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Capítulo 2

Autor: Maná Alves
last update Data de publicação: 2026-08-14 21:16:11

Valentina Contreras sempre soube qual era o seu lugar.

Na família Contreras, mulheres aprendiam cedo que o poder pertencia aos homens. Elas podiam administrar uma casa, organizar uma família, receber convidados e sorrir diante de pessoas que talvez desejassem sua morte.

Mas não faziam perguntas.

Não davam opiniões.

E, principalmente, não se envolviam nos negócios.

Valentina havia aprendido isso com o próprio pai.

Ainda criança, ele lhe ensinara a reconhecer armas, compreender alianças, identificar famílias rivais e perceber quando um homem estava mentindo.

— Uma mulher de mafioso precisa saber tudo — ele dizia. — Só não precisa demonstrar que sabe.

Valentina nunca esqueceu.

Por isso, apesar da aparência de mulher fútil e perfeitamente satisfeita com uma vida confortável, havia muito mais por trás daqueles olhos acinzentados.

Ela era inteligente.

Observadora.

E sabia muito mais sobre o mundo de Matteo do que ele imaginava.

Mas jamais demonstrava.

Afinal, havia sido ensinada a obedecer.

E Valentina era excelente em obedecer.

Ou pelo menos era isso que todos pensavam.

---

Naquela tarde, ela estava na cozinha.

Seus longos cabelos negros e ondulados estavam presos parcialmente, deixando algumas mechas caírem sobre os ombros. A pele morena, marcada pelo sol, contrastava com os olhos acinzentados que pareciam observar tudo ao redor.

Ela preparava o jantar.

Não porque precisava.

A casa tinha empregados suficientes.

Mas Valentina gostava de cuidar do marido.

Gostava de escolher suas roupas.

Preparar suas refeições.

Manter tudo organizado.

Gostava de saber se Matteo havia dormido bem, se estava cansado, se precisava de alguma coisa.

Eles não tinham filhos.

E, às vezes, aquela ausência fazia a casa parecer grande demais.

Então Valentina preenchia o silêncio cuidando de Matteo.

Ou tentando.

Ela colocou a mesa quando ouviu a porta da frente bater.

Sorriu imediatamente.

— Matteo?

Nenhuma resposta.

Ela saiu da cozinha.

Quando o viu, o sorriso desapareceu.

Matteo estava coberto de sangue.

A camisa estava suja, o cabelo despenteado e gotas de suor escorriam pelo rosto.

Valentina correu até ele.

— Meu Deus! Você está ferido?

Ela tocou seu braço.

Matteo afastou a mão dela.

— Não estou ferido.

— Mas está coberto de sangue.

— Não é meu.

Valentina olhou para a camisa.

— Então de quem é?

Matteo lançou um olhar frio para ela.

— De um homem que não soube fazer o trabalho dele.

Ela ficou em silêncio.

— Ele está bem?

Matteo soltou uma risada curta.

— Você realmente se importa?

Valentina franziu a testa.

— Claro que sim.

— Não deveria.

Ele passou por ela.

— Matteo...

— Eu disse que estou bem.

Valentina o acompanhou até a sala.

— Pelo menos deixe que eu limpe o sangue.

— Não preciso de você para isso.

A frase a atingiu mais do que deveria.

Ela ficou parada enquanto ele tirava o paletó e o jogava sobre o sofá.

Depois arrancou o relógio e o deixou sobre a mesa.

A camisa veio em seguida.

Jogada no chão.

Valentina observou tudo em silêncio.

— Você poderia ao menos colocar suas coisas no lugar.

Matteo virou o rosto.

— Agora você quer me dar ordens?

— Não foi isso que eu quis dizer.

Ele caminhou até a escada.

— Então não diga nada.

Valentina abaixou os olhos.

— O jantar estará pronto em vinte minutos.

Matteo sequer respondeu.

Subiu.

Ela permaneceu sozinha.

O silêncio voltou a ocupar a casa.

Valentina respirou fundo.

Recolheu o paletó.

Depois a camisa.

Passou os dedos pelo tecido ensanguentado.

Ela conhecia aquele cheiro.

Sangue.

Pólvora.

Morte.

Seu pai havia lhe ensinado a reconhecer todos eles.

E aquele sangue não era de Matteo.

Valentina sabia.

Mas não perguntou.

Nunca perguntava.

---

Uma hora depois, o jantar continuava intocado.

Matteo não havia descido.

Valentina subiu as escadas.

Talvez ele estivesse cansado.

Talvez precisasse de ajuda.

Talvez...

Ela parou diante da porta do quarto.

Estava entreaberta.

Ouviu uma voz feminina.

Valentina congelou.

Seu coração bateu mais rápido.

Aproximou-se devagar.

Então ouviu uma risada.

Uma risada baixa.

Íntima.

Familiar.

Valentina empurrou a porta.

E parou.

Matteo estava ali.

Sem camisa.

Com outra mulher nos braços.

Por alguns segundos, ninguém se moveu.

Os olhos acinzentados de Valentina encontraram os olhos do marido.

Ele não parecia surpreso.

Não parecia culpado.

Não parecia sequer arrependido.

A mulher ao lado dele sorriu.

Valentina sentiu algo dentro do peito se quebrar.

Ela não gritou.

Não chorou.

Não fez escândalo.

Apenas olhou para Matteo.

E, naquele instante, percebeu uma coisa que jamais havia permitido a si mesma pensar:

Talvez ela nunca tivesse sido a esposa que Matteo amava.

Talvez tivesse sido apenas a esposa que ele precisava.

Valentina fechou a porta lentamente.

E caminhou pelo corredor tentando não deixar que ele percebesse que seus olhos estavam cheios de lágrimas.

Era normal situações como que ela acontecer. na realidade Valentina já estava acostumada com isso. sempre que o marido se estressava ou acontecia alguma situação semelhante, ele arranjava uma mulher para lhe dar prazer.

Seja forte, homens são assim. essa será a frase que sua mãe falava sempre que o pai de Valentina fazia algo errado. ela limpou uma lágrima que insistiu em correr. balançou a cabeça e voltou aos seus afazeres.

Se sentia diminuída toda vez que isso acontecia. o que eu posso fazer? Eu o amo. ela pensou. ao lavar de loces imaginava que um dia o marido pudesse mudar. Será que ele vai me amar um dia?

Era a triste realidade a sina das mulheres de mafiosos. mas incrivelmente em seu peito nutria a esperança que um dia ele iria chegar em casa e em vez de descansar nos braços de outra mulher, iria se declarar a ele.

Novamente limpou a lágrima. imaginou se um dia poderia viver um casamento tranquilo sem tanta guerra, tantas mortes e confusões. agora já era tarde pra voltar atrás uma vez a mulher do mafioso para sempre a mulher do mafioso e o pior de tudo o que ela o amava com todas as suas forças.

O que ela não imaginava era que o inimigo do seu marido já estava armando um plano contra ele e nesse plano incluía Valentinna.

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