تسجيل الدخولO cheiro de café queimado subia da cozinha quando Melissa finalmente saiu do quarto.
Já passava do meio-dia. O cabelo ainda estava úmido na ponta, preso em um coque torto. Reyna estava sentada no balcão alto, de pernas cruzadas, comendo cereal direto da caixa. O namorado tinha ido embora. A porta do quarto dela estava aberta, as evidências do sábado — lençol puxado, travesseiro no chão — à vista de quem quisesse ver. Melissa pegou uma xícara limpa e serviu o que restava do café. Amargo. Quase frio. Reyna a observou por cima da caixa de cereal. — Você sumiu a manhã inteira. — Dormindo — mentiu Melissa. A voz saiu rouca. Reyna ergueu uma sobrancelha, mas não insistiu. Empurrou a caixa na direção dela. — Come alguma coisa. Você fica pálida quando pula refeição. Melissa pegou um punhado de cereal só para ocupar a mão. Mascou sem sentir o gosto. O silêncio entre as duas não era desconfortável. Nunca fora. Reyna era barulhenta com o mundo e quieta com ela. Uma das poucas pessoas que não exigia explicações demais. A pergunta saiu antes que Melissa pudesse decidir se queria mesmo fazer. — Como é? Reyna parou de mastigar. — Como é o quê? — Transar com alguém que você gosta. De verdade. Não só… vontade. Reyna piscou. Depois sorriu de lado, o tipo de sorriso que aparecia quando ela resolvia ser sincera demais. — É diferente. Menos pressa. Mais… presença. Tipo, você repara no jeito que a pessoa respira. No peso da mão. No cheiro da pele. Não é só o corpo fazendo a coisa. É o corpo e a cabeça juntos. Às vezes até demais. Às vezes você fica vulnerável de um jeito que dá vontade de sair correndo. Melissa olhou para dentro da xícara. — E você gosta? — Eu gosto. A maioria das vezes. — Reyna deu de ombros. — Com o Vinny tá sendo bom. Ele presta atenção. Não é só chegar e pronto. Melissa ergueu os olhos. — Não era Bennett? Reyna soltou uma risada curta, sem constrangimento. — Bennett era o anterior. Esse é Vinny. Três semanas. Melissa assentiu. Não perguntava nomes. Nunca perguntava. Reyna trocava de namorado com a mesma naturalidade com que trocava de esmalte. Um mês, dois, às vezes só algumas semanas. Melissa parara de tentar memorizar. Era mais fácil assim. Menos nomes para carregar. Menos rostos para associar ao som que atravessava a parede todas as vezes. — Você nunca pergunta — comentou Reyna, ainda mastigando. — Dos nomes. — Não faz diferença — respondeu Melissa. A voz saiu mais baixa. — Eles vêm. Eles vão. Você continua a mesma. Reyna a estudou por um segundo a mais. — E você? Ainda nada? Tipo… ninguém? Melissa balançou a cabeça. O cereal derreteu na boca, pastoso. — Não. Não era mentira. Não havia ninguém. Havia uma tela. Havia uma voz escrita que a chamava de coelhinha e gatinha e conseguia fazê-la gozar sem nunca ter tocado nela. Havia desejo. Havia medo. Os dois ocupavam o mesmo espaço no peito e se empurravam o tempo todo. Reyna não insistiu. Empurrou a caixa de cereal de volta para o centro do balcão e saltou do banquinho. — Vou tomar banho. O Vinny disse que talvez passe aqui de novo à noite. Aviso se for o caso. Melissa apenas assentiu. Escutou a porta do banheiro fechar. Escutou a água ligar. Ficou sozinha na cozinha pequena, a xícara esfriando entre as mãos. O celular vibrou no bolso do moletom. Ela esperou até estar de volta no quarto, a porta trancada com o gancho de metal, para olhar. VIP_01: Você sumiu depois de mais cedo. VIP_01: Só checando se ainda está viva, coelhinha. Melissa sentou na beira da cama. Os dedos hesitaram sobre a tela. Não queria sexo. Não agora. Queria outra coisa. O tipo de conversa que às vezes acontecia entre eles quando o desejo baixava e restava só a estranha intimidade de duas pessoas que se conheciam sem se conhecer. Luna_23: Estou viva. Luna_23: Só precisei de um tempo quieta. VIP_01: Entendo. VIP_01: Hoje cedo foi intenso para você. Não era pergunta. Era afirmação. Melissa sentiu o peito apertar um pouco. Luna_23: Foi. Luna_23: Tem dias em que o corpo pede e a cabeça não acompanha. Ontem os dois pediram ao mesmo tempo. VIP_01: E hoje? Luna_23: Hoje a cabeça está mais alta. Luna_23: Posso te perguntar uma coisa? Sem ser sobre… isso. VIP_01: Pode. Estou aqui. Melissa demorou alguns segundos. A pergunta era perigosa. Não porque quebrasse as regras do aplicativo, mas porque aproximava demais dois mundos que deveriam permanecer separados. Luna_23: Você já pensou no que aconteceria se a gente se visse pessoalmente? Luna_23: Tipo… de verdade. Em algum lugar. A resposta demorou mais desta vez. Ela imaginou ele do outro lado, talvez franzindo a testa, talvez apenas escolhendo as palavras com o mesmo cuidado que usava nas ordens. VIP_01: Já. VIP_01: Mais de uma vez. Luna_23: E? VIP_01: E sei que é contra as regras do aplicativo. Anonimato é a primeira cláusula. Quebrar isso é risco para os dois. VIP_01: Mas ainda assim pensei. Melissa puxou o joelho contra o peito. Luna_23: Eu também. Luna_23: Às vezes. Em dias como ontem. Luna_23: Mas eu sei que não daria certo. Não do jeito que eu sou. VIP_01: Do jeito que você é? Luna_23: Eu tranco portas. Luna_23: Eu preciso de paredes. De distância. De controle sobre quem chega perto. Luna_23: Se você estivesse na mesma sala… eu não sei se conseguiria ficar. Houve um silêncio longo. A tela ficou quieta o suficiente para ela se perguntar se tinha dito demais. VIP_01: Eu sei. VIP_01: Eu percebo isso em você. Mesmo daqui. VIP_01: Por isso a tela funciona. Porque ela te dá o que o resto do mundo não dá. Luna_23: Segurança. VIP_01: Isso. VIP_01: E eu não vou pedir para quebrar isso. Nunca. Mesmo que a ideia passe pela cabeça. VIP_01: As regras existem por um motivo. E no nosso caso… talvez existam por um motivo ainda maior. Melissa sentiu algo se afrouxar no peito. Não era alívio completo. Era o reconhecimento quieto de que ele entendia. Ou, pelo menos, fingia entender o suficiente para não empurrar. Luna_23: Obrigada por não empurrar. VIP_01: Eu não empurro o que te quebra, gatinha. VIP_01: Só o que te faz sentir. Há diferença. Luna_23: Eu sei. Luna_23: É por isso que ainda estou aqui. VIP_01: Eu também. VIP_01: Agora vai viver o resto do seu sábado. Eu estarei por aqui se a cabeça baixar de novo e o corpo pedir. Luna_23: Tudo bem. Luna_23: Até mais tarde. VIP_01: Até mais tarde, coelhinha. Melissa bloqueou a tela. Deitou de lado na cama desfeita. Do banheiro vinha o som da água ainda caindo. Da cozinha, o cheiro fraco de café frio. Reyna tinha nomes demais. Vinny. Bennett. Os que viriam depois. Melissa não tinha nenhum. Só uma sequência de letras e números e uma voz que sabia exatamente até onde podia ir sem destruir o pouco de segurança que ela conseguira construir. Por enquanto, isso bastava. Ela fechou os olhos e deixou o sábado seguir sem ela.Melissa saiu da sala com o celular apertado contra o peito, como se o aparelho pudesse ainda carregar o calor da mão dele. Os corredores estavam cheios. Ela colou-se à parede e caminhou rápido, a cabeça baixa, o coração batendo em um ritmo irregular. Dois dias, dois atrasos e o celular confiscado. A voz baixa de Hale ainda ecoava: Da próxima vez… as consequências serão diferentes. Não fora gritado. Não precisara. A ameaça quieta doía mais. No banheiro do segundo andar, trancou a cabine e só então desbloqueou a tela. A foto ainda estava na galeria. A mesma que ela enviara na noite anterior. O estômago revirou. E se ele tivesse visto? O aparelho não estava bloqueado quando ela o entregou. A imagem poderia ter ficado aberta. A possibilidade era nauseante. Uma nova mensagem de VIP_01 apareceu no topo. VIP_01: Você esteve quieta demais hoje, coelhinha. VIP_01: Me diga exatamente onde está agora.
Sebastian Hale odiava improviso. A aula começava às oito em ponto. Ele entrava, fechava a porta e esperava o silêncio se instalar antes de pronunciar a primeira palavra. Pontualidade não era formalidade. Era o primeiro exercício de poder da manhã. Quem chegava atrasado aprendia rápido que o tempo dele não era negociável. Às 8:28 a porta se abriu. Melissa Quinn entrou com a cabeça baixa, o casaco preto oversized, a mochila batendo na coxa. Onze minutos ontem. Vinte e oito agora. A segunda vez em dois dias. A sala inteira notou. Algumas cabeças se viraram. Outras fingiram não ver. Sebastian interrompeu a frase no quadro, deixou o giz pairar no ar por um segundo e depois continuou escrevendo como se a interrupção não tivesse existido. Não comentou. Ainda não. Ela foi direto para a última fileira, canto perto da janela. A mesma carteira de sempre. Sentou-se rápido, abriu o caderno, baixou os olhos. O padrão era previsível.
A casa estava quieta quando Melissa chegou. Reyna deixara um bilhete torto na geladeira: “Saindo com o Vinny. Volto tarde. Tem sobra de macarrão.” O silêncio era um alívio. Melissa largou a mochila perto da porta, tirou o casaco e foi direto para o banheiro. Trancou por hábito, mesmo sabendo que estava sozinha. O chuveiro esquentou devagar. Ela entrou debaixo da água quente e ficou parada longos minutos, a testa apoiada no azulejo, deixando o calor descer pela nuca, pelos ombros, pela coluna. O dia inteiro ainda estava grudado na pele: o atraso, os olhares da sala, a voz baixa do professor Hale, o residual da madrugada. A água não apagava nada disso. Só tornava o corpo um pouco mais suportável. Quando saiu, a pele estava rosada do calor. Enrolou a toalha em volta do corpo, pegou o celular e foi para o quarto. O gancho de metal fez o clique familiar. Só então ela se deixou sentar na beira da cama, o cabelo molhado pingando no ombro. A tela já t
O celular marcava 7:51. A aula de Hale começava às oito. — Merda. Ela se levantou de um salto. A camiseta de dormir ainda cheirava a sabonete da noite anterior. O pesadelo tinha vindo, mas desta vez a mensagem enviada e a resposta da manhã tinham sido suficientes para o corpo não carregar o dia inteiro como um peso. Quatro meses de conversas assim tinham ensinado o sistema nervoso a baixar a guarda um pouco mais rápido. Não eliminavam o medo. Só o tornavam administrável. Melissa se vestiu em cinco minutos: calça jeans escura, casaco oversized preto, cabelo preso em um coque torto. Sem maquiagem. Sem café. Pegou a mochila, trancou o quarto por hábito e saiu sem fazer barulho para não acordar Reyna. O ônibus das 7:55 já tinha passado. Ela correu até o ponto seguinte, o ar frio de outubro cortando o rosto. Chegou na parada ofegante, embarcou no próximo coletivo e ficou em pé perto da porta, uma mão segurando o corrimão, a outra no bolso onde o ce
O pesadelo não pedia licença. Melissa acordou com o corpo inteiro travado, a respiração presa no meio do peito como se alguém ainda estivesse em cima dela. O quarto estava escuro. A cortina deixava entrar apenas um fio de luz alaranjada do poste da rua. Por alguns segundos ela não soube onde estava. A parede, a cama, o cheiro de sabonete barato no travesseiro — nada disso fazia sentido. Só existia o peso. A mão cobrindo a boca. A impossibilidade de gritar. Ela se sentou de uma vez só. As pernas balançaram para fora da cama. Os pés tocar am o chão frio. O contato a trouxe de volta o suficiente para que o ar finalmente entrasse. Curto. Quebrado. Mas entrou. As mãos tremiam. Ela as apertou entre os joelhos até as articulações doerem. Contagem. Um. Dois. Três. Quatro. O coração ainda batia como se quisesse furar a caixa torácica. A camiseta de dormir estava grudada nas costas, úmida de suor frio. Aquele dia. Quatro anos depois e o corpo
O domingo chegou sem pressa.Melissa passou a manhã inteira no quarto. Reyna saíra cedo com o Vinny — o nome ainda soava estranho na cabeça dela — e a casa ficou em um silêncio raro. Sem rangidos do outro lado da parede. Sem risadas abafadas. Só o vento batendo na janela mal vedada e o barulho distante de um carro passando de vez em quando.Ela tentou ler. Desistiu na terceira página. Tentou assistir alguma coisa no notebook. Desistiu também. O corpo estava inquieto de um jeito específico. Não era exatamente desejo. Era a sobra do sábado. A conversa com Reyna. A conversa com ele. A forma como as duas coisas tinham se misturado na cabeça e deixado um residual difícil de nomear.Às duas da tarde o celular vibrou.VIP_01: Você está aí, coelhinha?Melissa olhou a mensagem por longos segundos antes de responder.Luna_23: Estou.Luna_23: Casa vazia hoje.VIP_01: Interessante.VIP_01: E como está a cabeça? Ainda alta?Luna_23: Mais ou menos.Luna







