로그인A febre das alucinações deu tréguas por breves horas, deixando Arthur Pendelton prostrado sobre o colchão, com a testa banhada em suor frio e os músculos doridos.No silêncio opressor da tarde, uma necessidade desesperada apertou-lhe o peito: — lembrar-se. Precisava de agarrar qualquer vestígio do mundo exterior antes que a arquitetura viva “d’o Fundo” apagasse por completo a sua identidade.Lembrou-se de Clarion, a mulher de olhos meigos que o esperava ou que ele supunha que o esperava, numa casa banhada por sol verdadeiro, longe daquela geometria impossível, daquela escuridão dificil de engolir. Durante semanas, ou talvez meses, Arthur escreveu cartas febris a punho, dobrando os papéis com cuidado e entregando-os obedientemente aos enfermeiros nos dias de correio interno, acreditando que a correspondência cruzaria os portões e chegaria na realidade a sua casa.Movido por um impulso súbito de lucidez, Arthur levantou-se e tateou a tábua solta por baixo da sua cama, onde costumava gua
O efeito cumulativo da água contaminada do hospital e das drogas administradas em segredo atingiu o seu ponto de rutura no interior do cubículo de Arthur Pendelton. Agora deitado na cama estreita, com os olhos arregalados na escuridão, Arthur já não conseguia traçar a linha divisória entre a realidade e o delírio químico que lhe inundava o próprio cérebro.As paredes de alvenaria do quarto começaram a contrair-se e a expandir-se num ritmo sincopado, como se o edifício estivesse a respirar através de milhões de poros invisíveis. Veias negras e grossas brotavam da argamassa, que pulsavam com um líquido viscoso que escorria lentamente pelo papel de parede descascado que restava.— Não... isto não é real... a minha mente está apenas... — gorfou em murmúrio Arthur, cravando as unhas no próprio couro cabeludo, tentando suprimir a onda de imagens grotescas que explodiam na sua visão periférica.Mas a alucinação piorou de forma drástica. Seria mesmo uma alucinação? A porta da cela desvaneceu
As escadas de serviço desciam ainda mais fundo, para além dos calabouços, onde a alvenaria de pedra cedia lugar a uma rocha ancestral e húmida que gota a gota constituia um fluido negro e viscoso. Ali ficava o santuário privado do Dr. Malombra — o psiquiatra-chefe, o cirurgião “d’o Fundo”, uma figura esguia e espectral — o Corvo Branco — cuja bata branca parecia fundir-se com a penumbra dos corredores subterrâneos.O Dr. Malombra tinha conduzido Arthur por entre os labirintos de ferro até o largar, sem cerimónias, devido ao seu passo vacilante e o corpo demasiado fraco para continuar a sustentar-se de pé, numa das salas de retenção. O psiquiatra foi de imediato desviado para as celas vizinhas pelo assalto brutal das grades: — CLACK! CLACK! — o eco seco e metálico dos punhos desvairados a golpearem o ferro, logo rasgado pelo “AAAAARGH!” estridente e gutural dos gritos dos pacientes enclausurados, que se desfaziam na humidade da rocha.Aproveitando a desatenção do médico e sem enfermeir
O cheiro a formol e a suor rançoso era mais denso nas profundezas do “Fundo”, muito abaixo do nível dos quartos, onde os corredores de alvenaria nua davam lugar aos calabouços do hospício.Ali, a arquitetura parecia contorcer-se de propósito: os tetos baixos, mostravam a sua forma opressiva e as paredes de pedra suavam uma humidade espessa, negra como um óleo velho, misturada com verdume de musgo.Era o território exclusivo dos funcionários. Longe de serem meros guardas ou enfermeiros, aquelas figuras pareciam ter sido esculpidas a partir da própria matéria corrompida daquele edifício terrorífico.O enfermeiro-chefe, um homem colossal a quem chamavam surdamente de Gárgula, arrastava uma perna excessivamente longa enquanto caminhava pelo corredor dos castigos. A sua farda branca estava permanentemente manchada de fluidos indecifráveis, e o seu rosto exibia uma desproporção anatómica grotesca: o olho esquerdo, enorme e protuberante como um berlinde de vidro sem vida. Fixava-se obsessi
O silêncio que se seguiu ao banho de sangue não era pacífico; era o silêncio tenso de uma armadilha que estava prestes a desabar.Com as roupas ainda húmidas e coladas à pele, Arthur foi de novo empurrado de volta para o seu quarto. As suas mãos tremiam incontrolavelmente, manchadas por vestígios invisíveis ou seriam muito reais? De um rubor que parecia nunca mais sair da sua pele. Este fechou os olhos, mas a imagem da cascata vermelha continuava a pulsar por trás das suas pálpebras, misturando-se com as vozes distantes que ecoavam pelo imenso corredor.A exaustão física e química acabou por vencê-lo, arrastando-o para um sono pesado, povoado por pesadelos sequenciais e sussurros sem rosto.Foi o som de um respingar rítmico, insistente e macabro que o arrancou abruptamente da inconsciência. — Ploc. Ploc. Ploc. —Arthur abriu os olhos. A luz cinzenta da madrugada mal iluminava o quarto. Sentou-se na beira da cama e respirava com dificuldade, sentia o peito muito apertado.Um grito sufo
O apito estridente e metálico cortou o silêncio matinal do “Fundo”, ecoando pelas paredes de granito secular, como o grito agónico de uma alma em completo suplício.Era a alvorada e as portas dos cubículos abriram-se numa cadência sistemática, impulsionadas por molas industriais que rangiam em uníssono.Apanhado pelo turbilhão da rotina, Arthur foi arrastado pela correnteza dos pacientes apáticos indo em direção ao bloco de banhos comunal — uma vasta câmara subterrânea revestida de azulejos brancos e manchados do verdume e do mofo da humidade.O cheiro a cloro misturava-se com o odor acre a suor velho e ao formol omnipresente. Várias dezenas de celas de banho alinhavam-se ao longo das paredes húmidas, sob o olhar vigilante de dois supostos guardas de ombros largos e expressões vazias.Separados por grossas paredes mestras de granito e por um rigor gélido que cortava o asilo ao meio, com os homens confinados a esta ala e as mulheres relegadas para as galerias mortas do lado oposto, os







