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Capitulo 2

Penulis: Mary Bela
last update Tanggal publikasi: 2026-09-15 21:28:29

O quarto estava imerso em penumbra quando ela cruzou a soleira.

Fechou a porta com extrema cautela, um gesto automático de quem aprendeu que qualquer ruído em falso poderia ser interpretado como um drama desnecessário.

Deu apenas dois passos antes de ser forçada a parar. A tontura veio como uma onda súbita, acompanhada por um enjoo violento ainda mais forte do que o anterior. Mal teve tempo de se apoiar no dossel da cama antes de o corpo se curvar em espasmos incontroláveis, expulsando até a última gota da bile amarga que lhe queimava a garganta. Os olhos lacrimejaram com o esforço, mas, mesmo na dor, nenhum gemido audível escapou de seus lábios.

Quando os espasmos finalmente cessaram, permaneceu imóvel, o peito subindo e descendo com dificuldade, as mãos trêmulas segurando o tecido pesado das cortinas.

Era sempre assim. Cada crise parecia pior e mais desgastante do que a última.

Limpou os lábios no lenço de linho, ajustou o vestido com os dedos incertos e deixou-se cair na borda do colchão. Em seguida, deitou-se. O corpo parecia um fardo denso demais para carregar, como se a própria vida estivesse se esgotando de suas juntas.

As recomendações do médico ressoavam em sua mente: repouso absoluto, evitar salões cheios, evitar qualquer tipo de perturbação. Mas como poderia? Uma esposa nobre não se recolhia no meio de uma recepção para o próprio marido. Uma esposa não envergonhava a família privando a casa de sua presença. Uma esposa cedia, cumpria o seu papel e suportava o peso em silêncio.

Fechou os olhos e, exausta, deixou-se levar por um sono pesado e febril.

Não soube quanto tempo se passara.

O clique discreto da fechadura e o ranger da porta a trouxeram de volta à consciência. Ela despertou devagar, retida sob a névoa densa do cansaço.

Henrik entrou. Os passos no soalho de madeira eram firmes e medidos, perfeitamente reconhecíveis.

— Soube que você vomitou no toucador… está tudo bem? — a pergunta veio enquanto ele já lhe dava as costas, concentrado em desabotoar o colete e retirar o casaco pesado, mais empenhado em se livrar do uniforme da noite do que em fitá-la.

Nora levou um segundo para encontrar a própria voz.

— Sim… apenas vim deitar mais cedo.

Virou o corpo para o lado oposto da cama, dando-lhe as costas. Um gesto mecânico, construído ao longo de seis anos de um silêncio compartilhado.

Ele não insistiu no assunto.

— Amanhã faremos um almoço nos jardins, perto do lago — comentou casualmente, ajustando a camisa. — Será bom para você tomar um pouco de ar.

Como se o ar dos jardins pudesse curar o desgaste em seu peito. Como se fosse assim simples.

— Sim… eu estarei lá — a resposta veio automática, como todas as respostas que ela dera a ele desde o dia do casamento.

Sentiu o colchão afundar quando Henrik se deitou ao seu lado. A presença dele era palpável, o calor do corpo tão próximo… e ainda assim separado por um abismo incalculável.

O silêncio do quarto pesou por longos minutos. Até que ele voltou a falar, a voz mais baixa, quase arrastada pelo cansaço:

— E sobre Astrid… não existe mais nada entre nós.

A declaração flutuou no ar, fria e tardia.

Nora abriu os olhos na escuridão, encarando a parede nua à sua frente.

— Eu entendo — murmurou.

E entendia perfeitamente. Entendia que não precisava haver nada agora, porque o passado já fora construído. Porque a marca daquela mulher continuava viva nos gestos, no sorriso e na atenção que ele dedicara ao filho durante toda a noite  um calor que Nora jamais conhecera. Algumas verdades não se apagavam apenas porque eram negadas no escuro de um quarto.

O silêncio retornou, denso e irremovível.

Nora permaneceu imóvel, e ele também. Deitados lado a lado sob o mesmo teto, dividindo a mesma cama. Como um casal diante do mundo. Como dois estranhos na intimidade da noite.

E ali, observando as sombras no teto, ela sentiu com uma clareza avassaladora que estava se apagando aos poucos e que ninguém naquela casa jamais notaria a sua ausência.

...

Claro que naquela manhã, depois de um café da manhã tenso, logo todos migraram para o jardim, Nora sentiu que aquela tortura e humilhação só iria piorar.

O jardim transbordava vida.

Toalhas de linho claro cobriam a grama aparada, cestos de vime expunham iguarias da estação e o som suave de um alaúde vindo do fundo da propriedade se misturava aos risos da recepção. O dia amanhecera ensolarado claro demais, radiante demais para o estado de seu espírito.

Ela tentou.

Permaneceu ali durante algum tempo, sentada entre os convidados com a postura impecável que lhe fora moldada desde a infância. As mãos repousavam sobre o colo, e o rosto mantinha uma serenidade estudada, calculada para evitar qualquer tipo de sussurro.

Mas não conseguiu permanecer. Não depois de fitá-los.

O pequeno Christian corria descalço pela relva, a risada solta ressoando com uma liberdade vibrante. E Henrik... ele o perseguia. Sem a rigidez do conde, sem a compostura distante do marido. Ele ria abertamente, um som caloroso que Nora nunca, em seis anos de matrimônio, o ouvira produzir.

Nunca.

Em dado momento, ele parou, abaixou-se e ergueu o garoto nos braços. Astrid aproximou-se, tecendo um comentário que a distância impediu Nora de ouvir. Mas o gesto bastou: o jeito como ele inclinou a cabeça para ouvi-la, a calma da resposta e a naturalidade com que os três se alinhavam.

Formavam uma moldura perfeita. Uma cena que parecia existir há anos, pronta e inabalável.

Nora desviou os olhos, mas a imagem já se impregnara sob suas pálpebras — pesada, nítida e insuportável.

Levantou-se devagar. Sentiu o olhar de Henrik alcançá-la quando ele percebeu seu movimento.

— Vou me ausentar por um momento — disse ela em tom baixo, assim que ele deu um passo em sua direção.

Não esperou por objeções. Apenas virou-se e caminhou com a elegância contida de sempre. Passos medidos, respiração ritmada. Silenciosa, como se sua presença fosse apenas uma sombra.

Não foi ao toucador.

Cruzou o pórtico e adentrou a casa, embrenhando-se pelos corredores secundários, longe da claridade do jardim e das conversas dos convidados. Parou diante das portas duplas da biblioteca.

Empurrou o carvalho trabalhado. O aroma de papel antigo, couro e madeira impregnou o ar de imediato. Ali o silêncio era absoluto; ali ninguém a julgava.

Entrou e encostou a porta sem produzir ruído. Permaneceu imóvel por alguns instantes, reunindo o que lhe restava de forças para um confronto que ocorria apenas dentro de si.

Caminhou até a grande janela arqueada que dava para a propriedade. As pesadas cortinas de veludo verde-escuro estavam parcialmente tiradas. Nora deslizou para o espaço entre o tecido e o vidro, ocultando-se da sala como se estivesse invadindo um espaço onde não fora convidada.

Lá fora, o jardim continuava em festa.

Seus olhos os reencontraram sem esforço. O menino agora estava sentado na toalha, gesticulando com entusiasmo enquanto Henrik o escutava, atento, com um leve sorriso nos lábios. Astrid permanecia ao lado próxima demais, integrada demais.

Tudo no trio fluía sem atrito. Sem obrigações, sem o peso de silêncios acumulados.

Nora ficou ali, observando. Não desviou o olhar desta vez. Havia uma certeza dolorosa em testemunhar a verdade sem o véu das ilusões. O vento de Larvik balançava a copa das árvores e roçava a barra da cortina contra seu braço, mas ela sequer notava.

Apenas via. Apenas assimilava.

Um pensamento emergiu em sua mente, sereno e implacável: aquela era a vida que deveria ter sido.

Não a dela. Nunca a dela.

Lá fora, a risada dele ecoou novamente. O som atravessou o vidro e a atingiu no peito com a precisão de um golpe. Nora fechou os olhos por uma fração de segundo, mas não recuou.

Permaneceu imóvel na penumbra das cortinas, assistindo à felicidade alheia como uma espectadora que já não pertence à própria história.

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