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2- BORDEAUX

Author: Bruna Marques
last update publish date: 2026-09-03 14:28:24

Três anos antes…

O relógio marcava quase meia-noite quando Catherine Gagnon pousou a última bandeja no balcão.

A discoteca Le Rouge, uma das mais conhecidas de Bordeaux, encontrava-se completamente cheia. A música fazia vibrar as paredes, luzes coloridas percorriam a pista de dança e as gargalhadas misturavam-se com o tilintar dos copos.

Para Catherine, porém, era apenas mais uma noite de trabalho.

Durante o dia terminava a licenciatura em Marketing. À noite, servia bebidas para pagar os estudos e ajudar os pais nas despesas da casa.

— Cathy! Mesa VIP! — gritou o gerente

— Já vou! – respondeu ela e supirou

Prendeu uma madeixa do longo cabelo castanho atrás da orelha, pegou no tabuleiro e dirigiu-se ao reservado.

Foi então que o viu.

Sentado num dos sofás de pele escura estava um homem alto, de cabelos negros cuidadosamente despenteados e olhos tão escuros quanto a noite. Vestia um fato azul-marinho perfeitamente ajustado e tinha uma presença impossível de ignorar.

Ao lado dele encontrava-se um homem ligeiramente mais velho, de óculos discretos, que consultava alguns documentos enquanto conversava em italiano.

— Boa noite. O que desejam beber? — perguntou Catherine no seu francês suave.

O homem mais velho respondeu imediatamente.

— Dois whiskies de malte, por favor – disse sem olhar para ela e ela anotou o pedido.

Quando se preparava para sair, sentiu o olhar do desconhecido sobre si.

Ergueu os olhos.

Durante um instante, nenhum dos dois disse uma palavra.

Os olhos cor de mel dela encontraram os dele.

E o mundo pareceu desaparecer.

— Máximo? – disse o homem mais velho e a voz do companheiro trouxe-o de volta à realidade.

— Sim... desculpe – respondeu ele e Donatello sorriu discretamente.

— Nunca o vi ficar sem palavras por causa de uma mulher – disse Donatello a olhar para Máximo que continuava a olhar para a jovem que se afastava em direção ao bar.

— Nem eu – disse Máximo sem pestanejar

— Quem eram aqueles da mesa VIP? — perguntou Sophie, outra empregada, enquanto preparavam os pedidos.

— Não faço ideia – respondeu Catherine

— O moreno não tirava os olhos de ti – disse Sophie e Catherine riu-se.

— Devia estar distraído – disse Catherine sem dar importância ao que a colega dizia

— Ou completamente fascinado – disse Sophie e ela abanou a cabeça.

— Homens como aquele não olham duas vezes para raparigas como eu – disse Catherine enquanto trabalhava

— E porque não? – perguntou Sophie a olhar para ela

— Porque vivem num mundo completamente diferente – disse Catherine e serviu os copos e regressou ao reservado.

Ao aproximar-se, ouviu parte da conversa em italiano.

Não compreendia tudo, mas percebeu palavras como hotel, investimento e Milano.

Colocou as bebidas sobre a mesa.

— Aqui têm – disse ela

— Merci — respondeu Donatello.

Mas o outro homem continuava em silêncio.

Até que falou num francês carregado de sotaque italiano.

— Como se chama? – perguntou Máximo e ela piscou os olhos.

— Desculpe? – perguntou ela não percebendo

— O seu nome – disse Máximo sem tirar os olhos dela

— Catherine – disse ela e ele sorriu.

Era um sorriso tranquilo. Sincero.

— Eu sou Máximo – disse ele e ela assentiu educadamente.

— Prazer – respondeu ela e antes que pudesse afastar-se, ele voltou a falar

— É de Bordeaux? – perguntou ele

— Nasci aqui – disse ela

— É uma cidade bonita – disse ele com um sorriso nos lábios

— Concordo – respondeu Catherine com um sorriso tímido

— Mas acho que acabou de ficar ainda mais bonita – disse Máximo e Catherine corou imediatamente.

Não estava habituada a elogios tão diretos.

— Deve usar essa frase muitas vezes – disse ela e Máximo soltou uma gargalhada baixa.

— Curiosamente... é a primeira vez – disse ele

Ela sorriu, sem conseguir evitar.

— Então precisa de praticar – disse ela e afastou-se antes que ele pudesse responder.

Donatello observou o filho do patrão durante alguns segundos.

— Nunca o vi assim – disse ele

— Como? – perguntou Máximo

— Interessado por uma mulher tão simplória – disse Donatello com algum desdém

Máximo manteve os olhos na pista de dança.

— Ela é diferente – disse Máximo

— Conhece-a há menos de cinco minutos – disse Donatello

— Às vezes basta um segundo – disse Máximo e Donatello suspirou.

Conhecia Máximo desde jovem.

Sabia que o jovem era sedutor, divertido e habituado a conquistar mulheres com facilidade.

Mas também sabia reconhecer quando algo era diferente.

E aquele olhar nunca o tinha visto nos olhos dele.

A noite passou rapidamente.

Já passavam das três da manhã quando a música começou a diminuir.

Os clientes saíam aos poucos.

Catherine respirou de alívio.

Estava exausta.

Enquanto limpava uma das mesas, ouviu uma voz atrás de si.

— Posso fazer-lhe uma pergunta? – perguntou ele e ela voltou-se.

Era ele.

Máximo.

Já sem o casaco do fato e com as mangas da camisa arregaçadas.

Parecia ainda mais bonito.

— Claro – perguntou ela

— A que horas termina o seu turno? – perguntou ele e ela franziu ligeiramente a testa.

— Porque quer saber? – perguntou ela

— Porque gostava de a convidar para tomar um café – disse ele e ela sorriu, divertida.

— Um café? – perguntou ela

— Sim – respondeu ele

— Às três e meia da manhã? – disse ela num tom de pergunta, mas com uma leve ironia

Ele encolheu os ombros.

— Em Itália há cafés abertos a qualquer hora – disse ele e ela riu.

— Aqui não – disse ela e durante alguns segundos permaneceram em silêncio — Além disso... não costumo aceitar convites de homens que conheço há menos de uma hora – disse ela

— Então aceita de homens que conhece há duas? – perguntou ele com um tom divertido e ela soltou outra gargalhada.

— É persistente – disse ela

— Muito – respondeu ele

— Isso costuma resultar? – perguntou ela

— Hoje espero que sim – disse ele com sinceridade e ela mordeu discretamente o lábio inferior.

Havia qualquer coisa nele que a deixava curiosa.

Não era apenas bonito.

Havia uma serenidade no seu olhar que contrastava com a confiança que transmitia.

— Vai ficar muitos dias em Bordeaux? – perguntou ela

— Talvez uma semana, duas, não sei – disse ele

— Nesse caso... – disse ela e fez uma pequena pausa — Se continuar interessado daqui a uma semana... talvez aceite esse café – disse ela e Máximo sorriu como uma criança que acabara de receber a melhor notícia do mundo.

— Então voltarei amanhã – disse ele

— Eu trabalho – disse ela

— Ainda melhor – respondeu ele e ela abanou a cabeça, divertida.

— Boa noite, senhor italiano – disse ela

— Boa noite... Catherine – disse ele a sorrir

Enquanto o via afastar-se, Catherine não conseguiu explicar a estranha sensação que lhe apertava o peito.

Não fazia ideia de que aquele homem iria transformar completamente a sua vida.

E Máximo, ao sair da discoteca para a fresca noite de Bordeaux, tinha apenas uma certeza.

Pela primeira vez em vinte e nove anos, desejava voltar a um lugar apenas para voltar a ver uma mulher.

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