MasukEla não conhecia seu próprio marido.
A condessa-mãe deu duas batidinhas sutis com a colher de prata na taça de cristal, quebrando a ilusão de espontaneidade da mesa.
— Henrik — disse a matriarca, com o olhar firme e sem qualquer desvio —, o pequeno Christian precisa descansar. A viagem da ilha foi longa e o ar da costa sul nesta época do ano é pesado para quem não está acostumado com a casa grande.
— Claro — ele respondeu imediatamente. A prontidão na voz dele foi um golpe físico no peito de Nora. Ele nunca respondia à mãe com tanta presteza quando o assunto dizia respeito aos repousos forçados de Nora após suas perdas.
Astrid se levantou com uma graça simples, sem o ruído excessivo de armações de seda ou anáguas engomadas. Ela tocou suavemente o ombro do menino, que se despediu do pai com um murmúrio sonolento. Henrik acompanhou os dois com os olhos até que a porta pesada de carvalho do salão se fechasse.
Só então o silêncio caiu sobre a mesa. Um silêncio diferente do burburinho de antes — um silêncio pesado, impregnado de tudo o que não fora dito.
— Uma criança adorável — comentou a sogra, limpando os lábios com o guardanapo de linho refinado. — Com a instrução certa e a presença do pai, o sangue dos nossos ancestrais continuará firme em Larvik. Afinal, precisamos pensar no futuro do condado, não é mesmo, Nora?
A provocação foi direta, quase crua. Nora sentiu o sangue fugir de seu rosto, mas não baixou os olhos. Olhou para a sogra, depois para Henrik.
Ele não a defendeu. Apenas encarou a taça de vinho, a mandíbula travada, o rosto assumindo aquela mesma máscara de pedra que ele usara durante seis anos inteiros.
Os pratos foram sendo retirados um a um.
O retinido discreto da porcelana, o deslizar ritmado dos talheres de prata e os passos apressados dos criados seguiam uma precisão mecânica, como se nada naquela mesa estivesse fora do lugar.
Nora ainda segurava o garfo. Os dedos, frios e pálidos, mantinham o metal suspenso sobre uma porção praticamente intacta. Quando finalmente o soltou, o ruído seco da prata contra o prato ressoou alto demais ao menos para os seus próprios ouvidos.
Foi o bastante para fazer Henrik voltar o rosto.
— Você comeu algo? — a pergunta veio fluida, destituída de dureza, mas desprovida de qualquer preocupação real. Era apenas o cumprimento automático de um hábito.
Nora manteve o olhar fixo na toalha de linho.
— Sim — murmurou.
Uma mentira pequena, simples, perfeitamente aceitável.
Ele a observou por uma fração de segundo. Talvez avaliando o estado da esposa, talvez apenas registrando o fato para sua própria consciência. Então, deu um leve aceno com a cabeça e voltou-se novamente para a mesa.
Para a conversa. Para Astrid. Para o menino.
Como se aquela resposta bastasse. Como se ela bastasse.
A sobremesa foi servida logo em seguida. Doces delicados, cuidadosamente preparados com especiarias e frutas em calda, exalavam um aroma adocicado e denso que enjoava Nora antes mesmo de tocar sua língua.
Ainda assim, ela repetiu o teatro. Pegou a colher, levou um fragmento à boca e forçou a garganta a engolir. Ninguém percebeu a hesitação. Ou talvez ninguém quisesse perceber.
O pequeno Christian ria de algo, apontando para a cristaleira. Astrid fazia um comentário leve em seu sotaque do norte, e Henrik respondia solto, vivo, revelando uma vivacidade que Nora jamais testemunhara nos seis anos em que compartilharam o mesmo teto.
Ela manteve os olhos baixos, contando as batidas do próprio coração, respirando com uma lentidão estudada. Sentia-se como se estivesse moldada em vidro fino: qualquer movimento mais brusco poderia fazê-la se despedaçar ali mesmo, diante de todos.
Ao término do jantar, o farfalhar das cadeiras sendo arrastadas e o murmúrio das vozes anunciaram o fim da refeição. O fluxo natural dos convidados começou a se deslocar para as salas adjacentes, onde seriam servidos os digestivos e o café.
Nora não se levantou de imediato. Precisava de um segundo. Apenas um segundo para firmar os pés no chão.
Henrik, já de pé, notou a imobilidade da esposa.
— Onde vai? — perguntou ele em tom baixo, com a impaciência sutil mal disfarçada sob a compostura. — Pare com seus assuntos...
Ele nem sequer concluiu a frase. Não precisava. A pressa nele era evidente: queria apenas voltar para o centro do salão, onde a outra vida o esperava.
Nora ergueu os olhos pela primeira vez na noite. Não havia lágrimas acumuladas, tampouco raiva contida. Apenas uma exaustão profunda e gélida.
— Vou me ausentar por um momento — disse ela, a voz fraca. — Pode ir.
ele a encarou por um instante fugaz. Assentiu e virou as costas. Rápido. Como se temesse perder um único minuto longe da mesa que acabara de deixar.
Nora permaneceu imóvel por mais alguns instantes. O salão, à medida que se esvaziava, parecia crescer, tornando-se ainda mais vasto, cavernoso e frio.
Acomodou a saia e se levantou. Caminhou com a firmeza calculada que lhe fora ensinada desde a infância: passos curtos, ombros alinhados, um silêncio impecável. Ninguém a deteve. Ninguém a notou.
Ao cruzar a porta do salão e adentrar o corredor reservado, o ar sufocante da recepção deu lugar ao gelo das paredes de pedra do castelo. O ar era mais frio, contudo, mais real.
Ela entrou na sala de toucador, empurrou a porta de madeira e girou o trinco com extremo cuidado, garantindo que o fecho não produzisse ruído algum.
Assim que esteve sozinha, o próprio corpo traiu sua contenção.
A mão voou para a boca. O gosto amargo do suco gástrico subiu pela garganta enquanto o estômago rejeitava, em espasmos violentos, o pouco que ela se forçara a engolir. Curvou-se sobre a bacia de porcelana, os joelhos tremendo contra o piso frio, devolvendo tudo em um ato doloroso e mudo.
Silencioso. Como tudo em sua vida precisava ser.
Quando a náusea cedeu, permaneceu apoiada à bancada, a respiração entrecortada e as juntas dos dedos pálidas contra o tampo de pedra.
Embebeu uma túnica de linho na água limpa da jarra, limpou os lábios e ajustou as mechas de cabelo que haviam se soltado. Endireitou o vestido de veludo, alinhou o corpete e respirou fundo, recompondo a imagem da Condessa de Larvik.
Como se nada tivesse acontecido. Como se ainda fosse possível abrir aquela porta e retornar ao banquete.
Mas não retornou.
Abriu a porta com a mesma discrição. O corredor estendia-se em penumbra. Ao fundo, vinham os sons abafados da recepção risos, notas esparsas de música, o calor de uma vida da qual ela não fazia parte.
Nora não seguiu na direção da luz.
Virou-se para o lado oposto e caminhou pelo corredor escuro em direção aos seus aposentos. Sem pressa, sem hesitação, aceitando finalmente a verdade que o silêncio daquela noite lhe revelara: ela não tinha mais lugar naquela casa.
Ele retornou tarde ao quarto.A casa urbana já repousava sob a quietude da madrugada, os corredores com as luzes apagadas e os passos abafados pelo espesso dos tapetes.Ao cruzar a porta dos aposentos, encontrou-a deitada. Encolhida na vastidão da cama de casal. Pálida. Absolutamente imóvel.Por alguns instantes, Henrik limitou-se a observá-la na penumbra. Em seguida, deu início aos preparativos para se recolher, produzindo mais ruído do que o necessário o solavancar das gavetas do armário, o peso das botas caindo sobre o assoalho, o atrito do casaco despido com impaciência.Movimentos calculados para despertar-lhe a atenção.Nora moveu-se com lentidão. Os olhos abriram-se a custo.— Aquilo que você insinuou durante o almoço… — começou ele, ainda de pé, a voz revestida de uma austeridade controlada. —
O médico fora categórico: nada de espartilhos, nenhum tipo de esforço e repouso absoluto.Ainda assim, ela se colocou de pé.As criadas recuaram, hesitantes.— Senhora… talvez fosse melhor…— Está tudo bem — murmurou Nora, sem forças para discutir, mas com uma firmeza silenciosa que não dava margem a contestações.O vestir deu-se em etapas cautelosas. Camadas leves de linho primeiro. Depois, a estrutura rígida do espartilho.A compressão veio gradativa. Familiar. Cruel.Nora fechou os olhos enquanto as tiras de fita eram puxadas contra o abdômen. A respiração, já fragilizada pela tosse, encurtou-se de imediato. O peito sensível protestou ao mínimo movimento de expansão, mas ela não pediu para que afrouxassem. Nunca pedia.Quando terminaram, sua palidez era absoluta.
Nora não tinha melhorado ainda naquela manha, mesmo Henrik não querendo admitir algo parecia abranja aquela casa em que moravam.O quarto permanecia mergulhado em silêncio quando o médico voltou a examiná-la.Ela não deixara a cama durante todo o dia. Nem tentara. O corpo parecia pesado demais para qualquer movimento que exigisse mais do que o esforço básico de respirar. As mãos repousavam frias sobre o lençol e os olhos mantinham-se semicerrados, acompanhando a movimentação à distância como se ela estivesse ali apenas pela metade.Henrik permanecia ao lado da cama. De pé, com os braços cruzados, a postura rígida e o maxilar levemente tensionado. Havia ainda um traço de contrariedade nele, um incômodo contido e mal resolvido.— Aquele último aborto mexeu muito com o organismo dela… — comentou ele
O almoço foi servido no jardim.As toalhas de linho foram trocadas, a porcelana reorganizada e as vozes ganharam um dinamismo mais vivo sob o sol quente do meio-dia.Ela, contudo, não desceu.As tonturas haviam se intensificado desde as primeiras horas da manhã. O corpo já não respondia com a firmeza de antes se é que algum dia respondera após tantos meses de desgaste. Cada tentativa de se manter ereta trazia um escurecimento sutil da visão e um vazio gélido no peito que ia além de qualquer fraqueza física.A condessa-mãe subiu aos aposentos. Não demorou a ir direto ao ponto.— Talvez seja melhor você retornar à casa da cidade — disse a matriarca, com o tom medido e impecável que jamais soava acolhedor. — Precisa de repouso absoluto. Não faz sentido se forçar a permanecer aqui… e acabar atrapalhando a
O quarto estava imerso em penumbra quando ela cruzou a soleira.Fechou a porta com extrema cautela, um gesto automático de quem aprendeu que qualquer ruído em falso poderia ser interpretado como um drama desnecessário.Deu apenas dois passos antes de ser forçada a parar. A tontura veio como uma onda súbita, acompanhada por um enjoo violento ainda mais forte do que o anterior. Mal teve tempo de se apoiar no dossel da cama antes de o corpo se curvar em espasmos incontroláveis, expulsando até a última gota da bile amarga que lhe queimava a garganta. Os olhos lacrimejaram com o esforço, mas, mesmo na dor, nenhum gemido audível escapou de seus lábios.Quando os espasmos finalmente cessaram, permaneceu imóvel, o peito subindo e descendo com dificuldade, as mãos trêmulas segurando o tecido pesado das cortinas.Era sempre assim. Cada crise parecia pior e mais desgasta
Ela não conhecia seu próprio marido.A condessa-mãe deu duas batidinhas sutis com a colher de prata na taça de cristal, quebrando a ilusão de espontaneidade da mesa.— Henrik — disse a matriarca, com o olhar firme e sem qualquer desvio —, o pequeno Christian precisa descansar. A viagem da ilha foi longa e o ar da costa sul nesta época do ano é pesado para quem não está acostumado com a casa grande.— Claro — ele respondeu imediatamente. A prontidão na voz dele foi um golpe físico no peito de Nora. Ele nunca respondia à mãe com tanta presteza quando o assunto dizia respeito aos repousos forçados de Nora após suas perdas.Astrid se levantou com uma graça simples, sem o ruído excessivo de armações de seda ou anáguas engomadas. Ela tocou suavemente o ombro do menino, que se despediu do pai co







