FAZER LOGINTrês anos antes…
Na noite seguinte, Catherine encontrou-se a olhar para a porta da discoteca mais vezes do que gostaria de admitir. Era ridículo. Tinha conhecido Máximo na noite anterior. Falara com ele durante, talvez, dez minutos. E, ainda assim, desde que acordara naquela manhã, uma pergunta insistia em ocupar-lhe os pensamentos. — Estás à espera de alguém? — perguntou Sophie, colocando algumas garrafas no frigorífico. Catherine levantou os olhos depressa. — Não – respondeu ela e Sophie sorriu. — Então sabes que tens estado a olhar para a porta desde que chegaste – disse Sophie — Estou apenas cansada – respondeu Catherine — Claro – disse Sophie e Catherine revirou os olhos e voltou ao trabalho. Tentou concentrar-se. Não conseguiu. Até que, pouco depois da meia-noite, a porta da discoteca abriu. E ele entrou. Máximo. Desta vez, estava sozinho. Vestia umas calças escuras e uma camisa branca com os primeiros botões abertos. Trazia o cabelo ligeiramente desalinhado, como se tivesse passado a mão por ele várias vezes. Os olhos dele encontraram imediatamente os dela. E o sorriso que surgiu no rosto de Máximo fez o coração de Catherine dar um salto. Ele aproximou-se do bar. — Boa noite, Catherine – disse ele com um sotaque italiano Ela tentou manter a expressão profissional. — Boa noite, Máximo – disse ela — Estava a começar a pensar que não trabalhava hoje – disse ele — E teria sido uma tragédia? – perguntou ela a olhar para ele — Absolutamente – disse ele e ela tentou esconder o sorriso. — O que vai beber? – perguntou ela — O mesmo que ontem – respondeu ele — Whisky? – perguntou ela — Não – disse ele e inclinou-se ligeiramente sobre o balcão — Aquilo que me der vontade de ficar mais tempo – disse ele e Catherine soltou uma pequena gargalhada. — Não tenho essa bebida – disse ela — Então vou ter de ficar até descobrir qual é – disse ele e ela abanou a cabeça. — É sempre assim tão convencido? – perguntou ela a sorrir — Só quando estou nervoso – disse ele A resposta apanhou-a desprevenida. — Nervoso? – perguntou ela e Máximo sorriu. — Sim – respondeu ele a sorrir — Não parece – disse ela a olhar para ele — Talvez seja porque estou a fazer um esforço enorme para não parecer – disse ele e durante alguns segundos, ficaram simplesmente a olhar um para o outro. Havia qualquer coisa entre eles. Uma tensão silenciosa que Catherine não sabia explicar. E, pela primeira vez, percebeu que talvez não fosse apenas ela a sentir. As horas passaram. Máximo permaneceu na discoteca durante toda a noite. Conversou com Catherine sempre que ela tinha alguns minutos livres, perguntou-lhe sobre os estudos, sobre a família, sobre os sonhos que tinha para o futuro. Ela descobriu que ele tinha vinte e nove anos, que nascera em Milão, que pertencia a uma família extremamente rica e que trabalhava na empresa hoteleira dos pais. Descobriu também que, apesar da imagem sofisticada, Máximo tinha um lado descontraído que a fazia rir constantemente. Ele, por sua vez, parecia querer saber tudo sobre ela. — Porque escolheste Marketing? — perguntou ele, quando Catherine se sentou ao seu lado durante uma pausa. — Gosto de perceber as pessoas – disse ela — E já me percebeste? – perguntou ele e ela olhou para ele. — Ainda não – disse ela — É assim tão difícil? – perguntou ele a sorrir — Muito – respondeu ela — Posso ajudar – disse ele e ela franziu o sobrolho — Como? – perguntou ela curiosa e Máximo aproximou-se ligeiramente. — Fazendo perguntas – disse ele com um tom misterioso — E se eu não gostar das respostas? – perguntou ela — Então pode continuar a perguntar – disse ele e Catherine sorriu. Era perigoso. Ela sabia disso. Aquele homem tinha uma maneira de a fazer esquecer todas as razões pelas quais deveria manter distância. Quando o relógio marcou três e meia da manhã, a música começou finalmente a diminuir. Catherine despediu-se dos últimos clientes e regressou ao balcão. Máximo levantou-se. — Finalmente – disse ele e ela franziu o sobrolho — Finalmente posso convidá-la para tomar aquele café – disse ele e ela sorriu. — Lembra-se? – perguntou ela com espanto — Eu lembro-me de tudo o que me diz – disse ele e Catherine hesitou. Durante alguns segundos, pensou em recusar. Mas alguma coisa dentro dela queria saber o que aconteceria se dissesse que sim. — Está bem – disse ela e o sorriso dele iluminou-lhe o rosto. — A sério? – perguntou ele — Não me faça arrepender – disse ela — Prometo – disse ele Bordeaux estava silenciosa àquela hora. As ruas tinham poucos carros e o ar noturno trazia consigo uma brisa fresca. Catherine caminhava ao lado de Máximo, abraçada ao próprio corpo. — Está com frio? — perguntou ele — Um pouco – respondeu ela e sem hesitar, Máximo tirou o casaco e colocou-o sobre os ombros dela. Catherine olhou para ele. — Obrigada – disse ela — De nada – respondeu ele e continuaram a caminhar. Catherine contou-lhe histórias da infância, falou dos pais e dos seus planos depois da universidade. Quando finalmente saíram do café, o céu começava a clarear muito ligeiramente no horizonte. — Acho que esta foi a minha melhor decisão desde que cheguei a Bordeaux — disse Máximo — Tomar café às quatro da manhã? – perguntou ela a sorrir — Conhecer-te – disse ele e Catherine baixou os olhos — Não diga coisas assim – disse ela com o rosto vermelho — Porquê? – perguntou ele — Porque não sei o que responder – disse ela e Máximo parou de caminhar. Ela deu mais dois passos antes de perceber que ele já não estava ao seu lado. Ele estava parado a poucos metros. — O que foi? – perguntou ela — Nada – respondeu ele Máximo aproximou-se lentamente. Catherine permaneceu imóvel. O coração batia-lhe tão depressa que tinha a certeza de que ele conseguia ouvi-lo. Quando Máximo ficou diante dela, levantou a mão e afastou delicadamente uma madeixa de cabelo que lhe caíra sobre o rosto. O toque foi tão suave que Catherine quase fechou os olhos. — Catherine... – murmurou Máximo — Posso fazer uma coisa? – perguntou ele e ela engoliu em seco. — Que coisa? – perguntou ela e Máximo olhou para os lábios dela durante um breve instante antes de voltar aos seus olhos. — Beijar-te – disse ele e o mundo pareceu ficar silencioso. Catherine podia simplesmente afastar-se, mas aproximou-se ligeiramente. Foi tudo o que Máximo precisou. Ele inclinou o rosto e tocou os lábios nos dela. O beijo foi inicialmente delicado. Quase uma pergunta. Um toque breve, cuidadoso, como se ambos tivessem medo de quebrar alguma coisa. Catherine fechou os olhos. Quando se afastaram por um segundo, ficaram tão próximos que as testas permaneceram encostadas. Ela abriu os olhos. — Acho que vou precisar de confirmar – disse ele e Catherine riu baixinho. — Confirmar o quê? – perguntou ela — Se foi tão bom quanto pareceu – disse ele e antes que ela pudesse responder, ele voltou a beijá-la. Desta vez, Catherine não hesitou. Passou os braços à volta do pescoço dele, enquanto Máximo segurava delicadamente a cintura dela. O beijo tornou-se mais intenso, mas continuava carregado de ternura. Não havia pressa. Apenas a descoberta. Quando finalmente se afastaram, Catherine permaneceu alguns segundos com os olhos fechados. — Isto foi uma péssima ideia — murmurou ela — Porque? – perguntou ele — Porque agora vou querer outra vez – disse ela — Então temos um problema – disse ele — Qual? – perguntou ela — Eu também – disse ele e Catherine abriu os olhos. E naquele instante percebeu que estava em perigo. Não por causa dele. Mas por causa daquilo que começava a sentir. Máximo aproximou os lábios do ouvido dela. — Amanhã? – perguntou ele e ela sorriu. — Amanhã – disse ela — Promete? – perguntou ele e Catherine afastou-se lentamente, ainda usando o casaco dele. Máximo olhou para a peça sobre os ombros dela. — Podes ficar com ele – disse ele — Porquê? – perguntou ela — Para ter uma desculpa para voltar – disse ele e piscou o olho para ela Catherine sorriu.Mário nunca tinha prestado verdadeira atenção a Catherine.Até ela entrar na vida dos Santoro.Antes, para ele, era apenas a mulher que tinha desaparecido anos atrás e que, de repente, reaparecera com um filho que se parecia demasiado com Máximo.Uma complicação.Mais um problema para a família.Mas, quando começou a vê-la diariamente pelos corredores da empresa, alguma coisa mudou.Catherine não precisava de fazer esforço para chamar atenção.Era a forma como caminhava, sempre segura apesar dos olhares.A maneira como falava nas reuniões.A inteligência com que desmontava um problema sem levantar a voz.E havia a beleza.Uma beleza que Mário começou a notar demasiado.Naquela manhã, viu-a sair do elevador.Usava um vestido simples e um casaco claro. Trazia alguns documentos nas mãos e falava com um dos responsáveis do departamento.Mário parou.Ficou a observá-la.— Então é verdade — murmurou.O funcionário que estava ao lado dele olhou.— O quê? – perguntou o funcionário que o acomp
Catherine passou mais tempo diante do espelho naquela manhã do que gostaria de admitir.Não porque estivesse preocupada com a roupa.Nem com o cabelo.Estava preocupada com o que iria encontrar quando entrasse naquela sala.Era a primeira reunião importante desde que assumira oficialmente o cargo de Diretora de Marketing do Grupo Santoro.E sabia que seria observada.Não apenas pelos membros da direção.Por todos.Desde que a sua chegada à empresa tinha sido anunciada, os comentários não tinham parado.A mulher de Máximo.A mãe de Émile.A francesa que apareceu do nada.A responsável pelo escândalo que abalou o grupo.A amante.A mulher que tinha destruído o casamento de Máximo.Pouco importava que nenhuma dessas descrições fosse justa.As pessoas repetiam aquilo que ouviam.E Catherine começava a perceber que, numa empresa daquela dimensão, os rumores podiam ser mais perigosos do que qualquer número num relatório.Máximo entrou no quarto enquanto ela terminava de apertar o relógio.—
O telefone tocou às oito da manhã.Máximo estava no escritório, diante da janela, quando viu o nome do advogado no ecrã.Atendeu imediatamente.— Então? – perguntou MáximoDo outro lado, houve alguns segundos de silêncio.— Está concluído – respondeu o advogadoMáximo fechou os olhos.Por um instante, não conseguiu dizer nada.— O divórcio foi oficialmente finalizado — continuou o advogado — A decisão já foi registada, legalmente, deixou de ser marido de Andreia D’Angelo – disse e Máximo soltou o ar que parecia estar a prender há anos.— Finalmente – disse MáximoAquela palavra saiu baixa.Quase como uma confissão.Finalmente.Não era apenas o fim de um casamento que nunca deveria ter acontecido.Era o fim de uma obrigação.De uma mentira.De uma vida construída por outras pessoas.— Há mais alguma coisa que precise de assinar? — perguntou.— Apenas alguns documentos administrativos, o essencial está terminado – disse o advogadoMáximo agradeceu e desligou.Ficou alguns segundos sozin
Na primeira manhã de Catherine como Diretora de Marketing do Grupo Santoro, ela acordou antes do despertador.Ficou alguns segundos deitada, a olhar para o teto.Era o primeiro dia.Não como mulher de Máximo.Não como mãe de Émile.Como profissional.Era isso que repetia mentalmente enquanto se vestia.Tinha escolhido um fato simples, elegante, sem nada que pudesse chamar demasiado a atenção. Queria entrar naquela empresa e ser julgada pelo trabalho.Não pelo apelido.Não pela relação com Máximo.E muito menos pelo filho que tinham em comum.Quando chegou ao edifício do Grupo Santoro, percebeu imediatamente que seria mais difícil do que imaginara.As pessoas olhavam.Algumas discretamente.Outras nem sequer tentavam esconder.Catherine saiu do elevador e caminhou pelo corredor principal com uma pasta junto ao peito.— É ela? – perguntou uma funcionária— É – respondeu outra— A namorada do Máximo? – perguntou um funcionário— A mãe do filho dele – disse outro— Dizem que foi por isso
Catherine passou a noite quase sem dormir.A proposta de Pietro Santoro continuava a ecoar-lhe na cabeça.Diretora de Marketing do Grupo Santoro.Ainda lhe parecia estranho dizê-lo em voz alta.Não por causa do cargo. Catherine sabia o que valia. Sabia o que tinha estudado, o que tinha aprendido nos últimos anos e, sobretudo, sabia que não tinha chegado até ali por acaso.O problema era tudo o que vinha agarrado àquela oportunidade.O apelido Santoro.Máximo.A imprensa.A guerra com os D’Angelo.As pessoas que já tinham tentado destruir a sua reputação.E, acima de tudo, Émile.Na manhã seguinte, Catherine encontrou Máximo na cozinha da casa, sentado à mesa enquanto Émile tomava o pequeno-almoço à sua frente.— Mais uma colher — dizia Máximo, divertido.— Não quero – dizia Émile— Só mais uma – pedia Máximo— Não – dizia Émile— Duas? – perguntava Máximo e Émile olhou para ele com desconfiança.— Não – respondia Émile e Máximo riu.— Tens mesmo o feitio da tua mãe – dizia Máximo a ri
Máximo estava há quase três horas diante do mesmo ecrã.As imagens da nova campanha estavam espalhadas pela mesa.Fotografias.Slogans.Propostas de vídeo.Estudos de mercado.Previsões de vendas.Tudo parecia tecnicamente perfeito.E, ainda assim, havia qualquer coisa errada.Máximo recostou-se na cadeira e fechou os olhos.— Não funciona – disse MáximoNicolo, sentado do outro lado da sala, levantou os olhos do computador.— A campanha? – perguntou Nicolo— Sim – disse Máximo— Os números dizem o contrário – disse Nicolo— Os números ainda não viram a campanha – disse Máximo e Nicolo sorriu.— Esse é o problema de trabalhar contigo, consegues encontrar problemas onde ninguém vê nenhum – disse Nicolo e Máximo ignorou a provocação.— Estamos a tentar vender uma experiência – disse Máximo e apontou para o ecrã — Mas isto parece uma campanha para vender quartos – disse Máximo— É uma campanha para hotéis – disse Nicolo— Precisamente – disse Máximo e levantou-se.— O Grupo Santoro não p







