LOGINKaiden estava sozinho no escritório do pai quando abriu pela terceira vez os documentos entregues por Malrik. Já passava da meia-noite, mas dormir parecia impossível.
Havia registros de dinheiro, mensagens interceptadas e encontros entre um homem ligado aos Thourlet e guerreiros que, segundo os relatórios, haviam trabalhado para inimigos de Blackthorn. Quanto mais lia, mais sentia um peso crescer dentro do peito. O pior documento estava separado dos outros. Segundo o relatório, na noite em que seu pai morreu, alguém usando o selo da família Thourlet havia entrado na ala privada da fortaleza. Kaiden lembrava daquela noite melhor do que gostaria. Lembrava dos gritos, dos guerreiros correndo pelos corredores e do momento em que encontrou o corpo do pai sem vida. — Isso não faz sentido — falou sozinho, empurrando o papel sobre a mesa. Ragnar estava inquieto havia horas. O enorme lobo negro parecia andar de um lado para o outro dentro da mente de Kaiden, irritado com cada nova página que ele abria. Desde que Malrik mencionou o nome de Seraphina, Ragnar não havia lhe dado um único momento de paz. — “É falso.” Kaiden passou as mãos pelo rosto. — Você nem examinou as provas. — “Eu conheço Nymera.” — Nymera não é Seraphina. Ragnar soltou um rosnado tão alto que Kaiden sentiu a cabeça latejar. — “E eu conheço Seraphina através dela. Ela não trairia você.” Kaiden se levantou e caminhou até a janela. Não queria acreditar naquilo. Seraphina esteve ao lado dele durante praticamente toda a vida. Quando seu pai morreu, ela foi uma das poucas pessoas que não tentou dizer como ele deveria agir. Apenas o abraçou e ficou com ele enquanto chorava. — Talvez ela não saiba — Kaiden respondeu. Ragnar ficou calado por alguns segundos. — “Então pergunte.” Era simples. Kaiden poderia procurar Seraphina naquele mesmo instante. Poderia colocar aqueles documentos diante dela e perguntar se reconhecia algum nome, selo ou informação. Conhecia Seraphina o suficiente para perceber quando alguma coisa a incomodava. Mas uma parte dele temia a resposta que poderia receber. E Kaiden não perguntou. Na casa dos Thourlet, Seraphina enfrentava um problema muito diferente. Havia três vestidos espalhados sobre a cama e Elowen insistia que nenhum deles era adequado. Seraphina já havia experimentado todos duas vezes e começava a suspeitar que sua mãe estava usando os vestidos apenas como desculpa para mantê-la naquele quarto. — O prateado — Elowen decidiu novamente. Seraphina olhou para o vestido. — Há cinco minutos você disse que o preto era melhor. — Mudei de ideia. — E daqui a cinco minutos vai escolher o azul outra vez. Elowen tentou sorrir, mas seus olhos estavam úmidos. Seraphina percebeu e se virou completamente para a mãe. Durante todo aquele dia, Elowen estava estranha. Algumas vezes parecia prestes a dizer alguma coisa, mas mudava de assunto. — Mãe, o que está acontecendo? — Nada. — Você está quase chorando desde que comecei a experimentar esses vestidos. — Elowen desviou o olhar. Seraphina tentou brincar. — Se continuar olhando desse jeito, vou achar que estou indo para um funeral. A reação da mãe fez o sorriso desaparecer de seu rosto. Elowen ficou imóvel. — Não fale isso. — Foi apenas uma brincadeira. — Eu sei. Seraphina se aproximou. — Então por que está assim? Elowen passou a mão pelos cabelos da filha e respirou fundo. — Talvez eu só esteja percebendo que você não é mais minha menina. Seraphina sorriu com carinho e segurou as mãos dela. — Continuo sendo. — Amanhã tudo muda. — Não tudo. — Mais do que você imagina. Seraphina franziu a testa. — Está preocupada porque vou me tornar Luna? Elowen demorou a responder. — Estou preocupada porque você acredita que sabe exatamente como será sua vida depois de amanhã. — Eu conheço Kaiden. — Conhece. — E confio nele. Elowen apertou as mãos da filha. — Se alguma coisa acontecesse amanhã... você confiaria em mim? Seraphina estranhou. — O que poderia acontecer? — Responda. A seriedade da mãe a deixou desconfortável. — Claro que confiaria. Elowen segurou o rosto dela entre as mãos. — Então nunca permita que ninguém faça você acreditar que nasceu para ficar de joelhos. Não importa o título, o sangue ou o poder dessa pessoa. Você não nasceu para viver abaixo de ninguém. Seraphina tentou diminuir o peso daquela conversa. — Inclusive Kaiden? Elowen não riu. — Principalmente diante de um Alfa. Nymera se levantou imediatamente dentro da mente de Seraphina. — “Ela sabe alguma coisa.” Seraphina respondeu mentalmente: — Minha mãe está preocupada. — “Não. Ela está com medo.” Seraphina encarou Elowen, mas antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, a mãe beijou sua testa e voltou a mexer nos vestidos. O assunto estava encerrado para ela. Horas depois, Seraphina estava deitada quando ouviu um pequeno ruído perto da janela. Sentou-se rapidamente, pronta para chamar Nymera, mas reconheceu a sombra do lado de fora antes que o homem terminasse de entrar. — Kaiden? Ele colocou os pés no chão e fechou a janela. Seraphina arregalou os olhos. — O futuro Alfa Supremo entrando escondido pela janela da filha da curandeira. Que escândalo. Kaiden sorriu. — Amanhã posso usar a porta. — Está confiante. — Estou desesperado para parar de esconder você. Seraphina percebeu que havia alguma coisa diferente nele. Kaiden sorria, mas os olhos estavam cansados. Ela se levantou e se aproximou, tocando seu rosto. — Você deveria estar descansando. — Você também. — Eu estava até um homem enorme invadir meu quarto. Kaiden segurou sua cintura. — Quer que eu vá embora? — Não coloque palavras na minha boca. — Prefiro outras coisas na sua boca. Seraphina deu um tapa leve em seu peito. — Ragnar está ensinando essas frases? — Ele tem menos delicadeza. Ela riu, mas Kaiden voltou a ficar sério rapidamente. — Sera, posso perguntar uma coisa? — Pode. Ele hesitou. — Sua mãe ainda mantém contato com parentes que vivem fora de Blackthorn?Kaiden encontrou Tavian no escritório antes do amanhecer. O Beta havia passado a noite comparando os registros militares com as cartas de Theron Vale e o depoimento de Edmund Ravek. Sobre a mesa, três documentos estavam separados dos demais.— Encontrei a autorização que permitiu a entrada dos homens na fortaleza — Tavian anunciou. — E agora sabemos de onde partiu a ordem.Kaiden se aproximou imediatamente.— Foi Malrik?— Tudo indica que sim. Mas ele tomou cuidado para não assinar pessoalmente.Seraphina entrou naquele momento, acompanhada por Darian.— Então precisamos descobrir como ele conseguiu autorizar a entrada sem deixar o próprio nome.Tavian apontou para uma pequena marca no canto do documento.— É justamente isso que quero mostrar.A marca parecia apenas duas linhas cruzadas dentro de um círculo.Kaiden já a havia visto em documentos antigos, mas nunca prestara atenção ao significado.— Isso não pertence aos registros comuns da guarda — comentou.Tavian assentiu.— Era uma
Kaiden estava no escritório quando Tavian entrou carregando uma pasta antiga. O capitão parecia cansado, mas havia algo diferente em sua expressão. Pela primeira vez em vários dias, ele parecia ter encontrado uma resposta.Seraphina estava sentada perto da janela, examinando as cartas de Theron Vale. Elowen havia chegado pouco antes, depois de receber um pedido para ajudar na investigação.— Encontramos o registro da mensagem que Elowen tentou entregar ao antigo Alfa — Tavian anunciou.Kaiden levantou imediatamente.— Onde estava?— Entre os documentos retirados dos arquivos militares. Alguém tentou destruir tudo, mas uma cópia parcial sobreviveu.Seraphina deixou as cartas sobre a mesa.— Então minha mãe estava dizendo a verdade.Tavian assentiu.— E acredito que finalmente podemos provar isso.Elowen levou a mão ao peito, sem conseguir esconder a emoção.Tavian espalhou os documentos sobre a mesa.O primeiro era um registro de entrada, com a data da noite anterior ao assassinato. Ne
Kaiden encontrou Tavian no escritório pouco depois do café da manhã. O capitão estava diante de uma mesa coberta por registros antigos, com uma expressão que não anunciava boas notícias. Darian permanecia ao lado da janela, segurando um documento que parecia ter sido examinado várias vezes.— Encontramos outra informação sobre a noite do assassinato — Tavian anunciou. — Mas preciso que entenda que o registro está incompleto.Kaiden se aproximou imediatamente.— O que aconteceu?Tavian colocou uma folha diante dele.— Um dos guardas anotou a presença de Elowen Thourlet perto da passagem usada pelos homens que entraram na fortaleza.Kaiden ficou imóvel.Darian cruzou os braços.— Isso não significa que ela estivesse trabalhando com eles. A anotação sequer explica por que estava naquele lugar.Kaiden continuou olhando para o nome.— Seraphina precisa saber disso.Seraphina chegou alguns minutos depois, acompanhada pela mãe.Elowen percebeu imediatamente a tensão no ambiente. Quando Tavia
Edmund estava sentado diante de uma mesa quando Kaiden entrou na sala de interrogatório. O antigo conselheiro parecia mais velho do que alguns dias antes. Seus cabelos estavam desalinhados, e as mãos tremiam enquanto segurava um copo de água.Seraphina entrou logo atrás de Kaiden, acompanhada por Tavian e Darian. Dois guardas permaneceram próximos à porta, preparados para intervir caso fosse necessário.Edmund levantou os olhos.— Já respondi às perguntas de vocês. Não tenho mais nada para acrescentar.Kaiden puxou uma cadeira e sentou-se diante dele.— Encontramos documentos na propriedade de Cedric. Pagamentos, autorizações militares e relatórios que foram alterados antes da morte do meu pai.O conselheiro ficou imóvel. Kaiden colocou uma folha sobre a mesa.— Sua assinatura aparece aqui. Desta vez, não poderá dizer que esqueceu.Tavian apresentou os registros encontrados na propriedade abandonada.Havia uma autorização para movimentar guerreiros durante a madrugada, uma lista de pa
Kaiden acordou antes do amanhecer, com o coração disparado e a camisa grudada ao corpo pelo suor. Havia sonhado novamente com a morte do pai. No sonho, corria pelos corredores de Blackthorn, ouvindo gritos e procurando uma porta que nunca conseguia alcançar. Quando finalmente a encontrava, acordava antes de descobrir quem estava do outro lado.Sentou-se na cama e passou as mãos pelo rosto.— Ragnar, você se lembra daquela noite?O lobo permaneceu em silêncio por alguns segundos.— “Lembro de sangue. De fumaça. E de você chamando por ele.”Kaiden fechou os olhos.— Preciso saber quem estava lá.— “Algumas lembranças machucam mais quando tentamos alcançá-las.”— Meu pai morreu, Ragnar. Não posso continuar fugindo do que aconteceu.O lobo soltou um suspiro pesado.— “Então precisamos fazer isso juntos.”Seraphina encontrou Kaiden no jardim da fortaleza pouco depois do nascer do sol.Ele estava sentado num banco, olhando para as próprias mãos. Parecia não ter dormido, e as olheiras profu
Seraphina leu a mensagem pela quarta vez, tentando compreender o verdadeiro significado daquelas palavras.A folha encontrada na propriedade de Cedric estava sobre a mesa do escritório. Ao redor dela, Kaiden, Tavian e Darian examinavam os outros documentos, procurando qualquer informação que explicasse por que Malrik precisava mantê-la viva até a rejeição.— Ele sabia — Seraphina comentou, quebrando o silêncio. — Antes mesmo da cerimônia, Malrik sabia que alguma coisa poderia acontecer comigo.Kaiden se aproximou.— Precisamos descobrir exatamente o quê.Tavian apontou para o símbolo no canto da folha.— O Conselho da Cinza estudava as antigas Regentes. Talvez exista alguma informação nos registros da sua família.Seraphina pensou imediatamente na mãe.— Minha mãe conhece histórias que nunca foram escritas nos livros comuns. Vou pedir que venha até aqui.Kaiden segurou sua mão.— Quero que ela veja tudo.Elowen chegou naquela tarde, acompanhada por Orion.O menino correu até Kaiden as







