LOGIN
A sala da mansão era ampla e silenciosa, iluminada por um lustre de cristal que projetava sombras longas pelas paredes de madeira escura. Lorena estava sentada no sofá, mexendo distraidamente no celular, enquanto a empregada organizava algumas coisas por perto, discreta.
A porta principal se abriu e Leonardo entrou. A empregada se aproximou na hora e pegou o casaco dele; Leonardo entregou sem dizer nada e atravessou a sala, os passos firmes ecoando no piso de mármore. Lorena continuou olhando para o celular, sem erguer os olhos.
Ele parou diante dela. Sem aviso, segurou seu braço e a puxou para perto. Lorena se assustou. Leonardo aproximou o rosto do pescoço dela e começou a cheirá-la — e ela imediatamente tentou se afastar, apontando para a empregada.
Ele olhou para a empregada, depois voltou os olhos para Lorena, um sorriso debochado se formando.
— O que foi? — perguntou, divertido.
Lorena continuou apontando para a empregada. Leonardo pareceu entender.
— Você acha que eu vou fazer alguma coisa com você aqui, na frente dela? — Ele se aproximou de novo, segurando o queixo dela. — E outra: não seja tão puritana.
Olhou de relance para a empregada. — Não é como se ela fosse ouvir alguma coisa.
Lorena permaneceu imóvel. Leonardo segurou seu pescoço, provocativo.
— Isso aqui nem funciona, não é?
Ela fechou os olhos por um instante.
Nunca espere amor desse casamento.
A frase voltou como um eco do dia do casamento — Leonardo se aproximando para o que deveria ser o beijo, e em vez disso sussurrando aquilo em seu ouvido, bem baixo, enquanto ela ainda sorria, radiante, sem saber o que viria. O sorriso dela tinha desaparecido ali mesmo, diante do celebrante que seguia a cerimônia sem perceber nada.
De volta à sala, as lágrimas começaram a se formar nos olhos de Lorena. Leonardo se afastou.
— Para de ser tão dramática. — Ele ajeitou o paletó. — Nós nos casamos por ordem do meu avô. — Uma pausa. — Mas isso não muda o fato de que eu ainda sou seu marido. E você vai cumprir seus deveres de esposa.
Ele segurou Lorena pelo braço e a conduziu em direção ao quarto. Ela tentou resistir, mas ele continuou andando. A porta se abriu, ele a puxou para dentro, e a porta se fechou atrás dos dois.
A empregada permaneceu na sala, olhando para a porta fechada, o rosto sem expressão.
* * *
A casa estava silenciosa quando a empregada caminhou pelo corredor e parou diante da porta do quarto de Leonardo. Bateu duas vezes. Silêncio. Bateu de novo.
— Entra — respondeu ele, de dentro.
A empregada abriu a porta. Lorena estava sentada na cama, e Leonardo diante dela, segurando uma cartela de comprimidos numa mão e um copo de água na outra. Ele entregou os dois para Lorena.
— Toma.
Ela olhou para o comprimido, depois para ele. Leonardo estreitou os olhos, esperando, e Lorena suspirou antes de colocá-lo na boca e beber a água. Ele só desviou o olhar quando teve certeza de que ela havia engolido.
— O que foi? — perguntou, virando-se para a empregada.
— Senhor, o café já está pronto.
— Tá bom. Avisa que já vamos descer. — Ele já se encaminhava para o closet.
A empregada lançou um último olhar para Lorena e para a cartela de remédios antes de sair, já imaginando que a senhora não teria netos tão cedo.
Na sala de jantar, Leonardo, Lorena e a mãe dele estavam sentados à mesa, o café servido. Lorena permanecia em silêncio, e a mãe observava o filho com atenção.
— Eu soube que você e Amanda brigaram ontem — disse ela, por fim. Leonardo continuou comendo. — Ela me ligou chorando.
Lorena continuou comendo também, fingindo não prestar atenção.
— Você precisa tratar a Amanda melhor — insistiu a mãe.
Leonardo ergueu os olhos.
— Ela está sofrendo muito com essa situação — completou.
* * *
Lorena permaneceu quieta. A mãe olhou para ela por um instante antes de voltar a falar com Leonardo.
— Eu vou compensar a Amanda — disse ele. — Não precisa se preocupar.
A mãe pareceu satisfeita — até que olhou para Lorena, e seu semblante mudou.
— E você... — começou. Lorena ergueu os olhos. — Logo vocês vão fazer um ano de casados. — Ela olhou diretamente para a barriga de Lorena. — E até agora não deu nem sinal de nada.
Lorena ficou imóvel.
— Mas talvez seja até melhor assim — continuou a mulher, depois de uma pausa. — Não sabemos se qualquer filho vindo de você teria os mesmos problemas que você.
Lorena olhou para ela. O comentário atingia exatamente sua maior ferida. Ela era muda — todos sabiam disso — e não precisava ser dito, muito menos daquela maneira. Leonardo sabia exatamente por que Lorena não conseguia falar, e, mesmo assim, permaneceu em silêncio.
Por alguns segundos, ninguém disse nada. Ele permaneceu parado no centro do salão, olhando para o lugar onde ela estivera. Dessa vez, não sentiu satisfação. Só alívio. Porque, durante anos, tudo o que quisera fora uma coisa: que ela finalmente respondesse pelo que fizera com seus pais. Mas, ao descobrir que ela continuara cometendo crimes durante todos aqueles anos, percebeu que não precisaria depender apenas de uma história de vinte anos atrás — ela mesma deixara novas provas, e dessa vez não havia mais como escondê-las.Toda a força que sustentara aquela noite pareceu desaparecer por um instante. Lorena se aproximou devagar, parou diante dele. Ele olhou para ela. Sem dizer uma palavra, ela o abraçou. Ele fechou os olhos e a envolveu com os braços, apertando-a contra o peito. Ela beijou seu rosto, depois seus lábios — um beijo breve, cheio mais de alívio do que de paixão.— Acabou.— Acabou — respirou fundo ele.Ela segurou o rosto dele entre as mãos.— Você não precisa mais ser fort
— Vocês realmente acham que isso vai me prender? — Olhou para Leonardo. — Sim. Eu mandei matar seus pais. Sim, eu troquei os bebês. — Sorriu. — Eu fiz tudo. E daí? O crime prescreveu, meu filho querido.Olhou ao redor da sala.— Eu escolhi este dia justamente por isso. O dia do seu casamento. O mesmo dia em que seus pais morreram. — Sorriu. — Poético, não acha?Leonardo deu um passo à frente.— Hoje era o último dia — continuou ela, sorrindo ainda mais. — Você perdeu.Ele a encarou.— Não. Quem perdeu foi você. — Uma pausa. — Você fez todos esses cálculos, não fez? Achou que bastava esperar o tempo passar.— Porque basta.— Você está esquecendo de uma coisa. — Ele pegou uma pasta. — Nós também fizemos as contas. Você passou anos entrando e saindo do país. Cada viagem. Cada período em que desapareceu. Cada vez que deixou o Brasil. — Colocou documentos sobre a mesa. — Nós levantamos tudo.* * *— Isso não significa nada.— Significa que a sua conta não fecha. — A expressão dela começou
Segurou o braço dela.— Por que seu filho não é essa aqui?Amanda arregalou os olhos. Leonardo olhou diretamente para a mãe.— Se eu me casasse com Amanda e tivesse um filho com ela... você manteria a criança e se livraria de mim. Depois tomaria o controle da família. — Uma pausa. — Não foi esse o seu plano desde o começo?— Não é assim, Leonardo — disse Amanda. — Eu realmente amo você.Ele a encarou, frio.— Amanda... eu prometi que daria a você o maior casamento da sua vida. — Olhou ao redor. — Um que você nunca esqueceria. — Uma pausa. — O que achou?Ela começou a chorar.— Você não pode fazer isso comigo. Você não me ama?Ele soltou uma risada curta.— Amar você? — Aproximou-se. — Você atuou por tanto tempo que eu comecei a achar que era real. Abra os olhos. E encare a verdadeira realidade. — Ela chorava. — Eu nunca amei você. Não houve um único momento em que senti alguma coisa por você que não fosse nojo. Cada vez que você encostava em mim, eu precisava tomar banho pra tirar a s
Então disse a única coisa que ainda era verdade.— Eu estava no terraço. Não queria te acordar. — Uma pausa. — Faltam dez dias, Amanda. Eu não estou conseguindo respirar.Ela ficou olhando para ele. Um segundo. Dois. Leonardo me contou depois que viu, no rosto dela, o exato momento em que ela escolheu acreditar — porque acreditar era o único caminho para o casamento que sempre quis.— Você está nervoso — disse ela, devagar.— Estou.— Eu também.Ela se levantou e o abraçou. Leonardo fechou os olhos e a envolveu com os braços. Sentiu o perfume de sabonete de hotel, o cabelo dela contra o queixo.Pela primeira vez em meses, mentir doeu de verdade.Deitado ao lado dela, olhando o teto até o sol nascer, Leonardo ainda sentia na palma da mão os dois chutes. Contou os dias. Dez. Nunca uma contagem regressiva tinha sido tão longa.* * *Faltava um dia.Naquela noite, cada um estava num canto da cidade, no seu papel. Leonardo, no jantar de ensaio, ouvindo a mãe repassar a ordem dos padrinhos.
O restaurante ficava no mezanino, com mesas separadas por painéis de vidro fosco. Leonardo escolheu a do fundo, a mais escura, e chegou vinte minutos antes só para conferir cada rosto na sala.Pela primeira vez em muito tempo, estavam sozinhos — sem mãe, sem Amanda, sem Henrique, sem Renata. Sem câmeras, sem precisar interpretar. Leonardo segurou a mão de Lorena sobre a mesa.— Eu tinha esquecido como era ficar perto de você sem precisar olhar pra trás.— Eu também.Ele olhou para a barriga dela, depois sorriu.— E eles?— Estão bem.— Eu perdi tanta coisa.Ela tirou algo do bolso do casaco: dois fones, ainda enrolados. Colocou um na orelha dele, outro na própria. Apertou um botão.Primeiro, só o chiado. Depois, dois batimentos, rápidos como asas de passarinho, ligeiramente fora de compasso, um correndo atrás do outro.Leonardo fechou os olhos. Não disse uma palavra.— Eu gravei na consulta. Achei que você merecia ouvir — disse ela, baixinho. — Ainda temos tempo pra viver tudo que per
— Não é nada, Amanda, já bati meu pé. Vai dar uma olhada em outra calça pra mim, essa está apertada.* * *Ela se aproximou mais dele, colada em seu corpo.— Tá bom, querido, já volto — respondeu Amanda, do outro lado.Salto contra o piso, cada vez mais longe. Ele virou a cabeça de Lorena para si e os dois se beijaram com urgência.— Você disse um minuto — provocou ela. — Consegue?— Não me provoca — ele murmurou, a mão no pescoço dela.— Não me atreveria. Vamos rápido, eu tô pronta.Ele ergueu a saia do vestido dela.— Eu vou acabar sendo preso antes da minha mãe.Não vou descrever o que aconteceu nos minutos seguintes. Só vou contar que Amanda voltou duas vezes com calças novas, e que duas vezes Leonardo as recebeu pela fresta da porta, com a voz de quem estava pensando em outra coisa.— Também não serve.— Querido, ninguém no mundo tem tantas calças!— Talvez o problema seja eu.Então, da recepção: atchim. Um segundo depois: atchim.Lorena abriu os olhos. Duas vezes. Perigo.— Onde







