LOGIN~~ Giovanne ~~Mais uma semana transcorreu sob a calmaria aparente de São Paulo. A nossa cobertura havia se tornado um refúgio seguro, blindado dos problemas corporativos de Boston. A presença de Valentina e Edward foi um bálsamo para nós três; risos voltaram a ecoar na sala, dona Maria Helena recuperou o brilho nos olhos ao mimar a filha, e Jade, já sorria, parecendo ter encontrado um motivo para seguir.Aproveitando a presença da amiga, Jade transformou a bancada da cozinha em um pequeno posto de comando. As duas debruçavam-se sobre pastas e gráficos com os resultados preliminares da Fase 1 da Phoenix. Os dados de segurança, tolerabilidade e resposta farmacodinâmica dos peptídeos superavam qualquer projeção otimista. A ciência avançava a passos largos.Do outro lado do ambiente, perto da adega envidraçada, eu e Edward observávamos as duas com xícaras de café em mãos.— Você pretende anunciar a gravidez formalmente para o resto do mundo? — Edward perguntou em tom baixo, mantendo a voz
~~ Jade ~~A doutora Cecília abriu o envelope pardo e começou a ler o laudo, enquanto Giovanne e eu segurávamos as mãos um do outro, cheios de expectativa.— O painel metabólico confirmou uma anemia ferropriva moderada, explicada pela baixa ingestão e pelos vômitos recorrentes — ela iniciou, ajeitando os óculos com calma. — Mas o Beta-hCG quantitativo… veio com o valor de trinta e oito mil unidades.Pisquei devagar, assimilando os números antes das palavras.— Trinta e oito mil? — sussurrei.— Parabéns, você está grávida — a médica sorriu, erguendo a folha para nós. — Pela taxa hormonal e o cálculo da amenorreia, são aproximadamente sete semanas de gestação. Seu corpo não está doente, Jade. Ele só está trabalhando no limite para sustentar uma nova vida em meio a tanto estresse.O ar sumiu dos meus pulmões, mas não por angústia. Uma corrente elétrica e quente percorreu minhas veias, desmanchando o nó gélido que habitava meu peito há dias. Olhei de relance para o lado e encontrei Giovan
~~ Jade ~~Giovanne não me deixou dar mais do que três passos em direção à recepção, assumiu o balcão com sua postura de comando, apresentando os documentos e fazendo a minha ficha com agilidade.Ele passou um braço firme ao redor da minha cintura, guiando-me até a sala de espera, mantendo uma expressão rígida no rosto.— Você parece nervoso. O que foi? Está bravo?— Bravo? Claro que não, meu amor… Estou muito preocupado.Quando a médica me chamou, minhas pernas pareciam feitas de chumbo enquanto eu caminhava rumo ao consultório. Meu estômago continuava contraído em um espasmo doloroso, mas, desta vez, era de puro nervosismo.— Senhorita Jade? — A médica de plantão, uma mulher de meia-idade com expressão acolhedora, indicou a maca estofada assim que entramos. — Sou a doutora Cecília. O que a traz aqui hoje?Giovanne se adiantou antes mesmo que eu formulasse uma frase completa:— Minha noiva vem passando por um processo de luto, doutora. Desde então, passou a ter episódios de desmaio,
~~ Jade ~~Duas semanas haviam se passado desde que me despedi do meu irmão. Eu olhava para a minha mãe, sentada no sofá da cobertura com uma expressão serena, entretida com um tricô, e sentia alívio por ver que ela estava sabendo lidar com a dor melhor do que eu.Eu me sentia culpada. Culpada por não tê-lo impedido de pular naquela cachoeira anos atrás, culpada por não ter sido rápida o suficiente com as pesquisas para iniciar o tratamento dele a tempo, e destruída por não ter conseguido cumprir a promessa que fiz de arrancá-lo daquela cama.Quanto mais os dias passavam, mais fraca eu me sentia. A sensação de esgotamento físico e psicológico era terrível: eu mal conseguia comer, passava as noites em claro encarando o teto e vagava pela casa como um corpo desprovido de alma.Valentina e Edward já haviam retornado para Boston a trabalho, e eu sabia que também precisava reagir. Decidi que retomaria as minhas pesquisas nos laboratórios da filial. Faria isso pelo Giovanne, pela minha mãe
~~ Giovanne ~~Os dias que se seguiram ao sepultamento pareceram mergulhados em uma névoa densa e silenciosa. Eu não tive coragem de deixar dona Maria Helena sozinha naquela casa cheia de lembranças dolorosas do filho, nem permitiria que Jade ficasse dormindo em um sofá. Sugeri a Jade que a convidasse para ficar conosco por uns dias na cobertura, assim ela teria um tempo para vivenciar o luto com a filha, e ambas teriam mais conforto. Já havia se passado quase uma semana do ocorrido, era uma manhã de sábado, e como de costume preparei uma bandeja de café com torradas leves, frutas frescas fatiadas, um copo de suco e o comprimido antiemético que eu havia comprado, depois de notar que o remédio cedido pela irmã de Valentina havia amenizado o desconforto gástrico de Jade.Empurrei a porta do nosso quarto com cuidado. As cortinas pesadas bloqueavam a luz, mantendo o ambiente em uma penumbra suave. Jade continuava deitada de lado, encolhida sob o edredom, com os olhos castanhos abertos e
~~ Valentina ~~Bati na porta de madeira da casa de dona Maria Helena com o coração apertado. Ao meu lado, Edward segurava as malas de roupas dos nossos amigos que trouxemos de Boston. Quando a porta se abriu, foi Giovanne quem apareceu. O terno impecável e o olhar imponente de costume tinham dado lugar a uma camisa escura com as mangas dobradas, olhos fundos e um semblante visivelmente abatido pela noite em claro.Nem precisamos trocar palavras formais. Dei um abraço apertado no meu chefe, que me acolheu com um suspiro pesado, antes de seguir direto para o quarto simples no fundo do corredor.Encontrar Jade naquele estado partiu a minha alma. Ela estava encolhida na cama de solteiro, envolta em um cobertor grosso, com os olhos inchados de tanto chorar. Abracei minha amiga com força, deixando que ela desabafasse mais uma rodada de lágrimas silenciosas contra o meu peito. Edward permaneceu encostado no batente, os olhos marejados diante de uma dor que nem todo o dinheiro do mundo poder







