Se connecterCapítulo 4
Narrativa do Autor O dia seguinte à coroação amanheceu diferente. Talvez porque, pela primeira vez em muitos anos, os morros tinham novos nomes no comando. JN era oficialmente o dono do Vidigal. MK ocupava a posição de sub-dono ao lado dele. E Alexandre, que agora carregava o vulgo de AG, assumia seu lugar na Rocinha. Mas enquanto os filhos começavam a entender o peso das novas responsabilidades, os antigos donos se preparavam para partir. A viagem para a África estava marcada para aquela manhã. Seriam seis meses longe do Brasil. Seis meses de descanso. Seis meses para respirar depois de tantos anos vivendo sob pressão. E, principalmente, seis meses para deixar os filhos caminharem com as próprias pernas. Na casa de JN, Noemi terminava de fechar a última mala. — Acho que colocamos coisa demais — comentou, olhando para as duas malas abertas sobre a cama. Ruivo apareceu carregando outra. — Você fala isso depois de colocar metade do guarda-roupa dentro da mala. Noemi riu. — Nós vamos ficar seis meses na África. Preciso de roupas. — Você precisa de espaço para comprar roupas novas. Ela olhou para ele. — Também. Ruivo soltou uma gargalhada. Aquela leveza era diferente. Depois de tantos anos, eles finalmente podiam viajar sem precisar pensar em reuniões, problemas, decisões e responsabilidades. Noemi fechou a mala e ficou alguns segundos parada. — Você acha que ele está preparado? Ruivo sabia exatamente de quem ela falava. — JN? Ela assentiu. — Acho. — Mesmo? — Noemi, nosso filho foi criado vendo tudo o que fizemos. Ele conhece o Vidigal melhor do que muita gente que está lá há décadas. Ela respirou fundo. — Mas ser filho é uma coisa. Ser dono é outra. Ruivo se aproximou. — Ele vai aprender. Noemi abaixou os olhos. — E se precisar da gente? — Ele sabe onde estamos. Ela sorriu. — Seis meses passam rápido. — Muito rápido. Antes de sair, Noemi foi até o quarto de JN. Encontrou o filho sentado na beirada da cama, mexendo no celular. — Mãe. Ele levantou. Noemi abriu os braços. JN a abraçou. — Já está tudo pronto? — Quase. Ela passou a mão pelo rosto dele. — Cuida de você. — Pode deixar. — E cuida do Vidigal. JN sorriu. — Pode deixar também. Noemi ficou olhando para o filho. — Não precisa provar nada para ninguém. Ele franziu a testa. — Como assim? — Você recebeu uma coroa ontem. Não precisa acordar hoje achando que precisa mostrar que é mais forte que todo mundo. JN ficou em silêncio. — Liderança não é gritar mais alto — ela continuou. — É saber quando falar e quando ficar calado. Ele assentiu. — Eu vou lembrar. Noemi beijou a testa dele. — Eu sei que vai. Na casa de MK, a despedida também acontecia. Bárbara conferia os documentos enquanto Miúdo observava o filho. — Então é isso — MK comentou. — Isso o quê? — Miúdo perguntou. — Vocês realmente vão embora. Bárbara levantou os olhos. — Nós voltaremos. — Eu sei. — Então não faça essa cara. MK sorriu. — Estou apenas acostumado a ter vocês por perto. Miúdo aproximou-se. — Agora você vai ter que se acostumar com outra coisa. — O quê? — Ser responsável pelas próprias decisões. MK riu. — Vocês adoram falar isso. — Porque é verdade. Bárbara abraçou o filho. — Não deixe o poder mudar quem você é. MK apertou a mãe. — Não vou. — E não se esqueça do JN. — Jamais. Miúdo colocou a mão no ombro do filho. — Vocês dois cresceram juntos. Continuem assim. MK assentiu. — Vamos continuar. Hinara estava ali abraçada com miúdo enquanto ele fazia carinho em sua cabeça. Ela havia acordado cedo para se despedir dos pais. Depois ela abraçou Bárbara. — Seis meses é muito tempo. — Vai passar rápido. — Promete ligar? — Todos os dias, se você quiser. — Aproveitem bastante. Miúdo abriu os braços. Abraçando Bárbara e a filha ao mesmo tempo. Eu vou cuidar da sua mãe Os três riram. Na Rocinha, a despedida de Mago e Débora era mais silenciosa. AG estava diante dos pais. Mago observava o filho. — Está tudo certo? — Está. — Alguma dúvida? — Nenhuma. Débora se aproximou e segurou o rosto do filho. — Você sabe que pode ligar para mim a qualquer hora. — Eu sei, mãe. — Mesmo de madrugada. AG sorriu. — Eu sei. Ela o abraçou. Mago observava os dois. Quando Débora se afastou, ele estendeu a mão para o filho. AG segurou. Mas o aperto de mão logo virou um abraço. — Cuide da Rocinha — disse Mago. — Vou cuidar. — E cuide de você. AG assentiu. — Aproveitem a viagem. Mago sorriu. — Nós vamos. Poucas horas depois, os três casais chegaram ao aeroporto. Era estranho vê-los ali. Durante tantos anos, estavam acostumados a vê-los entrando e saindo de reuniões, circulando pelas comunidades e tomando decisões. Agora carregavam malas. Documentos. Passaportes. E uma vontade enorme de simplesmente descansar. JN, MK e AG acompanharam os pais até a área de embarque. Os três jovens estavam lado a lado. Noemi foi a primeira a abraçar JN. — Eu amo você. — Eu também te amo. — Não faça sua mãe se preocupar. JN riu. — Vou tentar. — Não tente. Faça. Ela apontou para ele. — Você puxou isso do seu pai. Ruivo ouviu e riu. — Eu ouvi. — Era para ouvir mesmo. Bárbara abraçou MK. — Se cuida. — Você também. Miúdo abraçou o filho por último. — Agora é sua vez. MK assentiu. — Eu sei. Débora abraçou AG por longos segundos. — Meu menino. AG fechou os olhos. Mesmo sendo um homem enorme, diante da mãe ainda parecia aquele garoto que corria pela casa. — Eu te amo, mãe. — Eu também. Mago aproximou-se. — Filho. Os dois se abraçaram. — Orgulho de você — disse Mago. AG respirou fundo. — Obrigado por tudo. O aviso do embarque ecoou pelo aeroporto. Era hora. Os seis pais caminharam em direção ao portão. Noemi olhou para trás uma última vez. JN estava ali. Ao lado dele, MK e AG. Três homens. Três herdeiros. A nova geração. Ela segurou a mão de Ruivo. — Vamos? Ele olhou para os filhos. — Vamos. E os seis desapareceram pelo corredor. JN permaneceu parado por alguns segundos. — É estranho — comentou. MK olhou para ele. — O quê? — Ontem eles estavam aqui. AG cruzou os braços. — Hoje estamos nós. Os três ficaram em silêncio. Pela primeira vez, não havia pai para consultar. Não havia mãe para pedir conselho imediatamente. Não havia alguém mais velho para assumir a responsabilidade por eles. A herança havia sido entregue. E agora começava a verdadeira prova. JN olhou para os dois amigos. — Vamos voltar? MK assentiu. AG abriu um sorriso. — A nova geração tem trabalho. Os três seguiram juntos. Do outro lado do oceano, seus pais começavam uma viagem que deveria durar seis meses. No Brasil, os filhos começavam a própria história. E ninguém ainda sabia o quanto aqueles seis meses seriam capazes de mudar tudo.Capítulo 64 – A guerra dos veteranosNARRADORDuas semanas no navio em lua de mel.Os patrões não estão atentos aos perigos que o Vidigal e a Rocinha estão correndo.Inimigos estão sabendo que os chefes estão fora.Mas esqueceram que os veteranos estão espertos.Ruivo chama Miúdo para uma conversa e diz:— Vamos ficar ligados, porque soube por fonte certa que nosso território está sendo ameaçado por inimigos e rivais.Quando Maestro entra na sala do QG, percebe o clima de tensão que ali se encontra e logo pergunta:— Está acontecendo alguma coisa?— Sim, está — respondeu Ruivo. — Estão tentando invadir nosso território enquanto os novos donos estão em lua de mel. Mas estão esquecendo de uma coisa: antes deles, nós é que sentávamos nessa cadeira. E não vamos deixar os alemão invadir e tomar nosso território.Maestro deu um sorriso de lado, esticou a mão, botou em cima da mesa espalmada e disse uma frase:— Como nos velhos tempos.— Ninguém vai tomar nosso território! — falou Miúdo, que
Capítulo 63 – A notícia a bordoNARRADOROs casais já estavam chegando em Balneário Camboriú, prontos para desembarcar e comparecer ao parque.Todos eles tinham ingresso exclusivo.Mas eles estavam preocupados com a Jaqueline.Logo chegou o telefonema de Jardel, dizendo que ela estava bem.Passou a noite em observação no hospital, mas está bem.Alice mandou uma mensagem para Jéssica, contando a novidade.E quando Jéssica falou para todos os amigos, houve muitos aplausos e gritos.Inara ficou muito feliz com a notícia.Abraçou MK e falou:— Daqui a pouco somos nós comemorando o nosso filho ainda na barriga.MK olhou para ela com os olhos meio assustados e disse:— Você também está grávida, meu amor?— Não, que é isso, só estou brincando, fazendo um comentário — respondeu Inara.Jéssica, abraçada com JN, falou:— Não vejo a hora de estar grávida também. Essa notícia está sendo contagiosa. Mas vamos esperar pela vontade de Deus. O nosso tempo vai chegar.Eu entrei no salão do navio e com
Capítulo 62Narrativa do AutorJaqueline, quando chegou ao hotel, se jogou na cama, dizendo que estava passando mal. Jardel ficou muito preocupado e mandou que ela se arrumasse, que ele iria levá-la a uma clínica para ver o que ela tinha — ela tinha vomitado o tempo todo no navio. Jardel pegou Jaqueline e levou para o banheiro, deu um banho nela, tentou dar algo para ela comer, mas ela não quis. Ele ligou para Alice, mãe de Jaqueline, e disse:— Sua filha não está bem, está passando mal o tempo todo. Não sei o que fazer, estou levando ela agora na clínica. Ela está perdendo líquido e não está repondo.Alice ficou preocupada.— É melhor que vocês voltem. Vocês saíram do navio? — perguntou Alice.— Sim, ficamos em São Paulo. Vou levar ela na clínica, depois falamos — respondeu Jardel.Quando Jaqueline saiu do banheiro, já arrumada com um vestido levinho, o cabelo penteado mais ou menos e um batom fraquinho nos lábios, ele disse:— Vamos logo, senão desisto.Quando ela chegou à porta, su
Capítulo 61 Narrativa do AutorChega a hora do casamento. Os noivos já estão no altar, alinhados lado a lado com os padrinhos. O salão de festas em Búzios está lotado, a decoração brilha sob as luzes quentes: quatro estilos diferentes se misturando em harmonia, porque as irmãs decoradoras tiveram que atender quatro noivas com gostos distintos e, no final, conseguiram. Flores brancas, verdes, toques de dourado e azul-marinho. Tudo impecável. Enquanto isso, na casa onde as noivas se arrumam, o nervosismo é outro. Jéssica é a mais calma, como sempre foi. Ajuda a amarrar um laço aqui, ajeita um véu ali, segura o buquê de uma enquanto a outra coloca o brinco. Mas por baixo daquela tranquilidade aparente, ela está uma pilha porque Jaqueline desde a manhã descobriu que está grávida. O teste positivo ainda estava escondido na bolsa quando Jaqueline pediu, em voz baixa, para um motorista de confiança ir correndo até a cidade. — Compra uma caixinha branca. Pequena. Com fita vermelha. E
Capítulo 60Narrativa do Autor A preparação Chega o dia 18 de novembro, o grande dia do casamento das gêmeas Jaqueline e Jéssica, de Hinara e de Beatriz. MK resolveu casar também no mesmo dia, e a decisão pegou todos de surpresa — mas ninguém reclamou. Pelo contrário: quanto mais gente feliz, melhor. O Vidigal inteiro comentava sobre o casamento coletivo, e a expectativa crescia a cada dia que passava.As patroas viajaram no dia 15 de novembro para Búzios, levando as caixas dos vestidos de noiva e algumas coisas que faltaram para enfeitar o enorme salão. A casa de praia virou um verdadeiro quartel-general: caixas empilhadas, tecidos espalhados, flores sendo escolhidas, convites sendo conferidos. Eu também fui para ver tudo de perto, monitorando cada detalhe. Elas vão saber que vai dar tudo certo — eu não ia deixar nada ao acaso.Os dias estavam se passando e as mulheres ficando muito nervosas. Beatriz custou a se enturmar com as meninas, porque só conhecia Jéssica e Hinara. Ela fica
Capítulo 59Narrativa do AutorJá passava das dez da noite quando os patrões chegaram ao Vidigal. As patroas estavam cansadas e ainda sentindo o efeito da bebida que beberam em Búzios, mas estavam felizes porque tinham fechado a festa do casamento das futuras patroas do Vidigal e do Rocinha. Agora faltava o principal: a compra do enxoval. Elas estavam todas empenhadas em fazer a compra, e cada uma foi para a sua casa. Claro que o Maestro botou as duas filhas na sua frente e botou dentro de casa, dizendo:— Hoje ninguém mais sai.Despediu-se do Jardel e de JN.Na segunda-feira, o dia amanheceu cinzento, parecendo que ia chover. Noemi amanheceu meio triste, abatida — nem ela entendeu o porquê. Já as meninas levantaram eufóricas, uma ligando para outra. Jéssica ligou para Hinara, marcando todas elas no shopping para começar a compra do enxoval. Jaqueline falou com seu pai, o Maestro, dizendo:— Papai, nós vamos para o shopping: eu, Jéssica, a mamãe e a Hinara.Alice sentiu um aperto no p







