ログインcapítulo 2
Na manhã seguinte, Helena Martins acordou antes que o despertador tocasse, embora tivesse dormido poucas horas. Durante algum tempo, permaneceu deitada, olhando para o teto e tentando convencer a si mesma de que a conversa da madrugada não havia sido nada além de uma situação desagradável. Ainda assim, quanto mais tentava afastar aquela lembrança, mais claramente conseguia ouvir Rafael dizendo que Camila havia voltado para a cidade. Ela virou o rosto para o lado e encontrou o espaço vazio na cama. Rafael já havia saído, o que não chegava a ser uma novidade, mas naquela manhã o vazio parecia diferente. Helena ficou alguns segundos observando o travesseiro perfeitamente arrumado antes de se levantar. Tomou um banho demorado, escolheu uma roupa simples e desceu para o café da manhã, decidida a não permitir que uma mulher que nem sequer conhecia interferisse em sua rotina. Quando chegou à mesa, encontrou tudo preparado como acontecia todas as manhãs. Frutas, pães, café e sucos estavam dispostos com perfeição, embora quase sempre houvesse comida suficiente para alimentar uma família inteira. Helena sentou-se sozinha e tomou alguns goles de café enquanto olhava para o celular. Uma mensagem de Rafael havia acabado de chegar. — Vou chegar tarde hoje. Não me espere. Helena leu a mensagem duas vezes. Em outra época, teria perguntado o motivo, tentado descobrir o que havia acontecido ou lembrado que os dois tinham combinado jantar juntos. Naquela manhã, porém, seus dedos simplesmente se moveram sobre a tela. — Tudo bem. Ela bloqueou o celular e continuou tomando café. A simplicidade daquela resposta a surpreendeu, porque pela primeira vez percebeu que não sentira vontade de discutir, insistir ou cobrar atenção. Havia apenas uma espécie de cansaço que começava a ocupar um espaço cada vez maior dentro dela. Depois do café, Helena passou boa parte da manhã trabalhando no pequeno escritório que mantinha dentro da mansão. Não dependia financeiramente de Rafael, embora muitas pessoas acreditassem que sua vida se resumisse ao dinheiro da família Almeida. Alguns anos antes, havia criado uma pequena empresa de decoração e, apesar de não precisar daquele trabalho para sobreviver, gostava da sensação de construir alguma coisa que fosse realmente sua. Naquele dia, entretanto, sua concentração estava longe de ser perfeita. Sempre que tentava analisar um projeto, a imagem de Rafael olhando para o celular na madrugada voltava à sua mente. Não era apenas a mensagem de Camila que a incomodava, mas principalmente a expressão que havia surgido no rosto dele ao ver aquele nome. Perto do meio-dia, Helena decidiu sair de casa. Precisava resolver algumas coisas no escritório e também queria respirar longe daquela mansão silenciosa. Antes de entrar no carro, recebeu uma ligação de Júlia, sua melhor amiga, que imediatamente percebeu que havia alguma coisa errada em sua voz. — Você desapareceu. Está tudo bem? Helena fechou a porta do carro e tentou sorrir. — Está. Do outro lado da linha, Júlia ficou alguns segundos em silêncio antes de responder. — Essa resposta foi tão convincente que eu quase acredito. Helena soltou uma risada baixa. — Só estou cansada. — Cansada ou preocupada? Helena permaneceu em silêncio por alguns segundos. Júlia conhecia seu casamento desde o início e era uma das poucas pessoas que haviam percebido que aquela relação não era tão perfeita quanto parecia nas fotografias. — Rafael chegou tarde ontem. — Isso não é novidade. Helena respirou fundo antes de revelar o que realmente estava incomodando. — Camila voltou. O silêncio do outro lado da linha foi imediato. — Camila Duarte? — Sim. — Quando? — Rafael disse que ela voltou ontem. Júlia soltou o ar lentamente. — E ele falou alguma coisa sobre ela? Helena apoiou a cabeça no banco e olhou para o teto do carro. — Disse que eles têm assuntos para resolver. A voz de Júlia ficou mais cuidadosa. — Helena... — Eu sei. — Você sabe o quê? Helena olhou pela janela. — Não sei. Esse é justamente o problema. Depois de desligar, ela permaneceu alguns segundos dentro do carro sem ligar o motor. Sabia que poderia estar exagerando. Camila poderia realmente ser apenas uma pessoa do passado de Rafael que havia retornado à cidade por motivos que nada tinham a ver com sentimentos. Talvez houvesse negócios entre as famílias, algum problema relacionado a antigos conhecidos ou qualquer outra explicação perfeitamente racional. Mas então por que Rafael havia ficado daquele jeito? O pensamento permaneceu com Helena durante toda a tarde. No início da noite, enquanto jantava com uma cliente em um restaurante, percebeu uma movimentação próxima à entrada. Algumas pessoas começaram a olhar discretamente para uma mulher que acabara de entrar acompanhada por outras duas pessoas. Helena não prestou atenção imediatamente, até ouvir alguém mencionar aquele nome. — Camila Duarte. Seu corpo ficou imóvel. Ela levantou os olhos e viu a mulher que havia acabado de entrar. Camila era elegante, segura e possuía aquele tipo de presença que fazia as pessoas naturalmente abrirem espaço. Seus cabelos escuros caíam sobre os ombros, enquanto o vestido sofisticado que usava chamava atenção sem parecer exagerado. Ela caminhava pelo salão com uma segurança que fazia parecer que conhecia aquele lugar havia anos. Helena nunca havia conhecido aquela mulher pessoalmente, mas naquele instante entendeu por que Rafael havia ficado diferente ao ouvir seu nome. Camila olhou para o outro lado do salão e seus olhos encontraram os de Helena. Durante alguns segundos, nenhuma das duas desviou o olhar. Então Camila sorriu discretamente e mudou de direção, caminhando diretamente até a mesa. Helena se levantou por educação quando ela parou diante dela. — Helena Martins? — Sim. Camila sorriu. — Finalmente nos conhecemos. Helena tentou manter a expressão tranquila. — Você já sabia quem eu era? — Claro. Rafael fala de você. Aquelas palavras provocaram uma sensação estranha em Helena. — Ele fala? — Às vezes. Camila inclinou ligeiramente a cabeça enquanto observava Helena. — Afinal, vocês estão casados há seis anos. Helena não soube imediatamente o que responder. Camila então desviou os olhos para a aliança em sua mão e permaneceu alguns segundos observando o anel. — Seis anos é bastante tempo. Helena sustentou o olhar dela. — É. O sorriso de Camila diminuiu um pouco. — Deve ter sido uma vida interessante. Helena não desviou os olhos. — Foi. Camila pareceu analisar aquela resposta antes de sorrir novamente. — Espero que continue sendo. Antes que Helena pudesse perguntar o que aquela frase significava, alguém chamou Camila do outro lado do restaurante. Ela olhou por cima do ombro e depois voltou a atenção para Helena. — Foi um prazer conhecê-la. — Igualmente. Camila se afastou, deixando Helena acompanhá-la com os olhos até que desaparecesse entre os outros clientes. Júlia, que havia permanecido em silêncio durante todo o encontro, aproximou-se e esperou alguns segundos antes de falar. — Você percebeu? Helena voltou a se sentar. — O quê? — Ela sabia exatamente quem você era. Helena olhou na direção em que Camila havia desaparecido. — Ela é amiga do Rafael há muitos anos. Júlia negou discretamente com a cabeça. — Não estou falando disso. Ela estava te observando antes mesmo de vir falar com você. Helena não respondeu porque havia percebido a mesma coisa. Havia algo no modo como Camila a encarara que não parecia simples curiosidade. Era como se estivesse conferindo alguma coisa que já sabia. Naquela noite, quando voltou para casa, encontrou Rafael na sala. Ele estava sentado no sofá, com o celular na mão, e levantou os olhos assim que ouviu a porta se fechar. Helena deixou a bolsa sobre uma mesa próxima e tirou o casaco antes de se aproximar. — Onde você estava? — Jantando. — Com quem? A pergunta saiu depressa demais, e Rafael pareceu perceber isso imediatamente. — Com uma cliente. Ele assentiu, mas continuou observando-a. Helena poderia simplesmente subir para o quarto, porém decidiu fazer a mesma pergunta que ele havia feito. — Encontrei Camila hoje. A expressão de Rafael mudou no mesmo instante. — Onde? — Em um restaurante. Ele se levantou. — Ela falou com você? Helena observou a preocupação surgir no rosto dele. — Falou. — O que ela disse? A pergunta veio tão rapidamente que Helena demorou alguns segundos para responder. — Por que você quer saber? Rafael pareceu perceber o próprio tom e tentou recuperar a calma. — Só quero saber. Helena continuou olhando para ele. — Ela disse que já sabia quem eu era. Rafael desviou o olhar. — E disse que você fala de mim. Ele permaneceu calado. Helena deu um passo na direção dele. — Você fala de mim para ela? Rafael passou a mão pela nuca, evitando encará-la diretamente. — Helena... Ela manteve a voz tranquila. — Eu só fiz uma pergunta. Rafael finalmente levantou os olhos. — Não há nada que você precise saber. A resposta fez Helena sentir uma pontada no peito, mas ela não demonstrou. Apenas assentiu e se afastou lentamente. — Entendi. Enquanto subia as escadas, Helena percebeu que alguma coisa havia mudado. Ainda não sabia exatamente o que era, mas já não conseguia olhar para o próprio casamento da mesma maneira. Camila havia voltado para a cidade e, em poucas horas, conseguira fazer Helena perceber algo que talvez estivesse escondido havia muito tempo: Rafael tinha uma parte da vida que nunca compartilhara com ela. E, pela primeira vez em seis anos, Helena começou a se perguntar se o problema do seu casamento não era apenas a falta de amor, mas tudo aquilo que Rafael havia escolhido não contar.CAPÍTULO 21 | A ASSINATURA DE LÚCIA Helena A frase continuava presa na minha cabeça. “Não confie no Rafael.” Olhei para ele. Rafael estava parado diante de mim, imóvel demais. Meu coração batia rápido. Não era apenas medo. Era aquela sensação horrível de estar diante de alguém que sabia exatamente o que estava acontecendo, enquanto eu continuava recebendo as verdades aos pedaços. Rafael: “Helena, não atende mais esse número.” Helena: “Por quê?” Ele hesitou. Helena: “Você conhece essa pessoa?” Rafael desviou os olhos por um segundo. Foi o suficiente. Helena: “Conhece.” Rafael: “Não é tão simples.” Helena: “Nunca é simples quando você está envolvido.” Ele se aproximou. Rafael: “Eu estou tentando manter você viva.” Helena: “E eu estou tentando descobrir por que preciso ser mantida viva.” Ele parou. Dessa vez, não respondeu. Aquilo me irritou mais do que qualquer mentira. Peguei minha bolsa sobre a mesa. Rafael: “Onde você vai?” Helena: “Descobrir a verdade.” Ra
CAPÍTULO 20 - A PROVA QUE RAFAEL ESCONDEU Helena O silêncio de Rafael respondeu antes dele. Ele estava com meu pai. Uma hora antes do acidente. Meu coração parecia bater contra as costelas. — Você estava com ele. Rafael respirou fundo. — Sim. — Por quê? — Porque ele me chamou. — Para quê? Ele olhou para minha mãe. — Nós precisamos conversar em outro lugar. Soltei uma risada amarga. — Não. Apontei para o celular. — Eu cansei de descobrir pedaços da minha vida por mensagens de desconhecidos. Rafael se aproximou. — Eu ia contar. — Quando? — Hoje. — Depois que eu descobrisse sozinha? Ele ficou em silêncio. — O que meu pai entregou a você naquela noite? Rafael passou a mão pelo rosto. — Um envelope. — O mesmo envelope que você mencionou antes? — Sim. — E onde está? Ele hesitou. Meu coração afundou. — Rafael. — Eu ainda tenho. — Onde? — Em um lugar seguro. — Quero ver. — Helena... — Agora. Ele me encarou por alguns segundos. Então tirou a carteira do
CAPÍTULO 19 - A FILHA QUE DEVERIA ASSUMIR MEU LUGAR Helena Meu corpo inteiro ficou gelado. Continuei olhando para a fotografia. Minha mãe estava ao lado da minha cama. E, atrás dela, estava Heloísa. Minha irmã. Mais jovem. Assustada. Viva. Naquela noite. No mesmo hospital onde eu quase morri. Rafael tirou o celular da minha mão. — Helena... — Não. Puxei o aparelho de volta. — Não fala nada. Ele parou. Ampliei a fotografia novamente. Heloísa estava parcialmente escondida atrás da porta. Mas era impossível confundir. Aquele era o meu rosto. O meu cabelo. Os meus olhos. A diferença era que ela parecia apavorada. — Por que ela estava aqui? Rafael respirou fundo. — Eu não sei. Olhei para ele. — Você sabe. — Eu descobri essa fotografia muito depois. — E guardou para você. — Eu não sabia o que significava. — Mas sabia que ela estava naquele hospital. — Sim. Minha garganta apertou. — Quantas coisas você ainda sabe? Rafael não respondeu. Virei para Camila.
CAPÍTULO 18 - O SEGUNDO RELATÓRIO Helena Aquela frase não saía da minha cabeça. A filha certa precisa sobreviver. Fiquei olhando para o papel enquanto sentia meu coração bater cada vez mais rápido. Rafael continuava diante de mim. — Você precisa me contar tudo. Ele respirou fundo. — Eu vou. — Não. Você vai contar agora. — Helena, você acabou de recuperar uma lembrança. Não sabemos se ela está completa. — Então me ajude a lembrar. Ele ficou em silêncio. — O que aconteceu naquela noite? Rafael passou a mão pelos cabelos. — Você estava no carro com seu pai. Meu corpo ficou tenso. — Eu estava com ele? — Sim. — E quem estava dirigindo? Rafael hesitou. — Seu pai. Fechei os olhos. Por alguns segundos, tentei lembrar. Uma luz. Uma estrada. Um barulho forte. Depois, escuridão. Levei a mão à cabeça. — Eu lembro de uma voz. Rafael se aproximou. — De quem? — Não sei. — Homem ou mulher? — Mulher. Camila ficou imóvel. — O que ela dizia? Respirei fundo. A lembra
CAPÍTULO 17 - O QUE ACONTECEU AOS QUINZE ANOS Helena Rafael sabia. Aquela certeza foi pior do que a mensagem. Pior do que o documento. Pior até do que descobrir que alguém havia usado meu nome quando eu ainda era uma adolescente. Ele sabia. Fiquei olhando para ele, esperando uma explicação. Uma palavra. Qualquer coisa. Mas Rafael permaneceu em silêncio. — O que aconteceu comigo aos quinze anos? Ele desviou o olhar. Meu coração apertou. — Rafael, eu fiz uma pergunta. — Eu não posso responder isso agora. Senti uma raiva subir pelo meu peito. — Não pode? Aproximei-me dele. — Ou não quer? — Helena... — Se você disser que está tentando me proteger, eu juro que vou embora agora. Ele ficou imóvel. Camila observava os dois. — Rafael, ela precisa saber. Ele passou a mão pelo rosto. — Eu sei. — Então fala. Ele olhou para mim. — Aos quinze anos, você sofreu um acidente. O mundo pareceu parar. — O quê? — Um acidente de carro. Balancei a cabeça. — Eu nunca sofri u
CAPÍTULO 16 - A ASSINATURA IMPOSSÍVEL Helena Aquelas palavras continuavam martelando na minha cabeça. Antes de você completar dezoito anos. Eu olhei novamente para o documento. Minha assinatura estava ali. Perfeita. Igual à que eu usava anos depois. — Isso não pode ser verdade. Rafael permaneceu parado diante de mim. — Eu sei. — Então prove. Ele franziu a testa. — Como? — Descobrindo quem fez isso. Peguei o documento. — E não quero ouvir mais que você está tentando me proteger. Rafael se aproximou. — Helena... — Não. Levantei a mão. — Durante seis anos, você decidiu o que eu deveria saber. Agora acabou. Ele parou. Vi algo diferente no olhar dele. Medo. Não era medo de mim. Era medo do que aquele documento poderia revelar. — Você sabia que existia uma cláusula envolvendo meu nome? — Sabia. Meu peito apertou. — Desde quando? Rafael demorou alguns segundos para responder. — Antes do nosso casamento. — Quanto tempo antes? Ele respirou fundo. — Alguns mes







