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As Correntes do Contrato

Author: Rena Belle
last update publish date: 2026-09-09 22:59:24

O silêncio que se abateu sobre a sala de estar da Fazenda Alvorada era tão denso que parecia possível cortá-lo com uma faca.

Eu continuava estática na soleira da porta, com a bota direita afundando levemente na lama da varanda e a barra da calça jeans esticada pelo aperto obstinado do pequeno Bento. O corpinho dele tremia de leve, não de frio, mas de uma resistência teimosa, como se ele estivesse fincando âncoras na única tábua de salvação que encontrara em meio ao naufrágio do seu próprio silêncio.

A respiração de Vicente Albuquerque era a única coisa que pontuava o ambiente.

Ele estava parado no início do corredor, com os ombros largos tensionados sob a camisa xadrez e os punhos cerrados ao lado do corpo. Seus olhos escuros, que até segundos atrás faiscavam com uma hostilidade gélida e impiedosa, agora viajavam de mim para o filho, e de volta para mim, em um processo visível de choque e incredulidade. Para quem conhecia a fama de reclusão e frieza daquele homem, ver a sua armadura ruir diante de um simples gesto infantil era quase irreal.

Nenhum funcionário daquela casa ousava tocar em Bento sem permissão prévia. As poucas babás que haviam tentado cuidar dele nos últimos anos saíam em prantos, escorraçadas por birras silenciosas ou pela indiferença gélida do menino. E ali estava ele, o herdeiro intocável da fazenda, abraçado à perna de uma perfeita desconhecida que o pai acabara de expulsar de casa sob a acusação de ser uma aventureira sem eira nem beira.

— Bento... — a voz de Vicente saiu baixa, quase irreconhecível, carregada de uma hesitação que ele tentava disfarçar com autoridade. Ele deu um passo à frente, estendendo a mão grande e calejada. — Solte a moça, filho. Ela já vai embora.

O menino não apenas recusou o comando como enterrou ainda mais o rosto contra o meu joelho, soltando um som abafado de protesto que fez meu coração se despedaçar por dentro. Uma onda de proteção súbita, feroz e irracional brotou no meu peito. Eu não sabia o que era ser mãe, mas sabia o que era a dor de ser abandonada no escuro. E aquele garotinho, à sua maneira, estava me dizendo que reconhecia a mesma escuridão em mim.

Abaixei-me lentamente, ignorando o olhar cortante de Vicente, e toquei com extrema suavidade os cabelos escuros e macios de Bento.

— Está tudo bem, querido... — sussurrei, com os olhos ardendo de lágrimas contidas. — Eu não vou fugir agora. Calma.

Como se a minha voz tivesse o poder de dissolver a tensão do ar, Bento relaxou minimamente os dedinhos. Ele soltou a barra da minha calça, mas permaneceu colado ao meu lado, segurando a ponta da minha blusa com uma possessividade silenciosa que me deixou sem fôlego.

Vicente parou a poucos metros de nós. Seu peito subia e descia de forma acelerada. A mandíbula estava tão travada que os músculos saltavam em sua pele bronzeada. Ele olhou para Bento, depois para mim, e vi o momento exato em que o orgulho de um pai derrotado pelo amor ao filho venceu a desconfiança do homem endurecido pelo mundo.

— Você venceu a primeira rodada do jogo, Míriam — disse Vicente, com um tom de voz áspero, destilando um veneno frio que escondia uma rendição amarga. Ele cruzou os braços novamente, encarando-me de cima a baixo com um desprezo calculado. — Parece que o meu filho tem péssimos gostos para escolher quem merece piedade.

Ergui o olhar para encará-lo de frente, recusando-me a encolher diante daquela imponência intimidadora. Se ele achava que eu era uma frágil criatura de cidade que cederia facilmente à sua tirania, estava redondamente enganado.

— Eu não pedi para ele me segurar, senhor Albuquerque — retruquei, mantendo a voz firme apesar do tremor interior. — Eu estava indo embora exatamente como o senhor ordenou. A culpa de ele ter se apegado a uma estranha em menos de doze horas é de quem o deixou crescer cercado de silêncio e paredes frias.

As palavras saíram antes que eu pudesse contê-las. Pelo brilho assassino que cruzou os olhos de Vicente, achei que ele me expulsaria a tiros naquele mesmo instante. Mas ele não o fez. O maxilar dele contraiu-se ainda mais e um sorriso cínico e cortante curvou o canto dos seus lábios.

— Ousada. Muito ousada para quem está com os sapatos atolados na lama e sem um centavo no bolso — rebateu ele com frieza. — Quer ficar? Quer usar o meu teto e comer a minha comida? Excelente. Mas não vai ser como hóspede, muito menos como vítima. Você quer um refúgio? Vai trabalhar por ele.

O ar pareceu sumir dos meus pulmões. O trabalho de babá... era isso o que ele estava propondo?

— O senhor... quer me contratar? — perguntei, surpresa.

— Não cante vitória tão cedo — cortou ele, dando mais um passo em minha direção, invadindo o meu espaço pessoal com uma presença avassaladora que cheirava a cedro, terra molhada e café forte. — Eu vou te dar um emprego como babá de Bento. Mas vai ser sob as minhas regras. E acredite, Míriam, elas são cruéis.

Ele agachou-se na minha altura, ficando perfeitamente alinhado com o meu rosto, a centímetros de distância. Senti o calor do corpo dele e a intensidade magnética daqueles olhos escuros que pareciam querer arrancar a minha alma através da íris.

— Regra número um: você não vai tentar criar laços emocionais profundos com ele. Bento teve perdas demais na vida e não precisa de uma babá de araque que vai sumir na primeira oportunidade. Regra número dois: você vai cuidar dele das sete da manhã às sete da noite, sem pisar fora da ala leste da fazenda sem a minha permissão explícita. Regra número três: você não faz perguntas sobre a minha vida, sobre a minha família ou sobre os motivos pelos quais esta casa é um túmulo. E regra número quatro... — ele fez uma pausa deliberada, o olhar tornando-se perigosamente cortante —, se eu descobrir que você mentiu sobre quem é, ou se houver qualquer sinal de que trouxe os seus problemas para dentro da minha propriedade, eu mesma te jogo de volta na estrada de terra, sem olhar para trás. Estamos entendidos?

Ouvir aquilo foi como receber um banho de água fria misturada com ácido. Ele estava me oferecendo um teto, mas exigindo a minha alma em troca. No entanto, o que mais eu podia fazer? Naquele momento, a Fazenda Alvorada era o único lugar no planeta onde os assassinos do meu pai não me encontrariam facilmente. Eu precisava daquele escudo, nem que para isso tivesse que me curvar diante do diabo em pessoa.

Engoli a seco, mantendo o queixo erguido.

— Entendidos — respondi, com a voz firme. — Aceito as regras.

Vicente levantou-se com uma agilidade felina, estendendo a mão para Bento, que recusou o gesto e continuou agarrado à minha saia. Vicente fechou os olhos por um segundo, respirando fundo para controlar a frustração, antes de virar-se e caminhar em direção ao seu escritório no final do corredor.

— Venha atrás de mim. Vamos assinar o contrato agora mesmo. E traga o garoto.

Fui atrás dele, sentindo o peso de cada passo no assoalho de madeira envernizada. O escritório de Vicente era o reflexo exato da sua personalidade: escuro, imponente, dominado por estantes lotadas de livros de direito e agronegócio, uma lareira apagada de pedra bruta e uma imensa mesa de mogno escuro que parecia um altar de julgamento.

Ele sentou-se na cadeira de couro giratória, abriu uma gaveta trancada e de lá retirou um documento de várias páginas, timbrado com o brasão da fazenda. Pegou uma caneta tinteiro pesada e a estendeu para mim sobre a mesa, enquanto Bento sentava-se silenciosamente em um tapete persa no canto da sala, distraído novamente com seu cavalo de madeira.

— Leia as cláusulas miúdas se quiser, mas o resumo é o que acabei de ditar — falou Vicente, com a voz entediada, batendo os dedos longos contra a madeira polida. — Assine na última página. O seu quarto fica no piso superior, ao lado do de Bento. Suas funções começam imediatamente.

Aproximei-me da mesa imensa. Senti o estômago revirar-se de ansiedade. Peguei a caneta entre os dedos trêmulos. A ponta metálica raspou contra o papel grosso. Eu precisava assinar o nome falso. Precisava consolidar a mentira que me manteria viva.

Inclinei-me sobre a mesa, concentrando-me para desenhar as letras da assinatura inventada: Míriam S. Silva.

No exato segundo em que terminei de traçar a última letra e afastei a caneta do papel, antes que eu pudesse levantar a cabeça, uma mão quente e pesada disparou como um bote certeiro sobre a mesa.

Os dedos longos e firmes de Vicente fecharam-se com uma força implacável ao redor do meu pulso direito, travando qualquer movimento meu. O choque do toque dele enviou uma descarga elétrica indesejada por todo o meu braço, fazendo-me soltar um pequeno suspiro de surpresa.

Ergui os olhos rapidamente, encontrando o rosto de Vicente a poucos centímetros do meu. A expressão dele não era mais de tédio ou raiva; era de pura caçada. Seus olhos escuros escaneavam a minha pele com uma precisão cirúrgica, fixados nas minhas mãos.

O aperto em meu pulso era firme, controlador, quase possessivo. Ele girou levemente o meu braço, expondo a palma da minha mão e os meus dedos sob a luz difusa do abajur de mesa.

Fiquei petrificada, com o sangue zumbindo nos ouvidos. Esquecera completamente de um detalhe fundamental: as mãos de uma verdadeira garota do interior, acostumada a trabalhos braçados ou à rudeza da vida simples, deveriam ser calejadas, ásperas, marcadas pelo sol e pelo esforço físico.

As minhas mãos, por outro lado, eram finas, de pele clara e macia, com unhas perfeitamente cuidadas e sem uma única cicatriz de trabalho pesado. Eram as mãos de uma herdeira bilionária que jamais lavara um prato na vida até duas semanas atrás.

Vicente inclinou a cabeça, estudando cada centímetro da minha pele com um desdén cortante, enquanto o silêncio pesado voltava a reinar no escritório. A voz dele saiu baixa, rouca e perigosamente próxima, raspando na minha alma:

— Assinatura firme demais para quem diz ter vivido de favores... — murmurou ele, apertando um pouco mais o meu pulso, como se quisesse esmagar as minhas mentiras ali mesmo. Seus olhos negros faiscaram com uma certeza implacável quando ele ergueu o rosto para cravar o olhar no fundo da minha alma. — Essas não são mãos de quem trabalha pesado, Míriam. Quem é você de verdade?

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