LOGINNathan analisava a projeção na tela enquanto ouvia o diretor discorrer sobre os resultados do último trimestre. A sala de reuniões estava lotada de executivos em ternos elegantes. Através da imensa janela, que ocupava uma parede inteira, era possível ver o Empire State Building. No entanto, ninguém prestava atenção à paisagem. Todos os olhares estavam fixos na apresentação.
— Caso a aquisição seja concluída até o final deste mês, poderemos expandir para o exterior no início do próximo ano — concluiu o homem de óculos grandes e cabelos grisalhos.
Murmúrios de aprovação atravessaram a sala.
Nathan pegou o celular ao sentir uma vibração no bolso da calça.
Martha estava ligando. E ela raramente ligava.
Pediu licença e se retirou para o corredor vazio.
— Oi, Martha. O que aconteceu?
— Senhor Fletcher, desculpe por ligar em seu expediente, mas acabei de receber uma ligação da escola do meu filho. Ele está com febre e vomitando. Vou ter que ir embora mais cedo.
— Certo, Martha, não tem problema. Vá cuidar do seu rapaz.
Quando Nathan retornou à sala de reuniões, todos os olhares se voltaram a ele.
— Vou ter que encerrar por hoje.
— Tem certeza? — O diretor franziu o cenho.
— Preciso pegar minha filha na escola.
– – –
Emma correu até o carro.
Seus cabelos castanhos balançaram com o vento. Os lábios formaram um sorriso que poderia facilmente iluminar o mundo inteiro. Em suas costas, a mochila da Barbie parecia grande demais para o corpo pequeno.
Ela abriu a porta traseira do carro já falando:
— Hoje eu desenhei um dinossauro rosa.
— É mesmo? Um dinossauro rosa? — Nathan sorriu. — Quero ver.
— Não vou mostrar.
— Por quê? — Ele franziu o cenho, ligando o carro.
— Ficou parecendo uma galinha.
— Aposto que está bonito assim mesmo.
— Não está nada! — exclamou, teimosa.
— Então você pode tentar fazer outro dinossauro rosa mais tarde — sugeriu. — Quer tomar um sorvete antes da aula de ballet?
— Quero! Você é o meu melhor pai!
Nathan não conseguiu conter o riso.
— — —
Depois da aula de ballet, Nathan e Emma passaram algumas horas em casa. Enquanto o pai resolvia burocracias no macbook, a filha enrolava para terminar o dever de matemática. O tempo passou rápido. Através da janela do escritório, viram o pôr-do-sol se transformar em um céu escuro, as estrelas ofuscadas pelas luzes da cidade.
— Papai, o que vamos jantar?
— Vamos combinar assim: se você comer seus legumes, podemos sair para comer um pedaço de bolo de chocolate.
— Mesmo, pai?! Eu quero!
Ele assentiu. Tinha trabalhado demais e merecia uma generosa xícara de café.
— — —
A cafeteria favorita de Nathan tinha cheiro de canela. A decoração era minimalista, em tons de marrom, branco e bege. Poucas mesas estavam ocupadas naquela noite. Um jazz antigo tocava baixinho.
Nathan e Emma mal haviam escolhido um lugar quando a menina exclamou:
— Professora!
Ela correu para a mesa ao lado e abraçou Sophia.
— Oi, Emma! Que coincidência maravilhosa!
Nathan se aproximou, surpreso pelo encontro inesperado:
— Desculpe, ela se empolga fácil.
— Imagina, não tem problema.
— Hoje eu desenhei um dinossauro rosa. — Emma disse. — Mas ficou parecendo uma galinha.
— Deve estar lindo. — Sophia riu.
— Meu pai falou a mesma coisa.
— Seu pai tem toda razão. — Ela encarou Nathan. — Vocês querem sentar com a gente?
— Ah, não quero incomodar.
— Não é incômodo algum.
Emma se sentou perto de Sophia, e Nathan ocupou o lugar ao lado da moça de cabelos castanhos.
— Professora, quantos anos você tinha quando começou a fazer ballet?
— Três.
— Você sempre quis ser professora? — Nathan perguntou.
— Eu… — Ela hesitou. — Não, nem sempre. Mas amo meu trabalho.
— O que você faz? — A amiga de Sophia entrou na conversa, olhando para Nathan.
— Tenho uma empresa. — Ele respondeu. — Nós desenvolvemos empreendimentos e administramos investimentos. Basicamente, passo o dia tomando decisões e torço para não perder dinheiro.
— Você constrói prédios? — Sophia perguntou.
— Faria mais sentido dizer que ajudo outras pessoas a construírem prédios.
— Sabia que meu pai nunca fez um plié? — Emma disse, a voz um tanto alta.
— Eu passaria vergonha. — Nathan sorriu.
Durante meia hora, os quatro conversaram sobre os assuntos mais aleatórios: ballet, escola, trabalho, o clima que começava a esfriar com a chegada do outono. Nathan percebeu, com certo estranhamento, que fazia tempo que uma conversa não o entretia tanto. Talvez precisasse de mais amigos.
Quando Emma terminou de comer seu bolo de chocolate, olhou para o pai e sussurrou, tímida:
— Podemos ir para casa?
— Vamos. — Ele se levantou. — Foi um prazer vê-la novamente, Sophia. — Sorriu. — E prazer em conhecê-la, Hannah.
— O prazer foi nosso — disse a florista.
— Acho que também está na minha hora — completou a bailarina.
Seguiram ao caixa.
Enquanto Nathan aguardava a atendente de caixa contar o troco, algo escorregou do bolso da mochila de Sophia. Ela não percebeu, mas um garçom, que passava por perto, imediatamente parou para pegar o papel do chão.
— Com licença — disse. — Você deixou isso cair.
— Obrigada.
Antes de Sophia colocar o papel de volta na mochila, Nathan conseguiu distinguir as palavras: “Notificação extrajudicial.”
Desviou o olhar, sem jeito. Mas não disse nada. Recebeu o troco da atendente e segurou a mão de Emma. Despediu-se de Sophia e Hannah com um “boa noite” educado. E saiu em direção ao carro.
Antes de dar partida, olhou através da janela da cafeteria. As duas amigas ainda conversavam perto do caixa. Pareciam animadas.
Não era difícil perceber que Sophia sorria com facilidade. Mas, às vezes, parecia haver um pouco de cansaço por trás de seus olhos azuis. O que sua aparente alegria estava escondendo?
E por que ela tinha sido notificada?
Nathan entrou no carro, mas não girou a ignição.Observou o prédio da escola de ballet por um momento, sorrindo sozinho. O que Sophia estava fazendo com ele? Não era um homem melancólico, mas também não costumava sorrir tanto assim. E, honestamente, estava gostando muito de se sentir mais leve depois de dois anos enfrentando um luto que parecia não ter fim. Era como se pudesse finalmente tentar viver de novo.Nunca ia desrespeitar ou apagar a memória de Georgia.Mas começava a entender que merecia ser feliz ao lado de alguém especial.E talvez essa pessoa pudesse ser Sophia.No entanto, tentou deixar o pensamento de lado. Não podia prever o futuro, por mais que tivesse suas intuições. Queria mesmo ir com calma. Tinha medo de se machucar e mais medo ainda de acabar machucando Sophia. Não se perdoaria se a fizesse chorar.Sentiu que precisava de ajuda. Ainda não conhecia Sophia tanto quanto gostaria, mas queria, mais que tudo, acertar na surpresa de domingo.Pegou o celular, entrou no I*
Sophia observou o papel sobre a mesa. Poderia simplesmente rasgá-lo e nunca mais pensar no assunto.Mas, no fundo, sabia que não conseguiria.Com os dedos trêmulos, porém ágeis, pegou o papel, dobrou duas vezes e enfiou de qualquer jeito na bolsa. Apenas uma precaução inocente. Não ia realmente precisar entrar em contato com Louise. Óbvio que não.— Com licença. Posso anotar seu pedido?Sobressaltou-se ao ouvir a voz do garçom. Não tinha percebido a aproximação. — Sanduíche número quatro e uma raspadinha de Coca-cola, por favor — pediu com a voz fraca.— Certo. — Ele fez uma anotação rápida no bloquinho e acrescentou: — Desculpe, moça, mas está tudo bem? Posso ajudar de alguma forma? — Pareceu preocupado.— Está tudo bem, obrigada — respondeu, tentando manter o tom controlado.— Qualquer coisa, estou à disposição.Sophia assentiu, sem conseguir falar.O coração estava tão dolorido que parecia haver uma mão fechada ao seu redor, apertando o músculo sem piedade. O ar se recusava a cheg
Eram exatamente nove horas da manhã quando Sophia se sentou à mesa para a primeira refeição do dia: uma tigela generosa de sucrilhos ao leite e uma xícara de café forte. Ainda usava sua velha camisola de seda preta e se sentia bastante sonolenta, apesar de ter dormido como uma pedra. Tirando a preocupação com a situação do estúdio, estava de bom humor.Assim que terminasse de comer, gravaria um vídeo para postar nas redes sociais. E mandaria uma mensagem para Nathan. Precisava, com urgência, voltar a conversar sobre marketing.Sorriu quando o celular vibrou inesperadamente sobre a mesa.Uma notificação dele.“Bom dia. Dormiu bem?”Ela respondeu no mesmo instante:“Sim, e você?”“Também, o que já é uma vitória, considerando que tenho uma terça-feira agitada pela frente.”Dois segundos depois, mais uma mensagem chegou:“Tenho outra pergunta importante: você está maratonando alguma série?”Sophia riu e bebericou o café antes de responder:“Não gosto tanto de séries, prefiro filmes.“Send
As borboletas no estômago de Sophia pareciam ter virado águias.Com o rosto levemente corado, ela observou Nathan se afastar, passar pela porta de vidro e caminhar sem pressa até o carro estacionado em frente ao estabelecimento. Sentia um alívio inusitado, como se um peso tivesse sido arrancado de suas costas. Por um instante, quase esqueceu que havia uma mãe e uma criança na recepção.Desculpar alguém nunca tinha sido tão fácil.Mas não podia baixar a guarda.Nathan havia dito com todas as letras que sentiu medo e que queria ir com calma. Ele não parecia totalmente pronto para sair com uma mulher. Ao menos, não com pretensões mais sérias. Talvez o mais sensato fosse não criar expectativas e não pensar tanto no futuro. E proteger o coração de todas as maneiras necessárias. Sophia não podia se envolver. De jeito nenhum.O problema era que já estava se envolvendo.— Moça? Eu gostaria de matricular minha filha. — A mulher repetiu, o cenho franzido.— Desculpe. — Sophia se apressou em diz
Nathan estacionou o carro em frente ao estúdio.Sentiu um incômodo esquisito no peito ao observar a fachada. Tudo continuava exatamente igual: os dois vasos com flores de lavanda junto à porta, as janelas longas de vidro fumê, o letreiro discreto, a parede de tijolos claros... Mas, por alguma razão, parecia que tudo estava diferente.Naquele dia, havia assinado documentos que movimentariam milhões de dólares, participado de longas reuniões e discutido números que tirariam o sono de qualquer pessoa.Ainda assim, não tinha sido capaz de parar de pensar em Sophia.Aquilo era loucura.Fazia duas semanas que a conhecia.E já gostava dela.Por que continuar negando?Sophia não recuou na cozinha. E depois, ao fim da noite, perguntou se Nathan queria que ela voltasse. Nenhuma mulher agiria daquela forma se não estivesse, no mínimo, atraída. Por que ele demorou tanto tempo para entender?Desceu do carro, respirando devagar e lutando para manter os nervos controlados.Mas lembrar que nem Georgi
Nathan acordou sentindo alguém balançar seu ombro.Ainda exausto, precisou de alguns segundos para entender o que estava acontecendo.Não tinha dormido bem. Durante a madrugada, acordou duas vezes e teve dificuldade para adormecer de novo. Não conseguia ficar parado na cama ou manter os olhos fechados por tempo suficiente para o sono chegar. Sentia uma dor leve, mas bastante incômoda no peito.Pensava em Sophia.E na expressão de decepção em seu rosto.— Papai, acorda — murmurou Emma.Nathan esfregou os olhos, ainda um tanto confuso pelo sono interrompido.Mas sorriu.— Bom dia, princesinha. Por que acordou tão cedo?— Não sei, eu só acordei.O alarme sempre tocava às seis da manhã em dias úteis. Era estranho que Emma já estivesse de pé.— Martha já chegou? — perguntou Nathan, sentando na cama.— Já.— Fique um pouco com ela. Papai precisa resolver uma coisa antes de tomar café com você.— O que você precisa resolver? — Fez bico.— Assunto de adulto.— Você pode chamar Sophia para tom







