Share

Capítulo 5 - Ethan

Author: S.R. Oliveira
last update publish date: 2026-03-01 09:04:13

A arena ainda pulsa mesmo depois que a luta termina, como se o lugar demorasse a aceitar que o espetáculo acabou, e eu caminho pelo corredor com a Lily pela mão enquanto Marcus segue logo atrás, o cheiro de comida, suor e adrenalina misturados num cansaço que não é ruim, apenas denso.

Clara nos espera perto da saída dos bastidores, a mochila pendurada em um dos ombros, postura tranquila demais para alguém que acabou de atravessar um mundo que não é o dela, e ainda assim parece encaixar ali com uma naturalidade que me desconcerta.

Antes que eu diga qualquer coisa, Lily solta minha mão.

Ela atravessa a curta distância que nos separa sem hesitar, os passos decididos, e envolve Clara num abraço espontâneo, desses que não pedem permissão porque não aprenderam ainda a duvidar.

Eu prendo a respiração por reflexo.

Clara demora meio segundo para reagir, só o suficiente para não assustá-la, e então se inclina, retribuindo o abraço com cuidado, respeitando o tamanho, o espaço, o gesto.

— Você quer ser minha amiga? — Lily pergunta, a voz abafada contra o tecido do macacão, simples como quem oferece algo precioso sem calcular risco.

Meu peito aperta.

Clara sorri, e não é um sorriso treinado, é aquele que nasce fácil quando a resposta já existe antes da pergunta.

— Quero — ela diz. — E acho que a gente vai se ver de novo em breve.

Lily se afasta um pouco, satisfeita, como se tivesse acabado de resolver algo importante demais para ser adiado, e segura a mão de Clara por mais alguns segundos antes de finalmente soltá-la e voltar para o meu lado.

— Eu disse que você era legal — ela anuncia, olhando para mim como se estivesse confirmando uma teoria antiga.

— Disse mesmo — respondo, a voz mais baixa do que eu pretendia.

Marcus pigarreia atrás de nós, disfarçando um sorriso que eu conheço bem demais para fingir que não vi.

— A gente precisa ir, pequena — ele avisa. — Já passou do seu horário de virar abóbora.

Lily faz uma careta dramática, mas aceita, abraçando Marcus pela cintura antes de se despedir de Clara com um aceno exagerado.

— Tchau! — ela diz.

— Tchau, Lily — Clara responde. — Dorme bem.

Quando fico sozinho com ela por um instante, o barulho da arena parece diminuir, como se o mundo estivesse nos dando um espaço breve demais para o que aquela conversa realmente carrega.

— Obrigado por hoje — digo. — De verdade.

Ela ajusta a alça da mochila no ombro e assente.

— Obrigada você — responde. — Por confiar o suficiente para me mostrar tudo isso.

Há algo de firme no jeito como ela fala, sem promessas vazias, sem dramatização, e isso me agrada mais do que qualquer entusiasmo exagerado.

— Me avisa quando decidir — digo. — Seja qual for a resposta.

— Vou entrar em contato — ela garante. — Preciso organizar algumas coisas, mas eu te ligo.

Assinto, respeitando aquele espaço que ela pediu sem precisar justificar, e estendo a mão.

Ela aperta de volta com segurança, e por um segundo eu penso que algumas decisões importantes começam assim, sem assinatura, sem contrato, apenas com a sensação clara de que algo essencial acabou de se mover para mais perto do lugar certo.

Clara se afasta pelo corredor, e eu fico observando até ela desaparecer entre as pessoas, sentindo a Lily se encostar em mim, cansada, satisfeita, segura demais para alguém que acabou de conhecer uma possibilidade nova.

— Ela é minha amiga — Lily diz, bocejando.

— Talvez seja — respondo, passando a mão pelo cabelo dela.

Mas enquanto caminhamos para fora da arena, eu sei que aquela noite não terminou ali, porque algumas despedidas não fecham ciclos, apenas deixam portas entreabertas, esperando a coragem necessária para serem atravessadas.

***

A casa está silenciosa quando entramos, um silêncio macio, desses que só existem depois de um dia grande demais, e as luzes ficam baixas enquanto eu tiro os sapatos da Lily no tapete da sala, ela já meio sonolenta, mas ainda tentando segurar o fio da noite como se não quisesse deixar nada escapar.

Carrego ela no colo até o quarto, sentindo o peso leve do corpo relaxado contra o meu, e penso em como algumas vitórias fazem barulho demais enquanto outras se revelam nesse tipo de quietude que quase parece sagrada.

O quarto dela está do jeito de sempre, a luz de abajur desenhando sombras conhecidas nas paredes, as bonecas alinhadas com uma lógica que só ela entende, e eu a coloco na cama com cuidado, puxando o cobertor até o peito dela antes de me sentar na beirada do colchão.

— Hoje foi um dia cheio — digo, mais para acompanhar o ritmo da conversa do que para conduzi-la.

— Foi — ela concorda, bocejando. — Você ganhou.

— Ganhei — respondo.

— E eu comi cachorro-quente — ela acrescenta, como se aquilo equilibrasse perfeitamente a equação.

Sorrio e passo os dedos pelo cabelo dela, desfazendo um nó pequeno que se formou perto da nuca.

— O que você achou da noite? — pergunto.

Ela pensa por alguns segundos, os olhos seguindo um ponto invisível no teto, e então vira o rosto na minha direção, mais desperta do que eu esperava.

— Foi legal — diz. — Tinha barulho, mas eu gosto quando você está perto.

— E da Clara? — pergunto, tentando manter o tom leve, como quem pergunta sobre um desenho novo, mas por dentro atento a cada detalhe.

Lily sorri imediatamente, um sorriso aberto, sem hesitação.

— Eu gostei dela.

O coração b**e diferente com essa resposta simples demais para carregar tudo o que significa.

— Por quê? — pergunto, sabendo que crianças sempre têm motivos que adultos ignoram.

— Porque ela me escutou — Lily responde, como se fosse óbvio. — E porque ela riu comigo. E porque ela não tentou mandar em mim.

Engulo em seco.

— Ela cheira bem — Lily acrescenta, como se estivesse lembrando de algo importante. — Cheira a café e sabonete.

Rio baixo, encostando a testa na dela por um instante.

— Você perguntou se ela queria ser sua amiga — digo.

— Perguntei — ela confirma. — Amiga pode ficar.

A frase me atinge em cheio, não pela inocência, mas pela clareza.

— E se ela ficasse mais tempo com a gente? — arrisco. — Você ia gostar?

Lily não responde de imediato. Ela pensa, séria, ponderando com uma responsabilidade que não combina com cinco anos, e então dá um pequeno aceno afirmativo.

— Ia. — diz. — Mas só se ela quiser.

O cuidado nessa resposta me desmonta mais do que qualquer grito de torcida naquela noite.

— Só se ela quiser — repito.

Ela boceja de novo, agora sem resistência, os olhos pesados, o corpo afundando no colchão enquanto eu ajeito o cobertor uma última vez.

— Pai? — ela murmura, já quase dormindo.

— Oi, pequena.

— Diz pra ela que eu gostei.

Minha mão permanece ali, firme, guardando o sono dela, enquanto a respiração se acalma e a casa parece se ajustar ao ritmo daquela criança que ainda não sabe, mas já sente, quando algo bom está tentando entrar no nosso mundo.

***

O quarto está escuro demais para pensamentos que insistem em acender sozinhos, e eu fico deitado de costas, um braço jogado sobre os olhos, ouvindo o som distante da casa acomodando a noite, o ar-condicionado ligando e desligando, o estalo suave da madeira esfriando, como se tudo estivesse tentando me convencer a descansar.

Não funciona.

É sempre assim quando o dia termina carregado demais de coisas novas, porque o silêncio acaba puxando lembranças antigas, aquelas que nunca pedem licença antes de sentar ao meu lado.

Ela vem como vem sempre.

Não como dor aguda, não como tragédia, mas como presença, um contorno suave que se desenha no escuro do quarto, o jeito como ela costumava ocupar o outro lado da cama, deixando os travesseiros desalinhados e um cheiro leve que demorava a ir embora mesmo depois que as janelas ficavam abertas o dia inteiro.

Penso nela rindo baixo, daquele jeito que começava no peito antes de chegar à boca, penso no modo como ela falava com a Lily ainda na barriga, explicando o mundo como se estivesse contando um segredo importante demais para ser apressado, e sinto o peso familiar da saudade se acomodar onde já existe espaço reservado para ela.

Eu me pergunto o que ela diria sobre a noite de hoje.

Se acharia graça da Lily narrando a luta como se fosse uma história inventada, se repararia primeiro na minha vitória ou no fato de que eu observei uma ruiva desconhecida como quem encontra água no meio de um terreno seco demais.

Ela sempre percebeu essas coisas antes de mim.

Fecho os olhos e quase consigo ouvi-la dizendo que nem toda mudança precisa vir acompanhada de medo, que às vezes a vida só testa se a gente ainda sabe abrir a porta sem tentar controlar tudo antes.

Clara surge no meio desse pensamento sem pedir desculpa, o cabelo ruivo iluminado pela memória recente, o sorriso fácil, o cuidado silencioso com a Lily, e por um segundo eu sinto culpa, não por sentir algo novo, mas por perceber que a casa respirou diferente quando aquela possibilidade apareceu.

Não é substituição.

Nunca foi.

É continuidade, ainda que a palavra pareça grande demais para caber agora.

Viro de lado, encarando a parede, e deixo que a lembrança da minha esposa se assente com a mesma dignidade que sempre teve, sem disputa, sem comparação, apenas como parte de quem eu sou e de tudo o que construímos juntos.

Sussurro um agradecimento que ninguém escuta, nem sei exatamente para quem, talvez para ela, talvez para o tempo que passou, talvez para a coragem silenciosa de seguir em frente mesmo quando o caminho ainda parece borrado.

Quando finalmente o sono começa a chegar, não é pesado nem inquieto.

É um descanso cauteloso, desses que não prometem respostas, mas oferecem trégua, e pela primeira vez em muito tempo, eu adormeço com a sensação de que lembrar não dói tanto quando o futuro começa, ainda que timidamente, a pedir espaço ao lado das memórias.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • O Lutador e a Babá: Rendidos Pelo Amor de Uma Menina   Capítulo 50 - Clara

    A frase ainda ecoava na minha cabeça — vamos com calma — como se tivesse sido dita por outra pessoa, em outro momento, em outra versão de nós dois.Porque aquilo… aquilo já não era mais “calma”.Quando a porta se fechou atrás de nós, o som pareceu definitivo demais. Como se o mundo lá fora tivesse sido deixado de lado, e tudo o que restava fosse o espaço entre o meu corpo e o dele.Eu mal tive tempo de respirar.Ethan me puxou de volta antes que eu conseguisse atravessar a sala, como se a ideia de distância, por menor que fosse, simplesmente não fosse mais suportável. O beijo veio carregado — não apressado, mas inevitável. Como algo que já vinha sendo adiado há tempo demais.E eu não pensei.Ou talvez pensei, mas não com a parte de mim que ainda tentava ser responsável.Minhas mãos encontraram ele com uma facilidade assustadora, como se já conhecessem aquele caminho. Senti o calor do corpo dele, a firmeza, a forma como ele me segurava — não com pressa, mas com certeza. E isso me atrav

  • O Lutador e a Babá: Rendidos Pelo Amor de Uma Menina   Capitulo 49 - Ethan

    O caminho de volta parece mais curto do que deveria.Ou talvez seja só a minha cabeça que está cheia demais para prestar atenção na estrada, porque tudo o que aconteceu desde que acordamos ainda está reverberando em mim com uma força difícil de ignorar. A imagem da Lily entrando na sala, a trança, o sorriso dela… e, por trás disso tudo, Clara.Sempre Clara.Ela está no banco do passageiro, olhando pela janela por alguns segundos antes de desviar o olhar para frente, como se também estivesse organizando pensamentos que ainda não encontraram forma completa. O silêncio entre nós não é desconfortável, mas está longe de ser neutro.Ele está carregado.Eu sei disso.Ela sabe disso.E, dessa vez, eu não quero deixar passar.Quando paro o carro na garagem, desligo o motor, mas não saio imediatamente. Fico ali por um segundo, as mãos ainda apoiadas no volante, puxando o ar devagar como se estivesse me preparando para algo que já deveria ter sido dito antes.— Clara…Ela vira o rosto na minha d

  • O Lutador e a Babá: Rendidos Pelo Amor de Uma Menina   Capítulo 48 - Clara

    A escola tem aquele tipo de movimento que mistura energia e delicadeza ao mesmo tempo, como se cada criança carregasse um pequeno universo próprio que se encontra com outros no meio de corredores coloridos, paredes cheias de desenhos e vozes que nunca param completamente. É diferente da casa, diferente da rotina que a Lily conhece, mas não de um jeito assustador. Pelo contrário, há algo ali que convida, que acolhe, que parece pronto para recebê-la exatamente como ela é.E ela sente isso.Eu percebo na forma como a mão dela aperta a minha no começo, um gesto pequeno, quase automático, mas que aos poucos vai se soltando conforme avançamos pelo espaço. Os olhos dela observam tudo, curiosos, atentos, absorvendo cada detalhe como se estivesse montando um mapa interno daquele novo lugar.— É aqui? — ela pergunta, olhando para a porta da sala.— É aqui — respondo, me abaixando levemente para ficar na altura dela.— Você vai ficar?A pergunta vem mais baixa dessa vez.— Eu vou estar aqui fora

  • O Lutador e a Babá: Rendidos Pelo Amor de Uma Menina   Capítulo 47 - Ethan

    O primeiro dia de aula da Lily chega com um tipo de silêncio diferente dentro da casa, não vazio, mas carregado de expectativa, como se cada objeto estivesse atento, como se até as paredes soubessem que aquele era um daqueles momentos que marcam mais do que parecem à primeira vista. Eu acordo antes do despertador, um hábito antigo, mas dessa vez não é rotina que me tira da cama, é a consciência de que algo está mudando.Desço as escadas ainda com o peso leve do sono nos ombros, e o cheiro de café já preenche a cozinha, misturado ao som suave da voz da Clara vindo do andar de cima. Não consigo entender exatamente o que ela está dizendo, mas reconheço o tom, paciente, calmo, do jeito que ela sempre usa com a Lily, e isso já é suficiente para me fazer parar por um instante no último degrau.Eu observo.Sem entrar ainda.Sem anunciar presença.Há algo naquele som, naquela rotina que está sendo construída entre elas, que me prende mais do que deveria, como se eu estivesse assistindo a algo

  • O Lutador e a Babá: Rendidos Pelo Amor de Uma Menina   Capítulo 47 - Ethan

    O primeiro dia de aula da Lily chega com um tipo de silêncio diferente dentro da casa, não vazio, mas carregado de expectativa, como se cada objeto estivesse atento, como se até as paredes soubessem que aquele era um daqueles momentos que marcam mais do que parecem à primeira vista. Eu acordo antes do despertador, um hábito antigo, mas dessa vez não é rotina que me tira da cama, é a consciência de que algo está mudando.Desço as escadas ainda com o peso leve do sono nos ombros, e o cheiro de café já preenche a cozinha, misturado ao som suave da voz da Clara vindo do andar de cima. Não consigo entender exatamente o que ela está dizendo, mas reconheço o tom, paciente, calmo, do jeito que ela sempre usa com a Lily, e isso já é suficiente para me fazer parar por um instante no último degrau.Eu observo.Sem entrar ainda.Sem anunciar presença.Há algo naquele som, naquela rotina que está sendo construída entre elas, que me prende mais do que deveria, como se eu estivesse assistindo a algo

  • O Lutador e a Babá: Rendidos Pelo Amor de Uma Menina   Capítulo 46 - Clara

    Há um momento muito específico em que a resistência deixa de ser uma escolha racional e passa a ser apenas um gesto automático, quase mecânico, que já não encontra mais sustentação no que eu estou sentindo. Eu percebo esse momento com uma clareza quase desconcertante, como se algo dentro de mim simplesmente se rendesse ao que já vinha crescendo há dias, talvez semanas, silencioso, paciente, esperando o instante certo para tomar forma.Ethan não me dá espaço para esquecer.O toque dele não é apenas um toque, é presença, é intenção, é a forma como a mão dele se mantém firme na minha cintura como se reconhecesse exatamente o efeito que está causando. Quando os lábios dele percorrem meu pescoço, agora com mais segurança, mais lentos e mais conscientes do caminho que seguem, eu sinto um arrepio que não é só físico, é interno, profundo, como se cada centímetro de pele estivesse acordando ao mesmo tempo.Minha respiração se desorganiza sem que eu consiga controlar, e isso me irritaria em qua

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status