MasukPassei boa parte da noite organizando as fotografias da ala oeste e tentando não pensar demais na porta fechada.
Havia uma explicação para a fechadura recente e para a diferença no reboco. Talvez uma intervenção antiga tivesse sido mal documentada. Talvez os registros estivessem guardados em outro arquivo. Nenhuma dessas possibilidades justificava conclusões precipitadas.
Ainda assim, eu queria descobrir o que havia acontecido.
Às nove da noite, meu telefone vibrou.
Bia: Você sobreviveu ao bilionário?
Sorri.
Eu: Sim. E ele sabe usar uma planilha.
Bia: Um homem rico que sabe trabalhar. Estamos diante de um milagre.
Eu: Ele também sabe fazer perguntas durante uma inspeção.
Bia: Terrível. Quer que eu apareça com um advogado?
Eu: Você é a advogada.
Bia: Então economizamos a contratação.
Ri sozinha. Bia tinha o talento de me fazer respirar quando eu transformava um problema profissional no centro do universo.
Depois de encerrar a conversa, terminei de organizar os registros da inspeção e enviei a Tomás a lista de documentos necessários. Incluí as plantas originais, os relatórios de manutenção e as autorizações das intervenções realizadas na ala oeste.
Não esperava resposta naquela noite. O e-mail chegou poucos minutos depois.
Tomás confirmava a reunião técnica da manhã seguinte e informava que Henrique Bastos, diretor de expansão, participaria para apresentar os impactos financeiros das decisões propostas.
Respondi confirmando minha presença e fui dormir.
***
Na manhã seguinte, cheguei ao Solar cinco minutos antes do horário marcado. A reunião aconteceria em uma sala próxima ao antigo escritório administrativo.
Tomás estava perto da janela, examinando documentos. Usava camisa azul-clara e calça escura, com o blazer pendurado no encosto da cadeira enquanto falava ao telefone.
— Se o custo está correto, quero os documentos que demonstrem isso. Se estiver errado, preciso saber onde. Não vou aprovar uma despesa sem entender o que estou pagando.
Encerrou a ligação quando me viu.
— Bom dia, Lara.
— Bom dia.
— Trouxe as observações?
— Trouxe as observações, as fotografias e a lista dos documentos que precisamos consultar antes de emitir um parecer.
— Imaginei que tivesse feito isso.
— Você parece bastante seguro a meu respeito para alguém que ainda está decidindo se vai me contratar.
Tomás apoiou uma das mãos na mesa.
— Não preciso contratá-la definitivamente para reconhecer que você sabe trabalhar.
O elogio me surpreendeu mais do que deveria.
Antes que eu respondesse, a porta se abriu e entrou Henrique Bastos. Ele tinha pouco mais de quarenta anos, vestia um terno cinza impecável e carregava uma pasta de couro.
Cumprimentou Tomás e, em seguida, voltou-se para mim.
— Você deve ser a arquiteta responsável pela proposta de restauração.
— Lara Sampaio.
Apertei sua mão.
— Henrique Bastos. Diretor de expansão. Estive analisando sua proposta. É interessante, embora tenha reservas quanto à viabilidade financeira.
— Estou à disposição para apresentar as alternativas e os custos.
— Espero que sim. Não podemos transformar uma obra de restauração em um projeto interminável, nem permitir que preocupações sentimentais comprometam a rentabilidade.
— Não estou propondo preservar as construções por apego emocional. Estou propondo uma avaliação técnica antes de uma decisão irreversível.
O sorriso dele ficou mais rígido.
— Naturalmente. Mas você já tem uma estimativa concreta da diferença entre recuperar e substituir?
— Ainda não. Preciso dos registros completos e de uma avaliação estrutural.
— Então sua recomendação é baseada em uma hipótese.
— Minha recomendação é que não tomemos uma decisão definitiva antes da análise necessária. São coisas diferentes.
Henrique pareceu prestes a responder, mas Tomás interveio.
— É exatamente esse o objetivo da avaliação. Vamos obter os dados antes de decidir o que será feito.
***
A reunião técnica avançou para os problemas identificados na ala oeste. Marcos apresentou os registros disponíveis, enquanto o engenheiro responsável explicou quais testes seriam necessários antes de liberar o acesso ao trecho comprometido.
Quando chegou minha vez, mostrei as fotografias.
— Temos sinais de infiltração, alterações no revestimento e uma intervenção próxima à porta dupla que não aparece nos registros digitais consultados até agora.
Henrique cruzou os braços.
— Você está sugerindo que houve uma obra não autorizada?
— Não. Estou dizendo que ainda não encontrei o registro correspondente. Pode ter sido uma intervenção antiga, documentada em outro arquivo.
— Então ainda não temos motivo para considerar isso um problema.
— Temos motivo para investigar. Não podemos determinar a extensão de uma alteração estrutural observando apenas a superfície.
Tomás aproximou a cadeira da mesa.
— Quais documentos resolveriam essa dúvida?
— As plantas anteriores à última reforma, os relatórios de manutenção e os registros das obras realizadas nessa ala. Também precisamos comparar as dimensões registradas com o levantamento atual.
— O setor de patrimônio está separando parte desse material — informou ele. — O restante será localizado hoje.
Henrique consultou o relógio.
— Não podemos suspender todas as decisões sempre que aparece uma incerteza.
— Não precisamos suspender todas as decisões — respondi. — Podemos avançar nas áreas liberadas e manter restritas aquelas que exigem avaliação.
Tomás voltou-se para o engenheiro.
— Isso é viável?
— Sim. Podemos organizar as equipes por setores.
— Então será feito dessa maneira. Não quero ninguém entrando em área restrita antes da liberação técnica. As demais atividades devem seguir o cronograma revisado.
Henrique anotou alguma coisa. Eu ainda não sabia o suficiente sobre ele para tirar conclusões, mas percebi que minha presença não lhe agradava.
Não estava ali para conquistar sua simpatia. Precisava fazer um trabalho competente.
***
Depois da reunião, fui ao arquivo histórico da propriedade. Patrícia, responsável pela organização dos documentos, separou algumas pastas referentes à ala oeste. Havia plantas antigas, registros de manutenção e ordens de serviço.
Trabalhei durante quase uma hora comparando os desenhos.
A planta anterior à última reforma mostrava diferenças discretas nas dimensões de um corredor lateral. Não eram suficientes para afirmar que existia algum compartimento escondido, mas justificavam uma análise mais cuidadosa.
Abri o relatório de manutenção correspondente ao período.
As primeiras páginas registravam reparos comuns. Na seguinte, encontrei uma anotação manuscrita: Intervenção emergencial na ala oeste. Acesso restrito até a conclusão da avaliação.
A data era de dezessete anos antes. Eu tinha onze anos na época. Tomás, dezessete.
A anotação não incluía uma descrição detalhada do problema, um orçamento anexado ou um relatório de conclusão. O documento seguinte tratava de outro assunto.
Fotografei a página e continuei a busca, mas não encontrei nada que esclarecesse o que havia acontecido.
Pouco depois, Tomás apareceu no arquivo.
— Encontrou alguma coisa?
Mostrei a anotação. Ele a leu em silêncio.
— Qual foi o problema?
— O documento não informa. Apenas diz que o acesso deveria permanecer restrito até a conclusão da avaliação.
Tomás examinou a data.
— Eu tinha dezessete anos.
— Você se lembra de alguma coisa daquela época?
Ele demorou a responder.
— Lembro que havia uma área isolada. Meu pai disse que estavam fazendo reparos e que ninguém deveria entrar até a conclusão do trabalho.
— E você nunca perguntou o que tinha acontecido?
— Eu não acompanhava as decisões de manutenção. Naquela época, não tinha responsabilidade sobre a propriedade.
A resposta fazia sentido, mas a ausência de registros continuava estranha.
— Precisamos localizar o relatório de conclusão — falei.
Tomás concordou e solicitou ao arquivo central uma busca mais ampla, incluindo os registros físicos e os documentos financeiros da época.
Depois de combinar as próximas etapas, ele deixou a sala para atender a uma ligação.
Voltei aos arquivos, mas a anotação continuava na minha cabeça.
Dezessete anos antes, eu esperava minha mãe terminar o expediente enquanto uma parte da ala oeste permanecia fechada. Lembrava-me vagamente de ter sido orientada a não me aproximar daquele corredor, embora nunca tivesse perguntado por quê.
Talvez minha mãe se lembrasse de alguma coisa. Mas eu não queria pressioná-la sem saber exatamente o que estava procurando.
***
No fim da tarde, deixei o Solar com as fotografias e as plantas copiadas. Antes de chegar ao carro, meu telefone vibrou.
Era uma mensagem de Tomás: Você conseguiu conversar com Rosa sobre os documentos antigos?
Fiquei olhando para a tela.
Não havia mencionado a ele que pretendia falar com minha mãe. Talvez fosse uma pergunta razoável, considerando que ela trabalhava no Solar havia quase trinta anos.
Ainda assim, a curiosidade me venceu. Digitei: Por que você quer saber?
A mensagem foi entregue. Tomás visualizou quase imediatamente, mas não respondeu. Guardei o telefone e entrei no carro.
Eu não sabia o que havia acontecido na ala oeste dezessete anos antes. Também não sabia por que uma intervenção aparentemente comum deixara registros tão incompletos.
Mas estava começando a compreender que, por trás das paredes antigas, havia perguntas que ninguém parecia ter feito com a devida atenção. E eu pretendia encontrar as respostas antes de recomendar qualquer coisa sobre aquele trecho da propriedade.
Mesmo que isso significasse descobrir algo que a família Valença preferisse manter no passado.
Na quinta-feira, passei boa parte do dia tentando convencer a mim mesma de que aceitar o convite de Tomás Valença para tomar um café havia sido uma decisão perfeitamente normal. Era apenas um café.Duas pessoas adultas, conversando depois do expediente. Nada que justificasse as borboletas inconvenientes que pareciam surgir no meu estômago sempre que eu me lembrava do sorriso dele ao ouvir minha resposta.O problema era que Tomás não era exatamente alguém com quem eu costumava tomar café.Era o CEO de um dos maiores grupos hoteleiros do país, um homem acostumado a ter as decisões tomadas de acordo com sua vontade e que, nos últimos dias, vinha demonstrando um interesse por mim que ultrapassava os limites profissionais.E eu estava curiosa. Muito mais do que deveria.Naquela manhã, Bia havia aproveitado nossa conversa por telefone para me lembrar de que homens ricos também eram homens e que eu não deveria permitir que o sobrenome de alguém determinasse a maneira como me comportava.— Só
Eu estava começando a entender que trabalhar no Solar do Farol exigia mais do que conhecimento técnico e paciência com construções antigas. Também exigia saber lidar com pessoas.E, aparentemente, algumas delas acreditavam que ocupar um cargo importante lhes dava o direito de tratar os outros como se fossem inferiores.Descobri isso naquela manhã, quando cheguei à sala técnica e encontrei uma funcionária sendo repreendida por Henrique Bastos.— Eu pedi esses documentos ontem. Não é possível que ninguém consiga cumprir uma solicitação simples nesta propriedade.A mulher segurava uma pasta contra o corpo. Reconheci seu rosto, embora ainda não soubesse seu nome. Ela trabalhava na administração do Solar e já havia me ajudado a localizar alguns registros nos primeiros dias do projeto.— Senhor Bastos, eu recebi a solicitação apenas no final da tarde — explicou, visivelmente constrangida. — E os documentos estavam no arquivo físico. Precisei localizar as caixas.Henrique soltou um suspiro i
TOMÁSEu estava começando a entender por que Lara Sampaio conseguia irritar tantas pessoas em tão pouco tempo.Não era exatamente sua teimosia, embora ela tivesse bastante. Tampouco sua maneira direta de responder a qualquer questionamento, mesmo quando a pessoa diante dela ocupava uma posição hierárquica superior. Era a convicção.Lara não precisava elevar a voz para contrariar alguém. Não tentava impressionar com palavras difíceis, não procurava aprovação e, principalmente, não demonstrava qualquer intenção de facilitar uma decisão apenas para agradar.Ela acreditava no próprio trabalho. E esperava que os outros tivessem argumentos tão sólidos quanto os dela. Eu deveria considerar isso uma qualidade exclusivamente profissional.O problema era que, nos últimos dias, vinha percebendo muito mais do que deveria sobre aquela mulher.Naquela manhã, estava no escritório do grupo, no centro do Rio de Janeiro, tentando concluir uma reunião por videoconferência enquanto examinava o relatório
Havia uma diferença enorme entre conquistar um projeto e começar a executá-lo.Eu descobrira isso antes mesmo das nove da manhã.Desde que meu escritório havia sido escolhido, minha rotina se transformara em uma sequência de reuniões, ligações, documentos e decisões que precisavam ser tomadas praticamente ao mesmo tempo. O contrato estava assinado, a equipe havia sido oficialmente apresentada à administração do Grupo Valença e, finalmente, tínhamos autorização para iniciar a primeira etapa dos trabalhos.Era exatamente o que eu queria. Mas também era muito mais trabalhoso do que havia imaginado.— Lara, precisamos confirmar a entrega dos equipamentos de medição até amanhã — avisou um dos profissionais do meu escritório, aproximando-se da mesa onde eu organizava as plantas.— Confirme com o fornecedor e me encaminhe o horário. Quero acompanhar a instalação.— E a equipe de levantamento?— Pode começar pela ala leste. André já confirmou que o acesso está liberado.Ele anotou as orientaç
Quatro dias depois da apresentação das alternativas, eu estava começando a acreditar que o Solar do Farol havia se tornado uma extensão do meu escritório.Havia plantas sobre a mesa da sala técnica, fotografias presas a um painel e uma lista de pendências que parecia se multiplicar sempre que eu eliminava um item. André havia concluído a primeira etapa da avaliação estrutural, e os resultados permitiam avançar no planejamento da restauração sem comprometer a segurança das áreas ainda restritas.A ala oeste continuava exigindo atenção, mas não havia indicação de que todo o conjunto precisasse ser substituído. A recomendação era prosseguir por etapas, aprofundando os levantamentos nos pontos comprometidos.Era exatamente o que eu vinha defendendo.Naquela manhã, eu terminava de revisar o relatório quando Marcos apareceu à porta.— A reunião da comissão foi confirmada para as dez. O senhor Valença pediu que você participe.Levantei os olhos do computador.— Hoje?— Hoje.Olhei para o rel
Às sete e vinte da manhã, eu já estava no meu escritório havia quase uma hora.Espalhadas sobre a mesa, as plantas do Solar do Farol dividiam espaço com fotografias, planilhas e anotações que eu havia revisado tantas vezes que começava a reconhecer cada número antes mesmo de olhar para a página.Eu precisava apresentar três alternativas para a restauração da ala oeste e para o futuro das antigas moradias dos funcionários.A primeira previa a substituição das estruturas mais antigas, com menor custo inicial, mas maior perda de elementos históricos.A segunda preservava praticamente tudo, exigindo um investimento mais elevado e um cronograma de execução mais longo.A terceira era a que eu realmente defendia: uma restauração seletiva, baseada na avaliação de cada construção, com intervenções por etapas e manutenção dos elementos que apresentassem condições adequadas de recuperação.Era a alternativa mais complexa de explicar. Também era a única que não tratava o projeto como uma escolha







