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O Céu Que Nunca Foi Meu
O Céu Que Nunca Foi Meu
Author: Yuna

Capítulo 1

Author: Yuna
Samuel saiu do quarto puxando a mala de voo, com as sobrancelhas levemente franzidas.

— Por que você acordou tão cedo hoje?

Segurei a xícara entre as mãos enquanto observava ele prender com cuidado as dragonas de comandante nos ombros da camisa branca.

— Não consegui dormir. Levantei para tomar um café.

Samuel se aproximou da mesa, pegou sem cerimônia a outra xícara de leite quente que eu tinha acabado de servir e tomou um gole.

— Ficou acordada até tarde de novo assistindo àquelas séries inúteis?

— Não.

Ele ergueu o pulso, conferiu o relógio e falou naquele tom de quem estava sempre querendo me dar uma lição.

— Seus horários estão cada vez mais desregulados. Daqui a pouco vou voar para a República de Novária. Vou ficar quatro dias fora, contando a ida e a volta.

— Tudo bem.

Samuel pareceu estranhar minha tranquilidade.

Sempre que ele fazia um voo internacional de longa distância, eu começava a preparar tudo com um dia de antecedência.

Separava o remédio para o estômago, a melatonina e o travesseiro de pescoço e colocava tudo na mala de voo dele.

Também repetia várias vezes que precisava me mandar uma mensagem assim que pousasse.

Naquele dia, não fiz nada.

Apenas fiquei sentada, observando ele.

Samuel abriu o bolso lateral da mala e começou a procurar lá dentro.

— Onde você colocou meu remédio para o estômago?

— Na segunda gaveta de baixo para cima do armário. Pega você mesmo.

Ele parou por um instante e virou o rosto na minha direção.

— O que deu em você hoje? Está com preguiça até de se mexer?

— Estou um pouco cansada.

Samuel soltou um suspiro, foi até o armário, abriu a gaveta, pegou a caixa do remédio e guardou no bolso da mala.

— Você passa o dia inteiro em casa. Nem sei do que fica tão cansada.

O celular que ele tinha deixado sobre a mesa acendeu.

Uma nova mensagem apareceu no WhatsApp.

O contato estava salvo apenas com um emoji de ursinho.

[Esfriou na República de Novária hoje. Não esquece de levar um casaco mais quente.]

Samuel pegou o celular.

A luz da tela iluminou o leve sorriso que se formou no canto da boca dele.

Com uma das mãos, começou a responder rapidamente, tão concentrado que nem se lembrou de fechar o zíper da mala.

Meus olhos ficaram presos no contato com o ursinho.

— Foi algum colega que mandou mensagem?

Ele bloqueou a tela e guardou o celular no bolso da calça.

— Foi. Mariana também vai fazer essa rota hoje. Ela vai trabalhar na cabine de passageiros.

— Ela não é chefe de cabine dos voos domésticos?

— A empresa fez uma mudança de última hora. Ela vai ajudar a orientar os comissários novos.

Samuel respondeu com tanta naturalidade que parecia nem precisar pensar antes de inventar uma desculpa.

Fiquei olhando para as costas retas dele e me lembrei das mais de quarenta fotos que tinha encontrado na noite anterior, naquele álbum protegido por senha.

Todas tinham sido tiradas por Samuel, lá do alto, a dez mil metros de altitude.

Ele nunca tinha mostrado nenhuma para mim.

Mas tinha compartilhado todas com Mariana, sem esconder nada.

— Samuel.

Ele estava calçando os sapatos perto da porta.

— O que foi?

— Você lembra que dia é quarta-feira da semana que vem?

Samuel nem parou o que estava fazendo.

— Quarta-feira que vem? Tenho treinamento periódico no simulador da empresa. Por quê?

— Nada.

Na quarta-feira seguinte, completaríamos oito anos juntos.

Oito anos antes, naquele mesmo dia, Samuel tinha sido contratado como copiloto.

Eufórico, tinha me abraçado e girado comigo pela sala.

Na época, prometeu que, quando estivesse voando a dez mil metros de altitude, escolheria para mim as nuvens mais bonitas do céu.

Ele tinha esquecido.

Samuel abriu a porta.

— Estou indo. Mando mensagem quando pousar.

Chamei ele mais uma vez.

— Samuel.

Com a mão na maçaneta, ele já demonstrava certa impaciência.

— O que foi agora? A van da tripulação já está me esperando lá embaixo.

— O zíper da sua mala ficou aberto.

Samuel baixou os olhos, conferiu e fechou de qualquer jeito.

— Já vi. Você está muito estranha hoje.

A porta se fechou.

O apartamento voltou a mergulhar em um silêncio absoluto.

Fui até o computador e enviei o pedido de demissão que tinha acabado de escrever.

Depois, abri o aplicativo de passagens e confirmei a compra de uma passagem só de ida para Sol Nascente, com embarque dali a sete dias.

Sete dias.

Era tempo suficiente para apagar todos os vestígios daqueles oito anos.

Meu celular tocou.

Era Olivia, minha amiga.

— Você mandou o pedido de demissão?

— Mandei.

— Agora que decidiu, não pode voltar atrás. Quando pretende contar para Samuel?

— No dia em que eu for embora.

Olivia ficou em silêncio por alguns segundos do outro lado da linha.

— Você deu oito anos da sua juventude para essa relação. Vai simplesmente deixar tudo acabar assim, sem dizer nada?

— Não quero mais.

Olhei para a xícara sobre a mesa.

Já estava completamente fria.

— Você já viu o pôr do sol que ele fotografa para outra pessoa?

— O quê?

Coloquei o celular sobre a mesa.

— É lindo. Até a luz sobre a asa parece delicada. Pena que não era para mim.

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