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Capítulo 2 — Atrás das Portas Fechadas

Auteur: Isa F.
last update Date de publication: 2026-10-21 20:02:46

Às oito e dez da manhã, quando atravessei a entrada lateral do Solar do Farol, fui informada de que Tomás Valença já estava na ala oeste havia quase vinte minutos.

Vinte minutos.

Eu ainda tentava localizar o responsável pela manutenção.

— Ele chegou antes das oito — explicou uma funcionária. — Pediu os relatórios das inspeções anteriores e quis saber por que a vistoria dessa ala estava atrasada.

— E alguém soube responder?

Ela soltou uma risadinha discreta.

— O senhor Valença gosta de respostas objetivas, senhorita Lara. Recomendo que esteja preparada.

Segui pelo corredor com minha bolsa de trabalho pendurada no ombro e uma pasta de desenhos debaixo do braço.

Encontrei Tomás diante de uma janela parcialmente coberta por tábuas, conversando com um funcionário chamado Marcos.

Sem o terno da reunião, ele usava uma camisa branca com as mangas dobradas e calça escura. Examinava fotografias técnicas enquanto Marcos apontava para o teto.

— A infiltração começou antes ou depois da última chuva? — Tomás perguntou.

— Depois, senhor. Pelo menos foi quando percebemos a água escorrendo pela parede.

— E por que isso não foi registrado no relatório de sexta-feira?

Marcos hesitou.

— Na sexta-feira ainda não tínhamos identificado a origem.

— Identificar a origem e registrar o problema são coisas diferentes. Quero que isso fique claro para toda a equipe.

Seu tom não era alto, mas não deixava espaço para dúvidas.

— Providencie o isolamento desse trecho e peça uma nova avaliação. Ninguém entra aqui sem autorização até termos um parecer técnico.

Marcos assentiu.

Eu esperava encontrar um bilionário preocupado apenas com os custos da obra. Em vez disso, estava diante de um homem disposto a interromper atividades para garantir a segurança.

Isso não significava que eu gostasse dele. Apenas tornava mais difícil encaixá-lo na imagem que havia construído.

Tomás percebeu minha presença.

— Finalmente.

Olhei para o relógio.

— São oito e doze.

— Eu sei.

— Então não estou atrasada.

— Não disse que estava.

A maneira como ele falou sugeria o contrário.

— Vejo que continua gostando de deixar as pessoas em dúvida — comentei.

Uma sombra de divertimento atravessou o rosto dele.

— E vejo que continua interpretando tudo como provocação.

Marcos fingiu se concentrar nas fotografias. Tomás indicou o corredor.

— Marcos nos acompanhará até o limite da área isolada. Os demais ambientes só poderão ser acessados depois da avaliação de segurança.

— Quero conferir a estrutura da ala oeste, as condições de drenagem e a ligação com o corredor antigo. Também preciso das plantas originais, não apenas das versões digitalizadas.

— Já solicitei os arquivos ao setor de patrimônio.

Olhei para ele, surpresa.

— Quando?

— Ontem à tarde.

— Só mencionei essa necessidade durante a reunião.

— E considerei razoável atendê-la.

A resposta me deixou sem réplica por um instante.

— Algum problema, senhorita Sampaio?

— Nenhum. Só não esperava tanta agilidade.

— Você pediu os dados necessários para trabalhar. Providenciei o acesso. Vamos?

***

A primeira coisa que percebi ao entrar na ala oeste foi a umidade.

O cheiro de madeira envelhecida misturava-se ao de reboco molhado. A luz atravessava as janelas estreitas e revelava manchas no teto, rachaduras próximas aos vãos das portas e áreas em que a pintura se desprendia.

Abri meu caderno e comecei a registrar as condições do ambiente.

— A última equipe identificou umidade crescente naquele trecho — explicou Marcos. — Ainda não sabemos se a origem está na cobertura ou na drenagem externa.

Aproximei-me da fita de isolamento.

— Precisamos de um levantamento complementar. Se corrigirmos apenas o revestimento, corremos o risco de esconder o problema sem resolver a causa.

Tomás parou ao meu lado.

— Quanto tempo para obtermos um diagnóstico?

— De três a cinco dias úteis para uma avaliação inicial, desde que tenhamos acesso às áreas necessárias e não surjam problemas estruturais que exijam exames adicionais.

Ele assentiu.

— Marcos, organize o acesso com a equipe de segurança e confirme a disponibilidade do especialista. Quero isso encaminhado hoje.

Seguimos pelo corredor, examinando as áreas acessíveis. Tomás fazia perguntas sobre custos, materiais e riscos, mas não tentava fingir que dominava os detalhes técnicos. Queria compreender as consequências práticas das minhas recomendações.

Quando sugeri recuperar alguns elementos originais de madeira, questionou o custo em comparação com a substituição por materiais novos.

— Nem tudo pode ser reduzido a uma planilha — expliquei.

— Concordo. Mas um projeto desta dimensão precisa demonstrar como as escolhas afetam o orçamento e a experiência dos hóspedes. Se você não conseguir explicar isso, outra pessoa explicará por você. Talvez sem os mesmos interesses.

A irritação foi imediata. Principalmente porque ele não estava completamente errado.

— Posso apresentar uma análise comparativa. Mas não vou inventar números para fazer uma ideia parecer mais atraente.

Tomás pareceu satisfeito.

— É exatamente esse tipo de resposta que espero de você.

Afastou-se para atender ao telefone.

— Não autorize o pagamento até que o jurídico conclua a revisão — disse a alguém do outro lado. — Se o serviço foi executado, quero a documentação. Se não foi, não vou fingir que não percebi.

Encerrou a ligação e guardou o aparelho. Eu estava tentando fingir que não tinha escutado. Não funcionou.

— Algum problema? — perguntou.

— Nenhum.

— Você tem uma expressão bastante específica quando está curiosa.

— E você tem uma expressão bastante específica quando acredita que acabou de dar uma aula a alguém.

Dessa vez, ele riu de verdade.

O som inesperado alterou por um instante a seriedade de seu rosto. Eu odiei perceber que Tomás ficava mais atraente quando esquecia de controlar cada expressão.

Voltei ao caderno. Eu estava ali para trabalhar.

***

Chegamos a um pequeno corredor que terminava diante de uma porta dupla. A madeira estava escurecida pelo tempo, mas a fechadura parecia ter sido substituída recentemente.

Marcos consultou a lista de ambientes.

— Aqui ficam antigos depósitos e salas de serviço. Parte deles foi usada como arquivo administrativo, mas não tenho certeza de quando deixaram de ser utilizados. A área continua restrita.

Aproximei-me para examinar a moldura.

Havia marcas recentes perto da fechadura e uma faixa de reboco cuja textura destoava do restante da parede.

— Alguém entrou aqui recentemente?

Marcos pareceu surpreso.

— Não tenho registro de nenhuma entrada autorizada.

Tomás se aproximou.

— A chave está com quem?

— Com a administração da propriedade, senhor. Mas não recomendo abrir antes de uma avaliação. O piso pode estar comprometido.

— Então não vamos abrir agora. Quero a inspeção de segurança antes de qualquer acesso.

Ele tomou a decisão sem discutir, apesar de ser o proprietário.

Olhei novamente para a parede.

— Esta parte parece ter sido reparada depois do restante.

Tomás examinou o ponto.

— Tem certeza?

— Não absoluta. Pode ser uma diferença causada pela umidade. Precisamos comparar com as plantas anteriores e verificar se houve alguma intervenção registrada.

Marcos consultou os documentos.

— Não encontrei nenhuma informação sobre reparos nessa parede.

Tomás ficou em silêncio.

— Solicite os arquivos físicos também. Quero todas as plantas anteriores à última reforma, inclusive as que não foram digitalizadas.

Anotei a localização e fotografei a parede a uma distância segura. Talvez não fosse nada. Construções antigas sofriam modificações que nem sempre eram registradas adequadamente.

Ainda assim, a fechadura recente, as marcas no reboco e a documentação incompleta justificavam uma investigação.

Ao encerrarmos a inspeção preliminar, já passava do meio-dia.

Minha bolsa estava cheia de anotações e fotografias. Tomás conferiu o horário no telefone.

— Amanhã, às oito, quero uma reunião com você, Marcos e a equipe técnica.

— Amanhã às oito?

— Esse horário costuma funcionar bem no início do expediente.

— Para você, talvez. Tenho um escritório para administrar e uma equipe que não pode desaparecer porque fui convocada para trabalhar aqui.

Ele guardou o telefone.

— Então me envie os horários em que poderá estar presente. Precisamos de um planejamento que funcione para as duas equipes.

A resposta me surpreendeu. Eu havia esperado uma ordem. Recebi uma proposta de organização.

— Enviarei a agenda ainda hoje.

Tomás assentiu e se preparou para sair.

Despediu-se de Marcos e seguiu pelo corredor, atendendo a uma nova ligação antes de alcançar a escadaria.

Fiquei observando-o por alguns segundos.

Aquela manhã me ensinara que Tomás não seria fácil de satisfazer, mas também que não era o homem indiferente que eu esperava encontrar. Exigia respostas, cobrava prazos e não parecia ter paciência para desculpas, porém era capaz de ouvir argumentos quando havia fundamento.

O problema era que a porta fechada da ala oeste continuava na minha cabeça.

Eu começava a suspeitar de que o maior desafio daquele projeto não seria convencer Tomás a preservar as paredes antigas.

Seria descobrir o que ele próprio ainda não sabia sobre a propriedade que herdara.

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