Share

7. Atrasada

Author: Monte
last update publish date: 2026-09-07 00:21:04

O celular marcava 7:51. A aula de Hale começava às oito.

— Merda.

Ela se levantou de um salto. A camiseta de dormir ainda cheirava a sabonete da noite anterior. O pesadelo tinha vindo, mas desta vez a mensagem enviada e a resposta da manhã tinham sido suficientes para o corpo não carregar o dia inteiro como um peso. Quatro meses de conversas assim tinham ensinado o sistema nervoso a baixar a guarda um pouco mais rápido. Não eliminavam o medo. Só o tornavam administrável.
Continue to read this book for free
Scan code to download App
Locked Chapter

Latest chapter

  • Meu professor é meu cliente   10. A porta está aberta

    Melissa saiu da sala com o celular apertado contra o peito, como se o aparelho pudesse ainda carregar o calor da mão dele. Os corredores estavam cheios. Ela colou-se à parede e caminhou rápido, a cabeça baixa, o coração batendo em um ritmo irregular. Dois dias, dois atrasos e o celular confiscado. A voz baixa de Hale ainda ecoava: Da próxima vez… as consequências serão diferentes. Não fora gritado. Não precisara. A ameaça quieta doía mais. No banheiro do segundo andar, trancou a cabine e só então desbloqueou a tela. A foto ainda estava na galeria. A mesma que ela enviara na noite anterior. O estômago revirou. E se ele tivesse visto? O aparelho não estava bloqueado quando ela o entregou. A imagem poderia ter ficado aberta. A possibilidade era nauseante. Uma nova mensagem de VIP_01 apareceu no topo. VIP_01: Você esteve quieta demais hoje, coelhinha. VIP_01: Me diga exatamente onde está agora.

  • Meu professor é meu cliente   9. O peso da evidência

    Sebastian Hale odiava improviso. A aula começava às oito em ponto. Ele entrava, fechava a porta e esperava o silêncio se instalar antes de pronunciar a primeira palavra. Pontualidade não era formalidade. Era o primeiro exercício de poder da manhã. Quem chegava atrasado aprendia rápido que o tempo dele não era negociável. Às 8:28 a porta se abriu. Melissa Quinn entrou com a cabeça baixa, o casaco preto oversized, a mochila batendo na coxa. Onze minutos ontem. Vinte e oito agora. A segunda vez em dois dias. A sala inteira notou. Algumas cabeças se viraram. Outras fingiram não ver. Sebastian interrompeu a frase no quadro, deixou o giz pairar no ar por um segundo e depois continuou escrevendo como se a interrupção não tivesse existido. Não comentou. Ainda não. Ela foi direto para a última fileira, canto perto da janela. A mesma carteira de sempre. Sentou-se rápido, abriu o caderno, baixou os olhos. O padrão era previsível.

  • Meu professor é meu cliente   8. Avançar

    A casa estava quieta quando Melissa chegou. Reyna deixara um bilhete torto na geladeira: “Saindo com o Vinny. Volto tarde. Tem sobra de macarrão.” O silêncio era um alívio. Melissa largou a mochila perto da porta, tirou o casaco e foi direto para o banheiro. Trancou por hábito, mesmo sabendo que estava sozinha. O chuveiro esquentou devagar. Ela entrou debaixo da água quente e ficou parada longos minutos, a testa apoiada no azulejo, deixando o calor descer pela nuca, pelos ombros, pela coluna. O dia inteiro ainda estava grudado na pele: o atraso, os olhares da sala, a voz baixa do professor Hale, o residual da madrugada. A água não apagava nada disso. Só tornava o corpo um pouco mais suportável. Quando saiu, a pele estava rosada do calor. Enrolou a toalha em volta do corpo, pegou o celular e foi para o quarto. O gancho de metal fez o clique familiar. Só então ela se deixou sentar na beira da cama, o cabelo molhado pingando no ombro. A tela já t

  • Meu professor é meu cliente   7. Atrasada

    O celular marcava 7:51. A aula de Hale começava às oito. — Merda. Ela se levantou de um salto. A camiseta de dormir ainda cheirava a sabonete da noite anterior. O pesadelo tinha vindo, mas desta vez a mensagem enviada e a resposta da manhã tinham sido suficientes para o corpo não carregar o dia inteiro como um peso. Quatro meses de conversas assim tinham ensinado o sistema nervoso a baixar a guarda um pouco mais rápido. Não eliminavam o medo. Só o tornavam administrável. Melissa se vestiu em cinco minutos: calça jeans escura, casaco oversized preto, cabelo preso em um coque torto. Sem maquiagem. Sem café. Pegou a mochila, trancou o quarto por hábito e saiu sem fazer barulho para não acordar Reyna. O ônibus das 7:55 já tinha passado. Ela correu até o ponto seguinte, o ar frio de outubro cortando o rosto. Chegou na parada ofegante, embarcou no próximo coletivo e ficou em pé perto da porta, uma mão segurando o corrimão, a outra no bolso onde o ce

  • Meu professor é meu cliente   6. Pesadelo

    O pesadelo não pedia licença. Melissa acordou com o corpo inteiro travado, a respiração presa no meio do peito como se alguém ainda estivesse em cima dela. O quarto estava escuro. A cortina deixava entrar apenas um fio de luz alaranjada do poste da rua. Por alguns segundos ela não soube onde estava. A parede, a cama, o cheiro de sabonete barato no travesseiro — nada disso fazia sentido. Só existia o peso. A mão cobrindo a boca. A impossibilidade de gritar. Ela se sentou de uma vez só. As pernas balançaram para fora da cama. Os pés tocar am o chão frio. O contato a trouxe de volta o suficiente para que o ar finalmente entrasse. Curto. Quebrado. Mas entrou. As mãos tremiam. Ela as apertou entre os joelhos até as articulações doerem. Contagem. Um. Dois. Três. Quatro. O coração ainda batia como se quisesse furar a caixa torácica. A camiseta de dormir estava grudada nas costas, úmida de suor frio. Aquele dia. Quatro anos depois e o corpo

  • Meu professor é meu cliente   5. Reconhecimento

    O domingo chegou sem pressa.Melissa passou a manhã inteira no quarto. Reyna saíra cedo com o Vinny — o nome ainda soava estranho na cabeça dela — e a casa ficou em um silêncio raro. Sem rangidos do outro lado da parede. Sem risadas abafadas. Só o vento batendo na janela mal vedada e o barulho distante de um carro passando de vez em quando.Ela tentou ler. Desistiu na terceira página. Tentou assistir alguma coisa no notebook. Desistiu também. O corpo estava inquieto de um jeito específico. Não era exatamente desejo. Era a sobra do sábado. A conversa com Reyna. A conversa com ele. A forma como as duas coisas tinham se misturado na cabeça e deixado um residual difícil de nomear.Às duas da tarde o celular vibrou.VIP_01: Você está aí, coelhinha?Melissa olhou a mensagem por longos segundos antes de responder.Luna_23: Estou.Luna_23: Casa vazia hoje.VIP_01: Interessante.VIP_01: E como está a cabeça? Ainda alta?Luna_23: Mais ou menos.Luna

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status