เข้าสู่ระบบA água quente do chuveiro caindo sobre as minhas costas parecia lavar, aos poucos, a poeira e a humilhação das últimas horas. Encostei a testa no azulejo frio do banheiro, deixando que o vapor me envolvesse. Por mais que a água aquecesse o meu corpo, a minha alma continuava congelada.
As palavras do Marcos ainda ecoavam na minha mente como marteladas. Você nunca passou de uma garota morta de fome. Não tem nada, não é nada. Fechei os olhos com força, engolindo o nó doloroso que insistia em subir pela minha garganta. Eu passei três anos da minha vida me dedicando a um homem que, no primeiro obstáculo, me descartou como se eu fosse lixo. Cozinhei para ele, limpei a casa dele, anulei os meus próprios sonhos para apoiar a carreira dele... e o resultado foi ser jogada na rua debaixo de uma tempestade. Desliguei o chuveiro e me enxuguei devagar. A Beatriz tinha deixado um pijama de seda verde-escuro sobre a bancada do banheiro. Ficou um pouco largo no meu corpo, mas era a coisa mais macia e confortável que eu já tinha vestido na vida. Sequei o cabelo com a toalha, deixando-o ondular naturalmente pelas minhas costas, e finalmente criei coragem para sair do banheiro. O quarto de hóspedes era gigantesco, maior do que todo o antigo apartamento onde eu morava com o Marcos. A cama de casal parecia um nuvem no centro do cômodo, decorada com lençóis de fios egípcios e travesseiros macios. Mas, apesar de todo aquele luxo, eu me sentia um peixe fora d'água. Aquilo não era meu. Eu era apenas um ato de caridade da minha amiga. Caminhei até a janela alta que dava para os fundos da propriedade. A chuva tinha diminuído para uma garoa fina, mas o vento continuava forte, fazendo as copas das árvores balançarem lá fora. No fundo do jardim, pude ver a luz acesa de uma estrutura menor, uma espécie de estufa ou casa de apoio. No entanto, o que realmente chamou a minha atenção foi uma sombra projetada na janela do andar térreo da mansão. Era ele. Arthur Vance. Ele estava de pé no seu escritório, com o copo de uísque na mão, olhando para o nada. Mesmo de longe e através do vidro, a figura dele emanava um isolamento pesado. Ele parecia um rei num castelo de ouro, porém completamente sozinho. Senti um arrepio percorrer a minha espinha ao lembrar do momento em que os dedos dele roçaram no meu pescoço. Não tinha sido um toque mal-intencionado, mas a energia que passou entre nós foi tão intensa que ainda fazia o meu coração acelerar só de recordar. Ele era o pai da minha melhor amiga. Um homem de quarenta e cinco anos, implacável, perigoso e totalmente fora do meu alcance. Eu precisava tirar aqueles pensamentos da cabeça imediatamente. O meu estômago roncou alto, quebrando o silêncio do quarto. Lembrei-me de que não comia nada desde o almoço do dia anterior. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira: passava das duas da manhã. A casa inteira devia estar dormindo. Geralmente, eu teria vergonha de vagar pela casa de estranhos no meio da madrugada, mas a fome e a fraqueza estavam falando mais alto. Abri a porta do quarto com cuidado, tentando não fazer barulho. O corredor do segundo andar estava mergulhado numa penumbra suave, iluminado apenas por pequenas luzes de emergência no rodapé. Desci as escadas de mármore na ponta dos pés, descalça. A sensação do chão frio sob os meus pés me mantinha alerta. Cruzei o hall imponente e segui pelas portas duplas que levavam à cozinha comercial da mansão. A cozinha era impecável. Bancadas de granito escuro, eletrodomésticos de aço inoxidável e uma organização militar. Abri a geladeira enorme de duas portas, sendo recebida por uma luz branca e brilhante. Procurei por algo simples, que não desse trabalho ou fizesse sujeira. Encontrei uma jarra de suco natural de laranja e um prato com sanduíches naturais embalados. Peguei um copo no armário, me encostei na bancada central e tomei um gole do suco. A sensação do líquido gelado descendo pela minha garganta foi um alívio imediato. Dera o primeiro pedaço do sanduíche quando, de repente, ouvi um barulho vindo do corredor. O som de passos lentos e pesados. O meu corpo congelou no mesmo instante. O meu coração deu um pulo no peito e a minha respiração travou. Pensei em me esconder ou apagar a luz da geladeira, mas já era tarde demais. A figura alta e imponente de Arthur Vance apareceu sob o portal da cozinha. Ele não vestia mais o terno formal do início da noite. Estava sem paletó, sem gravata e com as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes, levemente bronzeados e marcados por veias sobressalentes. Os primeiros botões da camisa continuavam abertos, mostrando o início do seu peito largo. O cabelo levemente grisalho estava desarrumado, como se ele tivesse passado as mãos por ele repetidas vezes por conta por conta do estresse. Ele parou assim que me viu…O majestoso edifício da Bolsa de Valores de Londres brilhava sob as luzes da noite chuvosa. Executivos de alto padrão, banqueiros internacionais e correspondentes da imprensa econômica de toda a Europa lotavam o auditório privativo do leilão das patentes de tecnologia da antiga Aegis Corp.A atmosfera no ambiente era de pura eletricidade corporativa, mas quando o nosso grupo cruzou as portas de vidro do salão principal, os sussurros cessaram quase que instantaneamente.Entramos formando um triunvirato impecável e intimidador. Arthur caminhava no centro, trajando um terno azul-noite feito sob medida por alfaiates savile row, exalando uma aura de autoridade dominadora e perigosa. Eu estava à sua direita, usando um vestido de alfaiataria preto com detalhes em renda e joias discretas de diamantes, segurando sob o braço a pasta de couro que continha o nosso golpe fatal. Beatriz vinha à sua esquerda, mantendo a cabeça erguida e a postura ereta, apesar do pavor mudo que transparecia no seu o
O céu de Londres nos recebeu com uma chuva fina e uma névoa cinzenta que parecia abraçar os monumentos históricos da cidade. O desembarque na pista privada do aeroporto de Heathrow foi executado com escolta armada de alto nível organizada por Ramos.Três sedãs pretos blindados nos aguardavam para o trajeto até o prestigiado hotel Savoy, às margens do rio Tâmisa.No banco de trás do primeiro veículo, a tensão entre nós três era palpável. Arthur mantinha sua mão firme sobre a minha coxa, os olhos fixos na paisagem fria lá fora. Ao nosso lado, Beatriz olhava obsessivamente para a tela do celular, extremamente pálida e quieta.— O que foi, Beatriz? — perguntou Arthur, a voz cortante quebrando o silêncio do carro. — Você não falou uma palavra desde que saímos do avião.Beatriz deu um salto no banco, sobressaltada, guardando o telefone no bolso do casaco rapidamente.— Nada, pai... — gaguejou ela, sem conseguir sustentar o olhar do CEO. — Só estou nervosa com o leilão e com a mamãe.Arthur
O jato executivo da Vance Enterprises cortava a escuridão sobre o Atlântico Norte a dez mil metros de altitude. Na cabine principal, o zumbido suave dos motores era o único som que quebrava o silêncio denso.Arthur estava de pé junto à mesa de reuniões, sem o paletó, com os punhos da camisa social dobrados até os cotovelos. Ele encarava o mapa das Ilhas Virgens no tablet, a mandíbula trincada e os olhos cinzentos faiscando com a promessa de uma guerra sem tréguas em Londres. A proximidade do confronto com Helena despertava nele um lado ainda mais sombrio e dominador.Caminhei devagar pelo corredor, o tecido do meu robe de seda preta roçando na pele. O cansaço da batalha em Santos ainda pesava nos meus ombros, mas a presença daquele homem agia como um ímã incontrolável sobre mim.— Você não conseguiu dormir — disse baixinho, me aproximando pelas costas dele e envolvendo sua cintura larga com meus braços.Arthur estancou. O calor do corpo dele transbordava pelo tecido fino da camisa. El
Na manhã seguinte, a atmosfera no interior da mansão Vance havia se transformado completamente. O ar carregado de desconfiança e mágoa dos últimos dias deu lugar a uma cumplicidade renovada e inabalável. A reconciliação entre Clara e Beatriz redefiniu o equilíbrio de forças da casa, devolvendo a esperança ao coração do império.Quando Clara e Beatriz desceram juntas a grande escadaria de mármore para o salão de jantar, vestindo trajes elegantes de alfaiataria em tons sóbrios, o som dos saltos altos ressoou em perfeita sintonia. Arthur já as aguardava na cabeceira da mesa de jacarandá, cercado por tablets, dossiês e relatórios impressos do mercado financeiro internacional.Os olhos cinzentos do CEO se ergueram das telas e passaram de Clara para a filha. O olhar atento e analítico do homem de negócios notou instantaneamente a mudança drástica no semblante das duas. A postura defensiva e os olhos marejados de Beatriz tinham sido substituídos por um olhar firme e focado. O canto dos lábio
A sombra da revelação de Helena Vance ainda pairava sobre a diretoria, mas o ambiente na suíte master da mansão, naquela noite, era de um silêncio diferente. Não a tensão da guerra corporativa, mas a necessidade de curar as feridas internas da família antes do embarque para a Europa.Arthur estava no escritório do térreo em uma conferência de emergência com os advogados de Londres. Aproveitei o momento para ir até o antigo quarto de hóspedes no ala leste da casa — o mesmo cômodo onde Beatriz me instalou quando tudo começou, quando eu era apenas uma jovem tentando recomeçar a vida e ela me ofereceu um teto e sua amizade incondicional.Bati suavemente na porta do quarto de Beatriz.— Pode entrar — a voz dela saiu abafada do outro lado.Abri a porta devagar. Beatriz estava sentada no chão, encostada no pé da cama, cercada por porta-retratos antigos da infância. Ela segurava uma foto emoldurada em prata onde aparecia ainda criança, ao lado de Gabriel e de uma mulher loira de sorriso calcu
A calmaria que se seguiu à queda da Aegis Corp e à ascensão oficial de Clara como Diretora-Executiva de Operações Especiais trouxe um novo fôlego ao quadragésimo andar. Mas no topo do mundo corporativo, o silêncio raramente significava paz — era apenas o intervalo entre duas tempestades.A luz matutina entrava pelas amplas janelas de vidro da suíte master da mansão Vance. Clara terminava de ajustar o colar de pérolas negras que Arthur lhe deu de presente na noite anterior, observando o reflexo de seu vestido de alfaiataria azul-marinho.Arthur aproximou-se por trás, abotoando os punhos de sua camisa sob medida. As mãos quentes do CEO envolveram os quadris de Clara, puxando-a contra o seu peito largo. O perfume amadeirado de Arthur e o calor de seu corpo desfizeram instantaneamente qualquer vestígio de tensão matinal.— Você está deslumbrante, minha diretora — sussurrou Arthur contra a curva do pescoço de Clara, desferindo um beijo lento e profundo que fez a respiração dela travar por







