LOGINLorena não precisou fechar os olhos para voltar àquele dia. A lembrança veio sozinha, inteira, como sempre vinha.
Ainda criança, ela estava trancada dentro de um armário, batendo na porta, tentando abrir. Do lado de fora, ninguém respondia. A fumaça começou a entrar, o fogo se espalhou, e ela gritou — gritou cada vez mais, a voz infantil ecoando dentro do espaço fechado, as mãos batendo desesperadamente na madeira — até que Leonardo, ainda adolescente, apareceu, o avô ao seu lado. Os dois entraram no meio da fumaça. Leonardo a encontrou, e o avô ajudou a tirá-la dali. * * * No hospital, os médicos explicaram que sua garganta havia sido prejudicada pelos gritos, pela fumaça e pelo trauma. O tempo passou. Fisicamente, ela se recuperou — mas a voz não voltou. Além dos danos físicos, disseram, havia um componente psicológico profundo ligado àquele trauma. De volta ao café da manhã, Lorena abaixou os olhos. Leonardo continuou comendo, sem defendê-la. Depois de alguns segundos, ele se levantou, pegou o paletó e olhou para ela. — Você ainda quer uma carona para o trabalho? Lorena ergueu os olhos. Ele checou o relógio. — Então seja rápida. Ele saiu. Lorena permaneceu sentada por alguns segundos antes de se levantar também. Em frente ao estúdio, Amanda esperava, olhando o relógio. Ao longe, reconheceu o carro de Leonardo se aproximando e sorriu. Quando o carro parou, ela caminhou até a janela do motorista e bateu no vidro. Ele abaixou o vidro, surpreso. — O que você está fazendo aqui? — Vim te ver — respondeu Amanda, sorrindo. Só então percebeu Lorena no banco do passageiro, e o sorriso murchou. Leonardo olhou para Lorena. — Desce. Ela olhou para ele, depois abriu a porta e saiu do carro. Amanda esperou. Antes de entrar no veículo, pegou um lenço umedecido na bolsa, abriu a porta do passageiro e limpou cuidadosamente o banco onde Lorena estivera sentada. * * * — Está fazendo o quê? — perguntou Leonardo, ao ver aquilo. — Estava sujo — respondeu Amanda, olhando de relance pra Lorena entrando no carro e fechando a porta. Lorena ficou parada por alguns segundos antes de entrar no estúdio de Renata. Dentro do carro, Leonardo ligou o motor. Amanda cruzou os braços, visivelmente irritada. — Você está chateado comigo? — Não. — Então por que está agindo assim? Só porque eu perguntei de novo quando vamos nos casar? Leonardo respirou fundo. — Amanda, você precisa entender uma coisa. Eu ainda sou casado. Ela riu, sem humor. — Casado porque seu avô obrigou. Se não fosse aquele testamento, eu já seria sua esposa há muito tempo. — Eu sei — disse ele, olhando para frente, as mãos apertando o volante. — E ficar longe de você todos os dias também me dói. A expressão dela suavizou. — Mas nós não podemos fazer isso agora — continuou Leonardo. — Eu preciso continuar casado com Lorena até completar um ano. — Por causa das ações? — perguntou Amanda, franzindo a testa. Ele confirmou. O avô de Leonardo havia colocado uma condição no testamento: se ele se divorciasse antes de completar um ano de casamento, não poderia assumir o controle total da participação que o avô lhe havia deixado. Somente depois de cumprido o prazo é que as ações seriam efetivamente liberadas — mas essa não era a única exigência. * * * Mesmo depois da efetivação das ações, Leonardo ainda precisaria da representação de Lorena — precisaria que ela lhe desse uma procuração para poder representá-la e exercer o controle sobre aquela participação. Por isso, tinha que permanecer casado com ela até o último dia. Depois disso, só precisaria conseguir uma assinatura. A assinatura de Lorena. Amanda entendeu. — Então é só esperar — disse, e Leonardo segurou o volante. — Só mais um pouco. Assim que as ações forem ativadas e eu conseguir a representação, eu me divorcio. — Ele olhou para ela. — E vou fazer um grande casamento pra você, um que você nunca vai esquecer. Amanda sorriu, mas logo o olhar mudou. — Então você vai ter que me compensar. — O que você quer? — Um carro novo — respondeu ela, sem hesitar. Leonardo suspirou. — E quero você longe dela. — Uma pausa. — Duas semanas. Duas semanas sem ver a Lorena. Ele pensou por alguns segundos antes de concordar. — Tudo bem. Amanda sorriu, satisfeita, e Leonardo ligou o carro e partiu. Dentro do estúdio, Lorena observava pela janela o carro dele se afastando, até desaparecer de vista. Renata se aproximou. — Como você aguenta isso? Lorena não respondeu de imediato. Está acabando. Ela sabia que o prazo imposto pelo avô de Leonardo estava chegando ao fim. E, naquele momento, ela só precisava fazer uma coisa: manter a gravidez em segredo tempo suficiente.Por alguns segundos, ninguém disse nada. Ele permaneceu parado no centro do salão, olhando para o lugar onde ela estivera. Dessa vez, não sentiu satisfação. Só alívio. Porque, durante anos, tudo o que quisera fora uma coisa: que ela finalmente respondesse pelo que fizera com seus pais. Mas, ao descobrir que ela continuara cometendo crimes durante todos aqueles anos, percebeu que não precisaria depender apenas de uma história de vinte anos atrás — ela mesma deixara novas provas, e dessa vez não havia mais como escondê-las.Toda a força que sustentara aquela noite pareceu desaparecer por um instante. Lorena se aproximou devagar, parou diante dele. Ele olhou para ela. Sem dizer uma palavra, ela o abraçou. Ele fechou os olhos e a envolveu com os braços, apertando-a contra o peito. Ela beijou seu rosto, depois seus lábios — um beijo breve, cheio mais de alívio do que de paixão.— Acabou.— Acabou — respirou fundo ele.Ela segurou o rosto dele entre as mãos.— Você não precisa mais ser fort
— Vocês realmente acham que isso vai me prender? — Olhou para Leonardo. — Sim. Eu mandei matar seus pais. Sim, eu troquei os bebês. — Sorriu. — Eu fiz tudo. E daí? O crime prescreveu, meu filho querido.Olhou ao redor da sala.— Eu escolhi este dia justamente por isso. O dia do seu casamento. O mesmo dia em que seus pais morreram. — Sorriu. — Poético, não acha?Leonardo deu um passo à frente.— Hoje era o último dia — continuou ela, sorrindo ainda mais. — Você perdeu.Ele a encarou.— Não. Quem perdeu foi você. — Uma pausa. — Você fez todos esses cálculos, não fez? Achou que bastava esperar o tempo passar.— Porque basta.— Você está esquecendo de uma coisa. — Ele pegou uma pasta. — Nós também fizemos as contas. Você passou anos entrando e saindo do país. Cada viagem. Cada período em que desapareceu. Cada vez que deixou o Brasil. — Colocou documentos sobre a mesa. — Nós levantamos tudo.* * *— Isso não significa nada.— Significa que a sua conta não fecha. — A expressão dela começou
Segurou o braço dela.— Por que seu filho não é essa aqui?Amanda arregalou os olhos. Leonardo olhou diretamente para a mãe.— Se eu me casasse com Amanda e tivesse um filho com ela... você manteria a criança e se livraria de mim. Depois tomaria o controle da família. — Uma pausa. — Não foi esse o seu plano desde o começo?— Não é assim, Leonardo — disse Amanda. — Eu realmente amo você.Ele a encarou, frio.— Amanda... eu prometi que daria a você o maior casamento da sua vida. — Olhou ao redor. — Um que você nunca esqueceria. — Uma pausa. — O que achou?Ela começou a chorar.— Você não pode fazer isso comigo. Você não me ama?Ele soltou uma risada curta.— Amar você? — Aproximou-se. — Você atuou por tanto tempo que eu comecei a achar que era real. Abra os olhos. E encare a verdadeira realidade. — Ela chorava. — Eu nunca amei você. Não houve um único momento em que senti alguma coisa por você que não fosse nojo. Cada vez que você encostava em mim, eu precisava tomar banho pra tirar a s
Então disse a única coisa que ainda era verdade.— Eu estava no terraço. Não queria te acordar. — Uma pausa. — Faltam dez dias, Amanda. Eu não estou conseguindo respirar.Ela ficou olhando para ele. Um segundo. Dois. Leonardo me contou depois que viu, no rosto dela, o exato momento em que ela escolheu acreditar — porque acreditar era o único caminho para o casamento que sempre quis.— Você está nervoso — disse ela, devagar.— Estou.— Eu também.Ela se levantou e o abraçou. Leonardo fechou os olhos e a envolveu com os braços. Sentiu o perfume de sabonete de hotel, o cabelo dela contra o queixo.Pela primeira vez em meses, mentir doeu de verdade.Deitado ao lado dela, olhando o teto até o sol nascer, Leonardo ainda sentia na palma da mão os dois chutes. Contou os dias. Dez. Nunca uma contagem regressiva tinha sido tão longa.* * *Faltava um dia.Naquela noite, cada um estava num canto da cidade, no seu papel. Leonardo, no jantar de ensaio, ouvindo a mãe repassar a ordem dos padrinhos.
O restaurante ficava no mezanino, com mesas separadas por painéis de vidro fosco. Leonardo escolheu a do fundo, a mais escura, e chegou vinte minutos antes só para conferir cada rosto na sala.Pela primeira vez em muito tempo, estavam sozinhos — sem mãe, sem Amanda, sem Henrique, sem Renata. Sem câmeras, sem precisar interpretar. Leonardo segurou a mão de Lorena sobre a mesa.— Eu tinha esquecido como era ficar perto de você sem precisar olhar pra trás.— Eu também.Ele olhou para a barriga dela, depois sorriu.— E eles?— Estão bem.— Eu perdi tanta coisa.Ela tirou algo do bolso do casaco: dois fones, ainda enrolados. Colocou um na orelha dele, outro na própria. Apertou um botão.Primeiro, só o chiado. Depois, dois batimentos, rápidos como asas de passarinho, ligeiramente fora de compasso, um correndo atrás do outro.Leonardo fechou os olhos. Não disse uma palavra.— Eu gravei na consulta. Achei que você merecia ouvir — disse ela, baixinho. — Ainda temos tempo pra viver tudo que per
— Não é nada, Amanda, já bati meu pé. Vai dar uma olhada em outra calça pra mim, essa está apertada.* * *Ela se aproximou mais dele, colada em seu corpo.— Tá bom, querido, já volto — respondeu Amanda, do outro lado.Salto contra o piso, cada vez mais longe. Ele virou a cabeça de Lorena para si e os dois se beijaram com urgência.— Você disse um minuto — provocou ela. — Consegue?— Não me provoca — ele murmurou, a mão no pescoço dela.— Não me atreveria. Vamos rápido, eu tô pronta.Ele ergueu a saia do vestido dela.— Eu vou acabar sendo preso antes da minha mãe.Não vou descrever o que aconteceu nos minutos seguintes. Só vou contar que Amanda voltou duas vezes com calças novas, e que duas vezes Leonardo as recebeu pela fresta da porta, com a voz de quem estava pensando em outra coisa.— Também não serve.— Querido, ninguém no mundo tem tantas calças!— Talvez o problema seja eu.Então, da recepção: atchim. Um segundo depois: atchim.Lorena abriu os olhos. Duas vezes. Perigo.— Onde







