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A Prova do Fogo

Autor: Rena Belle
last update Data de publicação: 2026-09-09 23:02:49

A madrugada na Fazenda Alvorada não trazia o silêncio pacífico que se espera do campo; trazia um peso denso, quase palpável, que parecia pressionar as paredes do meu quarto contra o meu peito. Eu mal havia dormido. Deitada na cama de lençóis engomados que cheiravam a lavanda, passei horas encarando o teto de madeira escura, sentindo o eco fantasmagórico dos dedos de Vicente Albuquerque apertando o meu pulso. “Essas não são mãos de quem trabalha pesado, Míriam. Quem é você de verdade?” A pergunta dele havia ficado suspensa no ar como uma lâmina afiada pronta para cair a qualquer momento. Se eu não acudisse àquela suspeita com precisão cirúrgica, a minha farsa desmoronaria antes mesmo de o sol nascer.

Às seis da manhã, o som abafado de passos pesados no corredor me tirou dos lençóis. A rotina começava cedo por ali. Vesti uma calça jeans surrada, uma blusa de algodão neutra e prendi o cabelo em um rabo de cavalo despojado, tentando ao máximo apagar qualquer vestígio de elegância que pudesse restar da minha antiga vida de herdeira. Quando saí para o corredor, o silêncio matinal foi quebrado pela portinha do quarto ao lado abrindo-se devagar. Bento apareceu ali, os olhinhos ainda inchados de sono, abraçado ao seu cavalo de madeira. Ele me fitou por longos segundos, e um vislumbre de alívio pareceu cruzar o seu rostinho pálido ao ver que eu ainda estava lá.

Abaixei-me para ficar na altura dele, abrindo um sorriso suave.

— Bom dia, dorminhoco... — sussurrei, acariciando de leve a sua bochecha. — Pronto para o nosso primeiro dia?

Ele não respondeu com palavras, mas deu de ombros e segurou a ponta da minha blusa, guiando-me silenciosamente em direção às escadas. Era a sua forma de dizer que me aceitava ali. Descemos para a imensa cozinha da fazenda, um espaço rústico dominado por panelas de cobre penduradas, bancadas de madeira maciça e, claro, o temido protagonista daquele ambiente: o fogão a lenha.

Enquanto Bento sentava-se obedientemente em uma banqueta de madeira para comer algumas fatias de pão com manteiga que deixei separadas, encarei aquela estrutura de ferro preto com uma mistura de pavor e desrespeito. Na minha vida passada, na cobertura de vidro na capital, a cozinha era um santuário automatizado onde panelas inteligentes cozinhavam sozinhas e o café saía ao toque de um botão de última geração. Eu nunca, em toda a minha existência, acendera um fogão a lenha. Eu não fazia a menor ideia de como controlar o fogo, de quanta madeira colocar para aquecer a chapa ou de como evitar que a fumaça invadisse o ambiente inteiro.

Mas eu precisava tentar. Se Vicente entrasse ali e me visse paralisada diante de um fogão comum do campo, minhas mentiras sobre ter vivido uma vida simples desabariam instantaneamente.

— Muito bem, Míriam... É só lenha e fogo. O que pode dar errado? — resmunguei baixinho para mim mesma, suspirando fundo.

Abri a portinha de ferro inferior do fogão, empurrei alguns pedaços de madeira seca, joguei um pouco de acendedor líquido e aproximei o fósforo. O fogo rugiu instantaneamente, pegando com uma intensidade assustadora que me fez dar um passo para trás, tossindo levemente quando uma baforada de fumaça cinzenta escapou pela boca do fogão. Abri as janelas correndo para o ar circular, enquanto o calor começava a irradiar com força pela chapa de ferro superior.

A minha missão era simples: esquentar leite e preparar um mingau leve para Bento, além do café forte que Vicente certamente exigiria assim que voltasse dos currais. Coloquei uma leiteira de alumínio pesada diretamente sobre a boca mais quente do fogão e cruzei os braços, esperando a água e o leite começarem a ferver.

O problema é que o tempo no campo corre sob regras próprias, e a impaciência de uma ex-herdeira acostumada à velocidade digital não se alinha com o ritmo da caldeira de ferro. Distraída observando Bento desenhar distraidamente com um giz de cera em um pedaço de papel, esqueci completamente de usar a luva de pano grossa que estava pendurada ao lado da pia.

A leiteira começou a chiar. O líquido lá dentro subiu rápido demais, ameaçando transbordar. No reflexo puro do desespero para não fazer sujeira logo no meu primeiro dia de trabalho sob o olhar implacável de Vicente, estiquei a mão a toda velocidade e fechei os dedos nus diretamente ao redor da alça metálica da leiteira fervente.

Um grito abafado escapou da minha garganta antes que eu pudesse contê-lo.

O metal escaldante queimou a pele da minha palma e dos meus dedos como se fossem brasas vivas. Soltei a leiteira no mesmo instante, fazendo o líquido quente espirrar parcialmente sobre a chapa e produzir um chiado estridente acompanhado de uma nuvem de vapor branco.

Levei a mão queimada rapidamente de encontro ao peito, mordendo os lábios com tanta força que senti o gosto metálico de sangue na boca. A dor era lancinante, latejante, irradiando por todo o meu antebraço. As lágrimas brotaram instantaneamente nos meus olhos, turvando a minha visão. Olhei para a minha mão e vi a pele da palma começar a avermelhar-se de forma alarmante, com pequenas bolhas de calor já se formando rapidamente.

Bento soltou o giz de cera assustado com o meu grito, arregalando os olhos escuros enquanto olhava para mim e para a bagunça na cozinha, abrindo a boca para chorar.

— Shh, meu amor, está tudo bem... foi só um acidente... — falei com a voz trêmula, engolindo o choro para não apavorar ainda mais a criança, enquanto sacudia a mão no ar na tentativa vã de amenizar o ardor.

— O que diabos está acontecendo aqui?!

A voz grave, estrondosa e carregada de uma irritação animalesca ecoou pela cozinha como um trovão dentro de uma caixa de ressonância.

Virei o pescoço bruscamente na direção da porta dos fundos. Vicente acabara de entrar. Ele trazia as botas cobertas de lama fresca, o chapéu de couro empurrado para trás da testa e a camisa suada colada aos ombros largos pelo trabalho duro na alvorada. Mas o traço dominante em seu rosto não era o cansaço; era uma fúria gélida que se transformou em puro espanto ao ver o estado em que eu me encontrava.

Seus olhos escuros varreram a cena em frações de segundo: a fumaça leve saindo do fogão, o leite derramado na chapa, Bento assustado na banqueta e, finalmente, a minha mão direita erguida, vermelha, tremendo violentamente e visivelmente lesionada.

— Você é completamente incapaz de fazer a coisa mais simples do mundo sem destruir a minha cozinha? — disparou Vicente, dando passos largos em minha direção, com a mandíbula tão travada que parecia prestes a estilhaçar.

A aspereza daquelas palavras me atingiu como um golpe físico, misturando a dor da queimadura com uma humilhação profunda que queimava tanto quanto o ferro da leiteira.

— Eu só... eu só tentei esquentar o leite para o Bento... — retruquei, com a voz embargada pelo choro que eu tentava conter, erguendo o queixo com o resto de orgulho que me restava. — Não pedi para o fogão me atacar!

Vicente parou a menos de um palmo de mim. O peito dele subia e descia de forma descompassada. Ele olhou para a minha mão machucada, e toda a fachada de homem duro e cínico desmoronou em uma fração de segundo, substituída por uma urgência possessiva que ele parecia odiar sentir.

— Dê cá — rosnou ele entre dentes, agarrando o meu pulso ferido com uma firmeza absoluta, mas tomando o cuidado milimétrico para não tocar diretamente na área queimada da minha palma.

O choque do contato da pele dele com a minha enviou uma descarga elétrica violenta por todo o meu sistema nervoso. O calor do corpo de Vicente parecia irradiar através do seu toque, fazendo o meu estômago dar uma cambalhota dolorosa. Puxei o ar com força, sentindo o oxigênio sumir dos meus pulmões.

Sem me dar tempo de protestar, ele me arrastou — de forma ríspida, é verdade, mas com uma eficiência implacável — até a pia de pedra ao lado. Abriu a torneira de metal com a mão livre, fazendo jorrar uma água fria e cristalina diretamente sobre a minha palma queimada.

O alívio térmico foi instantâneo, mas a proximidade física entre nós tornou-se sufocante.

Vicente estava colado ao meu corpo. A altura dele fazia com que eu me sentisse completamente encoberta pela sua sombra imponente. Eu conseguia sentir o cheiro inebriante de terra molhada, suor masculino, couro e sabão rústico que emanava dele. O peito largo roçava levemente contra o meu ombro a cada respiração funda que ele dava para tentar controlar o próprio temperamento.

Com a mão esquerda, ele segurava o meu pulso com firmeza inegociável, enquanto com a direita ajustava o fluxo da água para que caísse suavemente sobre a minha pele lesionada, sem machucar.

— Você é tonta ou só desastrada crônica, Míriam? — murmurou ele, com a voz terrivelmente rouca, vibrando a poucos centímetros do meu ouvido. O tom ainda continha uma casca de grosseria, mas havia uma suavidade subjacente na forma como os dedos dele acariciavam involuntariamente a lateral do meu braço, subindo pela manga da minha blusa. — Não sabe usar um fogão a lenha? Não tem luva nesta casa? Por que não pediu ajuda em vez de tentar bancar a heroína e queimar a própria mão?

Eu não conseguia responder. O meu cérebro parecia ter desligado todas as funções lógicas, concentrando-se exclusivamente no ponto onde a pele dele tocava a minha. Cada batida do meu coração parecia ecoar diretamente contra as costelas, alta demais, rápida demais. A proximidade física criava uma tensão elétrica insuportável, um campo magnético invisível que nos puxava para mais perto, ignorando completamente as regras frias e cruéis que ele mesmo havia estabelecido no contrato poucas horas antes.

Ergui o rosto lentamente, forçada a encará-lo. Os olhos negros de Vicente estavam fixos nos meus, faiscando com uma intensidade que queimava mais do que a água gelada da pia. A expressão de raiva havia sumido completamente, substituída por uma vulnerabilidade sombria e por uma atração crua e inegável que pairava entre nós como uma eletricidade estática antes da tempestade.

Ele percebeu para onde eu estava olhando. Vi o olhar dele descer dos meus olhos para os meus lábios entreabertos, demorando-se ali por uma fração de segundo que pareceu durar uma eternidade. O polegar dele, que antes segurava o meu pulso, deslizou levemente para acariciar o dorso da minha mão, traçando linhas invisíveis na minha pele com uma delicadeza desconcertante que contradizia toda a sua pose de capataz tirano.

— Vicente... — sussurrei seu nome sem querer, a minha voz saindo como um sopro frágil, traindo a barreira de gelo que eu tentava erguer ao redor do meu coração.

Ele estremeceu com o som do próprio nome na minha boca. A respiração dele falhou, tornando-se pesada e irregular. Por um segundo ensurdecedor, os lábios dele inclinaram-se levemente na minha direção, como se estivessem prestes a romper a distância mínima que nos separava e selar a nossa loucura em um beijo desesperado. O mundo ao nosso redor — a cozinha bagunçada, o leite derramado, o pequeno Bento assistindo a tudo em silêncio na banqueta — deixou de existir. Éramos apenas nós dois, presos na órbita de um desejo proibido e recém-nascido.

Mas então, o som de um relincho de cavalo vindo dos fundos da fazenda cortou o feitiço como uma lâmina fria.

Vicente recuou bruscamente, como se tivesse sido atingido por uma descarga elétrica. Ele soltou o meu pulso com tanta pressa que quase tropeçou no próprio passo, endireitando o corpo e passando a mão trêmula pelos cabelos escuros e suados. A máscara de ferro voltou a fechar-se sobre o seu rosto com um estalo seco, embora a respiração ofegante e a mandíbula ainda tensa denunciassem o tumulto interno que ele tentava dominar a todo custo.

— Feche a torneira quando a dor passar... — falou ele, com a voz ríspida, quase agressiva, tentando recuperar o controle da situação enquanto virava as costas sem olhar para trás. — E peça para a cozinheira te ensinar a lidar com o fogão antes que você coloque fogo na fazenda inteira. A sua incompetência está começando a sair muito cara para o meu tempo.

Sem esperar por uma resposta, sem me dar o direito de processar o turbilhão de sensações que havia acabado de me atropelar, Vicente caminhou a passos largos para fora da cozinha, batendo a porta dos fundos com uma força que fez as panelas de cobre tilintarem na parede.

Fiquei sozinha diante da pia, com a água fria ainda correndo sobre a minha mão queimada, sentindo o coração disparado no peito e o rosto ardendo não mais pela ferida física, mas pelo calor inegável daquele quase-beijo. Eu sabia, com cada célula do meu corpo, que aquele homem seria a minha perdição.

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