28 a porta se abriu. Melissa Quinn entrou com a cabeça baixa, o casaco preto oversized, a mochila batendo na coxa. Onze minutos ontem. Vinte e oito agora. A segunda vez em dois dias. A sala inteira notou. Algumas cabeças se viraram. Outras fingiram não ver. Sebastian interrompeu a frase no quadro, deixou o giz pairar no ar por um segundo e depois continuou escrevendo como se a interrupção não tivesse existido. Não comentou. Ainda não. Ela foi direto para a última fileira, canto perto da janela. A mesma carteira de sempre. Sentou-se rápido, abriu o caderno, baixou os olhos. O padrão era previsível.
A casa estava quieta quando Melissa chegou. Reyna deixara um bilhete torto na geladeira: “Saindo com o Vinny. Volto tarde. Tem sobra de macarrão.” O silêncio era um alívio. Melissa largou a mochila perto da porta, tirou o casaco e foi direto para o banheiro. Trancou por hábito, mesmo sabendo que estava sozinha. O chuveiro esquentou devagar. Ela entrou debaixo da água quente e ficou parada longos minutos, a testa apoiada no azulejo, deixando o calor descer pela nuca, pelos ombros, pela coluna. O dia inteiro ainda estava grudado na pele: o atraso, os olhares da sala, a voz baixa do professor Hale, o residual da madrugada. A água não apagava nada disso. Só tornava o corpo um pouco mais suportável. Quando saiu, a pele estava rosada do calor. Enrolou a toalha em volta do corpo, pegou o celular e foi para o quarto. O gancho de metal fez o clique familiar. Só então ela se deixou sentar na beira da cama, o cabelo molhado pingando no ombro. A tela já t
O celular marcava 7:51. A aula de Hale começava às oito. — Merda. Ela se levantou de um salto. A camiseta de dormir ainda cheirava a sabonete da noite anterior. O pesadelo tinha vindo, mas desta vez a mensagem enviada e a resposta da manhã tinham sido suficientes para o corpo não carregar o dia inteiro como um peso. Quatro meses de conversas assim tinham ensinado o sistema nervoso a baixar a guarda um pouco mais rápido. Não eliminavam o medo. Só o tornavam administrável. Melissa se vestiu em cinco minutos: calça jeans escura, casaco oversized preto, cabelo preso em um coque torto. Sem maquiagem. Sem café. Pegou a mochila, trancou o quarto por hábito e saiu sem fazer barulho para não acordar Reyna. O ônibus das 7:55 já tinha passado. Ela correu até o ponto seguinte, o ar frio de outubro cortando o rosto. Chegou na parada ofegante, embarcou no próximo coletivo e ficou em pé perto da porta, uma mão segurando o corrimão, a outra no bolso onde o ce
O pesadelo não pedia licença. Melissa acordou com o corpo inteiro travado, a respiração presa no meio do peito como se alguém ainda estivesse em cima dela. O quarto estava escuro. A cortina deixava entrar apenas um fio de luz alaranjada do poste da rua. Por alguns segundos ela não soube onde estava. A parede, a cama, o cheiro de sabonete barato no travesseiro — nada disso fazia sentido. Só existia o peso. A mão cobrindo a boca. A impossibilidade de gritar. Ela se sentou de uma vez só. As pernas balançaram para fora da cama. Os pés tocar am o chão frio. O contato a trouxe de volta o suficiente para que o ar finalmente entrasse. Curto. Quebrado. Mas entrou. As mãos tremiam. Ela as apertou entre os joelhos até as articulações doerem. Contagem. Um. Dois. Três. Quatro. O coração ainda batia como se quisesse furar a caixa torácica. A camiseta de dormir estava grudada nas costas, úmida de suor frio. Aquele dia. Quatro anos depois e o corpo
O domingo chegou sem pressa.Melissa passou a manhã inteira no quarto. Reyna saíra cedo com o Vinny — o nome ainda soava estranho na cabeça dela — e a casa ficou em um silêncio raro. Sem rangidos do outro lado da parede. Sem risadas abafadas. Só o vento batendo na janela mal vedada e o barulho distante de um carro passando de vez em quando.Ela tentou ler. Desistiu na terceira página. Tentou assistir alguma coisa no notebook. Desistiu também. O corpo estava inquieto de um jeito específico. Não era exatamente desejo. Era a sobra do sábado. A conversa com Reyna. A conversa com ele. A forma como as duas coisas tinham se misturado na cabeça e deixado um residual difícil de nomear.Às duas da tarde o celular vibrou.VIP_01: Você está aí, coelhinha?Melissa olhou a mensagem por longos segundos antes de responder.Luna_23: Estou.Luna_23: Casa vazia hoje.VIP_01: Interessante.VIP_01: E como está a cabeça? Ainda alta?Luna_23: Mais ou menos.Luna







