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O Limite da Tentação

Author: Iris Marquesa
last update publish date: 2026-09-20 15:36:16

Os seus olhos cinzentos, afiados como lâminas de gelo, percorreram o meu corpo da cabeça aos pés sem qualquer pudor. O pijama de seda que a Beatriz tinha me emprestado, embora largo, colava no meu corpo por causa da umidade do banho e marcava cada curva da minha silhueta contra a luz branca e brilhante da geladeira aberta. Senti o meu rosto arder de vergonha instantaneamente. Tentei cruzar os braços sobre o peito para me cobrir, mas a presença dele congelava todos os meus movimentos.

— Pensei que estivesse dormindo — disse ele. A sua voz era mais grave, rouca e baixa do que mais cedo, num tom profundo que pareceu vibrar diretamente no fundo do meu estômago.

— Me... desculpe, Sr. Vance — gaguejei, colocando o copo de suco sobre a bancada com as mãos trêmulas. — Eu não queria incomodar nem invadir a sua casa a esta hora. Eu só... estava com muita fome e não consegui pregar o olho.

Arthur não respondeu de imediato. Em vez disso, deu um passo lento para dentro da cozinha. Cada movimento dele era calculado, silencioso e perigoso, exatamente como o de um predador cercando uma presa indefesa no escuro. O perfume amadeirado dele, misturado ao leve aroma de uísque e ao cheiro natural da sua pele, preencheu o ar entre nós, tornando o ambiente subitamente sufocante.

Ele parou a menos de meio metro de mim. A altura e a largura dos seus ombros eram intimidadoras. Tive de inclinar a cabeça para trás para conseguir encará-lo nos olhos.

— Você não precisa pedir desculpas por comer na minha casa, Clara — disse ele, pronunciando o meu nome devagar, quase saboreando cada letra. — Se a minha filha a trouxe para cá, você é minha hóspede.

— Mesmo assim... eu quebrei a sua regra — murmurei, lembrando-me com clareza da postura distante e fria que ele adotara no hall de entrada. — O senhor disse que não queria distrações nem interrupções na sua rotina.

Um sorriso quase imperceptível, frio e misterioso, surgiu no canto dos lábios bem desenhados de Arthur. Ele deu mais um passo à frente, diminuindo a distância até que o calor que emanava do seu corpo me envolvesse por completo.

— E você acha que é uma distração para mim, Clara? — perguntou ele, inclinando ligeiramente a cabeça. Os olhos cinzentos fixaram-se nos meus lábios por uma fração de segundo antes de voltarem para os meus olhos, agora muito mais escuros.

Engoli em seco, sentindo o meu peito subir e descer rapidamente. A proximidade dele fazia todos os meus alarmes de perigo soarem. Eu sabia que devia recuar, recusar aquele olhar e subir correndo para a segurança do meu quarto. Ele era o pai da minha melhor amiga. Era um homem respeitado, poderoso e implacável, totalmente fora do meu universo. Mas as minhas pernas pareciam cimentadas ao chão de granito.

— Eu... eu não sei — respondi, com a voz falhando num fio de sussurro. — Eu só não quero causar problemas. Já tenho problemas demais destruindo a minha vida.

O olhar de Arthur mudou drasticamente. A frieza profissional deu lugar a uma intensidade crua, algo sombrio e possessivo. Ele ergueu a mão direita devagar. Eu prendi a respiração, esperando o pior, mas os seus dedos longos, quentes e calejados tocaram a curva do meu queixo, erguendo a minha cabeça com uma firmeza inquestionável.

O toque da pele dele na minha foi como uma faísca caindo em gasolina. Um arrepio violento e elétrico percorreu toda a minha espinha, fazendo cada pelo do meu corpo se arrepiar.

— O seu ex-namorado é um imbecil — declarou Arthur, com a voz baixa, rasgada e cheia de uma autoridade que fez o meu coração disparar contra as costelas. — Um homem que j**a uma mulher como você na rua, no meio de uma tempestade, não passa de um fraco. Um moleque mimado que nunca soube o valor do tesouro que tinha nas mãos.

As palavras dele caíram sobre a minha alma ferida como um tônico poderoso. Ninguém jamais tinha me defendido com tanto poder e convicção.

— O senhor... o senhor não me conhece — murmurei, sentindo o meu corpo estremecer sob a pressão do seu olhar.

— Conheço o suficiente — rebateu ele, e os seus dedos deslizaram suavemente do meu queixo para a minha bochecha, desenhando o contorno do meu rosto com uma delicadeza que contrastava terrivelmente com a sua figura intimidadora. — Conheço o suficiente para ver que você está destruída por dentro. E conheço o suficiente para saber que você não deveria estar me olhando desse jeito nesta cozinha.

— Que... que jeito? — perguntei, incapaz de desviar os olhos do seu rosto perfeito e maduro.

— Como se estivesse desesperada para ser salva nos meus braços — sussurrou ele, aproximando o rosto do meu até que a sua respiração quente roçasse na minha bochecha.

O mundo ao redor simplesmente desapareceu. Não havia mais dor pela traição do Marcos, não havia mais medo do futuro, não havia mais tempestade lá fora. Havia apenas a presença esmagadora de Arthur Vance e a chama proibida que começava a queimar sem controlo entre nós. Ele estava tão perto que os seus lábios quase tocavam os meus. A tentação de fechar os olhos e me entregar àquele homem era um abismo tentador.

Mas, bem no segundo em que ele inclinou a cabeça para diminuir o último milímetro de distância entre nós, o som de passos sonolentos ecoou no corredor, vindo na direção da cozinha.

— Pai? Clara? Tem alguém aí embaixo? — era a voz da Beatriz, aproximando-se.

O encanto quebrou-se com a força de um espelho caindo no chão.

Arthur afastou a mão do meu rosto num movimento rápido e milimetricamente calculado, dando dois passos para trás antes mesmo que a sombra da filha aparecesse na porta. A sua expressão voltou a ser a máscara de gelo inabalável de sempre, embora o seu peito subisse e descesse num ritmo ligeiramente mais acelerado do que o normal.

Eu recuei cambaleando até bater as costas contra a bancada, com a mão no peito, tentando desesperadamente controlar a respiração e disfarçar o pânico.

A Beatriz entrou na cozinha, usando um pijama cor-de-rosa e coçando os olhos sonolentos.

— Ah, vocês estão aqui — disse ela, olhando de mim para o pai com ingenuidade. — Ouvi barulho e pensei que fosse algum bicho. O que está acontecendo?

Arthur olhou para a filha com uma calma assustadora, ajustando a dobra da manga da sua camisa como se nada tivesse acontecido.

— A sua amiga estava com fome, Beatriz. Eu apenas vim buscar um copo d'água — disse ele, com a voz perfeitamente domada, sem trair uma única emoção. — Já estava de saída. Não fiquem acordadas até tarde.

Ele caminhou em direção à porta sem esperar por uma resposta. Porém, antes de cruzar o portal e sumir no corredor escuro, Arthur parou por uma fração de segundo e olhou para mim por cima do ombro. Os seus olhos cinzentos encontraram os meus na penumbra, deixando uma promessa clara, silenciosa e perigosa no ar: Isso está muito longe de terminar.

Assim que os passos dele se distanciaram, soltei todo o ar que prendia, sentindo as minhas pernas fraquejarem tanto que precisei me segurar na bancada para não desmaiar.

— O meu pai te assustou, Clara? — perguntou a Beatriz, pegando uma maçã na fruteira. — Ele tem essa mania de andar pela casa de noite parecendo um fantasma. Ele não te tratou mal, tratou?

Olhei para a minha amiga — a garota que tinha me tirado da rua e me dado um teto —, e uma onda avassaladora de culpa rasgou o meu peito.

— Não, Bia... — menti, com a voz trêmula, sentindo a minha pele ainda formigar onde os dedos do pai dela tinham tocado. — Ele não disse nada demais. Ele só... me mandou tomar cuidado.

Mas, no fundo da minha alma, eu sabia que o perigo real não estava na noite ou no meu ex-namorado. O perigo real dormia no quarto principal daquela mansão, vestia ternos sob medida e me olhava como se eu já fosse a sua maior obsessão. E o pior de tudo: uma parte secreta e sombria de mim mal podia esperar pelo nosso próximo encontro a sós.

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