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last update publish date: 2026-10-30 22:10:11

RIO DE JANEIRO — VIDIGAL

8h15

Meu celular tocou bem cedinho. Vanessa já estava praticamente desesperada, ligando sem parar para avisar que havia conseguido a chave da casa e estava me esperando.

Vesti uma roupa às pressas, peguei minha bolsa e saí, torcendo para que o imóvel não fosse um daqueles casebres caindo aos pedaços que costumavam aparecer nos jornais.

Peguei um ônibus que, para minha surpresa, não estava lotado. Consegui até ir sentada, o que, considerando minha sorte dos últimos dias, já era quase um milagre.

Desci próximo à entrada da comunidade. Pelo que sabia, os ônibus não circulavam lá dentro.

Meu Deus, onde eu estava me metendo?

Avistando Vanessa encostada na moto de um mototáxi, olhando distraidamente para o movimento, fui em sua direção. Assim que me reconheceu, ela abriu um sorriso e veio ao meu encontro.

— Poxa, achei que você não chegaria nunca! Já estava pensando que tinha desistido.

Ela me abraçou enquanto falava, como sempre fazia.

— Bem que eu queria, mas não tenho outra opção — respondi, tentando brincar.

Vanessa me lançou um olhar indignado. Eu sabia que a realidade de quem vivia ali desde criança era bem diferente da visão de quem conhecia o lugar apenas pelas notícias dos jornais. Mesmo assim, não seria fácil mudar minhas concepções de uma hora para outra. Eram muitos anos ouvindo histórias sobre violência e criminalidade.

— Olha, nem vou te xingar hoje porque estou tranquila. Vem logo, vou te mostrar tudo.

Ela começou a andar e fui atrás.

— Vanessa, desculpa. Não foi minha intenção. É que está tudo tão difícil que às vezes acabo falando sem pensar.

Ela deu de ombros.

— Na verdade, é o que você pensa, né? Mas vamos esquecer isso. Não quero discutir com você. Infelizmente, a criminalidade tomou conta de muitos lugares, então nem tiro a razão de vocês, que estão de fora, de acharem perigoso. Porque realmente existem lugares perigosos. Se você estivesse aqui sozinha, sem conhecer ninguém, poderia passar por uma situação complicada.

Meu corpo inteiro se arrepiou.

Misericórdia! Eu já estava imaginando minha foto estampada no jornal. Será que não bastava tudo o que tinha acontecido na minha vida?

Vanessa olhou para trás, percebeu minha expressão assustada e começou a rir.

— Estou brincando, sua maluca! Vocês acreditam em cada coisa! Aqui não é assim, não. Existem lugares complicados, infelizmente, mas você vai conhecer a comunidade e entender melhor.

Continuamos andando.

— Agora presta atenção no caminho, porque não vou conseguir te acompanhar todos os dias. Meus horários no trabalho são uma bagunça. Um dia chego de manhã, no outro só à noite. Acredita que até hoje não contrataram outra pessoa? Puta que pariu, estado de merda!

Vanessa trabalhava como agente penitenciária. Segundo ela, alguns detentos nem a consideravam policial, chamando-a simplesmente de carcereira. Era uma mulher de personalidade forte e não costumava levar desaforo para casa.

— E você, como está? Está conseguindo seguir depois da sua avó? — perguntou enquanto descíamos uma ladeira enorme.

Olhei ao redor. Para minha surpresa, o lugar não era nada parecido com o cenário que havia imaginado. As ruas tinham movimento, havia pequenos comércios e moradores conversando nas portas das casas. Não era o paraíso, mas também não era aquele caos que eu esperava encontrar.

— Mesmo que não conseguisse, teria que seguir, né? Depois que as pessoas morrem, não tem muito o que fazer. Emocionalmente estou conseguindo lidar, meu problema agora é o financeiro.

Falei desanimada.

Pouco depois, paramos diante de uma casinha. De fora, parecia pequena, mas pelo menos tinha muro e um portão fechado.

— Vai, abre logo! Tenho certeza de que você vai gostar.

Vanessa colocou a chave na minha mão, sorrindo.

Girei a fechadura e empurrei o portão. Havia um pequeno quintal cimentado, com uma varandinha simples. Destranquei a porta e entrei.

Para minha surpresa, o lugar era uma graça!

Uma sala conjugada com a cozinha, um quarto espaçoso, banheiro arrumadinho e uma pequena lavanderia nos fundos. Tudo estava limpo, as paredes recém-pintadas e os ambientes muito bem cuidados.

Era pequena, sim, mas parecia perfeita para recomeçar.

Se aquela casa estivesse em São Conrado, provavelmente custaria pelo menos novecentos reais de aluguel.

Eu tinha ganhado na loteria!

Virei imediatamente e abracei Vanessa.

— Amiga, muito obrigada! Você não faz ideia do quanto está me ajudando.

— Eu sei, sua boba. Agora trate de ser feliz na sua casinha nova.

— Me passa o contato dos donos? Preciso combinar a data do aluguel. Não recebo hoje, só consegui um vale para organizar a mudança.

— Ah, eles pediram para eu cuidar disso. São bem velhinhos e preferem não ter dor de cabeça com essas coisas. Como me conhecem desde criança, confiaram em mim para resolver tudo.

— Tudo bem. Eu queria conhecer os proprietários, mas não vou ficar insistindo. Vai que dá alguma merda — brinquei.

Vanessa caiu na risada.

Comecei a observar os cômodos novamente. Precisaria me desfazer de algumas coisas, afinal, a casa era bem menor que meu antigo apartamento.

— Acho que vou trazer só o necessário. Minha mesa, por exemplo, não vai caber aqui.

— Ah, já providenciei a mudança! Tem uma galera que trabalha com isso aqui. Uma das regras é que não entra qualquer baú na comunidade. O pessoal tem uma cisma com cavalo de Troia, então todo mundo precisa saber quem está entrando e o que está trazendo. Vou mandar um mototáxi com você até sua casa para eles saberem onde buscar suas coisas. Depois me manda uma mensagem que organizo tudo. Não se preocupa, a galera é de confiança.

Abracei minha amiga mais uma vez. Eu realmente não sabia o que teria feito sem ela.

Antes de ir embora, entreguei o primeiro mês de aluguel, que já havia sacado em dinheiro. Nem todo mundo aceitava Pix, e eu preferia deixar tudo acertado.

Voltei para casa e passei o restante do dia organizando a mudança. Tirei fotos de alguns móveis que pretendia vender, separei os pertences da minha avó que seriam doados a um lar de idosos e escolhi apenas o que realmente precisava levar.

Guarda-roupa, cama, geladeira, armário, sofá e televisão. O restante teria que encontrar novos donos.

No fim da tarde, mandei uma mensagem para Vanessa. Não demorou muito para os rapazes chegarem com o caminhão. Jonas, o mototaxista que havia me acompanhado pela manhã, também apareceu para ajudar.

Depois de carregarmos tudo, tranquei meu antigo apartamento e liguei para dona Ana.

Avisei que entregaria as chaves assim que conseguisse vender os móveis que haviam ficado. Também agradeci pela paciência e prometi pagar os dois meses de aluguel atrasados assim que conseguisse me estabilizar.

Desliguei, respirei fundo e olhei para o caminhão carregado.

Minha vida inteira estava ali.

Era estranho pensar que, em poucos dias, eu havia perdido minha avó, minhas economias e minha casa.

Mas, pelo menos, agora tinha um teto novamente.

E, naquele momento, era tudo de que precisava.

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