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Capítulo 2

Autor: Beatriz Ferraz
Eu não disse nada, apenas tirei o jaleco branco, dobrei com cuidado e o deixei sobre o encosto da cadeira. Em seguida, peguei as chaves do carro sobre a mesa, virei as costas e fui embora.

Pedro estava ao lado de uma das colunas no centro do saguão do hospital, usando óculos escuros e com uma das mãos no bolso.

Era óbvio que estava me esperando. Ao ver eu me aproximar com uma caixa de papelão nos braços, ele tirou os óculos e esboçou um sorriso carregado de segundas intenções.

— Dra. Luana, já terminou o expediente? Ontem, quando me rejeitou, você não estava cheia de coragem? Como é que hoje não conseguiu nem sequer manter o emprego? — Ele se aproximou um pouco e baixou a voz. — Luana Ferreira, a partir de hoje, nenhum hospital deste país vai se arriscar a contratar você.

Ele me observava, esperando ver o medo estampado no meu rosto e me ver implorar por misericórdia.

Mas isso não aconteceu. Apenas permaneci ali, olhando para ele em silêncio.

Pedro franziu a testa, claramente insatisfeito com a minha reação.

— Ainda assim, posso lhe dar uma última chance. Venha trabalhar para a família Siqueira como médica particular da minha irmã, disponível vinte e quatro horas por dia. Cure-a, e eu garanto que você nunca mais precisará se preocupar com dinheiro pelo resto da vida. O que me diz?

De repente, comecei a rir.

— Pedro.

Ele ficou paralisado por um instante.

— Você realmente acha que a família Siqueira é a única família poderosa do mundo?

Sem perder mais tempo com ele, passei por ele e saí do hospital.

Ele não sabia que eu não era apenas a vice-diretora daquele hospital, nem apenas uma renomada especialista em clínica médica da cidade.

Também era a única filha adotiva de Henrique Ferreira, uma das maiores autoridades da medicina brasileira e o homem à frente do Grupo Ferreira Hospitalar, em Santa Aurora.

Eu só havia ido trabalhar naquele hospital público para aperfeiçoar minhas habilidades e concluir a avaliação que Henrique havia estabelecido para mim.

No cenário médico nacional, era a família Ferreira que realmente ditava as regras.

"Acabar com a minha carreira? Ridículo."

À noite, enquanto mexia no celular, me deparei de repente com vários assuntos relacionados a mim entre os mais comentados:

"Especialista renomada se recusa a salvar paciente", "Luana Ferreira, do Hospital Santa Aurora, aceita subornos", "O demônio frio e sem ética médica".

Um vídeo estava sendo compartilhado freneticamente por toda a internet. Nas imagens, Daniela aparecia sentada em uma cadeira de rodas, abatida e constrangida, mantendo a mão pressionada contra o peito o tempo todo.

Ao lado dela, Pedro implorava para que eu a atendesse:

— Dra. Luana, por favor, salve a minha irmã. Nós trouxemos dinheiro...

Então, a imagem cortava para mim, mostrando apenas uma cena fria e impiedosa:

— Não vou tratar sua irmã. Pegue o cartão e saia daqui com ela.

Logo em seguida, uma conta que alegava pertencer a uma "fonte bem-informada" publicou uma denúncia:

[Sou funcionário do Hospital Santa Aurora. Essa médica não tem competência alguma. Ela também recebe dinheiro dos pacientes por fora!]

[A família Siqueira não ofereceu dinheiro suficiente, por isso ela se recusou a atender! O diretor descobriu tudo e a demitiu hoje de manhã!]

Na seção de comentários, quase todos me insultavam.

[Víbora! Como uma mulher dessas pode ser médica?]

[Até os grandes empresários têm mais consciência do que ela! Essa médica não tem coração! Exigimos uma investigação rigorosa!]

[Ouvi dizer que ela foi boicotada no país inteiro. Bem-feito! Uma escória dessas deveria morrer!]

Daniela também fez uma publicação.

A imagem mostrava seu acesso venoso no braço, com a pele tão pálida que chegava a parecer azulada.

Na legenda, ela escreveu:

[Talvez minha vida já esteja em contagem regressiva, mas ainda acredito que exista luz neste mundo. Não culpo a Dra. Luana. Eu é que não tive sorte nesta vida.]

Inúmeras pessoas invadiram o meu perfil. Minhas mensagens privadas estavam repletas de maldições, montagens com a minha foto em imagens fúnebres e todo tipo de insulto.

Soltei uma risada fria. Bruno havia aceitado o suborno de Pedro para me demitir e tentava jogar toda a culpa sobre mim.

Eu já havia passado exatamente pela mesma situação em minha vida passada.

Quando Daniela teve uma crise, ele disse que a culpa era minha. Depois, editou vídeos, inventou mentiras e publicou tudo na internet, destruindo a minha reputação.

Liguei para Pedro. O telefone tocou várias vezes antes que ele atendesse.

Do outro lado da linha, ouvi sua voz desdenhosa e triunfante:

— O que foi? A Dra. Luana não aguenta mais?

Ignorei a provocação.

— Pedro, eu aceito tratar a sua irmã.

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