LOGINRio de Janeiro
Vidigal, 16h30.
A última caixa foi colocada no chão da sala, e eu me permiti respirar aliviada. Depois de horas carregando móveis, organizando sacolas e tentando descobrir onde cada coisa deveria ficar, finalmente minha nova casa começava a parecer um lar.
Vanessa estava sentada no sofá, com os pés apoiados em uma caixa, observando meu esforço com uma tranquilidade que chegava a ser irritante.
— Você poderia pelo menos fingir que está me ajudando — reclamei, tentando encaixar alguns livros em uma prateleira.
— Estou ajudando. Estou supervisionando.
— Claro. E eu sou a rainha da Inglaterra.
Ela caiu na gargalhada.
Apesar do cansaço, também sorri. Fazia algum tempo que não conseguia rir daquela maneira. Desde a morte da minha avó, parecia que tudo havia se transformado em uma sequência de problemas que eu precisava resolver antes mesmo de ter tempo para sentir.
Olhei ao redor. A casa era simples, mas tinha espaço suficiente para mim. Aos poucos, conseguiria deixá-la com a minha cara. Talvez algumas plantas na varanda, cortinas novas e alguns porta-retratos fossem suficientes para transformar aquele lugar em um verdadeiro lar.
— Amanhã precisamos sair — Vanessa anunciou.
— Para quê? Só se for depois do trabalho. Amanhã eu já retorno.
— Então vamos dar uma volta rápida agora. Quero que você conheça pelo menos o básico do lugar onde vai morar. Precisa saber onde ficam o mercado, a farmácia, a padaria...
— Eu sei andar sozinha.
— Sabe nada! Você nem conhece aqui. Os meninos tiveram que me ligar porque você não sabia explicar onde estava!
— Aquilo foi um pequeno erro de orientação.
— Um pequeno erro que poderia ter terminado com você no outro lado do morro.
Revirei os olhos, arrancando outra risada dela.
Vanessa me explicou que havia pequenos comércios espalhados pelas ruas, além de lugares onde eu poderia comprar praticamente tudo de que precisava. Também me falou sobre os horários de maior movimento e sobre os caminhos mais práticos para chegar ao ponto de ônibus.
— E o hospital? — perguntou. — Já pensou como vai fazer quando voltar?
Suspirei.
— Ainda não. Vou precisar sair um pouco mais cedo, mas acho que consigo organizar os horários.
— Se precisar de ajuda, me fala.
— Eu me viro, Vanessa.
Ela me lançou um olhar desconfiado.
— Eu sei que você se vira. Só não precisa fazer tudo sozinha.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. Talvez fosse justamente isso que eu precisava aprender. Durante muito tempo, minha avó e eu tivemos apenas uma à outra. Depois que ela se foi, parecia que aceitar ajuda significava admitir que eu não estava dando conta de tudo.
Mas talvez não houvesse problema algum em precisar de alguém de vez em quando.
Um pouco mais tarde, saímos para conhecer o comércio da região. Vanessa caminhava à minha frente, cumprimentando praticamente todo mundo que encontrava. Era impressionante como ela conhecia tantas pessoas.
Ela me apresentou a uma senhora que tinha uma pequena mercearia, a um rapaz que trabalhava na farmácia e a algumas pessoas que moravam nas casas próximas à minha.
Fui percebendo que, apesar de toda a agitação, havia uma rotina própria naquele lugar. As pessoas se cumprimentavam, conversavam nas portas, crianças brincavam pelas ruas e os comerciantes pareciam conhecer boa parte dos moradores.
Em determinado momento, enquanto Vanessa comprava algumas coisas, uma mulher comentou que eu era a nova moradora da casa da Rua 5.
— Seja bem-vinda, querida. Qualquer coisa que precisar, pode chamar.
— Muito obrigada — respondi, sorrindo.
— A Vanessa é uma boa menina. Se está com ela, está bem acompanhada.
Olhei para minha amiga, que apenas sorriu, como se já estivesse acostumada àquele tipo de comentário.
Era estranho. Eu havia passado tanto tempo preocupada com o que poderia encontrar ali que não tinha considerado a possibilidade de encontrar pessoas dispostas a me receber.
No caminho de volta, Vanessa parou diante de um pequeno bar que ficava em uma das ruas mais movimentadas.
— Esse lugar costuma ficar cheio à noite — comentou. — A comida é boa também.
Olhei para a fachada simples e para algumas pessoas sentadas nas mesas do lado de fora.
— Você está tentando me convencer a gastar o pouco dinheiro que tenho?
— Estou tentando fazer você viver um pouco. Nem tudo na vida é boleto, Helena.
— Infelizmente, os boletos não pensam assim.
Ela riu e continuamos caminhando.
Quando voltamos, terminei de colocar algumas coisas no lugar, guardei os alimentos na geladeira e finalmente caí no sofá. Meus pés estavam cheios de bolhas, minhas costas doíam e, quando olhei para o relógio, já eram dez da noite.
— Nunca mais reclamo do meu trabalho , trabalhar com mudança o dia todo é muito mais cansativo— murmurei para mim mesma.
Tomei um banho demorado, tentando aliviar o cansaço, e fui até o quarto organizar tudo para o dia seguinte. Teria que acordar bem cedo para descobrir os horários dos ônibus e calcular quanto tempo levaria até o hospital.
Deixei a roupa separada, coloquei meus documentos na bolsa e programei o despertador.
Eu precisava voltar à rotina. Precisava trabalhar, recuperar minhas economias e, principalmente, provar a mim mesma que conseguiria recomeçar.
Antes de apagar a luz, olhei mais uma vez para o quarto. Ainda havia algumas caixas encostadas na parede, mas, pela primeira vez em muito tempo, senti que tinha um lugar para chamar de meu.
Deitei-me pensando em tudo o que havia acontecido nas últimas semanas. A morte da minha avó, as dívidas, a mudança inesperada e aquela nova realidade que eu ainda estava tentando compreender.
Eu não fazia ideia do que me esperava quando atravessasse novamente as portas daquele hospital.
Só queria que, pelo menos uma vez, a vida resolvesse colaborar comigo.
Rio de Janeiro — Vidigal, 22h10Eu já tinha ouvido falar dela antes mesmo de conhecer seu rosto.Helena.A amiga de Vanessa, a médica que havia perdido o emprego no San Lorenzo e agora estava procurando uma oportunidade para recomeçar.Quando Rafael me trouxe as primeiras informações, não dei muita importância. Precisávamos de um cirurgião para a clínica, e eu queria alguém competente, discreto e, acima de tudo, confiável.Por isso, mandei pesquisar.E o resultado foi melhor do que esperava.Trinta anos, formação em medicina, especialização em cirurgia e uma trajetória profissional respeitável. Conversei com pessoas que conheciam seu trabalho, procurei referências e analisei seu histórico. Não havia dúvidas sobre sua capacidade. Helena era uma excelente profissional, dedicada e reconhecida pelo próprio trabalho.Também descobri sobre a morte da avó, as dívidas que vieram depois, a perda da casa e, por último, a demissão.A vida não tinha sido generosa com ela nos últimos tempos.Aind
Rio de Janeiro — Vidigal, 21h15VanessaEu ainda ia acabar ficando maluca por causa daquele homem!Olhei para Rafael, que estava sentado ao meu lado, tranquilamente, como se não tivesse acabado de me dar uma das piores notícias da noite.— Você está de brincadeira comigo, né?Ele ergueu uma sobrancelha.— Sobre o quê, mulher?— Sobre eu não poder contar para Helena quem é aquele homem!Rafael soltou um suspiro e tomou um gole da bebida.— Vanessa, já conversamos sobre isso.— Conversamos nada! Você falou, falou, falou e terminou dizendo que eu tenho que ficar de boca fechada. Isso não é conversa, é uma ameaça à minha liberdade de expressão!Ele riu, balançando a cabeça.— Você não consegue passar cinco minutos sem falar?— Consigo. Mas não quero!Olhei discretamente para a mesa onde Helena estava. Minha amiga parecia estar se divertindo, mas eu não era cega. Desde que chegamos, ela já tinha olhado umas dez vezes na direção de Miguel.E como não olharia? O homem era bonito, disso ning
Rio de Janeiro — Vidigal, 20h00— Olha, conversei com algumas pessoas que conheço. Pode ter certeza de que logo, logo esse emprego vai bater à sua porta. Agora, por favor, hoje é sábado e amanhã estarei de folga. Vamos sair! — Vanessa implorou, me olhando com aqueles olhos de cachorrinho abandonado.Segurei o riso.— Tudo bem! Vou me arrumar rapidinho e a gente vai. Você nem precisa, já veio pronta.— ÓBVIO! Se você não fosse, eu iria sozinha. E hoje não vou aguentar chororô, não, hein!Ela gritou da sala, mas nem precisava. Aquela casa era tão pequena que eu conseguia ouvir até quando alguém se sentava no sofá.Segui para o quarto e comecei a escolher uma roupa. Separei uma calça jeans, uma papete e um body com decote em V. Entrei no banheiro e tomei uma ducha rápida, porque, para mim, não existia sair de casa sem tomar banho antes.Aproveitei para fazer uma maquiagem básica, vesti a roupa, passei meu perfume favorito e peguei uma jaqueta, caso esfriasse. Finalizei com um pouco de g
Rio de Janeiro —Vidigal, 10h30— O Jacaré caiu. A polícia está na frente do hospital e do quarto onde ele está. Neste momento, não dá nem para tentar ajudar — terminei de enrolar o cigarro enquanto escutava Rafael falar.Soltei a fumaça lentamente, pensando na situação.Mais um homem nosso nas mãos da polícia. Aquilo estava começando a me tirar do sério.— Precisamos arrumar um médico de confiança para a clínica. De tudo, só falta um cirurgião — comentei, apoiando as costas na cadeira.Antes que Rafael respondesse, escutei três batidas na porta. Logo depois, a maçaneta girou, revelando Vanessa.— E aí, tudo bem? — perguntou, entrando sem cerimônia.— Tudo, minha joia. E a sua amiga lá, melhorou?Eu não sabia exatamente de quem estavam falando, então fiquei quieto. Apenas acenei com a cabeça, cumprimentando-a.— Olha, é justamente sobre isso que vim falar.Vanessa se acomodou na cadeira à frente da minha mesa.— Ela foi demitida do hospital e eu queria saber se você conhece alguém que
RIO DE JANEIRO — VIDIGAL18H10Cheguei em casa arrasada. Passei o caminho inteiro chorando e, até aquele momento, ainda não tinha conseguido parar. Meus olhos ardiam, minha cabeça latejava e eu provavelmente já estava me desidratando de tantas lágrimas.Eu simplesmente não conseguia acreditar no que havia acontecido.Poucas horas antes, estava dentro de uma sala cirúrgica salvando a vida de um homem. Agora, não tinha mais emprego.Tentei me recompor quando ouvi algumas batidas na porta. Tinha quase certeza de que era Vanessa, mas não consegui disfarçar o estado em que me encontrava.Assim que abri, ela me olhou preocupada.— Ei, que que tá pegando?Antes que pudesse responder, abracei minha amiga e comecei a chorar ainda mais.Vanessa passou os braços ao meu redor e acariciou minhas costas.— Calma, amiga. O que aconteceu?— Eu fui mandada embora! — consegui dizer entre soluços. — E agora, Vanessa? O que eu faço? Eu já estava planejando minha vida de novo...Apenas pensar que agora po
RIO DE JANEIROVIDIGAL — 5H00Saí de casa meio perdida, ainda tentando não errar todos aqueles becos até conseguir chegar ao ponto de ônibus. O céu ainda estava escuro, e as ruas começavam a despertar lentamente.Assim que finalmente cheguei à entrada da comunidade, avistei Jonas. Ele estava perto de sua moto e me cumprimentou com um sorriso.— Ué, tá indo pra onde essas horas? Não é meio perigoso andar por aí tão cedo? — perguntou, aproximando-se.— Estou indo trabalhar, Jonas. Não sei que horas o ônibus passa, então resolvi sair mais cedo.— Entendi. Olha, posso te ajudar se precisar. Eu sei o horário de todos os ônibus que passam lá no ponto. Se tivesse perguntado ontem, talvez não precisasse madrugar desse jeito. Mas me diz, trabalha onde? Só pra eu ter uma noção de qual ônibus você vai pegar.— Trabalho no San Lorenzo. Sou médica.Ele arregalou os olhos.— Porra, longe pra caramba! Olha, tu pode sair daqui umas cinco e meia que o ônibus passa às seis. Vai te deixar praticamente n