LOGINParte 3...
Narin Santana
Meu estômago virou.
— LEVANTA, PORRA! – um dos homens bateu na cabeça do que estava ajoelhado.
Meu corpo inteiro tremeu de medo. Olhei em volta, observando por onde eu poderia sair. Só tinha um carro preto do outro lado, parado com a porta aberta.
O homem ajoelhado chorava.
— Eu juro… Juro que não entreguei nada… Por favor… Eu tenho família…
O homem elegante inclinou a cabeça como se estivesse cansado.
— Eu não repito ordens duas vezes.
Ele levantou a mão. Só isso. Um gesto.
E o homem armado do lado direito engatilhou a arma. Eu coloquei a mão na boca para não soltar um grito. Devia ter me afastado sem fazer barulho, mas meu pé escorregou na calçada molhada.
O homem elegante virou o rosto na mesma hora. Os olhos dele percorreram a rua. As sombras, os carros, os cantos escuros.
E pararam exatamente onde eu estava. Meu coração parou junto.
— Tem alguém ali. - ele disse, com uma calma tão perigosa que minhas pernas quase cederam.
— Quer que eu veja? - perguntou um dos armados.
— Não. - respondeu o líder, sem desviar o olhar da minha direção. — Eu mesmo vejo.
Ele começou a caminhar até mim. Me escondi atrás da caminhonete, com as mãos tremendo tanto que quase deixei a sacola da farmácia cair.
Peguei meu celular. Minhas mãos mal respondiam e liguei para Ayla que graças a Deus atendeu logo.
— Ayla… - sussurrei, quase sem voz. — Ayla…
— Narin? Que voz é essa?
— Eu… Eu vi… Eu… - tentei falar, mas o ar travou no peito. — Tem um homem aqui… Ayla, ele tá aqui… Ele tá vindo…
— O quê? - ela quase gritou. — Narin, escuta! Sai daí agora! Onde você está? Me deixou nervosa...
— Eu não posso… Ele… Ele olhou pra mim… Ele tá vindo pra cá...
— Narin, pelo amor de Deus, eu estou nervosa. Me fala onde você está?
— Eu tô… - minha voz falhou quando ele virou a cabeça como se tivesse ouvido meu sussurro. — Ayla, ele tá vindo direto pra mim…
— Narin, corre! - ela implorou. — Corre agora!
Não deu tempo.
A bota dele raspou no chão, perto, muito perto. Quando olhei por cima da carroceria, ele já estava do outro lado, me enxergando como se eu tivesse chamado seu nome.
— Achei. - ele disse, baixo, frio.
Soltei um soluço. O celular quase caiu da minha mão.
Ele deu a volta completa na caminhonete, com passos pesados, firmes, e antes que eu pudesse reagir, sua mão fechou no meu braço com força suficiente pra arrancar meu ar.
— O que você tá fazendo aqui? - ele rosnou.
— Eu… Eu só… Eu tava passando… - minha voz vinha picotada, presa no susto. — Por favor…
Ele estendeu a outra mão, aberta.
— Celular.
— Por favor… Eu não vi nada… - murmurei, desesperada, tremendo. — Eu só quero ir embora.
— Celular. - repetiu, mais baixo ainda, como se o ar ficasse mais denso com cada palavra.
Minha mão vacilou. Tentei esconder o aparelho atrás do corpo por puro instinto, mas ele puxou meu pulso com brutalidade, arrancando o celular dos meus dedos. Um gemido escapou quando a dor subiu pelo braço.
— Quem é? - ele perguntou, ouvindo a voz da minha irmã que ainda chamava meu nome do outro lado. — Quem tá aí?
Engoli o choro, tentando respirar, mas as lágrimas já escorriam sem controle.
— É... M-minha irmã…
Ele levou o telefone ao ouvido sem tirar os olhos de mim. Quando ouvi sua voz, mais dura do que qualquer coisa que eu já tinha escutado, minhas pernas ficaram completamente fracas.
***** *****
Emir Navarro
A voz do outro lado veio trêmula, desesperada.
— Narin? Narin, fala comigo! Você tá me ouvindo? O que tá acontecendo? Eu tô ficando louca aqui!
A garota diante de mim chorava tanto que mal respirava. Tentei puxá-la mais perto pra ela parar de se mexer, mas só fez soluçar mais.
— Sua irmã não pode atender agora. - falei no telefone, seco. Silêncio. Depois um arquejo agudo.
— Q-quem… Quem é você? Onde está minha irmã? Me diz agora! O que você fez com ela?
— Ela viu o que não devia. - respondi. A garota tentou puxar o braço, e eu o apertei até ela parar. — E vai pagar por isso.
A mulher do outro lado perdeu o fôlego.
— Não! Não! Por favor! - ela implorou. — Ela não tem nada a ver com isso! Ela só tava passando! Eu juro! Eu imploro, não faz nada com a minha irmã!
— Não tenho tempo pra drama. - apertei a mandíbula. — Você quer ela viva? – nem sei porque perguntei isso. Tinha algo na voz do outro lado.
— Pelo amor de Deus, sim! Me diz onde você tá, eu vou agora, eu vou correndo, eu faço qualquer coisa!
Olhei pros homens, que já observavam, esperando ordens. O corpo no chão ainda quente atrás deles.
— Você tem dez minutos pra aparecer.
— Dez?! Eu tô do outro lado da cidade! Eu tô trabalhando! Eu não consigo em dez minutos! Eu… Por favor, por favor, não toca na minha irmã! Eu tô implorando!
A garota diante de mim chorou mais, ouvindo tudo. Suspirei, impaciente.
— Vou ser generoso. Meia hora. - disse. — Terceiro posto do cais. Se você não aparecer… Sua irmã vai fazer um nado noturno.
Houve um barulho do outro lado, como se a mulher tivesse perdido as forças.
— N-não… Por favor…
Não ouvi mais nada. Desliguei. Peguei a garota pelo braço de novo.
— Leva. - ordenei aos homens, empurrando ela pra frente.
Ela tropeçou, quase caiu, mas eles a seguraram sem cuidado nenhum.
— Mas chefe… - um deles começou.
— Eu disse leva. - repeti, gelado.
Eles puxaram a garota sem gentileza, arrastando seus passos enquanto ela soluçava, tentando falar, sem conseguir formar uma frase sequer.
Um dos homens abriu a porta da caminhonete. Ela tentou se segurar na lataria, em puro desespero.
— Não, não, por favor… - ela implorou.
Não adiantou. Eles a empurraram pra dentro, a porta bateu, e eu só dei um passo pro lado, limpando o sangue da mão na roupa de um deles.
— Em meia hora no cais. – falei olhando para a garota. — Se a irmã dela falhar… Resolve do jeito de sempre.
Os homens assentiram.
Eu subi no carro da frente, bati a porta e dei o sinal pra partir. A garota ainda chorava lá atrás, o som abafado, mas alto o suficiente pra acompanhar o motor ligando.
Autora Ninha Cardoso.
Começamos mais uma aventura. Espero que goste e que fique comigo. Comente, engaje. Me ajude a trazer mais novidades.
Parte 79...AylaA varanda estava silenciosa naquele fim de tarde, com o sol já descendo devagar atrás das árvores. Eu apoiava os antebraços no parapeito, sentindo a madeira morna sob a pele, e observava lá embaixo o movimento da casa. — Quatro anos. Às vezes ainda me parecia estranho dizer isso em voz alta, como se o tempo tivesse aprendido a correr diferente desde aquela noite na cabana.Ou talvez tivesse sido eu quem mudou.Vi o carro entrar pelo portão e diminuir a velocidade, como sempre. Emir nunca chegava apressado quando estava voltando para casa. Era um detalhe pequeno, mas que eu tinha aprendido a reconhecer. Como se, ao cruzar aquele limite, ele deixasse o peso do mundo do lado de fora.Sorri sozinha quando a porta se abriu.Ele saiu primeiro, alto, impecável mesmo sem tentar, e então se inclinou para pegar nosso filho no banco de trás. O menino já saiu rindo, braços em volta do pescoço do pai, falando alguma coisa incompreensível com a empolgação típica de quem tem pouco
Parte 78...EmirMinha mão fechou na gola do paletó e o joguei contra a estante. O barulho seco ecoou pelo escritório.— Você encostou nela?! – arregalei os olhos.Ele riu, mesmo com o impacto.— Olha só você… - tossiu. — Exatamente como eu disse. Perdido.O soco veio automático. Forte. Sentido. Ele caiu contra a mesa, derrubando tudo.— Ela não é moeda de troca! - gritei de novo.Ele se levantou cambaleando, o rosto manchado de sangue.— Tudo é moeda nesse jogo, Emir! Sabe bem disso - cuspiu. — Inclusive quem você ama.Aquilo foi o estopim.A briga virou caos. Punhos, móveis quebrando, vidro estilhaçando. Anos de ressentimento explodindo. Veio tudo de vez porque isso foi só o que expurgou uma rixa interna.Ele puxou a arma. Eu fui mais rápido.O tiro ecoou ensurdecedor. O corpo dele caiu pesado no chão. O silêncio veio depois. Brutal. Me aproximei devagar. Ele ainda respirava. Olhos arregalados. Surpresos.— Você… - engasgou. — Sempre foi… Um fraco, sobrinho...Me ajoelhei ao lado d
Parte 77...AylaEsse sorriso dele não caiu bem e dessa vez não havia ironia. Ele parou atrás de mim.— E agora o meu sobrinho está cismado com você... - respirou fundo, quase irritado — É como se tivesse algo a mais, além do que ele diz, sobre apenas estar arrumando as coisas – colocou as mãos em meus ombros — Até porque, se for seguir isso, ele já resolveu a gafe de sua irmã, já sabemos quem era o mandante, você já não teria mais serventia, no entanto... Ele não a deixa ir, não é mesmo?Dessa vez fui eu quem respirou fundo e a merda da corda estava apertada demais. Ele andou para minha frente de novo.— Emir está desfazendo acordos. Ele nem quis dar apoio ao Arden quando ele precisou e isso foi algo combinado de antes.— Não tenho culpa de nada disso. Não foram decisões minhas, reclame com Emir.Meu coração batia tão forte que doía.— Não foi, mas foi por sua causa.— Eu não mandei ele fazer nada. E Arden também não é nenhum santo, pelo pouco que sei.— Não precisa mandar - ele reba
Parte 76...AylaA raiva me subiu de imediato. Eu tenho medo dele, mas no momento estou com mais raiva do que medo. Eu poderia estar no caminho para outro lugar, mas ele atrapalhou.É um inferno ficar indefesa contra alguém como ele. Desde o começo ele foi ameaçador e irônico e agora já sei o motivo. Ele sabia que eu era filha do homem que causou um estrago nos negócios errados dele.Mas eu não tenho culpa, nem mesmo sabia que meu pai participava desse tipo de coisa. Pra mim foi tão absurdo que ainda nem sei o que pensar.— Poderia estar livre disso, eu avisei.A voz dele era calma demais. Não suporto olhar pra sua cara. Engoli seco.— Me solta, por favor. Eu já ia embora pra longe.Ele não reagiu. Deu um passo à frente.— Sabe, eu imaginei que você poderia ser diferente. Mais esperta... Afinal, é jovem, tinha que se virar sozinha – estalou a língua — Mas não, você é burra.— Eu… Eu não fiz nada… - minha voz tremia e isso me irritava — Eu só quero ir embora. Já estava arrumando minhas
Parte 75...Ayla— Anda.— Solta minha irmã! - tentei me virar.Ele me empurrou para fora do apartamento. No corredor, os outros dois já estavam esperando. Um deles limpava sangue da boca. O outro guardava a arma.— Ela escapou - disse o que sangrava. — Desceu pela rua atrás do prédio.O que parecia ser o chefe cuspiu no chão.— Não dá tempo. A ordem é levar essa. A outra não é importante.Me puxaram pelo braço. Saí tropeçando, quase caindo. O prédio parecia distante, estranho. Como se eu estivesse fora do meu próprio corpo. Me sinto até mais quente. Na rua, um carro preto estava ligado. Porta aberta.— Narin!Gritei de novo, olhando em volta, o peito queimando. Não vi ninguém. Fui empurrada para dentro do banco de trás. Um entrou comigo, colando no meu lado. Outro veio na frente. O terceiro dirigiu. O carro arrancou e o mundo ficou para trás em um borrão de luzes. Meu coração parecia que ia rasgar meu peito.— Quem são vocês? – minha voz falhou — Quem mandou vocês aqui?O homem ao me
Parte 74...AylaDia seguinteFechei a mala com o joelho, forçando o zíper que insistia em travar. O apartamento estava uma bagunça organizada: roupas sobre a cama, caixas abertas no chão, papéis da tia empilhados na escrivaninha, remédios separados em sacolas. Cheirava a poeira, a tecido guardado, a qualquer coisa que me passava pela cabeça, no meu nervosismo e ansiedade de dar o novo passo.Narin estava sentada no chão, dobrando camisetas com um cuidado exagerado, pensativa até demais.— Você tem certeza que não quer levar esse casaco? – disse erguendo um azul claro que eu usava pouco.— No interior faz mais frio à noite. Coloca ali.Ela obedeceu, enfiando o casaco na mala dela. Ficou um tempo em silêncio, mordendo o lábio, os dedos parados sobre a roupa.— Você está estranha desde ontem - disse enfim, sem me olhar.Eu puxei o ar devagar.— Eu falei com o Emir.Ela ergueu o rosto na mesma hora.— Falou… Como assim falou? Você não me disse como foi, depois que saiu daquele jeito, com







