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Capítulo 2

Author: Meteor Sea
Apertei o celular entre os dedos. Aquela não era a primeira vez que recebia a proposta. Eu já a recusei uma vez, por causa de Vicente.

Na época, ele me abraçou com força e passou um bom tempo tentando me convencer a ficar.

— Elisa, o que vai ser de mim se você for embora? A gente tá prestes a casar. Você vai mesmo me deixar aqui sozinho?

Fiquei dividida durante dias. No fim, abri mão de uma oportunidade profissional extraordinária para me casar com ele.

As lembranças dos sete anos que passamos juntos ainda me apertavam o peito.

Olhei para Vicente, com a voz embargada, agarrada à última esperança que me restava.

— Se a Lavínia já voltou, por que você não terminou comigo?

Minha voz falhou antes que eu conseguisse fazer a pergunta que mais me atormentava.

— Nesses sete anos todos... Você me amou de verdade alguma vez? Nem que fosse por um instante?

Vicente permaneceu em silêncio.

Os segundos se arrastaram, até que Lavínia soltou um suspiro acompanhado de um sorriso resignado.

— Ele não terminou com você porque eu não deixei, Elisa.

Seu tom era de uma paciência quase maternal.

— Você fez do Vicente o centro da sua vida. Eu sabia que, se ele te abandonasse, você podia desmoronar de novo.

Ela se aproximou devagar, com a serenidade de quem esperava gratidão por um sacrifício imenso.

— Eu deixei o homem que mais amo ao seu lado durante sete anos. Vi o Vicente comemorar seus aniversários, posar com você no ensaio pré-casamento, ajudar a organizar cada detalhe desta cerimônia...

— Passei todos esses anos abrindo mão da minha própria felicidade por você. Agora só quero de volta o casamento que sempre foi meu. Será que nem isso você pode me conceder?

Então, levou delicadamente a mão ao ventre.

— Se dependesse só de mim, eu até continuaria cedendo. Mas estou grávida de três meses, Elisa.

Sua expressão ganhou um ar de tristeza.

— Não posso deixar meu filho nascer e crescer chamando o próprio pai de tio.

Vicente mudou de expressão na mesma hora e se apressou em ampará-la pela cintura.

— O médico mandou você evitar emoções fortes. Chega de tentar se explicar pra ela.

Quando voltou os olhos para mim, toda a ternura da sua voz desapareceu.

— Elisa, a Lavínia já se sacrificou por você durante sete anos. Agora ela tá grávida do meu filho. Não vou continuar fingindo que esse casamento é nosso.

Foi uma sentença cruel, proferida com uma facilidade assustadora.

Em poucas palavras, Vicente apagou os sete anos que vivemos juntos, como se nada daquilo tivesse existido.

Mas houve um tempo em que Vicente me colocava acima de tudo.

Quando fui internada com uma crise aguda de gastrite, ele cancelou uma reunião importante e passou dois dias e duas noites ao lado da minha cama.

Quando a família Azevedo se opôs ao nosso namoro, ele abriu mão do cartão de crédito bancado pelos pais e se mudou para o apartamento minúsculo que eu alugava.

Nos dias mais difíceis, chegamos a dividir um único pacote de macarrão instantâneo.

Ele sempre colocava o único ovo frito no meu prato e sorria.

— Elisa, só me dá mais um tempo. Eu vou provar pra todo mundo que você não errou ao me escolher.

Depois, quando o negócio que ele abriu faliu e as dívidas se acumularam, fui eu quem ficou ao seu lado.

Trabalhava durante o dia, pegava projetos de design à noite e fazia o possível para ajudá-lo a atravessar aqueles dois anos de dificuldades.

No dia em que conseguiu seu primeiro investimento, Vicente me abraçou e chorou por um longo tempo.

Entre lágrimas, prometeu que nunca me decepcionaria.

Aqueles abraços foram reais.

As lágrimas também.

E agora, ali estava ele, protegendo Lavínia e o filho que esperavam, enquanto reduzia nossos sete anos de amor a uma farsa.

De repente, o telão atrás de nós voltou a se acender.

Sem perceber o tumulto que tomava conta do salão, a equipe responsável seguiu o roteiro e deu início à retrospectiva dos noivos.

No centro da tela, letras douradas anunciaram:

[Vicente Azevedo e Lavínia Monteiro — Dez anos de amor.]

As fotografias começaram a surgir em ordem cronológica, uma após a outra.

No meu aniversário de 24 anos, Vicente alegou que seu voo estava atrasado. Passei a noite sozinha, esperando por ele diante de um bolo que acabou esquecido sobre a mesa.

Na fotografia daquela mesma data, porém, Vicente aparecia aos pés de uma montanha coberta de neve. Com todo o carinho, ajeitava um cachecol no pescoço de Lavínia e beijava a ponta de seu nariz, avermelhada pelo frio.

Seis meses antes, no dia em que perdi o bebê, ele alegou uma viagem de trabalho de última hora. Disse que não podia ir ao hospital nem para assinar os documentos.

Minha mãe reclamou de um mal-estar no peito. Os celulares do meu pai e do meu irmão estavam desligados.

Passei por tudo sozinha, deitada na mesa de cirurgia, com o corpo inteiro tremendo de dor.

Nas fotografias daquela mesma época, minha família inteira comemorava o aniversário de Lavínia numa ilha paradisíaca.

Minha mãe erguia um presente para ela. Meu pai cortava seu bolo de aniversário. Meu irmão passava a noite soltando fogos de artifício à beira-mar.

E Bianca, por trás da câmera, registrava cada momento daquela reunião de família.

Foto após foto, uma vida inteira se revelava diante dos meus olhos.

Sete anos de momentos felizes dos quais eu nunca fiz parte.

Sete anos de ausências, desculpas e promessas quebradas.

E, em cada fotografia, mais uma peça das mentiras que eles construíram para me manter no escuro.

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